quarta-feira, novembro 30, 2005



Artífices e artistas

O que é arte?

Eu tenho uma resposta pra isso mas que envolve três perguntas. Se a coisa pendurada na sua parede atende a pelo menos uma delas, então é arte sim.

Isso aí teve intervenção humana?
Um toco de árvore queimado, enfeitando a sala. Se esse tronco passou por algum crivo humano, tipo: polimento, poda seletiva, cortes deliberados, ou então traduz uma forma de protesto deliberado ou intenção estética; então é arte sim. Curioso, não? Uma árvore no campo não é arte, mas essa mesma árvore numa galeria, com uma plaquinha escrito "Ode ao vento", é arte. Ah, a plaquinha em questão deve conter o preço também, aí coisa vira obra-prima.

Serve pra alguma coisa?
Arte não é artesanato. Em geral, arte não serve para nada. Se você fizer uma capa pro sofá com seu Matisse, ele vira artesanato - e eu vou ali lhe dar um tapa. Se, entretanto, deixar o quadro pendurado na parede da sala com uma luzinha em cima, aí não só é arte da boa como você tá podendo, hein? A Receira Federal sabe disso? Aqui vai um porém, que também é muito curioso. Se uma peça de artesanato ou um utensílio doméstico - como uma colher, por exemplo - for enterrada por 1000 anos, e depois achada e exposta num museu, ela vira arte. O status da coisa muda, pois mudou nossa percepção sobre ela. Sacou?

Você e todo mundo acha que é arte?
Se você acha que as fraldas sujas do seu bebê fazem um abstrato padrão pictórico marrom, então é arte. Principalmente se você fotografa tudo e expõe. Mas não me convide pra exposição, ok?

Nesse ponto notamos algo em comum com todas as questões. Arte foi feita para ser exposta, para ser submetida à apreciação pública. O artista dá sua cara a bofetes.

A arte primitiva, de início puramente cosmética - colares de contas, brincos de ossos - foi uma das primeiras formas de percepção do outro: estou me enfeitando para que me vejam. Arte só funciona se tiver alguém vendo, ora. Uma árvore na floresta vazia emite som ao tombar? Um livro de poemas fechado para sempre - e que ninguém jamais lerá; é arte?

Parece que arte só pode ser feita por humanos, não? E os macacos que pintam? Ah, mas um macaco pintar não é arte. Mas emoldurar os quadros e vendê-los, arrecadando fundos para o zoológico; promove a coisa à categoria de arte. Mais uma vez, a intervenção humana.

O pôr-do-sol não é arte. Mas o poema " O Ocaso, por Cacaso" é.

Então, qualquer um pode ser artista? Yep! Como é que dizem? - Basta ter atitude. Um óculos diferentões e um corte de cabelo ridículo também ajudam, claro. No fim, o que vale é ter algo a dizer. O cara até pode ser um artista conceitual, pô! Embrulhar montanhas, fotografar gente nua na rua, enlatar a própria merda, escrever textos dadaístas como este são atitudes artísticas tão válidas quanto emporcalhar telas.

Sabe duma coisa? Será que a arte se resume a qualquer coisa que possa ser publicada num livro chique, pra ficar repousado na mesinha da sala, só pra impressionar as visitas? Pensemos, pois.

terça-feira, novembro 29, 2005



The three trees

No primeiro semestre da faculdade de arquitetura, havia uma cadeira chamada desenho de observação. Um bom arquiteto deve ser capaz de realizar croquis e rascunhos rapidamente, com a maior fidelidade possível, pois essa anotações são importantes na hora de captar os detalhes que interessam ao projeto - coisa que a fotografia, por não ser tão seletiva, mais complica que ajuda.

Então a gente tinha que desenhar árvores. Um bom modo de identificar os calouros da arquitetura é que eles estão sempre com bloquinhos na mão, desenhando alguma coisa. Muitos de nós ficaram ali pelo pátio da faculdade, desenhando as mangueiras seculares, mas eu, pra ser diferente, resolvi pegar o circular e desenhar as árvores que eu via nos pontos de parada. Pegava o ônibus, descia numa parada que tivesse uma praça ou uma árvore bem destacada e ficava ali, com meu bloquinho na mão. Puro Monet dos pobres.

Aí eu desci no pesseio público, famosa praça da cidade, que foi usada há 200 anos como campo de execução de prisioneiros. Lá foram fuzilados os heróis da confederação do equador, movimento que queria apenas destronar D. Pedro I e instaurar a república. D. Pedro não era propriamente um democrata, ainda mais com quem mexesse com a fazenda dele - no caso, o Brasil todo. E tome bala. Bom, mas o passeio público hoje é famoso por causa de um enorme baobá que foi plantado ali pelo senador Pompeu, há mais de 190 anos.

Escolhi um banquinho e fiquei ali desenhando a tal árvore africana. Esqueci de dizer que a praça era - e continua sendo - um self-service de putas, aliás, as mais baratas de Fortaleza. Adoro dar esses serviços de utilidade pública. Enquanto eu desenhava, elas ficavam olhando e puxando papo. Deve ser engenheiro ou arquiteto, uma delas disse. Acho que mostrei os desenhos que fizera até entao e elas gostaram muito.

Só um pequeno adendo: existem três baobás em Fortaleza. Um no passeio publico e dois no paço municipal, atual prefeitura. Esses dois são muito jovens, mas em menos de 100 anos vão ficar muito bonitos.

Terminei o desenho e peguei novamente o circular. Devo ter enchido o caderno com umas dez árvores, ao longo da linha. Uma das últimas foi justamente nos jardins da reitoria, quando eu já estava de volta - o prédio da arquitetura fica vizinho do prédio da reitoria. Sentei no gramado e fiquei rabiscando um louco flamboyant quando percebi que alguém se aproximava. Um sujeito havia me visto rabiscando, e perguntou se eu desenhava. Eu disse que sim, e ele pediu que fizesse um desenho de um cavalo, pois ele precisava de um molde para construir em isopor uns cavalos para uma festa qualquer. Fiz o desenho e ele perguntou quanto era o serviço. Bom, já que era assim, cobrei o equivalente a uma revista de banca, o que daria hoje uns 10 reais. Na época eu tinha a coleção da revista "As Raspadinhas" - nada a ver com loterias, re re re - e comprei o mais recente exemplar. Van Gogh era liso porque queria.

A faculdade foi uma época muito legal. Entrei lá em 1989 e saí em 1999. Fiquei triste. Se eu saísse em 2000, teria atravessado três décadas: 80, 90 e 00. Fica pra próxima.


Oba, o baobá!

segunda-feira, novembro 28, 2005



Filma nóis, Galvão!

Língua só existe a falada, dizem muitos lexicólogos e alguns humoristas. Também acho. A gramática engessa a língua, tornando-a pouco tolerante com o falar do povo. Como diria o Manuel Bandeira, no seu Evocação do Recife:

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada.

Olhaí, tá certo. Outra que acontece é que as palavras devem evoluir livremente, e se a gramática é o pastor-alemão da língua, os dicionários são seus campos de concentração.

É preciso estar atento para não perder a sintonia com o falar das ruas, senão a gente pode ter o mesmo destino dos hieróglifos egípcios: foram decifrados há tempos, mas ninguém sabia, afinal, como se pronunciava o que estava sendo lido. Depois ficaram sabendo que a pronúncia era parecida com o copta, língua falada ainda hoje pelo povo pobre do Egito. Mais uma vez, o povo.

Tem a história que meu irmão engenheiro ouviu numa obra, envolvendo dois valorosos artífices da construção civil. Aparentemente eles conversavam sobre o corte de alguma árvore. Foi assim:

- Ei, ma! ( ma é macho. Não me pergunte, nem eu entendo isso.)
- Que é, ma?
- o que eu faço com essa arve?
- deixa de ser burro! Arve é aquilo que avoa! O nome disso é pranta!

Não dá pra ficar com raiva disso. É como se zangar com o cara de Shine, re re re. Todo o poder ao povo!

Bom, mudando de assunto. Fico curioso com palavras que ao longo do tempo, perderam o significado original e circulam por aí travestidas de outra coisa. Essas palavras quase não deixam vestígios da sua origem remota, como imigrantes aculturados, mas é possível fazer um rastreio tipo uma engenharia reversa, e saber de onde elas vieram.

A palavra Armário, que hoje significa pouco mais que um depósito de coisas ou um cara muito grande, se trai como sendo originalmente a designação de um local para se guardar armas. Prateleira segue a mesma lógica, é claro. Hoje uma prateleira não guarda só pratos.

A palavra Pacosa, que os mais velhos vão reconhecer como um sinônimo para indivíduo do sexo masculino que tem uma súbita atração por outro de mesmo gênero; originalmente vem de Paco. São Francisco é um santo muito popular. Na Espanha, para se economizar tipos móveis na hora de imprimir textos sobre ele, usavam a forma abreviada de Phco, do latim Phranciso. Como a palavra derivou pra tão pitoresco sinônimo não tenho a menor idéia.

O detestável verbo Judiar é outro exemplo de palavra falada no piloto automático. Se as pessoas parassem um pouquinho pra pensar no que estão dizendo, veriam que do jeito que a palavra é empregada, judiar, ou maltratar; é comportar-se como um judeu. É assim que os judeus agem? Puxando o rabo de gatos, batendo em crianças, dando tabefes em inválidos? Imagino quem terá espalhado essa palavra por aí: Antisemito IV, o papa espertalhão?

Mas nada supera o que houve com as palavras Piscina e Aquário. Piscina vem de piscis, peixe, E Aquário vem de acqua. Donde se concluiria que uma piscina é um lugar para se colocar os peixes, e um aquário; um local para se armazenar água. Côsa de lôco.

sábado, novembro 26, 2005



Tô criando um cajueiro pra fazer um bonsai.

sexta-feira, novembro 25, 2005



Fortress, California.

Por que as ruas do centro velho de Bagdá são tão estreitinhas? Por que os apartamentos mais valorizados de São Paulo são justamente os que têm vista para o norte? E o que essas duas assertivas têm em comum? Sei que você deve estar agora numa ansiedade incontrolável, quase aspergindo adrenalina pelas narinas, então, não vou deixá-lo em suspense por mais tempo. A relação entre essas perguntas crucias é o nosso bem e velho Sol.

Cada cidade desenvolve estratégias de sobrevivência de acordo com o local onde está. É mais ou menos como cada ser vivo faz, ao criar ou não carapaças e penas, dentes e garras, espinhos e flores; conforme a evolução e o ambiente demandam. Em geral, as cidades querem se aquecer ou querem se esfriar. As ruas da velha Bagdá são estreitas para que as paredes das construções projetem sombras, e dessa forma, torne o transitar pelas ruas e vielas mais agradável. Veja que naquela época os camelos não vinham com ar-condicionado.

Já São Paulo, pelo contrário, tenta captar a Luz do Sol. Quando possível, os arquitetos voltam as fachadas para o norte na capital paulista pois é de lá que vem a luz do Sol. São Paulo está exatamente no trópico de capricórnio - assim como Londrina, Antofagasta, Windhoek e Alice Springs, por exemplo. O Sol, portanto, já atingiu seu máximo deslocamento para o sul, o que faz com que as fachadas voltadas pera esse ponto cardeal fiquem para sempre na sombra. Que o digam os edredons mofados, guardados num ap sem sol.

Fortaleza e seus habitantes também desenvolveram estratégias de sobrevivência que moldaram sua geografia e seu caráter. Alguns poderiam ver essas características como meras manias de velhos chatos, ou esquisitices de nativos superticiosos; mas eu encaro como sabedoria.

Veja o caso dos sinais de trânsito. Aqui em Fortaleza é comum que os carros parem muito antes da faixa de contenção de pedestres, deixando um longo espaço que poderia ser ocupado por um ou mais carros. Por que? Porque o motorista prefere parar na sombra, e se essa sombra está a 30 metros da faixa, ele não hesita em parar ali. Isso é de pirar a cabeça de um turista: como assim? Que desperdício de espaço, e os que vêm atrás? Bom, como aqui todo mundo faz isso, torna-se comum, e todos já preveêm que o palhaço da frente vai parar antes.

O centro da cidade é forrado de marquises. Elas oferecem uma proteção contra o sol muito eficiente, e que existe em quase todo centrão velho das cidades do Brasil. Pena que essa solução não funciona ou não interessa à Aldeota, novo centro financeiro da cidade. Sabem por que, né? A marquise privilegia o caminhar. São de uma época em que se batia muita perna pela cidade, ao ar livre. Hoje, as pessoas descem de um carro e entram num shopping. Sou um saudosista em extinção, eu sei.

Outra coisa curiosa das ruas daqui: existe o lado da sombra e o lado do sol. As casas ou apartamentos no lado da sombra são mais valorizados do que os que ficam no lado do sol. Vou explicar: nas ruas de sentido norte-sul, a fachada de casas com vista para o leste pega sol pela manhã. As fachadas que se voltam para o oeste pegam o terrível sol da tarde. As casas do lado da sombra são as que têm a fachada voltada para o leste, ficando, portanto, toda a tarde na sombra. É nessas calçadas onde ainda se vêem familias reunidas até a noitinha, em alguns bairros tranquilos da cidade. O outro lado da rua ainda permanece quente e mormacento até umas 8 horas da noite!

Fico maluco quando vejo aqueles filmes americanos que mostram um casamento ao ar livre, e todos estão engravatados e sentados com o maior solzão na cara. Ok, eu sei que apesar do sol, a temperatura pode ser de apenas 10 graus, mas pra minha visão maniqueísta cearense, se é sol é quente e se é sombra é menos quente. Pura inveja.

Procissões. As procissões no Ceará só acontecem depois das quatro da tarde, quando o sol esfria. O mesmo vale para comícios e jogos de futebol. Nas paradas de ônibus, todos ficam alinhadinhos na sombra do poste, pode reparar.

Nossa eterna coexistência com o sol forte tem mais vitórias que derrotas. Com todo o respeito à recente seca no Amazonas e Rio Grande do Sul, posso afirmar que calamidade prum cearense é seca pra mais de dois anos. Aquilo lá foi um veranico besta, se fosse aqui a gente ia era mangar do Sol.

Notaram que esse texto não vai levar a nenhuma conclusão? E se deixarem não termino mais.

quinta-feira, novembro 24, 2005



Todo cartunista que se preze tem um desenho sobre ilha deserta. O melhor que eu vi pertence ao Mino. É diabolicamente simples: um ilhéu deseja construir um barco, mas no meio do processo acaba a madeira do único coqueiro da ilha. A cena mostra justamente ele regando um broto de coqueiro, aguardando pacientemente que cresça, enquanto o barco, ainda pela metade, aguarda ao lado. Isso tudo é dito num único quadrinho, e o traço do Mino é elegante e sóbrio. O cara é bom.

Esse papo todo é pra dizer que sou fascinado por piadas de gênio. Postulo então que todo arremedo de cronista/humorista/escritor/palhaço deve ter seu próprio conto/ensaio/divagação/piada/elucubração sobre o gênio da lâmpada. Cometerei o meu agora.

O náufrago, o gênio e o guarda-roupa.

Natanael Furtivo estava numa ilha deserta. A ilha deserta é do tipo clássico: um coqueiro sobre um banco de areia, no meio do oceano. O horizonte abre-se infinito em todas as direções, o céu está esplendorosamente azul e o mar plano como um espelho. Natanael já está na ilha há décadas. Seu visual também é clássico: barba grisalha gigantesca, roupas em frangalhos, pele tostada de sol.

Eis que ele avista algo no horizonte. É uma garrafa! Sim, uma garrafa, definitivamente uma garrafa de vidro toda enfeitada vem boiando em sua direção. Ele apanha a gararfa e do fundo se sua memória, lembra-se que sua mãe falava sobre contos de gênios em garrafas e lâmpadas, e que concediam pedidos.

Como é mesmo que liga? Ah, sim, basta esfregá-la. Funciona! Um gênio imenso materializou-se na frente dele. O gênio também tem um visual ortodoxo: turbante de penacho, calças folgadas, sapatos recurvos e um coletinho de turco. Nem o brinco de ouro faltava.

Tudo acontece como de praxe: três pedidos e nada mais. Porém, Natanael também lembrava das piadas de gênio, onde o sujeito a quem eram concedidos os desejos sempre se dava mal. Décadas de reflexão solitária fizeram de Natanael senão sábio, prudente.

E o gênio ali esperando - e reclamando do sol o tempo todo.

- Gênio, - disse por fim Natanael. - Já sei o que vou
querer. Quero um pedaço de papel.

- Até que enfim. Mas só isso? De que qualidade?

- Sei lá, um papel resistente.

- A4, Letter..?

-A4 está bom.

- Concedido, aqui está. Qual seu segundo desejo?

- Uma caneta.

- Tem preferência pela cor da tinta?

- Azul.

- Concedido. Permita-me dizer, amo, que nunca em 10.000 anos como gênio, encontrei um mestre tão pouco ambicioso como vós. Poderia vos conceder ouro, jóias, mulheres, tudo o que seus mais delirantes pensamentos pudessem criar, mas o que vejo? Um tolo que se contenta com bobagens. Estou cansado e quero ir embora. Qual seu terceiro e último desejo?

- Quero que você fique aqui, e me faça companhia. Preciso de alguém pra conversar, ajudar na pesca, vigiar os barcos que porventura passem; essas coisas.

Com o papel e a caneta, Natanael escreveu um pedido de socorro e o colocou na garrafa do gênio, lançando-a em seguida ao mar. - Se eu a achei, alguém mais vai achá-la também, pensou Natanael.

Agora com a ajuda do gênio, as tarefas na ilha estão muito mais produtivas, e a esperança de socorro, que há muito abandonara seu rosto, voltou ao semblante de Natanael. Pena que o gênio só viva emburrado.

quarta-feira, novembro 23, 2005



Todo dia tem a hora da sessão coruja
Só entende quem namora

Meu nome é Sorbone de Sousa, e cheguei tarde ao pub. Trazia comigo uma garrafa de vodca presa a um barbante, que arrastava pelo bar como se fosse um cachorrinho. Vem, Alexei! - gritava a todo instante para a garrafa, indiferente aos olhares desconfiados dos clientes. Sentei num banquinho e coloquei o Alexei em cima do balcão. Meu estado era deplorável: tinha os óculos virados de cabeça para baixo e os cabelos em desalinho me deixavam a cara do Nick Nolte.

A fumaça dos cigarros parecia um fog, e do meio da névoa veio o barman, dizendo que eu não podia trazer bebida pro bar. Seria o mesmo que Judas levando seu próprio vinho para a santa ceia, como que duvidando do vinho do anfitrião - disse o prolixo profissional das bebidas. Argumentei que aquela garrafa era meu amigo, e mais respeito com ele. Só porquê o cara é russo e não fala tua língua? O barman me deixou em paz, mas não sem antes murmurar algo que identifiquei vagamente como êxodo filho da multa, ou algo assim.

Aquele era meu pub preferido, o Shaved Pub´s. É um local onde me sinto em casa - se minha casa tivesse carpete vermelho nas paredes e a foto do Rocco Siffredi na porta do banheiro. O bar era utilizado também por muitas confrarias profissionais para suas festas de fim de ano. As mais freqüentes eram as noites dos carcereiros, dos embalsamadores, dos prestidigitadores e dos sacristãos. Naquela noite eu comemorava vinte anos do meu primeiro coma alcoólico, quando uma loura estonteante sentou-se a meu lado. Saquei imediatamente que era uma profissional do sexo, pois levava um taxímetro pendurado no pescoço. Tenho por norma não pagar por esse tipo de serviço - já que sempre fujo do motel antes - ; então ela desistiu de mim e saiu com o Alexei.

Privado de meu companheiro de bebedeiras, só me restava a sarjeta. O Purgatório era o último bar aberto aquela hora, apelidado assim por ser um verdadeiro receptáculo das almas perdidas da cidade. Como já bebera bastante, não tenho muita certeza de como cheguei lá. Só sei que Napoleão Bonaparte e um ornitorrinco amarelo me receberam muito bem, e acho que beijei um vaso de tulipas. Tudo o que me lembro depois disso é que acordei na Praia do Futuro, com os óculos na posição certa e um cachorro lambendo minha boca.
Aquilo foi a providência divina, que age por linhas vexaminosas. Eu sabia, portanto, que encontrara um novo amigo. Agora eu e o Bart - o labrador que me confundiu com um doguito - iremos aprontar todas no próximo fim de semana.

terça-feira, novembro 22, 2005




Sopa de sentenças

O limo que escorre lento lima minh'alma da lama, limpa a lupa dum comedor de chocolate e o último cachalote que restou nem prestou atenção.

Às vezes, a vida vaza no vazio das estepes. Meu estepe também estava murcho, de forma que fiquei na estrada. Um mocho moço machucou a asa, e pousou no capô. Esperando o reboque, o frio dava o toque duma noite que prometia longa. A milonga que tocava na rádio russa era falsa, obviamente. Não tinha o Hey! característico. Enrolado na camurça, teço uma burca entre as rezas do meu terço, torcendo para que amanheça.

O solstício é o momento propício para saltar dum precipício. Caso não se esborrache todo, ainda resta a possibilidade do vôo.

Meu único descendente não foi condescendente com minha curva ascendente. Alçado à categoria de ser alado, celerado coloquei-me a planar por sobre as nuvens. Do alto, avistei minha visita que chegara. Interrompi o vôo e cumprimentei meu avô, há muito morrido. Vagas veladas, veludas vozes, voraz carnificina numa latrina velha. Minha pecha de sedutor despencou como a virilidade dum velho albatroz. Atrocidades cometidas não garantem a comicidade de qualquer ator, quem quer que seja.

Mas nada disso interessa realmente. O que se torna claro é a sucessão dos dias e noites, um depois do outro. Nem mesmo um magnata do petróleo poderia reverter o fluxo do magma, que dessa forma, arrasou cidades. Magalhães, inclusive, era um cara muito estreito. A missa rezada na corte européia serviu para agradecer aos deuses da montanha, pois Montaigne recusara-se a comparecer. Os Andes, pra você ver, nem se mexeram. Os Alpes, uma tribo rival, mandaram representantes que ficaram estáticos durante toda a cerimônia. Bem feito.

A Verdade por trás de tudo está oculta pelas nádegas dum jurisconsulto. Daí a inacessibilidade penal. Só por meio de um magistrado superior poderíamos obstacular o processo - o que não foi nenhum sacrifício. Assim, as tábuas da lei puderam ser esculpidas, e levadas a um embusteiro que trocou tudo. Séculos depois, ainda se fazia sentir o desperdício duma boa idéia que fora posta em prática por imbecis.

Já agredi a muita gente por hoje. Os gradis da prisão estão repletos de gente que não soube calar quando deveria, e de outro tipo de gente que nada proferiu. Assim, Preferiria eu estar num time intermediário, ou seja, no Venturoso da Piedade. Mas basta! A cólera consome meu ser, e os juros o meu ganho. Arraganho as amídalas, mas de nada vale essa secessão de horas partidas.

Amanhã o Sol não nascerá no mesmo local. O poente se tornará nascente e as nascentes do Nilo secarão. A famigerada fome se instalará em cada casa, nem bem abastecida de víveres e de miríades de flores. O escriba que ora tateia o teclado tatuará uma virgem em seu braço, recoberta de bestas e de feras tesas. A virgem não durará neste Estado para sempre, será consumida pelo fogo da volúpia e se mudará com mala a cuia pros cafundós do Ceará!

segunda-feira, novembro 21, 2005



O universo numa casca de noz

O Laerte tem uma tira sensacional, onde ele mostra Deus às voltas com a rotina doméstica. O Todo-poderoso está fazendo um macarrão para uma turma de anjos quando percebe que não tem escorredor em casa. Os anjos entram em pânico, mas o Criador - que além de tudo é muito criativo; improvisa usando uma raquete de tênis. - Essa eu vi o Jack Lemmon fazer em Se meu apartamento falasse, arremata um bem humorado Deus.

Aí me toquei que eu mesmo tenho uma pequena coleção de causos
domésticos. E quem não tem?

Se já tava difícil arrumar uma namorada, vai ficar pior depois que souberem que na falta de um escorredor e principalmente, de uma raquete de tênis, usei um perfex razoavelmente limpo para escorrer o macarrão. Como todos sabem, aquele pano de limpeza, o perfex, é todo furadinho então, funcionou perfeitamente. Mas aqui vai uma dica pra quem quiser repetir a experiência em casa: não aperte com muita força a trouxa de macarrão, pois os furinhos podem se arrebentar e adeus macarrão, a não ser que você goste de tempero na forma de pedaços de pano azul.

Apesar de morar só, não gosto de andar pelado em casa. Mas um belo dia não havia um único calção limpo, e mesmo para meus flexíveis padrões de higiene, a coisa tava demais. O que fazer, então? Simples: vesti uma camisa ao contrário, metendo os pés pelas mangas - literalmente, e amarrei a barra da camisa na barriga. Fiz um desenho para ilustrar essa minha única incursão no mundo fashion. Que tal?

Quando eu digo que não sei nada de cozinha, nem ferver água, não tô exagerando. Precisei ferver um pouco d´água para desentupir o ralo da pia, e deixei a panela com a água no fogão enquanto ia dar uma olhada no computador. O tempo passou e comecei a sentir um cheiro de queimado estranho. A água havia evaporado, deixando só o alumínio da panela em contato com o fogo. Por isso que não assisto àquele Truques de Oliver, pra não morrer de inveja.

Também costumo criar aranhas. Lá no apartamento tem muita formiga também, e costumo atordoar algumas para em seguida, jogá-las nalguma teia de aranha que esteja por perto. O efeito é fantástico, quem precisa do NatGeo? A aranha é atraída pelo contorcionismo da formiga, pois lembre-se que eu jogo a vítima ainda viva. Em segundos, a aranha envolve a formiga com sua teia e dependendo da fome, almoça ali mesmo ou deixa a pobre formiga suspensa num casulo, como se fosse numa despensa ou como um lanchinho para mais tarde. Certamente estou condenado ao inferno das formigas mas ao mesmo tempo, também ao paraíso das aranhas, como benemérito. Quem soluciona essa charada teológica?

sexta-feira, novembro 18, 2005




A Lua me disse

O sultão estava entediado com a vida palaciana. Mesmo coisas que lhe davam enorme prazer, como decapitar suas esposas, já não era assim tão divertido. Os cortesãos, percebendo a tristeza de seu amo, inventavam o tempo todo brincadeiras para distraí-lo. Estavam brincando de pega-vareta com alguns cristãos - quem perdia, era empalado nas varetas de 4 metros de comprimento, e adivinha quem sempre perdia. Subitamente, o sultão largou tudo e foi perguntar ao sábio da corte o que fazer para aplacar esse tédio que o consumia.

O sábio da corte era famoso por sua engenhosidade, uma espécie de Arquimedes do deserto, mas ao contrário do sábio de Siracusa - que teve suas maiores idéias numa banheira -, este nunca tomava banho. Duas de suas mais bem sucedidas idéias foram a câmara de tortura portátil, que o sultão levava nas viagens de férias e a cobrança de impostos.

Estava trabalhando numa invenção nova, uma espécie de bisavó da guilhotina, mas que só cortava os pés dos condenados; quando o sultão inrompeu pelo seu laboratório. Expôs tudo aquilo que a gente já sabe, enquanto o sábio ouvia quieto. Quando o sultão terminou, ele disse que sabia exatamente o que fazer para alegrar os dias de seu senhor.

O sábio, que também era muito ambicioso, queria usurpar o divã do sultão, mas ainda não tivera a chance. Quando o sultão veio com aquele papo, percebeu que era a oportunidade perfeita. Propôs, então, que ambos saíssem numa caçada à Lua. Segundo o sábio, a Lua nascia num vale muito além das montanhas mais distantes, e se o sultão se posicionasse bem, poderia alvejá-la com seu alfange, antes que ela subisse muito e ficasse fora de alcance.

Organizaram a expedição e depois de muitas luas - sem trocadilho; chegaram ao tal vale que o sábio indicara. O sultão foi posicionado na beira de um penhasco, e esticou o braço na intenção de ferir a Lua. Como ainda não a alcançasse, o sábio sugeriu segurá-lo pela capa, assim o sultão ganharia alguns centímetros, suficientes, talvez, para ter a Lua na ponta da espada. O rei caiu na conversa do sábio e obviamente, este o deixou cair da altura colossal.

É por isso que dizem que os doidos têm uma queda pela Lua.

De volta ao palácio, o sábio inventou a história que quis e reclamou o trono para si. Conquistado o sultanato, o novo sultão reinou feliz por muitos anos, até que o palácio foi sepultado pelas areias, e desapareceu sem deixar vestígio. E eu não faço a menor idéia de como vim a saber disso.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Povo, fiz uma pequena, minúscula e angstrômica
colaboração no site do Aran.

O Edson Aran é um cara muito doido, criador da
gostosíssima Telma Luíza e da empolgante série
Vendaval de Emoções. Ah, ele inventou a Saga dos
Cangaceiros Mortos-Vivos e um purrilhão de outras
coisas. Vai lá, bicho.


Francisco de Paula Ney, poeta e jornalista cearense, morava no Rio de Janeiro nos idos dos anos 30. Certa vez, sua esposa, preocupada com a ausência do marido, foi encontrá-lo bebendo com amigos em plena sexta-feira santa. Ao ver a mulher, Ney levanta-se e sai tombando. A esposa insiste:
- Até na sexta-feira santa, quando morreu Deus!
O poeta respondeu:
- Quando morre a divindade, a humanidade cambaleia!

De vez em quando eu canso de esculhambar a tudo e a todos, como um boxeador que se fatigasse por bater num saco de areia inerte. Então, vou fazer uma coisa perigosíssima: humor a favor. Escolhi algumas fotos do meu querido Ceará - não tô sendo irônico!- e a título de legenda, farei um breve comentário sobre cada uma delas. As fotos todas foram tiradas da coleção Cores e Sentimentos, da editora Escrituras. Essa edição destaca o Estado do Ceará, pelas lentes dos fotógrafos Celso Oliveira e Tiago Santana. O meu cachê eu quero em suco de caju.
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Enseada do Mucuripe, Fortaleza.
Ao fundo, a cortina de hotéis e dos apartamentos de 2 milhões de reais. Não sabia que vender carne de jegue dava tanta grana. Em primeiro plano, as famosas velas do Mucuripe. Sério, é impressionante como numa cidade grande ainda se vê uma coisa dessas: pescadores artesanais, que realmente podem te vender o peixe na beira da praia.

Toda manhã e à tardinha, o calçadão da Beira Mar é o grande lugar para caminhadas. Pode-se ainda encontrar o melhor para se comer e beber. Minha dica é o fantástico camarão pescado na hora, baratinho, que fica no final da avenida. Da última vez que fui lá comi tanto que achei que, sozinho, havia extinto os crustáceos da costa cearense. Alarme falso, felizmente.
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Floresta Nacional da Chapada do Araripe, Crato.
O Ceará, curiosamente, abriga três zonas climáticas distintas, num espaço territorial relativamente pequeno: praia, sertão e as serras. Todos conhecem razoavelmente bem as praias e o sertãozão brabo, mas as serranias são quase desconhecidas, mesmo para muitos cearenses.

A Chapada do Araripe fica no extremo sul do Ceará, a uns 550Km da capital. Verdadeiro oásis no sertão, a região é conhecida pela fertilidade do solo e por ser razoavelmente imune às secas. As enormes plantações de cana de açúcar são marcas da região, assim como a famosa cachaça Na Bundinha. Quando for lá, pergunte onde tomar Na Bundinha que todos terão o maior prazer em indicar um local. O solo ainda abriga um absurdo e riquíssimo depósito de fósseis de mais de 160 milhões de anos, que nem o contrabando desenfreado parece ameaçar.
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Vaqueiro, Quixadá.
O vaqueiro e o jangadeiro são nossos heróis locais. Muitos hotéis-fazenda no sertão oferecem um pacote com direito a cavalgadas, shows de vaquejadas - uma espécie de rodeio -, caminhadas pela caatinga, lagos e grutas da região, além de rapel, forró e degustação de licores, vôos de asa delta, o escambal.

Eu morava em Quixadá quando soube da morte do John Lennon, em 1980, e presenciei um terremoto! Foi um ano bem movimentado, literalmente, re re re. Certa feita, há poucos anos, fui tentar comprar um gibão, que vem a ser o traje típico do vaqueiro nordestino. Eu queria fazer graça numa viagem a Porto Alegre, mas descobri que não existe vaqueiro gordo, aí, nenhum traje coube em mim. Logo vi.
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Pedra Furada, Jeri.
Paradisíaca praia cearense, inexplicavelmente preservada. Digna dos melhores paraísos caribenhos, o vilarejo conta ainda com hotéis de todos os preços, cyber-cafés e bares muito loucos, na beira da praia. Passei o carnaval lá, em 1990. O café da manhã da gente foi vodca com lagosta, comprada por uma merreca de um jangadeiro. Sensacional.

Uma curiosidade sobre o litoral do Brasil: como estamos todos voltados para o Atlântico, a leste, vemos o sol nascer no mar e se por no interior. Mas em certas épocas do ano, em algumas regiões do Brasil, é possível ver o nascer e o pôr do sol no mar, também. A Ponta de Jericoacoara - que também é o extremo norte do Ceará -, e a cidade de Fortaleza são pontos privilegiados. Situadas ambas numa ponta de terra que avança pelo mar, nesses locais é possível ver o espetáculo entre os meses de maio e agosto.
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Açude do Cedro, Líbano. Ops, Quixadá.
O Açude do Cedro foi construído à base de muita porrada no lombo de escravos, por ordem do imperador Pedro II. O objetivo era nobre, pelo menos: que se acabem as queixas sobre as secas e que se faça a vontade dos meus amigos e bajuladores, os barões locais, sem os quais eu não duraria nem um minuto no trono dessa joça que é todo o Brasil. Coitado, não sabe como as coisas funcionam - ou pior, sabia bem até demais. Modernamente, tivemos a construção do Açude do Orós e do verdadeiro mar interior que é o Açude do Castanhão, mas pra quê? Pra que os ricos locais, sabendo previamente onde iriam bater as margens do lago, comprassem as terras a preço de uma pitomba. Tsc tsc tsc, nada mudou.

Apesar das canalhices, o Cedro é belíssimo. Estranhamente, a visão da barragem tanto é bonita com o açude cheio ou vazio, culpa da exótica paisagem e dos monolitos de Quixadá, como esse arremedo de Pão de Açúcar que a gente vê aí em cima. Segundo a Rachel de Queiroz, escritora, que por coincidência é a cara da minha vó; as alegrias do cearense são o alpendre, a rede, e o açude cheio. Quem é daqui entende.
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Ceará, Brasil.
Quem quiser se orientar, cá está um mapa com a localização de onde foram tiradas as fotos. Ainda há muito o que se ver, e quando eu tiver mais material inédito, vou postá-los aqui.

quarta-feira, novembro 16, 2005




Cicatriz esposta ao sol

É uma tradição cearense colocar apelido em tudo. Os ônibus e o transporte coletivo são um dos alvos preferidos dessa forma de humor, pois sem ter a quem recorrer para protestar contra a notória má qualidade do serviço, o povo se vinga dos poderosos e de seus instrumentos com a chacota pública.

Colocando apelidos, o povo imprime no objeto de seu ódio uma condenação à vista de todos. Como antigamente se fazia com os criminosos, identificando o motivo de seus crimes com plaquinhas penduradas. E o humor, é claro, é a água que ajuda a engolir uma pílula amarga.

Um apelido pode grudar como concreto. Ônibus, no Ceará, tem o singelo apelido de cata-corno. Isso não significa que os ônibus cearenses venham de fábrica sem teto, para que os chifres se acomodem à vontade; e nem que todos no Ceará sejam cornos - tem uns dois ou três que escapam, realmente -, mas isso diz muito como somos tratados e como nos sentimos: traídos.

No início do século XX, havia no Ceará um transporte improvisado que consistia num vagão de bonde puxado por um velho motor à gasolina, que deve ter sido usado no 14-bis. Esse motor vivia quebrado, e quando funcionava, impulsionava o bonde à respeitável velocidade de um preá manco. O rangido fanho da estrutura, semelhante ao grasnar de uma pata em trabalho de parto, fez com que o povo o apelidasse sabiamente de pata-choca. E assim ficou.

Por essa época, existia também a linha férrea que ligava várias cidades do interior ao litoral e a Fortaleza, a RVC - Rede Viária Cearense. Mas como há sempre um porém, os vagões estavam sempre em frangalhos e a já idosa locomotiva resfolegava a cada subida mais íngreme. O povo então apelidou a locomotiva da RVC de Rapariga Velha Cansada, com muita justiça.

Pra terminar, um apelido novo, que espero que cole no homenageado como super-bonder. Nosso metrô de Fortaleza, um natimorto cujo parto à fórceps está custando mais de 195 milhões de dólares, jaz hoje abandonado e insepulto num imenso canteiro a céu aberto. Desde 1999, as escavações e desapropriações destruíram o centro da cidade, e o poder público - a quem deveria o tocar da obra; está inoperante e falido.

Em referência ao mentor e patrocinador moral da obra, o povo apelidou o void com o nome do nosso querido senador tucano: o buraco do Tasso. Que assim seja.

terça-feira, novembro 15, 2005



Rascunhos para meu grande livro sobre o Tudo e o Coisa Nenhuma,
a ser publicado quando não puder beber e nem pagar a NET, e
conseqüentemente, não tiver mais nada pra fazer.

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Descobri o sentido da natureza de Deus, a solução de todos os problemas da existência e de quebra, o sentido da vida. Nada mal para um feriado.

Reconheço que essa notícia mereceria um arauto melhor. Pensava-se que a Boa Nova viria na voz de um anjo acompanhado de trombetas, mas ao invés disso, ora vejam, aqui temos eu o Blogger. Que jabá, hein? E o Blogger não me pagou nada pelo merchan. É como se os primeiros Evangelhos tivessem o patrocínio do Azeite de Oliva Agronopoulos, o melhor azeite de todos os tempos que virão.

Pois bem, aqui vai. Depois tentem achar uma explicação melhor pra suas vidas!

O Grande problema do mundo é o Mal. O Mal é o Diabo. Por que Deus não dá cabo do seu anjo preferido e resolve tudo? Ele não pode fazer nada porque tem medo. Se Deus é o contrário do Diabo, e se o Mal é o contrário do Bem, eles não podem se tocar porque ambos seriam aniquilados numa explosão de anti-matéria que destruiria vários Universos.

Só isso.

Agora, serão pilhas e pilhas de papiros com especulações para os desdobramentos dessa minha teoria. Bem, aqui vão umas dicas para orientar a discussão:
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Como Deus e o Diabo não podem se tocar, eles travam batalhas lógicas e imateriais, nos usando como joguetes - tipo partidas de xadrez com nossas almas. Ou então, nos insuflando tentações e virtudes bobas, mas sempre à distância. Um "psst" vindo duma moita, um sonho esquisito, um desenho nas nuvens, cobras falantes; essas coisas.

Acho que deveríamos correr o risco de promover o encontro entre ambos. Ora, pelo menos se o Universo fosse aniquilado, não haveria nem um céu a se desejar nem um inferno a se temer. Numa boa, ganharíamos em todas as hipóteses.

Vamos dar uma empurradinha para o aperto de mão deles. A gente promove o tal encontro entre eles e como quem não quer nada - não deixando que ambos desconfiem que a gente sabe - ; daremos um empurrãozinho e pimba! Liberdade!

E eu acho que o Universo não explodiria! Acho que o som do fim de Deus e do Diabo seria parecido com um blop suave, como que vindo do estouro de uma bolha de sabão. Evidentemente que teríamos alguns problemas com a morte de Deus e do Diabo - doravante conhecidos como Deusbo. Mas nada que afetasse as leis da física. Ora, parece que o Universo funciona muito bem sem a interferência de Deusbo. Uma vez dada corda, ele - o Universo - parece funcionar sozinho. Newton e Einstein já sabiam disso.

Livres de Deusbo, estamos por nossa conta e risco. E sempre foi assim, convenhamos!

Simbolicamente, é como livrar-se do nosso próprio pai, para que nós mesmos nos tornemos o pai. Que o digam Édipo e Luke.

Problemas da teoria ou: liberdade demais intoxica.

Se Deusbo estiver mesmo morto, ninguém vai notar. Então, seria fácil para algum humano inescrupuloso - vocês conhecem algum? - tomasse a identidade de ambos e começasse tudo de novo.

O que fazer com a burocracia do Vaticano? Usar os caras pra administrar museus? Duvido que aceitassem sem espernear. Mas Já se tranformou templos em igrejas, igrejas em estábulos, estábulos em mesquitas, mesquitas em sinagogas - e tudo isso em bibliotecas, paióis de pólvora e palco pra raves. Então, todo mundo se acostuma, cedo ou tarde.

Com o fim de Deusbo, acabam-se todas as filosofias. Os filósofos desempregados teriam que aprender uma profissão útil, e como há séculos não sabem o que é isso, entrariam em extinção. Ou então, iriam ser guias turísticos nas ruínas da Acrópole, desempregando, por sua vez, os estudantes de arqueologia. É, melhor não mexer.
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Bom, era isso. Desculpe se frustro ou se roubo o que restou desse fiapo de esperança, mas a vida é dura, baby.

A humanidade saberá se virar. A humanidade é criativa.

Se um Deusbo faz tanta falta assim, cedo ou tarde será criada uma entidade antropomórfica e divina - essa palavra não existirá mais - personificada no gigantesco Ego da humanidade. Provavelmente dual, antagônica e que se alimenta de ambos. Parece que tudo vai se repetir, não? Mas essa entidade será mais inócua, por ser descartável. Tico para o Bem e Teco para o Mal seria um bom nome?

segunda-feira, novembro 14, 2005



E aí, Mossad?

O Serviço Secreto mantêm vigilância sobre suspeitos de atividades terroristas. Para tanto, há meses espionam Assim Hasssad, aparentemente um simples dono de uma botica de perfumes, mas nunca se sabe. Revirando sua correspondência e violando seu lixo, os agentes descobriram um bilhete cheio das habituais bravatas e chavões terroristas - obviamente cifrados, é claro - , e encarceraram o remendão para averiguações.

Eis a íntegra do bilhete, que para nós é prova irrefutável da trama conspiratória que estava se armando e da culpabilidade do acusado.

"Querida (...)

Meu desejo por você é inflamável como um tanque de querosene de um 767. Quem dera, se pela vontade de Deus, eu pudesse agora penetrar nessa sua fortaleza blindada, verdadeira torre de princípios, que oro seja derrubada pela força de minhas turbinas em chamas.

Você sabe, querida (...) que eu não hesitaria em romper as fronteiras que nos separam, e destruiria os déspotas que tornam nossa terra maculada. Também destroçaria qualquer infiel filho de uma camela que se opusesse a nós. Sou um reles vassalo de seus caprichos, tu que sois verdadeira ama de minha vontade. Quero que uma cimitarra cega empunhada pelo próprio Satã apunhale minhas costas, se eu estiver mentindo.

Quando estivermos juntos, a terra tremerá. Edifícios serão arrasados como dunas sopradas pelo vento, e todos eles invejarão nossa felicidade. Sinto como se eu fosse uma bomba prestes a explodir, se não confessar agora mesmo tudo o que meu coração chora, minha gazela de olhos verdes.

Agora tenho que ir pegar um avião, e tenho minha alma pesada como se carregasse vinte obuses em minhas malas. Sei que vamos demorar a nos ver, mas a vida será um verdadeiro paraíso florido se eu tiver teu corpo em meus braços mais uma vez.

Com a graça de Deus, sempre seu, Assim."

sexta-feira, novembro 11, 2005



Superman, son of Zod

O Superman, assim como Deus, tem problemas lógicos com sua onipotência. Todo absoluto gera singularidades. É conhecida aquela velha pegadinha que pergunta, matreiramente, se Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem mesmo ele possa erguê-la. Se Deus pode criá-la, então, ele não é assim tão poderoso, pois não pode erguer a pedra. Se não pode criá-la, então, há limites no poder de Deus e a coisa prossegue num loop.

Mas vamos deixar de falar de personagens de ficção e nos concentrarmos no caso do Superman. Todo mundo sabe que o Super pode tudo. Na GN O Reino do Amanhã, nem a Kryptonita - ou uma bomba K, como diz o Luthor; pode mais detê-lo. Culpa da energia solar absorvida pelo Super nas décadas em que vive aqui. Essa invulnerabilidade causa os seguintes paradoxos ou contradições, vamos lá:

Como o Super faz a barba? - Vi numa revista que ele incinera os pelos usando um espelhinho, que desvia sua visão de calor para escanhoar a pele. Muito bonito. Mas no filme Superman II, ele usa um espelho para desviar o raio de calor do General Zod. O raio refletido atinge o vilão e apenas o atordoa. Mas não deveria matá-lo? Ou a cobra é mesmo imune ao próprio veneno? Pessoalmente, acho que é melhor ser dogmático e estipular que Kryptoniamos não têm pelos na cara, que nem os maranhenses.

Pra que serve o intestino do Super? - Segundo as escrituras sagradas - o filme Superman I de 1978 - ; o Super se alimenta. Lois Lane pergunta se ele come e o Super responde que sim, mas só quando tem fome. Bom, mas se ele se alimenta, então o corpo dele absorve partículas de pão de centeio, digamos. Ora, isso não é uma brecha na sua aura eletroquímica, e na sua invulnerabilidade? Então bastaria dar veneno para matar o Super, certo? Mais uma vez, é melhor ser dogmático.

Consideremos então que a energia do Super vem exclusivamente do Sol Amarelo. Quando ele ingere algo, na verdade a coisa passa direto e vai descansar intacta num sanitário na Fortaleza da Solidão. Não é um assunto bonito, mas há de se ter rigor científico, pô!

Por que ele não mora na Lua? - Dia sim dia não um vilão tenta invadir as acomodações do Super no Pólo Norte. Por que diabos ele não se instala numa base lunar e foge desse assédio? De lá ele poderia monitorar nossas vidas sossegado e nem ia precisar de telescópios pra isso.

Segundo algumas correntes filosóficas, o Super não precisa sequer de oxigênio para viver, já que ele voa pelo espaço também. Realmente não entendo o por quê ele dele não se mandar pra Lua. Só se aí houver um componente freudiano não contabilizado: o Super gosta mesmo é de ser vizinho do Papai Noel.

A magia do ser - Outra vez segundo a GN O Reino do Amanhã, o Super é vulnerável à magia. ele se corta ao manipular a espada da Mulher Maravilha, feita sob encomenda por um deus grego aí. Significa então que basta uma rezadeira baiana pra botar quebranto no Super? E se ele trocasse seu escudo com o S pelas armas de Jorge? Estaria, de fato, de corpo fechado? Mais uma vez, a lida com absolutos gera imponderabilidades, como divisões por zero. Melhor deixar queito ou virar fã do Flash, que esse sim é pura física quântica!

Uma supertransa - Isso já foi resolvido há tempos: o Super só pode sexuar com a Mulher Maravilha, pois é preciso uma super vagina pra agüentar o tranco. Ok.

E nos momentos hã... de solidão do Super? Ora,você sabe do que estou falando. O cara tá ali no Pólo Norte, sozinho, sem nada pra fazer, então ele começa a pensar da Diana Prince e aí já viu, né? Os espermatozóides do Super também são indestrutíveis. Então, onde ele os guarda depois de perfurar o teto? Num aquário, como se fossem girinos?

quinta-feira, novembro 10, 2005



Of women

Minhas noites de sábado são pura aventura e caça predatória. Em geral compro um pote de sorvete e fico vendo tv até capotar de sono. Naquela manhã, porém, estava na Siciliano, abastecendo meu estoque de livros que por infelicidade, são verdadeiros repelentes de mulher - que posso fazer se me interesso pela Arquitetura Tupi e pela Hípica Asteca? Calculava se ainda sobraria dinheiro pro sorvete quando o tempo, subitamente, pareceu parar. Presenciei então uma verdadeira revoada de andorinhas: eram quatro adolescentes, entre 14 e 16 anos, que vinham em minha direção.

Nenhuma descrição fará jus ao shape dessas sílfides, mas vou tentar. Primeiro, o porte. Era como chegar com um buquê de flores numa exposição de jacas. Os seios delas eram tão empinados e firmes que deveriam se sustentar sob protensão. Os mamilos eram tão rijos que pareciam adagas, prontas a romper o tecido. O busto tinha tanta personalidade que devia ter um RG próprio. Eram altas e esguias como salamandras que usassem Rosa Chá. E elas falavam! Perguntaram alguma coisa ao atendente da loja, que estava mais abobalhado do que eu, que de esgüela, via tudo de pertinho.

A comparação com andorinhas não é vã, pois elas também andavam em bando, cientes do efeito que provocavam. Ah, se essa auto-confiança sobrevivesse à gravidade! Quando uma delas se virou, pude ver o shortinho que mal disfarçava uma bundinha tão perfeita que parecia ter sido moldada à mão, e que inveja do escultor. De frente também o espetáculo era de se adimirar: o tecido fazia um voluminho parecido com um mouse diminuto, embrulhado em lingerie. Curioso com todas elas estavam com o umbigo à mostra, como se fosse um botão de reset circundado de pelinhos claros. Ah, a fome, o maior dos temperos...

Tão rápido como pousaram, levantaram vôo, fazendo barulhinhos de golfinhos. Nesse ínterim eu fiquei o tempo todo com meu cartão de crédito na mão, congelado. O que aconteceu foi um encantamento: agora entendo os marinheiros arrebatados e suas visões de sereias. A moça do caixa passou o cartão e eu, distraído, assinei Hímemterio no canhoto, pois ainda pensava nas andorinhas. Saí da livraria e tal qual um perdigueiro enebriado, ainda pude sentir o perfume delas - que fazia uma trilha perfeita pelo shopping; dissipando-se no ar.

quarta-feira, novembro 09, 2005




Biografiadas II

Aqui vão mais dois depoimentos que postei no Orkut, dessa vez a respeito do Jack e do Leonardo. O papo está meio desatualizado. O Leonardo agora é um reles sacerdote no Aikido (na época do depoimento era apenas um sumo aprendiz), e o Jack vai estrelar em 2006 a continuação de Piratas do Caribe. Vamos lá.

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O Jack é tão fodão que ele mesmo vai caçar polvos do Pacífico pra extrair o nanquim com que trabalha. Ele é tão senhor de si, que demitiu a si próprio, pois não admite ter patrão.

Bebedor contumaz, também bebe com o Leonardo, numa boa. Gosta de cerveja escura porque ela clareia suas idéias. Se fosse ter outra profissão seria um médico, só pra poder retocar as radiografias no photoshop.

Feliz da vida, cultiva um cavanhaque onde se poderia cultivar melancias. Quando se aposentar, quer morar na ilha de Tonga. Porém, ruim em geografia, achou que era a ilha de Tanga. Por isso desistiu da idéia e foi morar no atol de Bikini, com uma ruiva que usava um bem pequenininho.

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O Leonardo é um profeta tardio. Apregoou o fim do mundo para o fim do século, estamos aqui em 2005 e até agora necas. Por isso, perdeu alguns seguidores, mas seus amigos fiéis ainda estão ao seu lado, para presenciar mais gafes.

Seu plano de dominação mundial incluía deixar a barba crescer até o joelho, vestir um manto surrado de algodão, portar um cajado e arrebanhar fiéis na porrada. Por causa do pequeno revés a respeito do fim do mundo, tenta apressar o apocalipse sacrificando fofos poodles numa pedra cerimonial. Com os poucos amigos que lhe restam, tá difícil fundar uma seita, mas dá pra formar um time de vôlei numa boa.

Sua inteligência é seu forte, e seu vasto conhecimento de HQs e cultura pop ainda vai levá-lo longe, provavelmente a um cargo de boy da DC Comics. Modesto, admite estar mergulhado só até as canelas no vasto oceano da sabedoria. Os outros sábios, vendo-o de canelas nuas, fugiram assustados.

terça-feira, novembro 08, 2005




Loura queimada de sol

Fortaleza é uma cidade matuta. Os fatores que determinam essa matutice são muito sutis, pois no fim das contas, toda cidade é provinciana a seu modo - sobretudo ao olhar estrangeiro. Interlúdio: percebendo que você é um turista, os garçons de Natal adoram repetir, não importa a época do ano: bem-vindo e feliz Natal! A cidade de Natal é uma gracinha, parece Fortaleza há 30 anos.

Bom, voltando: mas quando compra um carro zero, o fortalezense não tira o plástico dos bancos. É estranho observar como numa cidade quente, os bancos dos carros novos permanecem embrulhados em plástico por meses a fio. Talvez para provocar a maior quantidade de suor possível, sei lá. Deve ser um tratamento homeopático que desconheço.

Há uns anos houve aqui uma praga de matutice que me deixava absurdamente envergonhado. Espalhou-se o boato que saquinhos d´água pendurados afugentavam as moscas. E tome todo - eu disse todo - restaurante da cidade a exibir saquinhos pendurados por toda parte. Como explicar isso pros meus parentes na Noruega? - isso, tia Normunda, é sinal de sofisticação. Veja, as moscas pousam nos sacos, veêm o horrendo reflexo e morrem de susto. Ah, bom.

Eu poderia continuar por séculos. O fortalezense vaia qualquer coisa. Até o Sol já foi vaiado, quando depois de três dias de chuva forte, o sol inventou de meter a cara por entre as nuvens e não teve jeito: vaia nele. Se você quiser divertir o maior númerto possível de fortalezenses, basta circular por aí com o escapamento do carro soltando pequenas explosões. A cada peido que o carro der - de preferência um carro bem escangalhado, tipo um fusquinha 77 - você vai observar que ele carregará consigo um coro de vaias, tal qual uma olla moleque. Impossível não sorrir com a marmota, e isso torna o transitar pela cidade muito mais alegre. Deveria ser lei. Mas aqui vai uma ressalva: a vaia cearense não é o úúúúúúúú comportado do resto do mundo, não senhor. Tá mais prum iiiiiiiiihhhhhh agudo e arrastado, como se fosse uma horda de índios atacando o Forte Apache. Só vindo aqui pra ver.

E o templo da matutice de Fortaleza são nossos Shopping Centers. Tolos pastiches dos Shoppings do Sul do Brasil - que por sua vez, são fracos arremedos da mais nova moda de Miami; é lá que o fortelezense se esbalda.

O matuto típico já chega ao Shopping com o som do carro nas alturas, esgoelando o pior forró possível - existe algum bom? Não contente, exibe pra quem quiser ver - como se fosse possível evitar; uma torre de auto-falantes de 3m de altura, montada na traseira de sua picape L200. O toque de mestre é um neón violeta que o pobre descendente de Jeca Tatu instalou embaixo do carro, na esperança de chamar atenção para fêmeas da espécie.

O show continua quando ele desce do carro: óculos espelhados por sobre a cabeça, bermudão e tênis com luzinhas que ele comprou no camelô coreano, mas diz que foi em São Paulo. A cereja do bolo é uma camisa de time de futebol local, provavelmente preta e branca, mas se fosse tricolor dava no mesmo. Crente que tá abafando, vai se encontar com outros iguas a ele, que também não têm onde morar, mas têm uma Hilux financiada. Ah, vida besta.

segunda-feira, novembro 07, 2005




Momento Mainardi

Pensei em escrever algo esculhambando a China, país pelo qual nutro uma bronca danada. E qual o motivo dessa zanga, que o faz puxar briga com tanta gente? Bom, aqui vão alguns motivos, que verborragicamente tô lembrando agora: Praça da Paz Celestial, invasão do Tibet, armas apontadas pra Hong Kong, esfolamento de tigres siberianos, cães e gatos, bucaneiros e piratas dos direitos autorais e do comércio mundial, censura da internet, trabalho escravo, perseguição a artistas e cientistas e por aí vai. Mas...

...resolvi fazer um mea culpa nacional, antes de descadeirar o país dos outros. Percebi que quase tudo que se aplicaria à China também vale pro Brasil, então, lembrei dessa lista de pequenas atrocidades/eventos/fatos/nomes cometidos por esse povo tão cordial, amante da música e pacifico. Não me preocupei em listá-las cronologicamente, tô escrevendo conforme bate a raiva.
Se você se lembrar de outros, acrescente ao cardápio, por favor.

-Massacre de Canudos e Caldeirão pelas tropas do exército.
-Operação Condor - uma espécie de Mercosul macabro.
-Devastamento sistemático das florestas, particularmente
a mata atlantica, a floresta amazonica e a mata de pinhais.
-Morte de dona Bárbara de Alencar - avó do José -, pelas
tropas do império.
-Guerra do Paraguai, um genocídio capaz de deixar
Milosevich, Stálin, Saddam Hussein, Pinochet, Fidel,
Stroessener, Pol Pot e quase todos os sultões
turcos mortos de inveja.
-Destruição de Palmares - mesmo tendo durado 200 anos.
-A vilania contra a Revolta da Chibata - foi branco no preto.
-A Guerra do Araguaia.
-GetúlioVargas, ditador perpétuo do Brasil - a merda dos
cavalos ainda emporcalha o obelisco.
-400 anos de escravidão como política de Estado.
-Frei Caneca, Azevedo Bolão, frade Carapinimna e
padre Mororó, fuzilados pelo império.
-Tiradentes, o cara mais decente que já viveu nesse
país, morto também pelo império.
-A Marcha da Familia com Deus pela Liberdade.
-TFP.
-CCC.
-DOI-CODI.
-MR-8.
-Grupos de extermínio pagos por empresários.
-Censura. Censura. Censura.
-Bombardeio de Salvador pelo marechal Hermes da Fonseca.
-Brasil, ame-o ou deixe-o.
-Angra I, II e III, nossas futuras Chernobyls.
-A morte sistematica de crianças e velhos pelas balas,
pelo abandono e pela carestia ( é o novo! ).
-A morte dos 3 operarios de Volta Redonda.
-Carandiru.
-Palace II.
-Ônibus 174.
-Encol.
-Massacre da Candelária.
-"Tenebrosas transações" com os EUA.
-A Guerra da Borracha - os anos 10 do século XX foram de lascar!
-Eldorado de Carajás.
-Morte de Chico Mendes - pô, o cara foi morto depois do banho.
Se tivessem atirado nele ainda na tina, seria o Marat brasileiro.
-Trabalho escravo no Pará e arredores.
-Eventos que culminaram no assassinato de
João Pessoa e que criaram Getúlio e esse Brasil moderno.
-O Brasil tem uma malha ferroviária menor que a da Inglaterra.
Mas em compensação, nossas estradas são uma merda.
-O metrô de Fortaleza, o açude do Castanhão, o porto do Pecém,
o estádio Castelão, a ponte do rio Cocó. Temos nossas infames sinfonias
inacabadas também.

Eita nóis que ninguém nos segura!

Se pra cada um desses crimes a gente pegasse 30 anos, teríamos que cumprir mais de 900 anos de pena. Será que esse é nosso número cármico, ou seja, se a gente não aprontar mais nenhuma torpeza, em 2995 o Brasil dará certo? Acho que sim. Mas sabe como é brasileiro...

sexta-feira, novembro 04, 2005

Anschluss morena

O Brasil tem um grande problema. Um problema continental, que precisa ser resolvido. Não, não estou falando da CBF. Precisamos é de uma saída pro Oceano Pacífico, urgentemente. Por quê? Ora, porque ele está lá, e nós estamos aqui.

Portugal e Espanha impuseram limites para suas respectivas expansões, via tratados e coisa e tal. Essas regras sofreram um afrouxamento, pois a Espanha dominou Portugal de 1580 a 1640. Tecnicamente, tudo virou uma coisa só. O Brasil então rompeu a tensão superficial de Tordesilhas e transbordou para os lados, tomando terras de seus vizinhos. Os bandeirantes foram em parte responsáveis pela marcha para o oeste, depois acompanhada pelo gado e pela febre aftosa.

Esse processo continou ao longo do tempo, até que no século XIX todos os países da América do Sul já tinham declarado independência de suas colônias, e as fronteiras ficaram mais ou menos definidas. Fora uma guerrinha entre o Chile e a Argentina ali, outra entre a Bolívia e o Chile acolá, e o Brasil na moita comprando o Acre da Bolívia; tudo se aqueitou.

Diferentemente dos Estados Unidos, que não tinham esse problema de tratados - pois as nações indígenas não tinham canhões; sua expansão não parou nem com a barreira das Rochosas nem com o fim do continente. Foram até o Havaí e só não invadiram o Japão porque a porca engordou tanto que não cabia mais nada. Hoje ela se contenta de vez em quando com uma ilha de Cuba, outra ilhazinha de Granada e um Iraque pra tira-gosto. Bom, mas me perdi um pouco. Ah, as barreiras.

O Brasil e sua mal disfarçada sanha expansionista deveria ter cruzado os Andes, e seríamos hoje um país de duas costas - O monstro de duas costas! Não proponho uma invasão - mesmo porque, ela já existe: o Brasil é o maior importador e exportador de produtos para os países andinos e poderosa influência cultural e econômica. Então, como fazer essa hã... anexação? Simples: aceitam cheque?

Vejam as figuras abaixo. Parece um Brasil grávido
e disforme, mas agente se acostuma.



Falemos francamente: o PIB da Bolívia é menor que o da cidade de Campinas. Quantas Bolívias equivalem a um Peru? E o nosso querido e espezinhado Paraguai? E o Equador? Empresas brasileiras têm fazendas maiores que a área do Equador, pela hóstia. Façamos uma vaquinha e adquiramos nacos e nacos de nossos vizinhos!



Veja o exemplo recente de Portugal e Espanha. Os portugueses e espanhóis estão literalmente comprando tudo aqui no Brasil. Deve ser muita falta do que fazer com seus euros pra torrar tudo com a Varig, mas quem vai detê-los? A coisa é inexorável, e contém uma sutil ironia: com o tempo, as coisas voltam pros verdadeiros donos. Foi bom brincar de casinha por 500 anos.

Falando em vaquinha, voltemos à vaca fria: as vantagens dessa Anschluss morena seriam inúmeras. Pra começar, todo mundo imediatamente teria 5 títulos mundias de futebol, e nós teríamos um país com neve, ora vejam. A Bolívia, por exemplo, teria uma saída pro mar, sonho que acalenta há décadas. Acabariam as refregas entre Equador e Peru, pois agora tudo ia ser uma coisa só. O Braperquagualívia seria bilíngue oficialmente, com óbvias vantagens culturais!

Até bolei uma bandeira, que acham?



O simbolismo dessa bandeira é o seguinte: a cruz católica branca e quatro das cores predominantes nas bandeiras andinas mais a brasileira, com predominância do verde e do amarelo. Que tal? Ok, ok, tá parecendo o logo do Windows, mas puxa, quem sabe rola um patrocínio do Bill Gates?

Por enquanto é só. E ainda não voltei meus tentáculos para a renegada Província Cisplatina, que não espera por tardar, hua rá, rá! Depois volto a esse assunto.

Até logo, braperquagualivianos!

quinta-feira, novembro 03, 2005



Santos da Igreja Caótica

São Lombar, padroeiro da escoliose. Conta-se que São Lombar, por ser muito bobo e ingênuo, vivia levando nas costas. Cansado de sua condição, resolveu dar um basta enquanto carregava amarrada à cintura, uma carga de nitroglicerina que um grupo terrorista dos balcãs encomendara. Depositou a carga com todo cuidado no chão e pronunciou a oração que se tornou famosa: "ó Deus da dor nas costas, aliviai esse pobre servo de seu fardo, pois só um safado como vós nos daria tantas vértebras". Esquecendo-se da carga que levava, deu um violento ponta-pé em sua mochila. Mártir, seu dia é o 4 de Cócoras.

Santa Boata, padroeira - ou madroeira? - das mexeriquieiras. Santa Boata não tinha nada o que fazer, então, passava os dias ouvindo a conversa dos outros. Até aí nada de mais. O problema era que ela passava adiante a conversa, aumentando e supervalorizando o que considerava fraco, e diminuindo e desprestigiando o que achava exagerado - estava inventada, portanto, a fofoca e a especulação na bolsa de valores. Morreu destroçada por lobos, por ordem do rei Pinto I, o Pequeno. Ela também era muito mordaz com trocadilhos. Mártir, seu dia é o 21 de Aposto.

São Sansão, santo protetor das aliterações. Escritos proscritos por um prócere da Provença propõem que São Sansão sabia de antemão as sansões advindas de seu sumo simulacro. Morreu enquanto fazia desabar de tédio um templo de trezendas toneladas por sobre um tonel de tâmaras turvas, durante uma tertúlia. Seu dia é o seis de setembro de 1666. Também se comemora nesse dia o dia de Santo Antão, Santa Antônia e Santa Anta, protetora dos néscios e estultos.

São Toinho, o santo ficamenteiro. Sua graça é evocada toda vez que alguém quer se dar bem numa festa. Muito popular entre os jovens, sabe-se muito pouco sobre São Toinho. O que se conta é que perambulava de vila em vila, pois invariavelmente desonrava muitas moças de família e tinha que dar no pé rapidinho. Como troca o dia pela noite, não perdoa um só dia e não há dia santo pra ele.

Pároco Adentro, protetor dos impotentes. Reza a lenda que: se ajoelhou, tem que rezar. Foi instrutor de Casanova, mentor de Sade, amigo muito chegado de John Holmes e sodomita nas horas vagas. Costumava andar de cidade em cidade com seu cajado em riste, para desepero dos cidadãos de bem. Instituiu a tabela por minete e inventou o banho tcheco. Morreu enquanto discutia o sexo dos anjos com Gabriel, o próprio. Aparentemente o anjo se ofendera com alguma coisa que ele disse. A Pfizer estuda colocar sua foto nos produtos que fabrica, ou pode ser só lorota. Seu dia é o 69 de Quatro.

Santa Besteira, Batman. Figura execrável do mundo dos gibis, esta pacosa profissional nunca deveria ter sido inventada. Por causa de sua influência, o bom nome do Cavaleiro das Trevas está sujo até hoje. É por isso que Bob Kane está no céu e Bill Finger, autor intelectual desse colibri; rola numa poça de piche ardente na última esfera do inferno. Holy shit! Outros santos tão desprezíveis quanto: Saint Burt Ward e o Bedéu Joel Schumacher. Seu dia é o 24 de qualquer mês.

quarta-feira, novembro 02, 2005



Aos que vão nascer, eu os saúdo.

Ora vejam!

Vou ser tio!

Soube da novidade semana passada, e fiquei muito contente.

O bom dessa espécie de paternidade postiça, ou complexo do super-irmão-mais-velho no meu caso, é a total ausência de responsabilidade na criação formal do garoto. Explico: todos os pais são caretas. Eles têm que ser caretas, pois o menino precisa de pilares, teto, alicerces - isso é fornecido pelos pais. Mas a tenda de circo, a casa na árvore e o carrinho de pipocas é dado pelos tios, avós, primos e amigos da rua.

Não que os pais contribuam apenas com o talão de cheques. Não, não é isso. Mas os pais têm, muitas vezes, que dizer mais não que sim. Aos avós e tios - que são os pais sem carteira assinada - resta a parte fácil do trabalho. Sobrinhos e tios só se encontram quando querem, de preferência já banhados e de bom humor. Em geral, participam de programas malucos e descolados, como lavar o carro brincando de guerra de água, subir a serra, ir a festas de aniversário, noites de natal, domingos no parque e muito raramente; tomar conta do pimpolho enquanto os pais vão a um motel.

Já aos pais, cabem os passeios tutelares e traumáticos, como a reunião de pais e mestres, vacinação anti-pólio, enterro do gato de estimação, carona até o local das provas do vestibular, idas ao dentista, shows do palhaço Xibiu e por aí vai. Injusto, não?

Outra coisa que gostei, com a expectativa de ganhar esse sobrinho: vou ter alguém da mesma idade pra conversar! Novas bandas, livros instigantes e filmes malucos farão parte dos nossos papos. Poderei falar as besteiras que quiser - que nem nesse blog - que para meu sobrinho soará como se fosse a voz de Moisés. Mas isso tudo, eu sei,vai durar pouco. Lá pelos 10 anos de idade, toda essa galerinha já terá nos ultrapassado em inteligência e conhecimento, aí, será a minha vez de ouví-lo, com reverência e orgulho.

Espero que ele nos desculpe, neandertais gordos e velhos , por termos esculhambado de vez o planeta, e que não se importe de tomar conta desse asteróide calcinado que a gente chama de lar. Pode nos processar, eu entenderei. Faz parte da tradição humana empurrar a sujeira pra debaixo do tapete da próxima geração, então, não nos leve tão a mal - mas teça um tapete maior. Mesmo assim, bem-vindo a essa famíla inviável, a raça humana!

Acho que até 2106 ainda seremos o topo da cadeia alimentar, aí, aos 100 anos de idade, você pode olhar pra gente até com um pouco menos de vergonha. Quem sabe do alto das colônias em Marte? Pois tudo de bom e aproveite o século XXI!

P.S. Não esqueça de olhar o cometa de Halley em 2062, parece que dessa vez vai ser bonito. Abraços do Tio Hemeterio.

terça-feira, novembro 01, 2005




Se eu insulto um biografado,
ele se torna um biodegradado?

O Millôr Fernandes faz biografias de seus amigos, chamadas de Retratos 3x4 de amigos 6x8. No mesmo espírito, fiz alguns depoimentos para amigos meus no Orkut, e vou republicá-los a conta-gotas - principalmente como nos dias de hoje, em que assunto tirou férias e foi viajar pra Aricanduva.

Quem vai começar a brincadeira, a contragosto que seja, é o Rodney Hudson.

Mesmo Rodney Hudson tendo nome de rio, sua inteligência não é limitada pelas margens. Pelo contrário: de vez em ela quando transborda, e causa sérios danos na cabeça de quem está por perto. Tal qual um Nilo, sua mente também está infestada de jacarés. Cuidado, portanto.

Tem uma paixão secreta por conversíveis, daí sua fama de ser um notório cuca-fresca. É fã do Woody Allen, mas o cineasta nega até hoje a responsabilidade. Certa vez, fundou uma banda de rock com uns caras da Irlanda. O projeto não foi pra frente pois nem os irlandeses queriam tocar xaxado e nem o Rodney gostava de batatas. Então foi cada um pro seu canto.

Mestre da informática, seus conhecimentos beiram o impossível. De tanto andarem pela beirada, escorregaram, caíram, e hoje beiram o improvável - Deus sabe onde isso vai parar. Sua grande façanha, segundo conta o Barreto; foi isolar um bit no microscópio. E era um bit 0!