quarta-feira, novembro 16, 2005




Cicatriz esposta ao sol

É uma tradição cearense colocar apelido em tudo. Os ônibus e o transporte coletivo são um dos alvos preferidos dessa forma de humor, pois sem ter a quem recorrer para protestar contra a notória má qualidade do serviço, o povo se vinga dos poderosos e de seus instrumentos com a chacota pública.

Colocando apelidos, o povo imprime no objeto de seu ódio uma condenação à vista de todos. Como antigamente se fazia com os criminosos, identificando o motivo de seus crimes com plaquinhas penduradas. E o humor, é claro, é a água que ajuda a engolir uma pílula amarga.

Um apelido pode grudar como concreto. Ônibus, no Ceará, tem o singelo apelido de cata-corno. Isso não significa que os ônibus cearenses venham de fábrica sem teto, para que os chifres se acomodem à vontade; e nem que todos no Ceará sejam cornos - tem uns dois ou três que escapam, realmente -, mas isso diz muito como somos tratados e como nos sentimos: traídos.

No início do século XX, havia no Ceará um transporte improvisado que consistia num vagão de bonde puxado por um velho motor à gasolina, que deve ter sido usado no 14-bis. Esse motor vivia quebrado, e quando funcionava, impulsionava o bonde à respeitável velocidade de um preá manco. O rangido fanho da estrutura, semelhante ao grasnar de uma pata em trabalho de parto, fez com que o povo o apelidasse sabiamente de pata-choca. E assim ficou.

Por essa época, existia também a linha férrea que ligava várias cidades do interior ao litoral e a Fortaleza, a RVC - Rede Viária Cearense. Mas como há sempre um porém, os vagões estavam sempre em frangalhos e a já idosa locomotiva resfolegava a cada subida mais íngreme. O povo então apelidou a locomotiva da RVC de Rapariga Velha Cansada, com muita justiça.

Pra terminar, um apelido novo, que espero que cole no homenageado como super-bonder. Nosso metrô de Fortaleza, um natimorto cujo parto à fórceps está custando mais de 195 milhões de dólares, jaz hoje abandonado e insepulto num imenso canteiro a céu aberto. Desde 1999, as escavações e desapropriações destruíram o centro da cidade, e o poder público - a quem deveria o tocar da obra; está inoperante e falido.

Em referência ao mentor e patrocinador moral da obra, o povo apelidou o void com o nome do nosso querido senador tucano: o buraco do Tasso. Que assim seja.

2 Comments:

Anonymous Edge said...

e aquela escultura na beira-mar, dois cilindros gigantes em forma de V: o chifre do prefeito. o bairro jose walter: bairro dos cornos. a gente tem uma coisa com corno mesmo:)

5:49 PM  
Blogger Hemeterio said...

Aquela escultura na verdade é um monumento à merda. Ela comemora o ano em que foi construído o interceptador oceânico: um nome pomposo para um enorme tubo que leva nossos dejetos pro oceano.

E nem tão ao oceano assim, aquela praia do IML, de onde parte o tubo, fede!

7:29 PM  

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