sexta-feira, novembro 25, 2005



Fortress, California.

Por que as ruas do centro velho de Bagdá são tão estreitinhas? Por que os apartamentos mais valorizados de São Paulo são justamente os que têm vista para o norte? E o que essas duas assertivas têm em comum? Sei que você deve estar agora numa ansiedade incontrolável, quase aspergindo adrenalina pelas narinas, então, não vou deixá-lo em suspense por mais tempo. A relação entre essas perguntas crucias é o nosso bem e velho Sol.

Cada cidade desenvolve estratégias de sobrevivência de acordo com o local onde está. É mais ou menos como cada ser vivo faz, ao criar ou não carapaças e penas, dentes e garras, espinhos e flores; conforme a evolução e o ambiente demandam. Em geral, as cidades querem se aquecer ou querem se esfriar. As ruas da velha Bagdá são estreitas para que as paredes das construções projetem sombras, e dessa forma, torne o transitar pelas ruas e vielas mais agradável. Veja que naquela época os camelos não vinham com ar-condicionado.

Já São Paulo, pelo contrário, tenta captar a Luz do Sol. Quando possível, os arquitetos voltam as fachadas para o norte na capital paulista pois é de lá que vem a luz do Sol. São Paulo está exatamente no trópico de capricórnio - assim como Londrina, Antofagasta, Windhoek e Alice Springs, por exemplo. O Sol, portanto, já atingiu seu máximo deslocamento para o sul, o que faz com que as fachadas voltadas pera esse ponto cardeal fiquem para sempre na sombra. Que o digam os edredons mofados, guardados num ap sem sol.

Fortaleza e seus habitantes também desenvolveram estratégias de sobrevivência que moldaram sua geografia e seu caráter. Alguns poderiam ver essas características como meras manias de velhos chatos, ou esquisitices de nativos superticiosos; mas eu encaro como sabedoria.

Veja o caso dos sinais de trânsito. Aqui em Fortaleza é comum que os carros parem muito antes da faixa de contenção de pedestres, deixando um longo espaço que poderia ser ocupado por um ou mais carros. Por que? Porque o motorista prefere parar na sombra, e se essa sombra está a 30 metros da faixa, ele não hesita em parar ali. Isso é de pirar a cabeça de um turista: como assim? Que desperdício de espaço, e os que vêm atrás? Bom, como aqui todo mundo faz isso, torna-se comum, e todos já preveêm que o palhaço da frente vai parar antes.

O centro da cidade é forrado de marquises. Elas oferecem uma proteção contra o sol muito eficiente, e que existe em quase todo centrão velho das cidades do Brasil. Pena que essa solução não funciona ou não interessa à Aldeota, novo centro financeiro da cidade. Sabem por que, né? A marquise privilegia o caminhar. São de uma época em que se batia muita perna pela cidade, ao ar livre. Hoje, as pessoas descem de um carro e entram num shopping. Sou um saudosista em extinção, eu sei.

Outra coisa curiosa das ruas daqui: existe o lado da sombra e o lado do sol. As casas ou apartamentos no lado da sombra são mais valorizados do que os que ficam no lado do sol. Vou explicar: nas ruas de sentido norte-sul, a fachada de casas com vista para o leste pega sol pela manhã. As fachadas que se voltam para o oeste pegam o terrível sol da tarde. As casas do lado da sombra são as que têm a fachada voltada para o leste, ficando, portanto, toda a tarde na sombra. É nessas calçadas onde ainda se vêem familias reunidas até a noitinha, em alguns bairros tranquilos da cidade. O outro lado da rua ainda permanece quente e mormacento até umas 8 horas da noite!

Fico maluco quando vejo aqueles filmes americanos que mostram um casamento ao ar livre, e todos estão engravatados e sentados com o maior solzão na cara. Ok, eu sei que apesar do sol, a temperatura pode ser de apenas 10 graus, mas pra minha visão maniqueísta cearense, se é sol é quente e se é sombra é menos quente. Pura inveja.

Procissões. As procissões no Ceará só acontecem depois das quatro da tarde, quando o sol esfria. O mesmo vale para comícios e jogos de futebol. Nas paradas de ônibus, todos ficam alinhadinhos na sombra do poste, pode reparar.

Nossa eterna coexistência com o sol forte tem mais vitórias que derrotas. Com todo o respeito à recente seca no Amazonas e Rio Grande do Sul, posso afirmar que calamidade prum cearense é seca pra mais de dois anos. Aquilo lá foi um veranico besta, se fosse aqui a gente ia era mangar do Sol.

Notaram que esse texto não vai levar a nenhuma conclusão? E se deixarem não termino mais.

4 Comments:

Anonymous Edge said...

legal. cara, e se eu te contar que aqui tem duas temperaturas oficiais: indoor e outdoor. todo ambiente fechado deve ter arcondicionado. Se tem porta, tem arcon. e sempre muito frio. outra interessante, os onibus tem receptores que recebem a ordem de ajustar a temperatura interna deles atraves de centrais q ficam nos postes da cidade. e a temperatura media eh coisa de 17 graus. por isso, la fora ta um calorao e abafado mas todo mundo carrega um casaco de frio. doidera :)

6:07 PM  
Anonymous Edge said...

ah..fala ai da mais nova moda de sampa que e' retirar os cabos eletricos suspensos nos postes e faze-los subterraneos. A imensa 9 de julho ficou simplesmente LINDA! Quem vem dali da rua iguatemi para a paulista por ela tem uma incrivel visao dos predios da cidade. muito massa!!

6:09 PM  
Blogger Hemeterio said...

Eita, tudo é gasto. Quando o Júnior tava na Flórida era a mesma cosia: todas as casas com centrais de ar, todos os carros com ar e direção.

A China tá construindo a imensa Três Gargantas, pra alimentar o dragão de eletricidade. Faz muito sentido.

3:03 AM  
Anonymous raquel said...

Ahhh (com ar blasé)... Ontem eu tomei um banho quentinho, sequei os cabelos com secador, coloquei meu pijama de flanela, tomei uma sopa bem quentinha, coloquei minha meia de dormir, me enfiei debaixo do edredon de pena de ganso e dormi beeem quentinha!

Hahahahaha... alguém quer trocar?

7:08 AM  

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