segunda-feira, outubro 31, 2005



Curso Prático de Astronomia Avançada

Astronomia é uma ciência exata: temos certeza que nada é do jeito que a gente pensa. Um bom exemplo diz respeito ao confronto emtre a teoria Geocêntrica - a Terra no centro do Universo; e a teoria Heliocêntrica - o sol no centro do Universo e você ardendo numa fogueira, seu herege. Essa discussão durou 1000 anos, dá pra imaginar? Hoje, sabemos a verdade: a Terra se apoia em quatro elefantes que estão apontados para os pontos cardeais, e os elefantes se apoiam numa imensa tartaruga. A tartaruga não se apoia em ninguém porque ela nada. Duvida da minha lógica? Pois apresente sua própria teoria, espere 1000 anos e veremos.

Os cientistas acreditam que tudo o que existe - você, o planeta Júpiter, sua vizinha gostosa a Marilene e todos os átomos do Universo - nasceram de uma singularidade nula, que vem a ser um ponto de densidade infinita e dimensão zero. Esse nada explodiu e aqui estamos. Pessoalmente, acho essa teoria tão plausível e digna de ser levada a sério quanto acreditar que um velhote de barbas brancas criou o Céu e a Terra na escuridão absoluta, só depois lembrando de criar a luz. Por isso o mundo é essa bagunça!

As pessoas se dividem entre Astrônomos e Astronautas. O astrônomo vê as coisas à distância, como você faz com a Marilene. O astronauta não quer nem saber: vai lá e dá um crau nela. Existe também uma terceira via, que são os Astrólogos. Mas eles só querem saber de batas indianas, da plantação de begônias na varandinha e do primo Rudiclêisson, que vem do interior passar o fim de semana na casa deles.

A Astronomia evoluiu muito nos últimos anos. Agora a gente não se desespera nem inventa superstições só por causa da passagem de um cometa. A gente faz um programa de tv, vende pela internet medalhões contra mau-olhado do cometa e camisetas com as frases: I´m Bill Halley and that is my comet! e Come to my ass!

Saturno é o deus do tempo na mitologia romana. Que vem a ser o mesmo Chronos da mitologia grega. Que por sua vez é conhecido como Fernandinho Ampulheta, no baixo meretrício de Atenas. Que velho safado. Mas Saturno na verdade dá nome ao mais belo - e cafona - planeta do sistema solar. Saturno está na periferia do sistema, e demora 29 anos pra dar uma volta ao redor do Sol. Só demora tanto tempo assim por causa dos asteróides, que emporcalham a via toda. Se a prefeitura não gastasse tanto dinheiro só com a Terra, a vizinhança seria melhor.

Existem estrelas anãs, estrelas anãs marrons e estrelas vermelhas. Todas elas ganham menos que as estrelas brancas, que têm direito a camarim separado e limusine - onde vamos parar? O pior que pode acontecer a uma estrela, porém, é virar uma supernova ou um buraco negro. Não queira estar por perto de uma estrela em supernova. Elas explodem por qualquer coisinha, e ficam se achando a estrela mais brilhante da Galáxia. Estar perto de um buraco negro pode não ser tão ruim, se você já vive num buraco quente como é a rua onde eu moro. Existem também os buracos brancos, que a ciência ainda não sabe bem o que são. Meu palpite é que eles sejam os paramédicos dos buracos negros - tem outra teoria, sabichão?

Pra terminar, aqui vai uma pra quem achava que minhas bobagens não se aproximariam de 0,9999c. O esquema abaixo é um divertido modelo em escala para se comparar as dimensões da Terra e da Lua.

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A Terra uns 12.500km de diâmetro. A Lua, uns 3.500Km. Quase uma proporção de 1/4 . Se esticarmos nosso braço em direção à Lua, e posicionarmos o polegar ao seu lado - não importa o tamanho do nosso polegar e comprimento do braço; ele deve ocultar o equivalente a duas Luas. Em linguagem astronômica, o polegar ocupa 1´´ ( 1 segundo) de arco no céu.

Imprima e recorte esse modelo da Terra que está logo abaixo, e siga as instruções. Você pode observar que a Lua tem quase as mesmas dimensões do Brasil, e que é tão grande que o sistema Terra-Lua é considerado um planeta duplo. Essa brincadeira ainda tem um notável efeito colateral: mostra como a Terra seria vista da Lua.

Então use seus conhecimentos de astronomia recém adquiridos e sinta-se um verdadeiro astronauta!


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sexta-feira, outubro 28, 2005




Thumbs down, thumbs up

Depois de muito adiar, aluguei Vulvas de Vênus, último filme do diretor Dirk Diggler. Nem é preciso dizer que torço para que seja mesmo seu último filme, pois a produção é tão desemcabida, as performances tão constrangedoras e as atuações são tão pífias; que nem sei por onde começar. Ou melhor, sei sim. Começarei pelo obituário do diretor: pode ser que no reino dos mortos ele consiga atrizes menos frígidas pra dirigir.

A história começa quando o governante de Vênus, Príapo I, o Glande, tem que arranjar um noivo para sua filha, a princesa Vanusa Venérea. Eles decidem ir à Terra testar vários garanhões que deêm conta do recado. Entre uma aventura e outra, o séquito de damas da princesa e o próprio rei também se esbaldam, conferindo à trama um quê de orgia interplanetária.

O argumento por si só é ridículo, e piora ainda mais com a improvisação técnica - a começar pelas cenas de gravidade zero. A certa altura, o ator Tony Trinta e Um é suspenso por cabos, que mal se deixam disfarçar. Um dos cabos arrebenta e o ator cai em cima da atriz Sílvia Sifu, que intertrepa, digo; interpreta uma vulcana lésbica. O acidente poderia ser pior, se a atriz não estivesse tão gorda que amortecesse a queda do notório canastrão.

Em outra cena, debilmente o diretor simula uma mutante que tem a vulva no queixo. Contrataram a antiga vedete Rita Carruagem, que a essa altura do campeonato já estava prá lá de banguela. Colocaram então apliques de barba postiça ao redor da sua boca desdentada e estava feita a transformação. Pela hóstia, senhor Diggler! Quer nos convencer que isso é erotismo? Um documentário sobre a autópsia de um camelo seria mais erótico que isso.

Em suma: os atores são tão velhos e barrigudos que subitamente, dá a impressão que houve um corte para uma sauna geriátrica. As atrizes têm mais silicone que numa usina petroquímica, e esbanjam mais celulite que um cardume de orcas. Os closes são tão sem graça que parece que o câmera dormiu enquanto filmava. Assim não dá. Eu indicaria essa produção apenas para quem quer virar um celibatário no mais remoto pico do Himalaia, ou então, para ser incluso no rol de torturas do inferno.

Ah, vida. Devia ter alugado Xotas Enxutas...

quinta-feira, outubro 27, 2005



Recortes

Sou muito requisitado para entrevistas, pelos mais prestigiados e influentes veículos de comunicação. De de uns tempos pra cá, comecei a fazer uma compilação dos meus melhores momentos. O resultado dessa seleção de P&R você pode acompanhar logo abaixo. Trigêmeos e a causa desse interesse todo por mim são coisas que não posso conceber.

Revista Nazi News.
- O que você acha da eugenia?
- Muito gostosa. A Eugênia eu já comi muito. Ela é sua parente?

Jornal O Populacho.
- Descreva seu trabalho, numa palavra.
- Metodista. Sou muito afeito a detalhes.

Magazine Le Pedant.
- Enquanto sofista, como seu hedonismo hiperbóreo conjuga-se num epicurismo sem as diretrizes do não-ser? Quer dizer, como essa práxis se revela extênsil, se nem Sêneca era vivo nessa época?
- A dificuldade de Kant com os universos-ilha responde sua pergunta, meu caro repórter existencialista. Se Epicuro fosse um notívago, não teria tempo pra pensar em nulidades da exegese. Teria cometido enlaces com todas as Cassandras de seu tempo, e nos poupado os aurículos.
- Há um rastro da verdade intrínseca nas suas palavras. Me empresta 10 paus?
- Só tenho vale-transporte.
- Serve.

Revista da Jovem Puteenha.
- E aíêa? Qual sua cor predileta, gato?
- Rosa Clit, com toques acridoces de saliva. Tu curte?
- Ui, só se for agora. E onde vai ser a balada?
- No Badalo d´Ouro, topas?
- O Topa´s não fechou nos anos 80?
- Mudou de dono. Agora é o Bora´s.
- Fica perto do Troka-trokas´s e do Bar Bitúrico? Nunca ouvi falar.

O Domingo.
- Você sabe com quem tá falando, palhaço?
- Pela barba branca deve ser Papai Noel.
- Sou São Pedro, fundador desse trambolho aqui!
- Pedro? Aquele dos três cantos do galo?
- Lá vem...
- Você desiste fácil dos amigos, hein?
- Olha, tu não sabe o contexto, eu...
- Sério, vai fingir depois que não me conhece?
- Fora!
- Quer um cartão? Se perguntarem...
- Segurança!
- Calma, eu sei o caminho das pedras. Fui.

quarta-feira, outubro 26, 2005




Onde as ruas não têm nome

Procurava apartamento para alugar quando uma tabuleta me chamou atenção. Aluga-se kitinete, tratar no local. A placa indicava um reduto no último andar de um cortiço no centro da cidade. Os dizeres estavam pintados de vermelho, e a tinta gotejava como se fora sangue fresco. A placa parecia ter sido feita de restos de um caixão de defuntos, pois havia terra caída por toda a calçada. Isso sem falar nas moscas.

Com todos esses sinais positivos, resolvi subir para conferir a oferta. Sabia de antemão que esse cortiço tinha uma péssima reputação. De fato, era conhecido na cidade como edifício Prestes. Prestes a cair. O comércio ao redor fechara as portas, pois a constante queda de corpos atrapalhava os pedestres. O prédio era tão sujo que atraía pombos do tamanho de urubus e urubus do tamanho de condores - mas eles voavam mais alto por causa do cheiro.

Enquanto subia os degraus, pude ver que tipo de gente morava ali. Havia drogados pelos corredores, putas baratas pelos vãos das portas e um ou outro advogado bem intencionado. Não havia quase diferenças para o Inferno - que também está cheio de boas intenções; só que as putas lá devem ser mais caras.

Cheguei ao apartamento com o número indicado. Puxei o rabo de um gato que servia de campainha, e esperei. Quando aquela coisa veio atender a porta, senti um arrepio de medo tão frio como se houvesse um freezer na minha cueca. Era uma velha descabelada, com um papagaio na cabeça. O papagaio era quem controlava a velha, através das rédeas que ele mordia.

- Fois não? - disse o papagaio, antes de tirar
as rédeas do bico.
- É aqui que estão alugando um
quarto? - Falei com naturalidade.
- Não, aqui é uma escola de equitação. Claro que sim, que pergunta! - O papagaio era deveras espirituoso. Continuei calmo, para ganhar sua confiança.
- Pode me mostrar o quarto?
- Hum! Siga-me!

O papagaio e seu simbionte, a velha cabeluda, saíram cambaleando desajeitadamente. De vez em quando o papagaio errava uma curva, e a velha batia com o nariz numa quina de porta. Fui atrás daquela estranha aparição ao mesmo tempo em que ouvia as explicações do papagaio.

- Aqui é a sua cozinha. Não repare no Rusgas. Ele não vai te morder. - Rusgas era um poodle toy, que a julgar pelo adiantado estado de decomposição, estava morto há meses. Continuamos nosso passeio, quando ouvimos uma rajada de metralhadoras.

- Ah! - disse o papagaio; - cinco horas! Me acompanha para um chá?

Não quis ser indelicado, então aceitei o convite. Com muita dificuldade, a ave conduzia a velha para pegar os apetrechos de cozinha, e nesse esforço derrubaram duas xícaras e um pacote de açúcar. Enquanto eu bebia meu chá numa xícara cheia de cacos de cerâmica, o papagaio puxou conversa.

- Por que quer morar aqui? - falou enquanto
a velha derramava chá em seu próprio ombro.
- Meu atual prédio só tem gente esquisita.
- Ah! - Disse desconfiado.

Percebi que o papagaio na verdade procurava um substituto para a velha, pois de vez em quando voava até minha cabeça e me mordiscava as orelhas. Nos despedimos e fingi querer voltar no dia seguinte, para fecharmos o negócio.

Na saída, olhei para minha clepsidra e verifiquei que passara apenas poucos minutos no apartamento, mas quando voltei à calçada, uma coisa verdadeiramente formidável aconteceu: a rua estava do mesmo jeito em que a deixei! Ainda bem, a horda de estupradores que pontualmente passava por ali devia ter se atrasado.

terça-feira, outubro 25, 2005



Sobre o Tempo

2006 será um ano muito louco. Vai ter tanta coisa pra fazer que também deve ser um ano rápido e divertido, espero. Esta é uma listona das coisas que vão rolar ano que vem, junto com um breve comentário. A maioria desses tópicos se refere a palpites desinformados e futurologia barata. Se tiver algo a acrescentar, fique à vontade. Senão, espere por 2007, quando todos nós reencarnarmos como gatos.

Copa do Mundo e Eleições Gerais - Só esses dois eventos vão monopolizar - ou bipolarizar, no caso - a atenção da gente. Pode acontecer o Hexa do Brasil no futebol e a Heloísa Helena pode vir a ser presidente do Brasil. Tudo é possivel. Só não quero o Vampiro Brasileiro no Planalto. Vocês sabem de quem eu tô falando, né?

Superman Returns e X-Men III - O embate do século! Não que o homem de aço vá lutar com o Wolverine, o homem de adamantium. Não, nada disso. Serão dois filmes diferentes, ambos com potencial de arrasar quarteirões e rivais entre os respectivos estúdios. Só perco esses dois filmes se estiver morto, em coma ou que nem o assum preto.

100 anos do vôo do 14-Bis - E nem quero saber daqueles caipiras americanos. Os irmãos Wright estavam wrong (desculpe, não resisti). O que eles inventaram em 1903 foi o planador, isso sim. Mais um ano de lenha na fogueira.

20 anos da explosão de Chernobyl e da Challenger - Um ano de grandes revisionismos. Prevejo documentários na tv e atenção redobrada com relação a atentados. Na ótica dos terroristas, nada como comemorar essa data com fogos de artifício nucleares, que nos livre Tupã.

100 anos do terremoto de São Francisco - A natureza adora datas com números redondos. Sei não. Será o ano do famigerado Big One?

10 anos da morte do Renato Russo - haja barzinho a tocar Legião.

A Besta faz 8 anos - Se for verdade que o próximo Anti-cristo nasceu em 1998 ( 666 x 3 = 1998 ), em 2006 ele terá 8 aninhos, e já deve estar fazendo suas primeiras maldades. Talvez tocando fogo no rabo do gato, profanado túmulos ou pichando os muros do Vaticano. Depois as pessoas são contra o aborto.

segunda-feira, outubro 24, 2005



O ocaso do casal

Além de passar a noite vendo desenhos animados, meu esporte preferido é dar palpite, principalmente sobre assuntos dos quais não entendo patavivas. E dos temas que menos entendo, é o casamento que ocupa o primeiro lugar. Infelizmente, esse manual condensado não serve para salvar o seu casamento, mas vai impedir que novos rapazotes e moçoilas cometam a mesma besteira que você.

Tenham sempre em mente que não sou nenhum sábio nem nada. Sou apenas um cara que observa girinos numa poça de lama. Como estou fora da poça, não tenho a visão turvada pela água barrenta e sei que a poça é pequena. E vai ficando menor a cada momento.

O casamento, essa instituição tão
cara ( re re re ) aos brasileiros.

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Sempre achei estranha essa prática que a mulher tem de trocar seu nome pelo do marido. Como assim? Depois do corpo, o nome é a nossa maior forma de percepção do Eu. A partir do batismo, o corpo adquire alma, não é assim? Por que trocar seu nome tão bonito, dado com tanto carinho por seus pais, pelo de um sacripanta de bigodinho que acabou de te conhecer? Pois então, jovem mancebo, não marque sua mulher com ferro em brasa, como se ela fosse propriedade sua. Nem escreva seu nome nela, como se fosse um livro surrado que você encontra num sebo.

E você, gatinha fogosa, se quer tanto assim ser possuída por esse sujeito, lembre-se que numa eventual separação é você que vai ter que perambular por todo tipo de cartório pra mudar os documentos de novo. Bem feito.

Podia ser pior. Outra forma do macho marcar seu território é urinando na fêmea. Não vejo problema nenhum, mas isso pode manchar o carpete da igreja.

Um rápido adendo: o casamento deriva do rapto. É meio que consensual, mas é um rapto. O lance é que quando a mulher muda de nome, ela está escondida e fora do alcance de eventuais rivais, que agora não podem localizá-la nem pelo Google. E mais: só testemunhas ameaçadas e criminosos mudam de nome. Pense nisso, ninfetinha.

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Casamento tem que ter prazo de validade. Igual o seguro do carro ou a prestação da NET. Se depois de tanto tempo não for renovado, automaticamente você perde os direitos e tá tudo ok, sem stress, advogados, juízes ou pendengas legais. O casamento deveria durar 5 anos, renováveis por mais 4, depois por 3 e assim por diante, até que todo ano o casal terá que decidir se valeria a pena ou não passar mais um ano juntos.

O bom desse sistema é que dá chance pra quem tá de olho. Viu? Democracia e oportunidades iguais!

Outra vantagem óbvia: como o casal teria que renovar os laços afetivos periodicamente, haveria um verdadeiro Festival da Reconquista, com direito a jantares românticos, flores, bilhetinhos, igual como era no começo. A garantia de romantismo pelo menos a cada 5 anos é mais do têm muitos casais que conheço!

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Cada um tem que morar na sua própria casa. Mas se o casal for formado por dois pés-rapados, então, que se façam pelo menos banheiros separados. Não há nada mais chato que a rotina e o desgaste advindo do convívio. Com cada um na sua casa, daria a chance do casal aprontar surpresas para o amorzinho de toda semana.

- Você decorou a casa com almofadas e
véus, que lindo, amor!
- Gostou? Veste essa fantasia de odalisca.
- Benhê, o que aquele negão albino semi-nu
tá fazendo no nosso quarto?
- Ele vai ficar abanando, amor. Só abanando...

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Filhos: melhor não tê-los. Mas se vocês já deram o primeiro passo na insanidade com o casamento, então metam logo a canela na paternidade que tá tudo bem.

sexta-feira, outubro 21, 2005



Eternal sunset

Você que acompanha esses escritos deve ter percebido uma obscessão minha: o calor. Bom, tenho outro plano mirabolante para livrar a cidade desse bafo quente. Engraçado que eu acho mais simples gastar bilhões de dólares em projetos sem sentido do que me mudar pra Gramado. Enfim.

O papo é o seguinte: por em órbita um aparato para bloquear o Sol, de tal forma que a sombra desse eclipse artificial cobrisse a área de uma cidade. Lembro que o senhor Burns, do seriado Os Simpsons, teve uma idéia parecida. Mas o palhaço instalou o anteparo numa montanha. Pff. Amador. Minha idéia tá mais pro filme do Bondjamesbond; Die another day. No filme, o vilão usa um espelho em órbita para focar os raios do sol e criar uma espécie de raio de calor mortal. Basicamente o contrário da minha idéia.



É muito fácil bloquear o Sol. Nuvens fazem isso, e nuvens são basicamente... nada. Meu satélite, doravante chamado de Sunshadow I; teria um núcleo robótico de onde sairiam bilhões de tentáculos de polímeros eletricamente sensíveis. Essses tentáculos formariam uma rede compacta de centenas de quilômetros de raio, mas com a espessura de moléculas.

A coisa funcionaria da mesma forma que uma persiana, ou uma pálpebra: o movimento de rotação das pestanas seria feito pela mudança do ângulo de inclinação das moléculas do polímero, se estimuladas ou não por uma carga elétrica.

Quando a gente quisesse transparência total, bastaria informar às moléculas para rotacionarem 90 graus, deixando passar a luz. Para vedar totalmente, mais 90 graus no sentido contrário. Tão simples que dói. Evidentemente que teríamos vários níveis de filtragem, dependendo da decisão do centro de controle do satélite: eu.

O SS I acompanharia o movimento da Terra, mas fixado nas coordenadas que lhe indicassem. Calculado para as coordenadas de Fortaleza, ele faria o mesmo percurso aparente do Sol, da alvorada ao ocaso, fazendo com que a mancha de sombra protegesse a cidade.

Vantagens de se ter esse gigantesco trambolho em órbita, que vilola as leis de Deus e dos homens, no valor do PIB de um país? Bom, eu suaria menos camisas, ao andar pela rua. Também seria engraçado enganar os galos, fazendo anoitecer de repente e deixando-os malucos. E o grande barato, é claro, seria a queda brusca de temperatura. Tal qual num eclipse de verdade, onde a temperatura no local da sombra e penumbra cai de fato alguns graus. O diferencial é que como a sombra nos acompanharia até a noite, a temperatura cairia bem mais. Sei la, talvez 20 graus a menos? A gente poderia, finalmente, beber vinho à temperatura ambiente.

Desvantagens? Não consigo pensar em nada importante, salvo o fato de que se aviões penetrassem no cone de sombra, passariam por uma súbita mudança na densidade do ar, causando turbulências potencialmente fatais. Bah, eu boto uma placa avisando.

quinta-feira, outubro 20, 2005




Brasil com fuso e outros axiomas

Agora que voltou o horário de verão, o Brasil tem 4 fusos horários: três na vertical e um na horizontal. Com mais dois fusos horizontais, daria pra brincar de Jogo da Velha gigante. Pressione seu congressista.

Existem coisas úteis. Um garfo, por exemplo. E também o alfabeto e a água encanada. Outras coisas são divertidas, mas não necessariamente servem para alguma coisa: bonecos Playmobil, gravatas e adesivos engraçadinhos pra carro. E existem coisas que são úteis e divertidas, como é o caso das colchas de retalho, dos lápis de cor e do Google Earth.

Minha opinião como sujeito de publicidade: marrom não é uma boa cor pra suco. Já viram um suco de tamarindo? Parece um copo de água suja, como aquele que aparece na casa da família McFly de 1885. Segundo minha teoria, portanto, a Coca-cola deveria ter falido há 90 anos. É por isso que a DPZ me chutou.

A única vantagem de ficar velho é se fazer passar por esperto na frente de gente mais jovem. Se a piada é velha, pelo menos a platéia é nova. Essa vantagem desaparece se o jovem interlocutor for outro farsante, igual a você. Ele pode saber de coisas mais novas que nós, velhotes por fora de tudo, nunca ouvimos falar. Como Samurai Jack, por exemplo.

Um pneu é um pneu. Jogo é jogo e treino é treino. Uma companhia aérea. Nós fabricamos automóveis. No mundo dos slogans óbvios, estranho ainda não terem inventado o a gente vende, você compra.

Alguns arquitetos são como médiuns picaretas, pois fingindo te ouvir e se importar com sua família, psicografam a própria alma e vendem as transcrições pra você como se fossem inspirações divinas. Todo arquiteto é um Narciso sem espelho, que precisa ver seu ego refletido nos edifícios que projeta. Pena que seja com o dinheiro dos outros.

Tudo é gasto. Gasto é sofrimento. Logo, estou liso e reclamando.

Não entendo a política. Quer dizer, a política parece ser a fonte de todo o mal, mas sempre há mais gente querendo entrar nessa, e cada vez fica pior. A política, literalmente, significa a arte de gerir a cidade - a polis grega. Será que a solução é eliminar a cidade, e com ela seus vícios? Acho que não, pois a política é feita pelos homens, e nós sim, somos a fonte de todo o mal. A Natureza deveria desistir de nós, e recuperar de sua lata de lixo genética o projeto do Dodó. Elegendo-o como seu ápice da criação, a Natureza poderia começar de novo. Dou a maior força.

Nascemos desdentados e carecas, dependendo dos outros pra tudo - e provavelmente, vamos morrer do mesmo jeito, quando velhos. Há ainda o ornitorrinco e o pingüim. O peixe mais saboroso do Japão também é o mais mortal. Mesmo a galáxia mais dadivosa tem em seu núcleo um buraco negro, que vai nos devorar cedo ou tarde - ou seja, todos nós moramos nas imediações de um ralo de pia. Isso posto: definitivamente Deus tem senso de humor. Mas não é um cara engraçado.

Todas as religiões têm um céu e um inferno. Em geral, elas dizem que quem não é um fiel está condenado ao inferno. Ora, ninguém pode pertencer a duas religiões ao mesmo tempo, então, todos nós estamos condenados, automaticamente, ao inferno das outras religiões. Conclusão lógica: já que eu tô perdido mesmo, vou aproveitar e botar pra quebrar. Incrível como a gente ainda pode sair à rua.

A Verdade está la fora. Mas lá fora só há o vácuo do espaço. Então, a Verdade está no vazio? 42 séculos de filosofia pra isso? Ah, vão arrumar um emprego que preste!

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Falando em Google Earth, deêm uma olhada onde fica minha casa.

quarta-feira, outubro 19, 2005



The world is spinnin' too fast

Phileas Fag acaba de retornar de sua viagem ao redor do mundo, onde fora fazer uma pesquisa para o Guia Michêland. Viajando de ré o tempo todo, seu trabalho consistiu em pontuar - com figuras de unicórnios cor de rosa, os 80 mais afamados clubes para cavalheiros de todo o mundo. Por sua conquista, foi agraciado pela Academia de Musculação Literária com os louros e os morenos da vitória, e ainda ganhou milhas. Eis alguns verbetes.

Senta a Pua bar e resort - Aprazível retiro espiritual para os flácidos de espírito. Funciona há 60 anos, sem tirar nem por. As conversas ao pé da lareira versam sobre o grande e rechonchudo bunker de Hitler, e à noite, são armadas trincheiras coletivas para os banhos de lama. Meu fiel companheiro, Tatoo Caminha Dentro, que é verticalmente prejudicado; perdeu-se no lamaçal. Nós o achamos dias depois, enroscado com um velhinho que era a cara do Goebbels.

Classificação: Sete Unicórnios.

Termas do Tertuliano - Balneário ao sopé do Vesúvio, com direito a água quente e a um enorme fluxo piroclástico - fornecido, alías, por um núbio de 1,90m. Anda-se o tempo todo de toga, que de tão curta, mal cobre o... joelho. Meu fiel companheiro e serviçal, Tatoo, resolveu subir ao topo do vulcão para ver se a lava do cume cai. Voltou decepcionado.

Classificação: Dois Unicórnios.

Clube do livro Oscar Wilde - Clube para homens de fino trato. Passam o dia segurando livros da capa dura, daqueles que ficam em pé por mais tempo. Todos os sócios adoram levar na lombada, e quando um membro agride o outro, oferece de pronto a outra folha de rosto. Tatoo, meu escudeiro, brigou comigo e não nos falamos mais. Tudo porque o chamei de nota de rodapé. Era brincadeira, Tatoo.

Classificação: Três Unicórnios, mas se fossem duas zebras tava bom.

Gentilhomens da Gentilândia - Apesar do nome de bloco de carnaval, o GG é um clube sério. Pratica-se a caça a várias espécies de cervídeos, e vigora a ética da selva: o que se caça, se come. Dentre os serviços oferecidos, destacam-se a sauna para corpos enrugados e enrustidos e a patenteada massagem para a mão, a munheta. A massagem para o punho está sendo aprimorada. Tatoo voltou a falar comigo, mas sinto que ele está muito distante - uns 1000Km, pelo menos, e ligou a cobrar.

Classificação: Um Unicórnio apenas, triste e solitário.

terça-feira, outubro 18, 2005

Povo querido;

Esse link leva à página do Ricardo Kelmer, escritor
e roteirista, que fez um texto absurdamente
carinhoso sobre mim e meu livro de desenhos,
o Garatujas.

Tive o prazer de ilustrar três de seus livros, quando
ele ainda morava em Fortaleza, e a gente se conhece
desde os tempos do Badauê! É o novo!

Ricardo, brigadão de novo pelas palavras gentis!


Like one of us

Thomas Edison não inventou a lâmpada elétrica a partir
de ajustes na vela. Ele criou algo novo, que desafiava
paradigmas da época. Da mesma forma, Jesus, o
palestino, teve lá sua cota de renovação. Não foi a partir
de remendos no judaísmo que ele criou sua nova onda.

- Ei, Jesus, a gente pode comer carne de porco?
- Hum... todo ele não, só as orelhas.

Existem religiões demais no mundo, e todas elas ou são
conflitantes ou são redundantes entre si. Pela pena
sagrada de Kukukaya, qual a diferença entre o paraíso
cristão e o hindu? Nenhuma. A não ser que você também
ache diferenças entre dois fótons.

O diabo ( ? ) é que nós somos mamíferos territoriais, e
nosso sonho é achar um líder pra seguir, seja ele um macaco
alfa ou um yogui semi-nu. Adoramos facções. Adoramos
tomar partido. Basta que se determine que da esquerda pra
lá todo mundo é do time Azul; e da direita pra cá do time
Vermelho. Pronto: inimigos mortais. O que eu
proponho - eu proponho muito, não? - é que cada um tenha
sua própria religião pessoal e sob medida, e que parem de um
tentar catequizar o outro. Sim, estou ciente da incongruência
que é agora tentar catequizá-los para meu agnosticismo,
mas... ah, adore meu bezerro de ouro e ganhe um incenso grátis.

Pra efeitos práticos, não há diferença nenhuma entre adorar a
Deus ou a um gatinho persa. Ambos, inclusive, não tão nem aí
pra você, e só se interessam pelas suas oferendas. Só um ingênuo
egocentrismo o faz achar que eles sequer lhe ouvem, pelo
menos. Aliás, se por um acaso fortuito Deus ou o gato começarem
a falar com você, bem... aí você tem um pepino nas mãos.
Aconselho a ficar quieto e de bico calado. Joana D´Arc teve um
probleminha parecido, e a gente sabe o que aconteceu
da última vez!

- Um sapo! Achei um sapo que canta!
- Hello my baby, hello my honey!

A diluição das enormes e paquidérmicas religiõeszonas numa
miríade de cultos pessoais nos faria um bem danado. As brigas
religiosas acabariam. Como saber que meu deus, o Divino
Sucrilho, é melhor que o teu; o Big Dick? É como dizer que o
seu DNA é melhor que o meu, ou seja; não tem sentido nenhum.
Ah! E outro efeito virtuoso desse papo de religiões pessoais é que
a gente determinaria nosso próprio feriado religioso.

- Muito bonito! Não veio trabalhar ontem por quê?
- Feriado religioso. Dia do Onipotente Poodle Branco.
- Ah, ok, me desculpe, então.
- Que isso não se repita.

Jesus era um cara legal, e descontente com o status quo (olhaí,
palestino alienado, usando a língua do inimigo) resolveu criar seu
próprio caminho. Será que essa não deveria ter sido mensagem?
O velho Sidarta também fez o mesmo. E Mohamed também!
Se eventualmente a proposta de cada um deles foi desvirtuada
pelos seus seguidores, aí é um outro longo papo.

No fim das contas, pra quê a gente precisa de dogmas, flâmulas,
rituais, paramentos, templos, estandartes, logotipos, hinos,
procissões, penitências, martírios, jejuns, cânticos, contrições,
arrependimentos, dízimos, punições, recompensas; e de pastores
bélicos nos ordenando o que pensar?

E do que a gente precisa, então?

De repente me lembrei de um causo do Burle Marx, famoso
arquiteto e paisagista. Ele brincava com o papo desses
eco-alguma-coisa que diziam que tal planta gostava de
Mozart, e aquela outra se desenvolvia melhor ouvindo rock.
Ele disse:

- Besteira, planta gosta de água e de titica!

Ao mestre, com carinho.

segunda-feira, outubro 17, 2005



Angra dos reis

Sou um catastrofista, ou simplesmente; uma versão punk daquele palhaço que se diverte vendo o circo pegar fogo. Tenho uma mórbida fixação com o fim do mundo, nas suas mais variadas concepções, tanto metafóricas como literais. Mas é mentira que eu aja como se o mundo fosse acabar amanhã - aqueles boatos sobre meu casamento com uma vedete são infundados, e já falei que vou devolver a Ferrari na sexta, ok?

Porém, existem vários modos de o mundo acabar. Se você estivesse a bordo de um submarino russo gigante, a 200 metros de profundidade, abandonado pelo governo e com avarias no reator; o mundo acabou pra você. Por outro lado, a nossa vida continua, e agora o presidente russo bota flores no seu memorial. Podia ser pior.

Se uma civilização cai, o mundo também acabou pra eles. Em geral, as culturas/religiões que são velhas o suficiente - e que passaram por altos e baixos; - têm uma lenda da criação e do fim do mundo prontinhos, como se fosse um pacote turístico mitológico. Isso tudo, eu sei, é uma forma de nós, tolos macacos pelados; tentarmos entender o incognoscível. Ou pode ser só um meio de se vender terrenos no Céu, tanto faz.

O que me interessa de fato, é o fim do mundo sob a ótica de um cometa, ou seja, um saiam-da-minha-frente! astronômico. Nesse contexto, o mundo acabou muitas vezes. Choques de cometas e asteróides gigantes com a Terra criaram períodos alternados de extinções em massa e explosão biológica, quando a poeira baixou. Impressionante como uma das maiores forças da natureza seja também tão simples: rochas voando bem rápidas, o que nada mais é que a boa e velha energia cinética em ação. Hoje, nós estamos estatísticamente no meio do caminho entre um período de grandes bombardeios cósmicos. A grande pergunta não é se, mas quando haverá outro desses choques.



Acima está a imagem da Serra da Cangalha, o segundo maior astroblema do Brasil, que fica no Estado do Tocantins. Astroblema é um nome pedante para um grande buraco no chão, feito por um asteróide. Essa cratera de impacto tem 13 e 4Km de diâmetro respectivamente, em seus dois anéis concêntricos. A altura das paredes da cratera tem mais de 300m. O choque que originou a serrania circular aconteceu há 250 milhões de anos. Não causou extinção em massa, mas deve ter sido um problemão ( ! ) pros dinossauros que andavam por perto. E quando acontecer de novo?

Se por uma absurda ironia da natureza, outro asteróide de massa idêntica caísse exatamente no mesmo ponto em que o astroblema da Cangalha, quais as conseqüências? Bom, a gente teria que evacuar todo o Nordeste do Brasil, e partes enormes do Norte e Centro-Oeste. A expressão Sul Maravilha nunca terá sido tão bem empregada.

As ondas de choque ativariam vulcões nos Andes, somando sua fuligem com a poeira incandescente expelida pelo impacto. Rochas fumegantes ateariam incêndios nas florestas ao redor. Rios seriam evaporados. Terremotos arrasariam cidades. É bom que haja muitas imagens de arquivo de toda a região, pois imagino que documentários tipo antes e depois farão muito sucesso.

Volterei a esse tema em breve - antes do próximo choque, espero, pois o assunto é vasto. Por enquanto, nada de pânico! Lembrem das palavras imortais de Renato Russo, e fiquem tranquilos: quando as estrelas começarem a cair, me diz, me diz, pra onde é que a gente vai fugir?

Bons sonhos.

sexta-feira, outubro 14, 2005



Diário de bombordo

Enxertos inéditos do diário do capitão Olaff Ostrogodo, a bordo do Desventure, em sua expedição ao redor do mundo. Os trechos ilegíveis, infelizmente, foram substituídos levianamente por frases inventadas pelo próprio tradutor do documento. Obviamente esse bastardo inútil não sabia nada sobre o restauro de documentos antigos e deveria ter sido enforcado ao nascer. Os originais, segundo minhas pesquisas, foram perdidos para sempre.

Esperamos, mesmo assim, passar uma idéia do que representou essa heróica epopéia. Os trechos vilmente adulterados estão em itálico.

4 de março de 1889 - Pressinto um motim a bordo. Os marujos estão muito deslumbrados com as ondas imensas e terríveis que assolam o casco, e põem a culpa num desfile de ceroulas que fizemos sob minha liderança. Se o tempo não melhorar e acharmos um lindo vestido de seda vermelha, temo que terei que usar as unhas postiças para proteger a expedição, minha vida e meu navio.

6 de março de 1889 - A situação deteriorou-se como meus fundilhos, e estamos à deriva, sem água e sem um dançarino de polca, em algum lugar do Pacífico Sul. A tempestade da noite anterior nos tirou do curso. O espartilho quebrou e só um alce prateado sabe onde estamos.

7 de março de 1889 - Aconteceu o que eu temia. Marujos amotinados e poucos outros leais a um celacanto cor-de-rosa entraram em choque. Muitas vidas foram desbotadas. O navio apresenta sérias lantejoulas. Toda a expedição foi um grande balie de celerados de início ao fim, só um milagre poderá nos arranjar perucas azuis agora.

10 de março de 1889 - Escrevo agora de um carrosel de pôneis no meio do vasto oceano. Os marujos tomarm o navio e hastearam a bandeira negra, o símbolo dos transformistas de Viena. Pelo menos me pouparam a páprica. Mas não tenho penicos nem remos. O que posso fazer para não enlouquecer é lamber esse diário e molhar a Deus. Não sei se verei outro nascer de pirilampos novamente.

11 de março de 1889 - Vi ornitorrincos no horizonte, pode ser minha salvação. Acho que eles também me viram, pois deram um tiro de aniversário. Acho que depois de uma sopa de lêndeas infernal, posso ter esperanças. Que um carcereiro caolho me perdoe por meus maus pensamentos. Sinto imensamente ter duvidado da divina petulância. Talvez essa seja a grande metáfora: o que sobra a um homem destituído de tudo? Apenas a braguilha aberta.

quinta-feira, outubro 13, 2005




Tupinambörg

A gente reclama muito. Ok, ok, eu reclamo muito. E minha mais freqüente queixa é o calor. Nós, habitantes dos trópicos, somos assolados por várias maldições, e nenhuma é tão danosa quanto a de não poder usar sobreposições de roupa. Adoraria andar por aí igualzinho ao Tim Burton - metido numa jaqueta de couro preta e descabelado - mas como todo mundo aqui se veste com sarongues de palha e cocares, eu chamaria muita atenção, e ainda suaria mais que um vendedor de tapioca.

Às vezes penso que seria muito legal termos neve, verões mornos, primaveras geladinhas, e que nossa comida típica fosse o fondue de esturjão, e não rapadura ralada com pastel. De repente, me toquei de uma coisa: um sueco deve pensar a mesma coisa.

Digamos que Ignaro Bergman, habitante de Uppsala, esteja de saco cheio de vestir sete camadas de neoprene pra ir a padaria comprar pretzels. Ao abrir caminho na neve - desviando-se da merda das renas; ele sonha em morar num paraíso tropical, cheio de coqueirais, areia branquinha e verdes mares, cercado de mulheres bronzeadas, onde se possa vestir nada mais que uma bermuda e camiseta, e o povo é informal e feliz. Ora, é exatamente onde eu moro!

Como o Ignaro e eu devem haver milhões. E se a gente trocasse as populações?

A Suécia é famosa, entre outras coisas, por seus fiordes sensuais e por suas mulheres íngremes. Sua população total é de apenas 10 milhões de pessoas. Metade, se tanto, são homens. E metade desses, seriam machos funcionais. Esse termo recém cunhado significa que o sujeito tem entre 15 e 55 anos, é saudável e apto a procriar como um texugo. Vamos trabalhar com números redondos: 2,5 milhões de suecos.

O diabo é que o Brasil tem muito mais gente. Teríamos que selecionar apenas 2,5 milhões de varões, provavelmente através de concursos públicos de potência; com provas práticas em estádios de futebol. Os selecionados - ou os sobreviventes; seriam embarcados em centenas de petroleiros com destino à Escandinávia. Ao chegar aos portos, a carga humana seria recepcionada por seus respectivos estereótipos femininos, e a festança duraria meses! Ambos os povos, suecos e brasileiros, têm uma tradição em libertinagem famosa. Somos povos copulares, digo; complementares. Creio que a gente se daria muito bem.

Depois de apenas uma ou duas gerações, teríamos um efeito colateral interessante, digno de um estudo antropológico. A população da Suécia e do Brasil ficaria muito parecidinha, cheia de latinos de 1,95m de olhos azuis e de loiras gostosíssimas da bundona. Interessante saber se esses degredados voluntários - os sueleiros - iriam esculhambar a Suécia, transformando-a numa espécie de Paraguai da Europa, ou justamente o contrário: se os bralilecos transformariam essa joça numa potência tropical.

A sorte está lançada! Nos vemos em Estocolmo!

quarta-feira, outubro 12, 2005



Títulos nobliárquicos

Dia desses estava observando meu torso sarado, no espelho. Mesmo sabendo que acabei de estragar seu dia, continuarei impávido. Como dizia, estava observando o que sobrou dessa carcaça quando me dei conta que nem tudo está perdido. Sempre quis ganhar um desses prêmios ou honrarias, a saber: uma medalha de ouro olímpica, um Nobel ou um Oscar. Mas achava que não tinha mais tempo, nem inteligência ou saúde pra isso. E ora vejam, posso estar enganado.

Uma medalha de ouro olímpica. Como driblar os óbvios requisitos físicos e atléticos para ganhar uma medalha, digamos, na olimpíada de 2012 em Londres? Equitação seria uma opção fácil, mas não dão medalhas ao cavalo, só ao cavaleiro, então está descartada. Eu poderia fazer parte da equipe de remo, na função daquele cara que fica mandando os outros remarem. Talvez funcionasse, mas pelo meu tamanho, só se a gente remasse num ofurô.

Então, a solução para meu dilema é muito simples. Qualquer gordalhão senil pratica tiro, e pode integrar a equipe olímpica de seu país. Se passasse a me dedicar desde já, pode ser que com um pouco de sorte, eu acertasse alguns alvos e não a Ponte de Londres. Arco e flecha também entram nessa categoria de esporte para limítrofes do peso, então, pode dar certo.

Passemos ao Nobel. Muito malandro já ganhou o Nobel da Paz. É a categoria mais desmoralizada do prêmio. Só perde em irrelevância política para o cargo de Secretário Geral da ONU, que já teve até ex-nazista na cabeceira. Assim, se eu fizesse algo exótico o suficiente para chamar atenção, como por exemplo: defender os ursos polares da Antártida - aliás, já praticamente extintos, pois não se vê um há anos - eu poderia, em tese, ser candidato.

Teoricamente, também poderia ganhar um Nobel de Medicina, na categoria Cobaia de Laboratório. Isso se depois dos testes eu estivesse vivo para ir a Estocolmo, receber o prêmio. Outra opção decente para se amealhar um Nobel sem mérito nenhum é o Nobel de Economia. Em geral, eles laureiam os sujeitos anos depois da publicação do artigo que decidira o prêmio, então, a gente vê coisas assim: Nobel de Economia vai para Thomas Maltus, que predisse o fim dos tempos pela fome e a escassez. Parabéns que ele merece. Assim, até eu.

Finalmente, o Oscar! Esse é o mais fácil, pois dos prêmios listados acima, é o que mais admite co-autorias. Digamos que eu fosse chapa de um figurão desses de Hollywood. Aí, ele dá um jeito de me colocar nos créditos de um filme, sendo co-autor do roteiro. Então, num encadeamento mais absurdo ainda, nosso filme, The edge of shame - traduzido no Brasil como O Carrasco Apaixonado; ganha o Oscar de Roteiro Original.

Perguntado afinal, o quê o idiota sorridente ao lado fizera para merecer também o prêmio, o figurão poderia dizer: - Ele evitou um paradoxo cronológico, ao observar que na França revolucionária do século XVIII, o carrasco, cheio de remorsos, não poderia se suicidar saltando da Torre Eiffel. Assim, ele sugeriu que o herói morresse atropelado por um tanque prussiano, e aqui estamos nós!

terça-feira, outubro 11, 2005




A armada terra do Brasil

O Brasil é um país muito fácil de entender. É só aplicar a mesma analogia que se faz aos cães, quando equivalemos 7 anos dos nossos a 1 ano deles. Assim, um cachorrinho de 2 anos é como um adolescente humano de 14. A comparação não é perfeita, é claro, mas dá pra entender o humor de ambos dessa forma. Porém, nem tudo que se aprende com um, pode-se aplicar ao outro. Por exemplo, podemos controlar o apetite sexual do cachorro com castrações. Em geral, o adolescente resiste e esperneia antes da cirurgia, mas é quase igual.

Onde eu estava mesmo? Ah, sim, o Brasil sempre o Brasil. Bom, se fizermos a mesma lógica de permutação para o Brasil, podemos estipular que 100 anos de uma nação equivalem a 1 ano dos nossos. Então, o Brasil seria na verdade, uma criança chata de 5 anos. Simples, não?

Evidentemente, algumas nações amadurecem cedo. O Canadá, por exemplo. Eles lá seriam uma criança da mesma idade do Brasil, mas muito mais precoce. Aprendeu a ler sozinha, escova os dentinhos todo dia e respeita os mais velhos. Outras nações ficam gagás antes do tempo, como a França e a Itália. Eles seriam adultos chatos de 25 anos, perdidos em briguinhas e crises existenciais. Olhariam para o passado numa época em que eram crianças prodígio e apareciam em todos os programas de tv. Hoje, têm um emprego chato, um casamento morno e a barriga só faz crescer.

O Brasil, pra variar; comporta-se como uma criança traquina, mal educada, sujismunda e respondona, e que não tá nem aí, pois o mundo vai acabar mesmo. Se agora ele está brincando com um carrinho a álcool, deixa o carrinho abandonado pra ir mexer com um gasoduto boliviano. Aí perde o carrinho, e os pais têm que comprar outro mais caro senão ele chora. Começa a brincar de fazer trilha na floresta amazônica, aí se perde, chora e a FAB tem que ir lá resgatar. Ganha um kit nuclear importado da Alemanha, não lê as instruções, quebra tudo ou monta tudo errado e fica reclamando. Diz que vai repartir o bolo com seus amiguinhos, assim que o bolo crescer, mas come tudo sozinho e vai parar no hospital com indigestão.

Se os pais deixam ele brincar com armas de brinquedo, acerta uma bala de água no olho do Paulinho. Se os pais proíbem, vai atirar pedras na vidraça do vizinho.

Solução? Olhaí, o Brasil precisa de umas palmadas! Alguns politicamente corretos diriam que o Brasil precisa na verdade de pais mais carinhosos, amor, educação e... ah, cansei. Nem de menino, geo-política e fábulas eu entendo.

segunda-feira, outubro 10, 2005



Heráldica do hermeneuta

Sou de uma família rica, tradicional e importante. Só pra se ter uma idéia, pra escrever meu nome completo tenho que usar vírgulas. Meu bisavô emprestava tanto dinheiro pro Governo, que deixaram ele escolher o nome para um novo Estado. Ele o batizou com o nome da mulher dele, vovó Catarina, que aliás era uma santa. E nem quero mencionar o ramo judaico da família, pra não humilhar vocês. Meu tio-avô Adão, dizem, era dono de meio mundo.

Mas toda família tem um ramo pobre, e infelizmente, é a esse que pertenço. Papai era rico, mas também era um nefelibata, do tipo que financiaria qualquer empreeitada maluca de um amigo, só por diversão. Como naquela vez em que todo mundo sensato plantava café, mas ele insistira em ter uma enorme plantação de nêsperas, porque simpatizara com o nome. Ainda bem que ele não ouviu falar dos kiwuis. Ou daquela vez em que Santos Dumont - sim, aquele - fora lhe pedir uma grana emprestada. Papai não só financiou todos os projetos do jovem Alberto como deu seus pitacos, e juntos, construíram o protótipo revoluciónário de um navio mais denso que a água. Obviamente a coisa não deu certo e abafaram o fiasco, mas torraram-se milhares de contos de réis na aventura.

Durante um período de minha vida, estudei nos melhores colégios e tive os melhores tutores. Ninguém acredita, mas tínhamos tanta moral no Pedro II que nas missas do colégio, recebíamos a comunhão com patê de fois grois na hóstia. Bom, a dêbacle começou pra valer quando papai se meteu com a política. Ele já era então uma espécie de nobre decadente, mas ainda tinha amigos importantes. Quando apoiou o movimento de Secessão dos Sexagenários Solteiros do Ceará - que queria, entre outras coisas, a abolição da aliteração da língua portuguesa -; foi a gota d´água. Fomos então, abandonados por todos.

Tive que trabalhar para sustentar a família. Eu, que outrora passava meus fins de semana na nossa fazenda, apelidada carinhosamente de Capitania Hereditária; já que ela ia do Mato Grosso à Bahia. Eu, que quando jovem, ia a Paris tão freqüentemente como um reles brasileiro vai a uma rezadeira. Eu, que nesse instante, rascunho essas memórias num velho caderno de pautas , o qual...

- Ei, seu moço, vai demorar muito?
- Um momento, senhora, estou indo. Aqui está.
- Obrigadinha, viu?

...o qual já faz um grosso volume e que espero, um dia, poder publicá-lo em livro. Quem sabe, possa dessa forma restaurar nosso antigo fausto familiar. Agora trabalho num cartório, graças ao que restou da influência de nosso sobrenome. É um emprego modesto, eu sei: carimbo atestados de analfabetismo - que têm, obviamente, que ser assinados pelo requerente; e psicografo certidões de óbito. Mas um dia, ah.. um dia, eu - nós,- voltarem...

- Ei, seu Zé, onde é o banheiro?
- Ali, cidadão, primeira porta à direita.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Povo, recadin:

O blog completou uma semana de funcionamento!
Graças a vocês - sim, no plural - estou me divertindo muito e
ficando famoso. Fui até abordado na rua, ora vejam; mas aí
eu não soube informar onde ficava a rua Clarindo de Queirós.

Sábados, domingos e na minha missa de réquiem não terão
textos novos, mas de segunda em diante podem voltar que
a casa é de vocês.

Obrigado pelos e-mails gentis e carinhosos.

Hasta, H.
Engenharia Tectônica

Meu nome é Arquibaldo Geraldino Horácio Canaverde III, e tenho algo a dizer. Mas antes, quero fazer uma pequena introdução. A foto acima, ninguém ignora; é do meu querido Nordeste do Brasil. Aqui é um lugar legal, tem praia e coisa e tal, mas é quente. Muito quente. Muito quente mesmo, não tô brincando. Pra se ter uma idéia, quando bate um vento apenas moderadamente morno, a gente diz que que tá vindo uma frente fria do Piauí. Aqui é tão quente que nós temos quatro estações bem definidas, que são: Calor, Mormaço, Quentura e Abafado. É com essas premissas na cabeça e um inolvidável senso de espírito público, que venho a propor a criação de um novo ramo da engenharia, a agora denominada Engenharia Tectônica. Isso tudo pra gente poder projetar e construir... o Golfo do Brasil.
( Nota pras gerações futuras I: por quê diabos não batizei o Golfo com meu nome, como fez Magalhães com seu estreito e Lord Sandwich com suas ilhas? Assim eu evitaria a repetição do erro de Colombo, que deixou que seu imediato imediatamente batizasse aquelas ilhotas com seu nome. Bom, poderia ser pior, a gente podia hoje morar na Vespúcia do Sul, já pensou? )

Bom, onde eu estava? Ah sim, o Golfo do Brasil! A idéia seria escavar boa parte do Estado do Piauí, para a criação de um Golfo artificial, e dessa forma, amenizar o clima da região como um todo. É como cortar um membro gangrenado para salvar o resto do corpo.

Mas não achem meu queridos amigos do Piauí que proponho a destruição do seu valoroso Estado. Não, que é isso, o Piauí é até necessário, onde mais a gente iria estocar urânio? Minha proposta, inclusive, faria com que o Piauí saísse da constrangedora situação de ter o menor litoral do Brasil para ter justamente; o maior litoral de todos, deixando os baianos mortos de inveja. Além disso, o Piauí continuaria a ter seus 3 senadores, como todos nós. O único problema político da minha proposta é que Teresina seria submersa. Mas ora, taí uma boa chance de se construir outra cidade, e batizá-la com um nome melhor. Que tal Piautópolis?
( Nota pras as gerações futuras II: sinto ter criado um monstro. E se a idéia pega, e os mineiros quiserem escavar uma saída para o mar, apenas para lucrar com isso? Sei lá, tipo uma enseada que cortasse o sul da Bahia, talvez. Acho que nossa costa seria toda esburacada, mas que diabo. Me mostre onde está na bíblia que ganhar metros cúbicos de dinheiro é pecado? )

Já que chegaram até aqui, vamos em frente. Dessa vez analizarei os detalhes e vantagens ecológicas de termos um Golfo. Todos sabem que as calotas polares estão derretendo. Ora, se a gente abrisse uma grande vala, para onde essa água extra do degelo pudesse escorrer, salvaríamos as cidades litorâneas do mundo da destruição. Veneza, Nova York, Amsterdã e Aracati agradeceriam. Haveria uma Piaui Street em cada uma dessas cidades, como homenagem ao bravo povo piauiense que doou seu Estado em holocausto.

Todo o clima do Nordeste do Brasil seria alterado, pra melhor. Mal comparando, é como os brasilienses fazem, quando o ar fica seco demais e eles dormem com uma bacia d´água na frente do ventilador. Tô mentindo? E as nossas históricas secas seriam coisa do passado - talvez até a gente deixasse de chatear os paulistas com pedidos de dinheiro. A gigantesca movimentação de terras possibilitaria a criação de ilhas artificiais. Não confundir essas ilhas com as ilhas naturais, formadas pelos pontos altos que a água não alcançaria. A simples existência de um arquipélago/atol geraria milhares de ecosistemas, que aventaria a possibilidade de abrigo para diversas espécies de peixes, aves, crustáceos e tudo o mais.

Falarei agora das óbvias vantagens econômicas de se ter um Golfo aqui pertinho. Evidentemente que novas cidades à beira mar surgiriam, e cada uma delas com portos e marinas. Imaginem: uma imensa laguna, relativamente rasa em muitos pontos, mas com capacidade de atrair navios de médio porte. Haveria esportes náuticos, turismo, ilhas paradisíacas, praias de nudismo, presídios federais, alvos para a Marinha praticar tiro, entrepostos de piratas, paraísos fiscais... as possibilidades são infinitas.

Isso sem falar do boom imobiliário. Ah, apenas para cortar um pouco o barato de vocês, quero dizer que minhas empresas já compraram vastas extensões de terra do Piauí, Maranhão e Ceará, à margem do futuro Golfo. O que hoje foi comprado como sendo terra seca e sem valor, amanhã será uma espécie de Caribe brasileiro, de valor incomensurável. Sinto muito, mas o mundo é dos espertos. Outra coisa que pesa a meu favor: já estou meio velho e cansado, então, nada mais adequado para convencer uma gatinha a dormir comigo que dar uma ilha de presente pra ela. Quem disse que só o Onassis tava podendo?
( Nota pras as gerações futuras III: não esquecer de comentar sobre a cara do seu Raimundo Nonato, pacato lavrador de Piripiri, quando eu comprei as terras dele, re re re. Ele achou que tava enganado um trouxa. Pense no ataque cardíaco que ele vai ter, quando souber que vendeu tudo a R$10,00 o hectare. Depois da construção do Golfo, o metro quadrado vai ser mais caro que em Tóquio, huá, huá, huá. )

Recebi um fax há pouco, de arqueólogos que estudam fósseis e as maravilhosas pinturas rupestres do Piauí. Essas pinturas, dizem os cientistas, são únicas e antiquíssimas, de valor inestimável para toda a humanidade. Eles temem que se o projeto for pra frente, elas sejam perdidas, sepultadas sob toneladas de água. E eles mesmos, percam seus empregos. Bom, caros exumadores de esqueletos, vejam o lado bom da coisa: daqui a 1.000 anos, seus alunos terão um enorme cemitério de navios antigos para se divertir. E quanto às pinturas, convenhamos, até meu poodle desenha melhor.

Pra terminar, o quadro acima mostra como vai ficar o novo perfil do Nordeste, com especial atenção às novas cidades que inventei e batizei. Se tiver alguma sugestão, e quiser homenagear algum parente seu, escreva para minha empresa dando sugestões. Sempre vai sobrar um beco escuro pra gente dar nome.

quinta-feira, outubro 06, 2005


Futebol, o opróbio do povo

O futebol é o esporte das massas, grelhados e saladinhas. Se o futebol é o ópio do povo, o que será o entorpecente da elite? O críquete? Bom, certa vez fui assistir a uma partida entre nossos times locais. Praticamente só temos dois times, que jogavam naquela noite: Vergonhoso de Caxias versus Flamanco de Salto Alto.

A partida começou com um minuto de silêncio, para que o árbitro pudesse se concentrar e começar a contagem sem se distrair. Acontece que ele não tinha cronômetro, e muitas vezes o jogo tinha que recomeçar várias vezes pois o árbitro perdia a conta. Depois de dez minutos de jogo, acharam a bola, que caíra num matagal. Aos 11 minutos, numa jogada genial, Canhestrinho do Vergonhoso toca para CXM que só tem o trabalho de empurrar a bola pro gol - ladeira acima, pois o campo tinha um pequeno desnível de 4 metros.

Com um a zero no placar - escrito num quadro negro emprestado da bodega do Seu Neném - o Flamanco teve que correr atrás do prejuízo, pois precisava do bicho pra pagar o ônibus de volta. Aos 33 minutos, Enxada empata para o Flamanco! Fora uma bola indefensável, que o goleiro adversário não teve como alcançar pois se atrapalhara com suas muletas. O jogo transcorre normalmente e aos 22 minutos, o árbitro determina pênalti para o Vergonhoso! O autor da infração, o jogador Betume do Flamanco, alegara que não tinha feito nada de mais. E pra provar, foi buscar a perna decepada do jogador do Vergonhoso, mostrando ao árbitro que não havia hematomas. O árbitro não foi na conversa e Pica-pau bateu e fez. Dois a um para o Vergonhoso!

No intervalo, os atletas foram para os vestiários, e quando um desocupava a moita, outro tomava seu lugar. Os técnicos travavam entre si verdadeiras batalhas lógicas. O técnico do Vergonhoso, seu Peroba, já fora militar (na Guerra do Paraguai) e sabia tudo de estratégia. Já o técnico do Flamanco, Joãozinho Trinta, tinha a juventude a seu favor. Esse apelido do técnico era devido a uma infeliz partida, na qual seu primeiro time perdera por um placar elástico.

Na volta à campo, a tensão era visível! Obviamente, como o Vergonhoso levava vantagem, fazia a maior cera de ouvido. A retranca armada por seu Peroba só era ameaçada ocasionalmente pelos chutes fortes de Paco Rabane, o galã do time do Flamanco. Quando parecia que tudo caminhava para um final chato e para a vitória do Vergonhoso, eis que o patrocinador do time do Flamanco - justamente seu Neném, dono da bodega - entra em campo e a partida é interrompida! Forma-se aquele bolo de gente e passam a mão na bunda do Paco Rabane. O Goleiro doVergonhoso aproveita e fura a bola com sua peixeira. Os torcedores jogam cascas de frutas nos jogadores, que mortos de fome, disputam a dentadas os bagaços. É o caos!

A partida recomeça, mas há desfalques importantes. Tala Larga e CXM são expulsos pelo Vergonhoso, e Paco Rabane e Betume, do Flamanco, fogem de mãos dadas, com destino ignorado. Arranjam outra bola no presídio ao lado e voltaram a jogar. Aí, quem não faz, leva. Num cruzamento de fora da área de litígio, Ruma toca para Cabeção, que cabeceia e faz! Dois a dois no... mas aí seu Neném, puto de raiva, levara embora o placar. O árbitro encerra a partida. Resultado final: empate em dois a dois. É por isso que o futebol é uma caixinha dois de supresas.

Sim, mas afinal, o que significa CXM, nome do jogador autor de um dos gols do Vergonhoso? Ao ser entrevistado, ele elucidou, com honras ao vernáculo; tão insidiosa dúvida:
- Ah, é que como eu sou muito feio, me apelidaram de Cão Xupano Manga. CXM pra facilitar.
Ah, bom.

quarta-feira, outubro 05, 2005




He talks in maths

O Tetraedro era tetraplégico, pois quebrara uma das arestas numa quina de mesa. Estavam butano a culpa no Propano, que propagava aos quatro vértices que era inocente. Ninguém acreditou nele, só seu fiel amigo o Fenol Aldeído, que era muito formol. De nada adiantaram os protestos, e o Propano foi se benzeno até a cadeia molecular, onde passaria meia vida ao lado dos piores elementos.

O Pentágono era agnóstico e inerte, mas em função de uma curva fechada - na qual tivera fraturas exponenciais e mesmo assim sobrevivera; resolveu se dedicar à jardinagem estética e estatística. Cultivava rosáceas compassadamente, e depois as transferia para um esquadro na janela. Como gostava muito de plantas baixas e rasteiras, o apelidaram de Pentagrama Sintética. Chegou a ser acusado pelo acidente com o Tetraedro, mas tiraram o dele da reta.

Salvo pelo Big Bang, o Pentágono achara para si uma causa: o Princípio da Casualidade. Moveu mundos e fundamentos para inocentar seu amigo Propano, mas tudo caiu no vácuo das boas intenções. Seu exemplo, no entanto, inspirou os demais. Revoltas e clamores provocaram um verdadeiro movimento browniano na sociedade alfanumérica, e a sintese de tudo isso foi o congelamento das relações bipolares.

O sistema continuava a apresentar falhas, e nada conseguia-se provar por a mais b. Grupos de direita e esquerda apenas tangenciavam o problema, que estava na incapacidade lógica da existência de um governo de moto-perpétuo. Houve discursos acalorados no bico de Bunsen. A oposição fazia uma verdadeira placa de Petri contra novas idéias. A coisa, sem dúvida, descambaria para uma espiral de violência.

E ela veio. A dinâmica quântica dos choques entre as partículas era culpa dos gases nobres, que estavam se lixando pras frações ordinárias do conjunto da equação. A revolta estava na iminência de. Logus, a coisa derivou e integrou para um estado de caos e anarquia. Nem o Quadrado, tão conservador, deixou de aderir. Mas o tempo passou e por fim, veio a solução: a Solução Alcalina.

Como se fizessem parte de um mesmo plano geométrico, os Algarismos Arábicos tomaram o poder, via a organização fractal chamada Al Calinos. Instituíram regras ortodoxas e criaram a lei de tolerância ao Zero, além de subjugar todo o poderoso Alfabeto Romano. Em pouquíssimo tempo de Plank, estiveram perto de criar, por fim, a Teoria do Campo Unificado!

Mas aí veio um Buraco Negro e engoliu tudo.

terça-feira, outubro 04, 2005

Meu povo, recadin procês:

mudei as configurações do Blog. Agora ele aceita
comentários à vontade, sem necessidade de
cadastramento. Os que quiserem postar uma
mensagem vão me deixar muito contente.

Raquel, brigado pela dica:-)




Perdoai o perdulário

Estava passeando no mercado, livre, leve e solto, resfolegante como uma gazela no cio, encharcando de progesterona todo tronco que via ereto; quando de repente...
- Nossa, as meias do Bincha! Era tudo o que eu precisava!
O Bincha era um chapa meu, gente fina paca, amigo de todas as altas horas, que de vez em quando me emprestava seu par de meias, pra gente ver a sessão das dez.

Comprei e levei-as pra casa, mas elas estavam fétidas e imundas. Eu é que não ira quebrar minhas unhas postiças naquela gosma, então, comprei uma lavadoura de roupas último tipo, num queima da Daslu. Chato que a lavadoura, da cor bege-bergerè; não combinava com a decoração da minha área de serviço, assinada pelo grande arquiteto Santiago Calaboca. Tudo muito simples: expulsei o arquiteto, que dormitava no meu sofá de oncinha e instalei a lavadoura na sala, onde eu poderia ver meus filmes em paz enquanto minhas queridas meias eram purificadas.

Mas como uma coisa leva à outra, que deriva numa terceira, que vira uma quarta para casais; achei que minha tv de citoplasma era muito passada para combinar com a lavadoura. Aí, raspei minhas economias e comprei outra tv modernérrima, azul-ébano, cheia de botõeszinhos e com saída USB. Mas quer saber? Enjoei da casa. Ora, euzinho era dono das meias mais chiques ao sul do Labrador, tinha a lavadoura mais poderosa da galáxia e uma tv que faria Clóvis da Selva de Bornay - meu ídolo; se dissolver de inveja. Não poderia morar nesse bangalô decadente, concordam?

Então tá resolvido! Fiz um empréstimo no balção .BMP e comprei um loft básico, com vista pro lixão do Jangurussu. Estava tããão contente com minha casa nova que pensei assim: valha-me Deus, isso lá é carro de gente? Herdei esse Sinca Chambord de papai, que em 1977 me deixou dentro dele e disse que ia ali comprar cigarros, mas nunca mais voltou. Então passei numa concessionária Audi e perguntei onde ficava o feirão de usados do Zé Pechincha. Os meninos da Audi foram gentis e disseram que ficava ali do lado. Empenheei minha alma, mas levei um carrinho lindo, rosa-chá, que quase não tinha marcas de balas. Agora minha vida está completa!

Dei uma festinha pra comemorar, mas quem veio foi um oficial de justiça. Eu achava que todos meus amigos viriam pra festa, então fui abrir a porta vestindo apenas as meias do Bincha. Obviamente o oficial não gostou de me ver assim, tão undone, e falou com delicadeza:
- Veste uma roupa, xibungo!
Ele também disse que todos os meus bens seriam sequestrado por falta de pagamento, mas eu fingi que nem ligava. Agora vivo debaixo do viaduto da BR. O diabo é que à noite o Diabo veio cobrar a alma dele, e quando me viu daquele jeito, com a maquiagem borrada de tanto chorar e vestindo novamente apenas minhas queridas meias, não se conteve:
- Menino, as meias do Bincha! Estou pasma! Conta, conta onde tu achaste essas loucuras?
Aí eu disse que foi no mercad... mas ele me interrompeu, passou a mão na minha cinturinha de kinder-ovo e disse que pra onde a gente ia, teríamos muito tempo pra conversar.

Ah, ele disse também que o Bincha tá por lá. Hum...

segunda-feira, outubro 03, 2005




Pelado na Hélade

Comecei minha viagem pelo Peloponeso nu em pelo. Meu guia, Prometeu Lorotas, prontificou-se a levar-me ao local da famosa guerra, assim que limpassem o sangue da praia. Chegando lá, vi que as coisas eram muito caras e concorridas, e os turistas persas dominavam tudo. Decidi ir para o local da batalha das Termópilas, que era mais em conta pois morrera menos gente.

Ao chegarmos, achei tudo caidaço e derrubado, parecia que houve uma guerra. O melhor a fazer era visitar as famosas plantações de aspartame de Esparta, mas nosso carro fora consumido pelo fogo grego e ficamos a pé, a ver navios triremes. Nossa sorte é que o maior item de exportção da Grécia eram os filósofos, e encontramos dois baratinhos, a preço de uma côdea de olivas. Os sábios - chamados de Pó de Papoulas e Mexerikonos - nos aconselharam a alugar uma biga pra seguir viagem. Aceitei a dica de tão inteligentes homens, e rapidamente aluguei a biga, atrelei os dois sábios a ela e prosseguimos viagem.

Prometeu a todo momento me mostrava as maravilhas de seu país. Ali, dizia ele, fora o local onde Ícaro tirara o brevê. Acolá morava o cabeleireiro cego da Medusa. Naquele haras fora onde Pégaso nascera, e assim por diante. Perguntei o que significava aquele monte de maltrapilhos andando pela rua, parecendo baratas tontas, e Prometeu jurou que eram os membros da escola peripatética de Sócrates. Fiquei curioso em conhecer tão famoso sábio e fomos tentar falar com ele.

Nos aproximamos e em sinal de respeito, açoitei os sábios que estavam atrelados à biga para que relinchassem o hino da escola de Sócrates. O famoso mestre ficou emocionado. Convidou-nos então para tomar um cálice de cicuta e puxarmos um dedinho de prosa e retórica com ele. A ceia fora maravilhosa: do Ostracismo vieram as ostras. Da Atlântida, as caudas de sereia fritas. E o prato principal foram as duas virgens que Minos mandara de Creta. Que festa!

Voltei para casa com lágrimas nos olhos e gonorréia, mas valera a pena. Soube que Prometeu aumentou sua empresa de turismo, e hoje oferece até passeios de rio com um tal de Caronte. Quantas saudades de todos.

sábado, outubro 01, 2005

O mundo está perdido