sábado, dezembro 31, 2005

Green grow...

sexta-feira, dezembro 30, 2005



Big Ape in the Big Apple

O doutor Empecílio Postiço trabalhava num artigo para a revista Friday Freak e precisava de espécimes para estudo. Sua especialidade médica eram casos psiquiátricos de pacientes que seriam recusados até mesmo num circo. Para achar tais cobais, a única saída era visitar o sanatório da cidade, e dirigiu-se para lá munido apenas de seu bloco de notas, lápis e um motorhome.

Na chegada ao afamado hospício, foi recebido por Almícar Castratti, diretor da casa, cantor de ópera e iminente doutor - já que estava sempre prestes a se formar mas nunca concluía sua tese. Fazia tempo que ambos não se viam, apesar de terem sido colegas em vários cursos na Faculdade de Megalomania George Lucas, e o doutor Empecílio demorou a reconhecê-lo. De fato, o diretor Almícar estava muito mudado: perdera metade do cérebro devido a uma auto-lobotomia que se impusera anos atrás e isso o deixou com um chanfro na cabeça parecido com uma rampa de esqui. Apesar disso, estava muito bem e saudável, mas nunca mais poderia usar uma cartola de plumas. Depois dos acalorados cumprimentos, foram entrevistar alguns pacientes, começando pela ala dos distúrbios leves.

Num porão escuro, a mais de vinte metros de profundidade, fechado por uma porta de titânio estavam os pacientes cujos casos inspiravam menos cuidados, daí a folga na segurança. O primeiro a ser entrevistado era um paciente sem nome que se julgava Deus. Isso não seria um grande problema se o ancião não tivesse criado um universo inteiro dentro de uma lata de Nescau e insistisse que todos deveriam andar nus cobertos apenas com uma folhinha de parreira. Doutor Empecílio perguntou se ele sabia por que estava no sanatório, e o ancião respondeu que só podia ser por causa de sua síndrome de tripla personalidade, já que era o Pai, o Filho e o Espírito Santo num só. Doutor Empecílio anotou tudo e satisfeito, agradeceu ao paciente. Que Eu lhe guie, disse o velhinho.

Mais à frente, os dois cientistas visitaram o quarto de Ytterk Dssea, que só falava por meio de letras de verificação de sites na Internet. Depois das apresentações, doutor Empecílio perguntou a Ytterk como se sentia. Kshhwe tyejhjh iijll foi a resposta. Depois, o doutor Empecílio quis saber o que o levara a chegar a esse estágio de coisas. Ah, fez Ytterk: tteuui jdfyo hget! Como assim?, perguntou o doutor. Yrqgbv ghdehl hsw tkoievsksa. Ah, compreendo. Obrigado pela ajuda. Frsh fsfg, disse Ytterk. Intrigado, Almícar Castratti quis saber como seu amigo compreendera o que o paciente dissera. Eu leio lábios, disse doutor Empecílio. Sim, claro, claro, fez Almícar Castratti.

Aqui cabe um pequeno interlúdio: na verdade, o verdadeiro Almícar Castratti estava numa turnê com sua companhia de ópera pelos balcãs. Aquele que dizia ser o douto cientista era o louco mais perigoso do sanatório, que atende - quando lhe dá na telha - pelo nome de Macambúzio Compenetrado. Foi por isso que o doutor Empecílio tivera dificuldades em reconhecê-lo. O que houve foi que os loucos tomaram o poder no asilo, e o elegeram com 3,1415 votos. Os outros candidatos eram Ronald McDonald e Lig Otreblig. Este, um baiano que achava que tinha cultura até pra ser ministro.

Prosseguindo a visita, Almícar Castratti - aliás, Macambúzio Compenetrado - sugeriu que o doutor Empecílio visitasse uma das celas onde ficavam os loucos, para que tivesse a exata sensação de como era seguir os tratamentos e é claro, do confinamento exigido. Boa idéia, disse o doutor. Assim que o ingênuo doutor Empecílio entrou na cela, Macambúzio cerrou as grades e entre bufadas e assobios declarou que o doutor estava curado. Não precisava mais achar que era são, disse ele; e estava livre para ser ele mesmo: um zigoto numa placa de Petri. Macambúzio assumiu a identidade do doutor e hoje parece que escreve um blog cheio de sandices. Se encontrá-lo por aí, cuidado. Dizem que é inquieto e agressivo, mas que se acalma se puder armar sua rede num pé de alface.

quinta-feira, dezembro 29, 2005



Navegar é impreciso

O mundo passava por um momento de euforia. A todo momento chegavam notícias de novas terras, descobertas a oeste do Grande Mar Oceano, e a fama de Portugal crescia. Isso despertava a cobiça de nações mais ricas, mas que no entanto, não detinham nem a tecnologia, nem os portos e nem o empenho que o pequeno reino do Tejo desenvolvera. À frente dos descobrimentos, Portugal enfrentava, porém, um inimigo pior que as ondas: a inveja dos homens.

Agora estamos em pleno mar, e a velha caravela jogara a noite toda. O amanhecer não trouxe alívio para Pedro Álvares Cabral, comandante da frotilha. Seus navios levantaram ferros da Cidade do Porto poucas semanas antes, e o jovem capitão estava numa missão secreta. Suas ordens eram tomar posse de umas terras recém descobertas a leste de Tordesilhas. A notícia não poderia vazar, principalmente para ouvidos espanhóis, já que navios inimigos rondavam aqueles mares. Ainda enjoado pela noite mal dormida, Cabral segue para seu posto na ponte da embarcação e essa é a história daqueles dias.

- Porra, Manoel! Que fizeste ontem à noite, seu puto? Vomitei as tripas por causa da tua condução!

- Desculpe, capitão Cabral, o mar estava agitado e a noite escura.

- Escuro está o olho do teu cu, sacripanta! Que é do Joaquim?

- Oficial Joaquim está ao catre, capitão.

- Pois vá chamá-lo, paneleiro de uma figa!

Pedro Álvares Cabral se sentia desprestigiado, no entanto. Oficial brilhante, fora o primeiro de sua turma em Sagres, e agora, via as oportunidades de carreira irem todas para outros marinheiros menos competentes, mas com influência na Corte.

- Vasco da Gama filho de uma moura!

Todo Portugal só falava das conquistas de Vasco da Gama e das caravelas abarrotadas de especiarias que trouxera do distante oriente. A epopéia portuguesa estava sendo escrita em verso e prosa, e a fortuna do reino aumentava dia-a-dia. Eram tantas terras para se conquistar, saquear e administar que por vezes, a corte em Lisboa tinha que escolher entre as apostas mais lucrativas e as terras a leste de Tordesilhas não o eram até então. Marinheiros menos importantes eram designados para a tomada oficial dessas novas terras, que no futuro, quem sabe, participariam do grande festim do jovem império português. Cabral, à revelia, era um desses marinheiros.

- Joaquim, seu desviado, onde estiveste?

- Aqui, senhor, o que houve?

- Mudança de planos, segue-me e cale tua matraca!

Uma idéia se formava no cérebro do jovem Cabral. Uma idéia que envolvia traição e ruína, mas que poderia também trazer glória e fortuna eterna. Seu plano era tomar posse das terras não em nome do seu rei, D. Manoel o venturoso, mas no nome de Felipe II rei de Espanha!

- Joaquim, tenho cá comigo um plano tão mirabolante e sacana que faria corar de vergonha aquele puto do Boccage. Estás com teu capitão ou não estás, alémtejano de merda?

- Sim, capitão, para o que der e vier.

- Ótimo, pois escuta: antes de saírmos do Porto, confabulei secretamente com o cônsul espanhol. Estás-me ouvindo, cu-de-rosca?

- Sim, capitão, distraí-me com negro Paco, que passara pela vigia da cabine.

- Pois bem, ouve-me: daqui a três dias, iremos nos encontar em pleno mar com o galeão Outubro Vermelho, comandado pelo tenente Vicente Pinzón. Como todos sabem, essa nossa viagem fajuta é apenas uma desculpa para cercar um terreno que todos nós já sabemos existir mas que está ameaçado pelos miseráveis sem-colônia dos espanhóis. Porra, Joaquim, que foi agora?

- Negro Paco passou de volta. Desculpe-me e por favor prossiga, capitão.

- O plano é tomarmos posse da terra em nome de Espanha. A corte portuguesa nada poderá fazer, pois têm medo dos canhões de el rei D. Felipe e além do mais, estamos numa missão secreta, ninguém sabe que estamos aqui nesse maldito mar.

- Isso é traição, capitão.

- E isso é minha rola na tua bunda, miserável! Ai de ti se me traíres agora!

O encontro entre Cabral e Pinzón fora realizado, e os detalhes combinados. Assim que formalizada a posse, a notícia se espalharia aos quatro ventos e a Espanha dobraria suas colônias além mar. Portugal engoliria uma tremenda humilhação e Cabral seria feito comandante do Novo Mundo, igual seu herói Américo Vespúcio. Pinzón já estivera meses antes por aquelas bandas, mas pouco pudera fazer, pois estava de mãos atadas pelos burocratas de ambas as cortes. Agora a situação seria diferente, pois o passo arriscado de Cabral anularia a titubeante e tensa diplomacia entre os reinos, como o derradeiro sopro que finalmente rasga as velas.

- Terra à vista, capitão Cabral!

- Sei, sei, grande novidade tu me contas, seu fuleiro. Prepara o desembarque, Joaquim!

Desembarcaram todos numa frondosa praia, ao promontório de um vasto monte. Era dia claro e o vento soprava a areia por entre a barba cerrado dos portugueses. Cabral firma o ato de posse e o entrega a Pinzón, que estava ao seu lado. O escrivão da frotilha, até então um obscuro burocrata bajulador chamado Pero Vaz, confecciona cópias dos documentos e prepara-se para enviar as cartas às nações do Globo e literalmente; selar o destino do mundo inteiro. Porém, algo inesperado acontece. Um grupo de índios que mantivera-se esquivo e ao resguardo, resolve atacar. Melhor que os acontecimentos sejam conhecidos pela voz de Cabral:

- Puta que te pariste, de onde vieram esses índios?

- Do meio do matagal, capitão!

- Sério? Não teriam todos embarcado conosco em Coimbra? Vai-te à merda, Joaquim!

- Cuidado com as flechas, capitão!

- Ai, caralho! Atingiram-me no rabo!

Cabral estava morto. Pinzón fugira às pressas. O tratado Cabral-Pinzón, na confusão, fora perdido ou roubado pelos índios, que atacaram de arrasto, correndo pela praia como celerados nus e com as vergonhas à mostra. A expedição fora um fracasso. Para salvar as aparências, Pero Vaz resolveu reescrever as cartas como se nada tivesse acontecido, na intenção de salvar também seu emprego e quiçá; sua cabeça. O corpo do comandante Cabral foi embalsamado com sal, colocado num barril e levado de volta à Lisboa. Devido ao pacto de silêncio firmado entre os sobreviventes, ninguém na metrópole suspeitara que ali jazia um traidor. Cabral foi enterrado com todas as honras de herói do Império - como alías, sempre sonhou. Pinzón morreu anos depois nas costas de Salamanca, Pero Vaz aposentou-se como um leal funcionário público e Joaquim, o co-piloto de Cabral; foi dado como desaparecido durante a confusão na praia.

Dizem os marujos que Joaquim fugiu por saber de um terrível segredo, e que viveu até idade avançada nos trópicos, sempre embalado pelas mãos delicadas das nativas. Sem dúvida, deve ter levado uma boa vida.

quarta-feira, dezembro 28, 2005



Circunlóquio de bar

Perdemos um belo hábito: o de batizar nossas ruas e praças com nomes idílicos e pueris. Ninguém mais batiza uma praça com o nome de Praça das Flores ou Largo do Desencanto, mas sim; Praça Doutora Gastrotheca Pilosa. É certo que na tradição do povo esses nomes narcisísticos são substituídos, sabiamente, por referências mais subjetivas ou mesmo visuais. Quero falar de Fortaleza. Aqui na cidade-luz temos a Praça General Tibúrcio, em pleno centro da cidade. Aposto minha coleção de figurinhas Amar É (obrigado, Garotas!) como nenhum popular saberá dizer onde fica tal praça. Mas se perguntarem onde fica a Praça dos Leões, todos abrirão um sorriso. Como é de se supor, existem leões de bronze em tamanho natural espalhados pelos jardins, que dão essa referência visual e sentimental à simpática praça.

Outra coisa curiosa acontece com os nomes das ruas. Quanto mais velha a rua, mais velho é o homenageado, e quanto mais nova a rua, mais fresco é o morto. Ohhhh! Quer um Pulitzer por isso? Essa constatação óbvia acontece pelo Brasil todo, e suponho, pelo mundo. O que quero dizer é que é posível rastrear a história da cidade e do país por esses nomes.

Traçando uma linha que parte do centro de Fortaleza até a Aldeota - bairro relativamente novo, do início dos anos 1940; vamos encontar as ruas Princesa Isabel, Imperador, Duque de Caxias, Conde D´Eu, Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco, Rui Barbosa, Santos Dumont e Virgílio Távora. Esse último, senador e governador do Ceará em várias ocasiões. Perceberam como os nomes são figurões do Império e posteriormente, da República? As ruas mais novas, dos anos 1970 pra cá adotam nomes de personalidades recentes, como João Paulo II e Ayrton Senna. Isso sem falar dos homenageados locais.

Bom, o fato é que se eu fosse um agente infiltrado na prefeitura, daria um jeito de incluir o nome de Bob Kane, criador do Batman, nas placas de alguma rua desimportante da cidade, para que justamente não chamasse atenção. Seria uma bela piada, não? Ou então, nem preciso fraudar o concurso da prefeitura: basta ter um contêiner cheio de dinheiro que eu mesmo poderia comprar lotes de terra e riscar ruas à vontade, homenageando o que diabos eu quisesse. Rua Baker, Rua No Name, Terraço Evergreen, Beco Stan Lee, Travessa Kurt Vonnegut, Avenida Desenhista Luiz Sá, Boulevar Linda Carter e por aí vai.

Aconteceu uma experiência curiosa com Fortaleza, logo depois da Segunda Guerra. Todas as ruas do centro da cidade adotaram uma numeração seqüênciada, como em Nova York e muito depois, em ( toc, toc, toc) Brasília. É claro que a coisa não pegou, e o deslumbrável poder público voltou atrás. Os governantes têm essa característica: eles são hábeis em fazer exatamente o contrário do que o povo quer.

Pra terminar, vou contar um causo em que a boa vontade, na hora de propor uma homenagem simpática; é barrada pela estultice.

Aconteceu no interior do Ceará, só podia ser. Diz-se que um vereador do Crato, sul do estado, queria homenagear John Lennon, morto naquele ano, com o nome de uma rua da cidade. Outro vereador foi contra, alegando que os Leno - família local; era inimiga política do prefeito.

- Deixa de ser ignorante! - Disse o antenado vereador. - É o Lennon dos Beatles!

- Pior ainda! - Disse o agora inflamado oponente. - Os Brito são do município vizinho!

terça-feira, dezembro 27, 2005



Simbora, o marujo
e o monge copista disléxico


O Galeota dos Mares escapara ileso de uma tempestade de calcinhas no mar das bermudas. A tripulação do Galeota, como vocês sabem, era formada por travestis aposentados e foi uma luta fazê-los largar as calcinhas que choviam, principalmente as de rendinhas. Precisando limpar a bagunça e conseguir víveres, Simbora, o marujo, decidiu aportar seu navio na ilha McDonald, que era uma das ilhas do arquipélago de Sandwich. Nessa ilha havia um mosteiro famoso por abrigar laboriosos monges copistas, que incansavelmente transcreviam manuscritos e textos medievais seculares, além da própria bíblia. Essa era uma época antiga e ainda não haviam inventado a Xerox e os direitos autorais.

Enquanto o navio era abastecido, Simbora e seu grumete favorito, Rick Martin, resolveram fazer uma visita aos monges. O mosteiro ficava no alto de um penhasco, e o acesso era feito através de uma escarpada escadaria. Quase sem fôlego, Simbora e Rick bateram à porta do mosteiro. Para sua surpresa, um velhote com a maior cara de tarado os atendeu. O monge segurava um copo de birita e tinha o hábito todo sujo de cerveja. Seus óculos estavam de cabeça pra baixo e seu cabelo branco em desalinho lembrava um ninho de pelicanos. Parecia estar de ressaca há vários dias, mas foi cortês o suficiente para entabular algumas palavras: - Fois dão? O monge era ligeiramente disléxico, e a bebida não ajudava.

O mosteiro costumava receber muitos turistas curiosos com a fama do local. Mas depois daquela caravana de hunos que veio em setembro, eles mudaram de idéia. Agora só recebiam grupos pequenos e Simbora e Rick não tiveram dificuldade em passar pelo crivo do velhote. Caminhando pelos corredores do mosteiro, chegaram por fim ao setor de produção de cópias, batizado sarcasticamente como Sala Assuncíón. Muito orgulhoso, o monge mostrou pilhas e pilhas de bíblias que seriam embarcadas em breve para todo o mundo. - Eu besmo fiscalizei todo o abjeto, disse o santo homem. Impressionado com a produção local, Simbora pegou uma das bíblias ao acaso e folheou algumas páginas. Foi cair exatamente nos Dez Mandamentos, e percebeu algo estranho. - Isso aqui está correto? Perguntou Simbora ao monge, seu cicerone.

Amar ateus sobre todas as coisas, era o primeiro mandamento. E não era só isso. Olhando com cuidado, Simbora, Rick Martin e o monge copista perceberam que todas as bíblias verificadas tinham um ou outro erro com relação ao texto original. Onde deveria ser lido: amai-vos uns aos outros, estava escrito em letras caprichadas: amai-vos uns sobre os outros. Em outra passagem, Jesus é circuncisado na cruz e mais adiante, Paulo escreve epístolas aos enfezados. Obviamente o carregamento inteiro tinha erros semelhantes e a produção de anos e anos de trabalho estava toda condenada.

O monge percebeu o que estava em jogo e que Simbora e Rick Martin eram testemunhas indesejáveis. Rapidamente chamou seus comandados dizendo: - Trendam esses suristas pafados! Simbora e Rick foram mais ágeis e escaparam dos monges enfurecidos, saltando do penhasco e caindo no mar logo abaixo. Por sorte, o Galeota estava pronto para zarpar e Simbora e sua tripulação puderam fugir mais uma vez, mesmo que bombardeados por terríveis insultos em latim. O que Simbora não suspeitava é que Rick Martin salvara uma das bíblias defeituosas, e que planejava lucrar com ela. Pena que naquela época tão havia o e-bay.

segunda-feira, dezembro 26, 2005



Desabafo de cachaça

O Brasil é um país continental, mas sem conteúdo nenhum. Todo mundo só pensa em passar a perna um no outro, por isso que o herói brasileiro é o Saci Pererê. Aqui todo mundo vive de aparências e seria melhor se desaparecêssemos todos de uma vez. O único brasileiro honesto nasceu morto, e suspeita-se que tenha se suicidado de vergonha. O país só exporta bunda, futebol e carnaval; e nada mais importa. Nesse país de modismos passageiros, a febre que veio pra ficar é a febre aftosa. Os cientistas nativos são tão burros que tentaram enxertar um tubarão-martelo com um macaco-prego pra economizar ferramenta. Nosso Produto Nacional, além de Bruto, é rude, mal-encarado e grosseiro. Até as fronteiras do Brasil ficam às costas - como levar a sério um país desses?

Mesmo os vultos da pátria cobraram vultosas quantias para cederem direitos de imagem. Se o véu da vergonha cobrisse o país, alguém ia superfaturar o tecido. O Brasil é um país musical, pois só o que tem são sinfonias inacabadas. Se Deus fosse mesmo brasileiro, não ia poder descansar no sétimo dia por causa do barulho do som do vizinho. A vida aqui é tão dura que a fruta nacional é o coco, o doce perferido é o quebra-queixo e nossos políticos são todos caras-de-pau. A incompetência é tão grande que mesmo se o país fosse soterrado pela neve, aposto que ainda assim iam servir cerveja quente. Já que nossas cédulas homenageiam bichos em extinção, deveríamos estampar a efígie da Sra. Honradez, da Sra. Delicadeza e da Sra. Honestidade; que estão muito mais ameaçadas.

O Brasil é tão cientificamente evoluído que inventou o metro de 90cm, a semana de 3 dias e o quilo de 800g - e ainda quer ter um astronauta. A capital do país foi transferida para longe para que não houvesse testemunhas. Tiradentes é respeitado não pelo seu sacrifício, mas por ter inspirado os dias enforcados. Depois de exterminada a última árvore da amazônia, a conseqüência lógica depois disso será passar os dias queimando mato. Como estamos espremidos entre a infância perdida e a velhice desamparada, só nos resta a eterna obsolescência.

A Constituição do Brasil é delirante e fantasiosa, feito uma peça de teatro mal escrita. Mesmo que fosse encenada sem estourar o orçamento e no prazo estipulado, fracassaria inevitavelmente porque só pode contar com atores ruins.

O lema da bandeira do Brasil é inútil. Ordem remete à idéia de não sublevação e conformismo, pois o status quo existe mesmo é para ser staticus. Já o Progresso, ninguém viu, ninguém vê. As únicas palavras que deveriam ser impressas na bandeira, e que todo brasileiro deveria saber desde pequeno são: Com licença, Por Favor e Obrigado.

domingo, dezembro 25, 2005





Sábado véspera de Natal: eu, o Iramilton e o Olinto, num boteco conhecido como barraca G2. Aqui em Fortaleza temos também a casa de forró C4 (deve ser uma bomba) e o clube B-25, que nunca decolou. Vai gostar de letrinha e número assim...

sábado, dezembro 24, 2005

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Sempre quis ter uma casa com uma paisagem de boteco
pintada na parede.

As coisinhas rabiscadas ao redor são desenhos colados. Depois de scaneados, eles teoricamente iriam pro lixo. Guardei vários deles e colei de qualquer jeito, como um tributo à labuta.

A pintura é de 2003, mas a foto foi tirada dia desses.



Um caso patente de loucura

Tinha o trabalho mais fácil do mundo, e minha vida era tranqüilia. Fui o encarregado do departamento de patentes e registros da UNIFODA - Universidade de Fortaleza e Adjacências, - e como era de se esperar, não tinha muito o que fazer. O último fracassado que veio aqui perturbar minha paz queria patentear uma nova letra para o alfabeto. Segundo dizia, sua nova letra seria chamada de íxe e serviria para abreviar enormes locuções que os matutos usavam corriqueiramente. Por um tortuoso processo de abreviação; íxe veio de víxe, que veio de virgem que veio de virgem maria santíssima. Quando um matuto fala pro outro: - aqui tem muito corno? - o outro responde: - íxe, como tem! A nova letra ficaria entre o jota e o ele, vê se pode.

Pois bem, como eu dizia, o serviço era simples. Mas um dia, a coisa fedeu. Algum bedéu sem nada pra fazer sugeriu que a Universidade sediasse o Seminário de Escritores, a ser realizado logo em breve. Cartazes foram feitos em letras garrafais: UNIFODA-SE 2006: não é tempo de olhar pra trás. Agora vivo atarefado, pois todos os losers do país submetem suas palestras para registro, na certa achando que todas contêm em cada linha e mesmo nas entrelinhas; o lumiar da sabedoria. Bah, escritores. Estão na minha lista negra, logo abaixo dos arquitetos, vendedores de pamonha e coroinhas.

Porém, nem tudo são trevas. Dentre a pilha de pepel que recebo todo dia - e carinhosamente apelidada com o palíndromo A Torre da Derrota; - estava o manuscrito de uma jovem chamada Melíflua Escroque. Sua palestra iria abrir o dia dedicado à literatura coloidal. Como todos sabem, a literatura coloidal nem é tão áspera e dura como tratados de filosofia alemão e nem tão suave e delicadinha como auto ajuda para crianças cegas. Tá mais pra uma consistência pastosa e disforme, e fede tanto como um plasma amorfo. Melíflua iria apresentar seu mais novo projeto, Fomento à fome - Memento à febre, escrito no verso de velhas cartas de amor, achadas enquanto ela revirava o lixo à procura de inspiração. Uma das características da literatura coloidal é que ela nunca é publicada em livro: só vive de gaveta em gaveta ou prolifera na praga desses malditos blogs.

Apaixonei-me por ela. No manuscrito de Melíflua havia uma foto. Ela estava com os cabelos em dasalinho e seu batom preto dava-lhe um ar de mistério e sedução. Só depois vim a saber que aquilo não era sua boca pintada, mas suas sobrancelhas. Mesmo assim o estrago estava feito, não conseguia pensar em outra coisa. No dia marcado para sua palestra, dei um jeito de faltar ao trabalho e fui ouví-la, na esperança de conhecê-la melhor, quem sabe.

Ela estava deslumbrante. Vestia algo parecido com um saco de estopa cerzido com barbante velho. Suas olheiras profundas eram ainda mais tentadoras que na foto. Sua pele branca contrastava com o cabelo negro como azeviche, e sua aparência geral era como se o Sandman ficasse subitamente empobrecido e viesse assombrar a Universidade. Minha paixão agora beirava o incontrolável.

Pra impressioná-la, roubei um dos empoeirados projetos do meu departamento e para puxar conversa, iria declará-lo como de minha autoria. Depois da palestra - que foi um sucesso aliás, a platéia não acertou nenhum ovo nela - consegui simular um encontro casual e apresentei-me como um jovem inventor, à procura de financiamento para meu projeto. Como aparentemente tivéssemos muito em comum, já que ela também procurava um editor para seu milésimo manuscrito, ficamos amigos imediatamente. E viramos amantes depois de um certo tempo, pois Melíflua era muito rígida em seus preceitos e só pudemos nos entregar ao amor desenfraedo depois do solstício de inverno.

Hoje, anos depois, temos nossa própria editora, a Drawer´s. Minha vida voltou a ser tranqüila e quieta como um playground depois de uma explosão atômica. Estou muito contente. Melíflua já publicou vários de seus livros com muito sucesso. Infelizmente, ela também é responsável pela escolha de novos projetos para publicação aqui na editora, e sendo bondosa demais para recusar um ensaio, vive cercada de pilantras. Agora mesmo está no Himalaia, onde um jovem e atlético escritor chamado Príapo Teso desenvolve um trabalho revolucionário, escrevendo poemas na neve antes que a avalanche venha e destrua tudo. Não sei o que ela viu nele. Mas enfim, mal posso esperar que ela retorne - já está lá há dois meses - para que possamos retomar nossos joguinhos de amor. Ah, como sou feliz!

quinta-feira, dezembro 22, 2005



O Astro

Pouca gente sabe, mas mantenho uma carreira paralela e charlatânica de adivinhador profissional e leitor de mãos. Quando os desenhos estão em baixa, apelo para meus dons mediúnicos, grandiúnicos e enormiúnicos para dar pitaco na vida de todo mundo e ganhar uma grana fácil. É muito simples se dar bem nesse meio. Basta um nome misterioso, um turbante, um cafofo decorado com tapetes, algumas almofadas, velas engraçadas e o mais importante: muito óleo de peroba para lustrar a cara de pau.

A propósito; meu nome transcendente, psicossomático, polidimensional, metafísico e meditabundo é: O Anacoreta.

Interlúdio: certa vez, entrei num site de paquera com esse nick: Anacoreta. Daí a 3 segundos, um gaiato pergunta: - Tudo bom, Aninha? - Antes da vinda do Anacoreta, outro terá que ir embora: o Analfabetismo!

Então, resolvi afiar minhas garras tântricas e fazer uma série de previsões para 2006, caso queiram ouvir. Se houver interesse pelas minhas previsões, atendo em casa viu? Se você for mulher, tem que vir lá pelas dez da noite com uma roupinha leve e quase transparente, pois as emanações dos espíritos agem com mais facilidade se não houver barreiras entre o corpo psíquico e o corpo material. Se você for homem, vê se cresce, rapá! Grande desse jeito e ainda acredita em Papai Noel?

Previsões para 2006 - depois digam que eu avisei!

O primeiro dia do ano trará um alvorecer logo pela manhã, coincidentemente marcado pela aurora e por luzes matinais. Não estranhe muito se a madrugada sumir de repente, pois é o que dizem minhas fontes cármicas. Logo após esse período conturbado de luzes difusas e ventos frios, haverá uma manhã esplendorosa - isso se não chover, pois meteorologia não é minha praia.

A influência do mês de Janeiro durará 31 dias, findos os quais, fevereiro terá que ser levado em conta. tudo indica que nada mais vai estar em seu devido lugar, pois a Terra gira e desorienta as entidades cósmicas. O Sol nascerá em Aquário, assustando Peixes e deixando Leão uma fera. Gêmeos muito perto da Virgem pode dar briga, pois um dos dois rapazes ganhará um chapéu de Touro, então é melhor irem a festas separadas. E finalmente; Libra continuará a subir se o Euro não se cuidar.

Na política, um enorme escândalo varrerá a capital. Escândalo é o apelido de um gari da prefeitura de Brasília, dado pela esposa de um ministro que eu não posso dizer quem é. A economia sofrerá um revés, e voltaremos a adotar o pau-brasil como moeda. O Dragão da Inflação vai voltar, pois tinha ido à China para se divertir com sua familia de dragõeszinhos. Aliás, sua esposa era um dos Dragões da Independência, mas não espalha.

O Brasil perderá a Copa do Mundo para a Alemanha, numa final vergonhosa: o gol da vitória alemã será marcado pelo veterano atacante Lothar Mathaus, que com suas muletas deslocará o goleiro brasileiro abrindo o placar em Berlim. Como ninguém no Brasil conseguia mesmo pronunciar hexacampeão, todos agradeceram aos céus e não mais se falou disso. O troféu da Copa será roubado em setembro e derretido para fazer uma obturação no dente do King Kong, para consternação geral.

Uma celebridade das artes plásticas confessará, aos prantos, que sua arte tão badalada era feita na verdade por dois muares que ele criava em seu quintal. Segundo o relato bombástico, ele amarrava os pincéis no rabo dos burros que passeavam tranquilos por sobre uma tela. Depois da confissão, o tal artista nunca mais será visto, mas os burros iniciarão uma carreira vitoriosa e ganharão a Bienal de Veneza.

O próximo presidente do Brasil será indicado por sorteio, pois obviamente a democracia não funciona. Genivaldo Aroeira, natural de Curralinho, Pará, será o primeiro presidente banguelo do Brasil. Sua primeira ação oficial será ajeitar os dentes. Depois, vai dar um desfalque no BB, renunciar e pedir asilo ao Canadá. Esse pelo menos é inteligente.

quarta-feira, dezembro 21, 2005




Aforismos de foro íntimo ou:
humano, demasiado humano para dar certo.

I

Costuma-se dizer que a monogamia é o contrário da poligamia. Nada mais falso. O contrário da monogamia é a promiscuidade. Um polígamo interage apenas entre suas escolhidas. Isso caracteriza um círculo exclusivo, como um conjunto heretogêneo, mas fechado em si mesmo - trata-se, de fato, de um caso particular de um macro sistema monogâmico. Mesmo que eventualmente outra concubina venha a participar do harém, a constatação anterior não muda. A nova favorita se une às demais, o círculo expande-se um pouco mas ao longo do tempo, torna -se coeso como antes. No caso da promiscuidade, o alvo da exacerbada lubricidade é o mundo todo, aí, haja AZT.

II

Algumas mulheres dão muito valor ao conceito deveras abstrato da virgindade. Ora, Matematicamente falando, todas as mulheres são virgens. Uma mulher não é mais virgem quando é penetrada pelo membro viril de um galanteador qualquer, podendo ser tanto o do príncipe de Mônaco como o de um rude estivador de Paranaguá. Mas digamos que o comprimento de tal membro ereto seja a. Ao forçar caminho, o membro invade a distância de a dentro do corpo da mulher mas ao sair, percorre -a. Ora, a + (-a) é igual a resultante zero. Assim, toda mulher permanecerá virgem, se tiver o cuidado de observar que o número de entradas seja igual ao numero de saidas durante o ato, caso que sempre anulará o procedimento, como já foi demonstrado. A única exceção possivel é se os parceiros morrerem durante a cópula, deixando o talo ereto do macho acomodado na vulva alheia. Aí, a resultante é a positivo, então, adeus cadarço. Mas aí ela tá morta mesmo e tanto faz.

III

Diz-se da mulher de César que não basta ela ser honesta, mas precisa parecer honesta. Então, a mulher de César pode ser de Brutus também, contanto que ela não caia na boca do povo? Sim. A primeira frase remete ao adágio popular: o hábito não faz o monge, mas fá-lo ( opa! ) parecer ao longe. Assim, uma notória rampeira pode ser considerada pudica se não for pega no flagra. Mesmo levando uma vida desregrada e airosa, a tal mulher pode ser considerada casta e honrada se não houver provas contra ela, pois graças aos céus esse nosso mundo imperfeito é deveras jurídico. Mais uma vez, recorro à sabedoria popular, e evoco o décimo primeiro Mandamento, que nada mais é que: se não puderes resistir à tentação dos 10 preceitos acima, paciência, e cuida para que não sejas pego.

IV

A vida não tem sentido nenhum, e só estamos aqui pra procriar. O verdadeiro filantropo é aquele ou aquela que doa, em vida, seu corpo para a pegação mútua. Sexuar o dia todo é a única forma de render homenagem ao Divino, já que Ele próprio não espera mais nada de nós. O Cálculo Diferencial, a Relatividade e a Capela Sistina são meros efeitos colaterais da frustação erótica. Sem ter pra onde canalizar a energia vital do Eros, indivíduos aberrantes desviam suas forças para a arte, o esporte e a guerra. São, portanto, pecadores perante a divindade que os criou e deveriam congelar no calabouço da frigidez sensual. Conclusão possivel: prevariqueis a vontade, que o tempo é curto.

V

Além da vida não ter sentido nenhum, somos escravos de nossos genes. Numa perspectiva otimista, somos estúpidos invólucros para nossos cromossomos, e eles sim é que têm a primazia do Ser. Como nossa única missão é espalhar os genes da melhor forma possivel, aqueles que se recusam a fazê-lo de forma filosófica e consciente, como padres, yogues e santos em geral, devem ser considerados blasfemos e inimigos da raça humana. Um bom castigo para tais abominações seria um curso intensivo de sacanagem ministrado por Sade, Torquemada e Madame Satã, pra eles verem o que é bom pra tosse. Como diria o profeta Millôr Fernandes: - não existe pior perversão que a castidade.

VI

A mutilação genital é um crime contra a raça humana. Sob pretextos injustificaveis, arrancam-se partes dos genitais tanto de homens - prepucianamente falando; - como de mulheres - clitorianamente falando tambem. Nada de supressão, a humanidade precisa é de acréscimos. Dildos de qualidade, próteses, pílulas azuis, silicone para recheio; o escambau: tudo para se melhorar a performance.

VII

Os dois sexos originais derivaram numa miríade quase infindável de sexos alternativos. Isso é benéfico, ao contrário do que muitos pensam. A evolução age por linhas tortas. Vai que o pansexualismo radical de quatro não é a forma que a evolução achou para que a gente se reproduzisse por mitoses? Já que somos classificados como as bactérias do planeta, nada mais logico que agirmos como tal.

terça-feira, dezembro 20, 2005




Lendas hardcore da Carochinha

Os Mythbusters são um sucesso do canal Discovery. Com muita inteligência e bom humor, Adam Savage e Jamie Hyneman põem à prova vários mitos urbanos, aprontando todo tipo de sandices com o objetivo de confirmá-los ou não. Reencenando os fatos que deram origem ao mito, os dois já construíram um aeróstato feito de balões de meteorologia, crivaram um carro de balas pra ver se ele explode mesmo, tal qual no cinema; e até mesmo testaram o mito segundo o qual uma moeda, jogada do alto do Empire State, chegaria ao solo como se fosse uma bala. Os feitos dos Caçadores de Mitos são bem conhecidos, não vou me alongar muito.

O fato é que deve ser um problema danado pros redatores e produtores do programa desencavarem mitos novos a cada temporada. Tenho cá comigo umas dúvidas que apoquentam meu juízo, e que adoraria verem testados cientificamente, do jeito dos Mythbusters. Se por um acaso faltar assunto, eles bem que poderiam testar se:

Comer manga com leite faz mal - esse é um mito bobo, mas provavelmente o mais famoso do Brasil. Todos conhecem os fatos que lhe deram origem. Na época da escravidão - a escravidão acabou? - os senhores espalharam o boato que comer leite com manga daria uma violenta e fatal congestão. Os escravos, na maioria mantidos iletrados e superticiosos, aceitaram a lenda como verdade. O objetivo dos feitores era que os escravos, famintos, não roubassem as frutas nem o leite da fazenda.

Eu mesmo devo esse meu corpinho em formato de tonel a muita manga colhida no pé e a litros de leite com nescau - e tudo isso misturado, às vezes. Se era pra fazer mal, eu já deveria ter esticado as canelas em 1976. O que me assusta é que até hoje, no interior mais pobre, esse mito tem a força de lei. E é continuamente passado adiante.

Manteiga do focinho do gato faz ele esquecer a casa antiga - um mito dentro de um mito. Dizem que o gato doméstico (felinus carrancudus) se apega à casa, não às pessoas que cuidam do salafrário. O contra-mito diz que na hora de mudar de casa, para levar o gato junto, deve-se lambuzar o focinho dele com mateiga. Miraculosamente, o gato esquece o cheiro da casa velha e vai conosco numa boa.

Tivemos vários gatos, e nas várias mudanças que a família fez, em todas as vezes o povo lambuzava a venta do gato. Potanto, não sei se daria certo não fazendo a mandinga. Criança, fui encarregado de melar a cara de um deles, numa ocasião. Maravilha! Perturbar o gato com o consentimento dos pais? Não tem preço!

Acho que esse mito é totalmente furado, fruto de uma inércia mental que simplesmente nos faz copiar o que a geração anterior fez. Eu só perpetuaria o mito para um filho meu se pudesse atualizar o procedimento, trocando a manteiga por cerveja, re re re. Que o IBAMA não me ouça.

Apontar para estrelas dá verruga no dedo - esse mito é ótimo, muito popular - mais uma vez - no interior pobre do Brasil. Sou astrônomo amador com 20 anos de pescoço duro e dedos esticados para o céu, e nada aconteceu ainda. Mas quando eu era petiz, lembro de uma vez em que fiquei seriamente preocupado em apontar pro céu, pois meus sábios tutores adultos diziam que eu iria me dar mal. Mesmo assim, respondão como sempre fui, lá estava eu com meu dedo em riste, e necas. Esse foi um dos primeiros dogmas dos adultos que vi ruir. O outro foi o da infalibilidade paternal. Nem sempre um sujeito que é 5 vezes mais velho que você é necessariamente mais esperto.

Assobiar de noite chama cobra - desde zigoto que ouço essa marmota dos adultos. Como tenho um medo que me pelo de cobras, esse é o único mito que eu respeito. Eu, hein?

Masturbação faz crescer pêlos na palma mão - esse mito é verdadeiro! Cuidado, jovens! Ou comprem um prestobarba muito bom ou abandonem o vício solitário - ou coletivo, depende da ocasião. No meu caso, macaco velho, mandei escanhoar a palma da mão com laser para não dar bandeira.

Peidar deixa a palma da mão amarela - esse mito eu não sei se é verdade, mas seria engraçado combiná-lo com o mito da masturbação, aí criaríamos o incrível monstro amarelo flatulendo-onanista das mãos peludas! Acrescente a cara cheia de espinhas e esse sim, seria o bicho papão brasileiro por excelência.

segunda-feira, dezembro 19, 2005



A primeira Coca-Cola

Sabe aquela história do mosquito incomodando o King-Kong? Pois é, também consegui meu momento Davi contra Golias, ao enfrentar a gigantesca e tentacular Coca-Cola. Tive minha pequena vitória moral, ao fazer com que a empresa que fabrica o sangue negro do capitalismo americano me devolvesse R$ 1, engolido por uma de suas máquinas de refrigerante.

Foi uma pequena bobagem, na verdade, estou carregando nas cores pra vocês acharem graça. Mas vou contar como foi. Eu estava passeando no Iguatemi quando vi uma máquina de Coca-Cola. Depois de décadas absorvendo a propaganda deles, é quase impossível não beber uma quando vejo aquelas cores. Ainda bem que eles não fabricam calcinhas também, já pensou? Revirei os bolsos e achei uma nota de real, quase minha filha única naquele momento. Coloquei a nota na maquininha e nada. Apertei o botão de novo e necas. Bom, desisti e fui embora. Sorte que no Brasil a gente não liga pra coisas mundanas, como dinheiro.

Dias depois, conversando com o Gadelha, lembrei da história. Estávamos enchendo a cara no Pé-Sujo (o Pé-Sujo merece um longo post, mas fica pra outro dia, prometo) e pedimos uma Coca pra achar o número do SAC deles. Achamos o número, impresso com letrinhas miúdas, perto de onde esté escrita a fórmula secreta da Coca. Liguei pra lá e eles foram absurdamente gentis. Curioso. Mas não fiquei surpreso.

A moça disse que iriam acionar a empresa local que distribui a Coca-Cola, e realmente, dias depois, os caras foram lá em casa com um envelopinho e uma notinha de real, mais um pedido de desculpas.

Fiquei contente com a seriedade com que eles encararam a coisa. E não poderia ser diferente: esse papo de direitos do consumidor está bem arraigado no Brasil e deve ser mais importante ainda pra Coca, multinacional que tem um nome a zerar. Porém, fico imaginando as conseqüências se eu fosse destratado pela Coca por causa de um mísero real. Ah!!!! Eu exigiria um pedido de desculpas dado pessoalmente pelo urso polar mascote da Coca! E nem quero saber como eles iriam trazer um urso pro Ceará. A mídia iria delirar: Coca-Cola bate boca com cearense por causa de R$1, poderia ser a manchete da Folha. Os acionistas da Coca iriam adorar, pra não dizer o contrário.

A história teve um desfecho satisfatório, e ainda tive o prazer de incomodar o gigante com meu zumbido. Só pra mostrar quem é que manda.



Emetério e a Coca-Cola com logo Azul? Ah, fala sério:-)

sexta-feira, dezembro 16, 2005


O quadro da Catedral. Tenho uma fixação
imperceptível pelo prédio, não sei se deu pra notar.

Soslaios

Brechar é uma arte. Da mesma forma que as fotos atribuídas a OVNIs, não é preciso muito para imaginar o que quiser: basta uma fresta na porta, um reles pedaço de pele aparecendo, a marquinha do sutiã vislumbrada entre um decote e outro que o dia está ganho. Já que sou um voyeur militante, vou dar umas dicas pra quem quiser conhecer o básico. Mas atenção: a ocasião faz a técnica. Seja criativo, portanto.

Dos relances, um estudo de caso.

Nossa visão, além se ser seletiva, funciona por detecção de movimento. Significa que num cenário aparentemente estático, temos que nos mover ou provocar um gesto, para chamar atenção. Erguer o braço para chamar o garçom, ou acenar para cumprimentar alguém são recursos usuais. Isso funciona quando a gente quer que os outros nos vejam. Mas no caso do brechador profissional, seu objetivo é não ser visto. Assim, não provoque movimentos bruscos, e fique quieto. No máximo, movimente-se devagar para não chamar atenção e posicione-se confortavelmente para apreciar o espetáculo. Ao contrário dos folhetins, ninguém gosta de ser flagrado pelado. Então, não ache que se insinuando para a vizinha você terá chances de acasalar. Pelo contrário, você pode peder a brecha num violento fechar de janela. E no mais, não é legal ser conhecido como o tarado do 302. Sei do que estou falando.

Freudianamente falando, a atitude de se manter imóvel é a mesma adotada por presas ante predadores. Ficando estático, a presa espera enganar o predador, torcendo para que ele não o veja. Curioso como isso se aplica no caso do voyeurismo. Só no caso do predador perceber você ou a vizinha chamar a polícia ou o marido, é que se deve empreender a alternativa da fuga. Boa sorte.

Da aparelhagem eletrônica.

Se você é o tipo do pervertido que gosta de registrar a paisagem, vale a dica acima e mais uma: certifique-se que o flash da máquina não está ligado. Se estiver tudo ok, outro detalhe importante e valioso não deve ser esquecido: o led verde que indica que a câmera está ligada. Segundo um amigo meu, é só tapar a luzinha verde com fita isolante, aí você estará completamente invisível. A gente tem que ouvir quem sabe.

A popularização das câmeras em celulares deveria multiplicar exponencialmente a oferta de belos flagrantes. Mas aí há um problema. Os celulares vêm com um firmware que impede que se desligue totalmente o barulhinho do clic da máquina. Deve ter sido imposto por lei, na certa. A minha dica é que você desfarce a tomada da foto com acessos de tosse ou simulação de loucura, no que você for melhor.

Da conversação cara-a-cara.

Óculos escuros. Mas se aquele belo par de seios insiste em entrar no seu campo de visão, e você esqueceu os óculos em casa; adote a técnica dos espiões: coloque um objeto entre você os peitões. Pode ser um livro, uma caneta Bic ou finja que está roendo a unha. Aí, foque no decote que está tudo bem.

Dos cofrinhos.

As roupas de cós baixo são uma bêncão tão grande que quase chego a acreditar na existência do divino. Isso se Deus gostasse de mulher, claro. Mas eu nem deveria expor essa dica, pois sei que esse site é monitorado pelo Vaticano, droga. Daqui a pouco o papa vai proibir, além da camisinha, a calça Saint-tropez. Mas vamos em frente. Bom, a dica é simples: olhe descaradamente, os cofrinhos tão aí pra isso, mas mantenha o respeito.

Como uma bônus track, a brecha de um cofrinho é enriquecida com a visão da etiqueta da calcinha. Mas são tão raros os casos relatados que chega-se a suspeitar que são só lenda, como o Pé-Grande. Se vir um, sinta-se com sorte. E me avise.

Da solidariedade humana.

Brecha que é brecha é compartilhada. É o amigo que te cutuca discretamente para que olhe naquela direção, ou aquele que todo orgulhoso, mostra o flagra tirado no celular. Esse simples caso mostra como a brecha, além do futebol, pode interromper as guerras. Quem vai se preocupar em matar os outros com aquelas coxas dando sopa? É por isso que se o Brasil fosse invadido a partir de Copacabana, a guerra terminaria à primeira visão de um topless. As amazonas, ao contrário, usavam a brecha como arma de guerra, e só guerreavam de seio nu - o outro era cortado para não atrapalhar a alça do saco das flechas. Antes que o inimigo acordasse do transe, já tinha a cabeça atravessada, olhaí.

Caso compartilhado: das sacadas da vida moderna.

Um amigo meu, chamado Hermétrio Caudoso, passou por uma digna de nota em pleno ENEA - Encontro Nacional de Estudantes de Acupuntura. O paspalho estava tomando banho num chuveirão coletivo, feito às pressas no campus da faculdade anfitriã. O banheiro nada mais era que uns tapumes de madeira mal pregados. Os chuveiros das meninas eram ao lado do macharal - podia-se ouvir as vozes delas - mas a vedação era total. No entanto, dividiam-se a mesma tubulação d´água, claro. Aí ele percebeu que os buracos feitos no tapume para passagem dos canos d´água não se ajustavam perfeitamente com o diâmetro do tubo, deixando uma ligeira folga.

Num esforço mental sem precedentes, ele pensou: - Ora, se eu consigo ver por essa folga, estando aqui; do lado de fora eu poderia ver o que acontece dentro dos chuveiros. Os chuveiros das meninas são ali do lado. Hum...

Ele terminou seu banho e com a serenidade que certamente Einstein teve ao ter a sacada da Relatividade; saiu do tapume masculino e deu a volta nos banheiros, protegido pelas endorfinas, pela cara-de-pau e pela noite. Ao chegar nos fundos do banheiro das meninas, ele ficou estupefato! Pelo menos uns vinte caras tinham tido a mesma idéia!

Pensem na cena: vinte marmanjos enrolados em toalhas, caladinhos como se estivessem numa missa de réquien, agachados e olhando pelos buracos da tubulação do tapume, exatamente como o Hermeutérios previra fazer. Bom, houve por bem organizar a bagunça, e a coisa deu-se assim: silenciosamente, aproximava-se de um sujeito que estava brechando pelo buraco e dava-se-lhe um leve toque no ombro. Cavalheirescamente, ele se afastava e outro tomava seu lugar, até que a manobra fosse repetida.

Há de se ter honra, principalmente entre os canalhas, pô!

quinta-feira, dezembro 15, 2005



A lenda dos Flatheads

Martim Soares Louro aportou em plagas cearenses em 1604. Depois de tomar muito sol na cabeça, ficou conhecido como Martim Soares Moreno, mas deixa pra lá. Eternizado como o guerreiro branco do romance Iracema, de José de Alencar, o jovem praça foi o fundador dessa raça de cabeças-chatas. No livro, Martim Soares Moreno tem um filho com Iracema, chamado de Moacir, o proto-cearense.

O que pouca gente sabe é que Moacir inventou a jangada e a rapadura. Durante uma seca braba, a caça fora pouca e a colheita não vingara, na tribo dos tabajaras. Para livrar seu povo da fome, Moacir resolveu cultivar os mares. Para isso, derrubou cinco coqueiros com uma mãozada, amarrou os troncos com cipó e lançou-se às ondas. Por volta das duas da tarde já vinha ele de volta, com a jangada abarrotada de absolutamente porra nenhuma. Aí ele inventou a vela de pano e pode finalmente vencer a arrebentação.

Era tanto peixe quando Moacir voltou que a tribo, saciada, ainda teve tempo de inventar a suprema frescura: os bons modos à mesa. A rapadura, entretanto, fora fruto de um acidente. Moacir estava chupando cana no mato quando a Cobra d´Água apareceu, dizendo: - me dá um pedaço. A Cobra era uma feiticeira. Moacir deu um foi um cotoco pra Cobra, mas ela transformou a cana em pedra pra ele quebrar os dentes. O herói, esperto, tirou a pedra da boca e acertou a Cobra velha no cocoruto. Rapadura é pedra doce em tupi, mas não digam que fui eu que falei.

Noutra feita, Moacir brincava de dar cabeçadas num bode. De tanto bater, a cabeça de Moacir foi se achatando, se achatando, e é por isso que hoje todos os cearenses têm a cabeça chata. Outra explicação pra cor do mar verdinho do Ceará vem das traquinagens de Moacir. Dizem que o herói gostava de matar muito passarinho. Tupã apiedou-se principalmente da sorte da pobre jandaia, e da cor verde de suas penas fez tintura com que demarcou o mar. Aqui é onde canta a jandaia, disse Tupã.

Moacir fora abandonado pelo pai ainda bebê, pois Martim voltara pras Oropa. Apesar disso, Moacir cresceu ouvindo falar de sua origem nobre e distante, e se orgulhava dela. O herói cresceu e quando se tornou taludo como um tronco de carnaúba, a terra cearense já lhe era desconfortável. Dando origem a uma hábito secular, resolveu emigrar em busca de sabe-se lá o quê. O sul de Pindorama parecia ser um local aprazível. Ouviu falar que havia muita riqueza e aventura nas minas, que eram gerais de um tudo. Pois lá se foi o herói, em direção ao sertãozão interior.

E a vida foi dura nas minas do sul. Moacir, que era herói em seu torrão, era chamado de paraíba pelos caraíbas. Ora, ele era um tabajara. Os paraíbas eram os que moravam ao lado - que bando de brancos burros; pensou. Apesar da vida agreste, Moacir travou conhecimento com todas as gentes. Viu a raça dos alemães, que eram vermelhos. Ficou amigo dos africanos, que eram pretos. Visitou a tribo dos japoneses, que eram amarelos. E morou na taba dos paulistanos, que eram tricolores. Foi nessa taba grandona que Moacir enamorou-se de uma cunhã branca como farofinha e de cabelos amarelos como caju no pé. Casaram-se logo em seguida. Passou-se. Aí bateu vontade de voltar. De tanto ver cinza, o herói ficou com saudades de seus verdes mares.

Mas o herói civilizara-se. Chegou às praias cearenses vindo de moderna piroga a vapor, com mala e cuia. Mas os seus acharam esquisitas as roupas e o cheiro do herói, que parecia doce como o hálito do Aracati, só que engarrafado pela Hugo Boss. O herói não fez sucesso não, pois perdera o contato com a tribo, e a tribo, por sua vez, não entendia o que ele falava mais. E a cunhã branca ainda estranhou o calor.

Só que Moacir não queria mais voltar, e montou uma bodega, que em tupi significa Wal-Mart. Perseverou e perseverou e hoje embala seus netos, chamados de Harry Potter da Silva e Tom Cruise de Souza. Nas noites de luar argênteo, costuma contar suas andanças pelo Brasilzão afora e as aventuras pelas quais passou, e os meninos acham graça. Quando os netos estão dormindo, deixa a rede e vai caminhando solitário pelas dunas, prateadas pelo luar. Na beirinha do mar, deixa as ondas escavarem por baixo de seus pés, brincando de perder equilíbrio com o mar, e os dois se divertem.

Aí uma ondona bem grande levou Moacir, que foi pro céu na forma da estrela da tarde. Ainda dá pra ouvir o herói se abrindo das marmotas, quando a estrela aparece. Escuta.

Tem mais não.

quarta-feira, dezembro 14, 2005



cave canis

Folgazão Cueiros, o solteirão, jamais havia posto os cascos num chateau. Por ironia do destino, Folgazão morava a poucos quarteirões da mais afamada casa de burlesco da cidade, o Deputadão. A casa era chamada assim por ficar na rua deputado Rufino Cardoso, e não como se comentava à boca miúda; por ser mais frequentada pelos parlamentares que a própria câmara. Aliás, o Deputadão tinha até um apelido: Câmara Redonda.

Avesso ao contato humano, Folgazão vivia como um eremita. Ganhava algum dinheiro com aulas particulares de português, mas pouco saía de casa. Sua residência, inclusive, vivia sempre de cortinas fechadas, e o único som que se ouvia era o do professor escrevendo, e um ou outro acesso de tosse. Vestia-se sempre de preto fechado, como se estivesse permanentemente de luto. Sua barba hirsuta e ainda escura dava-lhe um ar de profeta tardio. Suas sobrancelhas eram grossas como tapetes, mal escondendo as olheiras violáceas. O rosto era magro e encovado, como uma caveira embrulhada em cetim.

Como faria 45 anos em breve, Folgazão resolveu, do nada, comemorar seu aniversário na notória espelunca para cavalheiros. Mal não irá fazer, - pensou ele. Chegado o dia, botou seu melhor fraque - sim, essa história se passa na época em que Machado era canivete - e lá foi, todo serelepe, cavilosamente sedutor, eu diria; em direção ao puteiro da rua do deputado.

Nem preciso dizer que sua figura austera contrastava violentamente com o comum da clientela do lugar. Havia gringos bêbados, velhotes embriagados, putanas com a maquiagem borrada, músicos cafonas, marinheiros e estivadores desdentados, garçons que pareciam sacerdotes e é claro, sacerdotes disfarçados de garçons. Uma zona, enfim. Quando Folgazão entrou no recinto, foi como se um destaque de escola-de-samba entrasse num velório. Ou algo parecido, sei lá. A música imediatamente parou. As putas desapareceram, clientes cobriram o rosto, copos caíram no chão.

Folgazão ficou mais corado que a bunda de um babuíno. Pensou em retroceder, mas já estava no meio do salão, e todos os olhares convergiam para ele. Em meio ao silêncio asfixiante, resolveu refugiar-se ao lado do balcão de bebidas logo à sua frente, como se fosse um navio em alto-mar buscando desesperadamente um porto. Entrementes, o garçom que servia no balcão abaixara-se ao ver a figura tumular. Julgando-se seguro, subiu a cabeça devagar, espiando com cuidado. Pra seu azar, deu com a cara amarrada e vermelha de Folgazão, encarando-o com olhos injetados. O garçom soltou um grito de pavor, o que só fez piorar as coisas. O grito foi como a espoleta que faltava para incendiar a pólvora do ar. Todos fugiram, deixando Folgazão só.

Os gritos ainda ecoavam na noite quando Folgazão Cueiros chegou em casa. Se o professor já era recluso, desde então tornou-se inacessível. Nunca mais foi visto. O Deputadão também não foi o mesmo, tampouco. Como ninguém entendera nada, o lugar pegou fama de assombrado. Logo depois seria abandonado. Atualmente, o que resta do antigo casarão é o pátio de um estacionamento.

Essas coisas eu soube depois, colhendo vários relatos esparsos, e costurando tudo com um viés de lenda. Quem não faria o mesmo?

terça-feira, dezembro 13, 2005

Logo do Super projetado nos fundos do prédio do vizinho. Por uma grande coincidência, a lâmpada do teto alinha-se com a janela do meu banheiro que por sua vez usa como anteparo a parede em frente. Resultado: presepada.

O logo do Super foi feito de cartolina, como um molde vazado. Aposto que ninguém notou, bando de parvos! Vou provocá-los mais. Na próxima, desenharei um grande cotoco!

Embaixo do logo tá escrito returns, dá pra ver?



Love and hate

O Angeli tem uma série de quadrinhos famosa chamada duas coisas que eu odeio e uma que eu adoro. Convenientemente boladas para caberem numa tirinha de três quadrinhos, claro. Aproveitando o mote, vou fazer minha listinha também, com o agravante que nem consigo fazer um plágio bem feito, pois vai ser na base do papo, sem desenho. Mas enfim, cada um tem o falsário que merece.

Uma coisa que odeio. Olhando a partir de um mapa, todas as viagens seriam muito simples. As distâncias entre os bairros poderiam ser vencidas com uma elegante linha reta, que vai de onde você está para onde se quer ir. Mas na prática não acontece isso. Somos seres rastejantes, bidimensionais. Não podemos usar a terceira dimensão e voar por sobre os obstáculos, como qualquer urubu velho faz. Temos que percorrer as ruas e suas linhas sinuosas e confusas, desviando de rios, prédios, aeroportos e tal. Isso faz com que uma viagem que deveria ser uma linha reta se transforme num longo desvio, que muitas vezes nos leva até mais longe de onde estávamos, para em seguida retomar o curso. Isso é irritante, não?

Digamos que eu fosse visitar a Björk, na Islândia. Obviamente eu iria vestido com roupas simples, talvez um gibão de couro fosforescente e uma gravata de algas marinhas, para não impressioná-la muito e deixá-la à vontade. Bom, a Islândia está quase na mesma longitude de Fortaleza. Literalmente, era só subir reto. Legal, não? Mas não é tão simples: provavelmente eu teria que ir até Lisboa, de lá até Bruxelas, de lá até Londres e quem sabe, de lá até Reikjavik. O que era uma linha reta se transforma num > esticado.

E não estou levando em conta que na verdade, não existem linhas retas na superfície dum globo. Uma linha reta daqui até a Islândia atravessaria a crosta da Terra, para emergir mais ao norte. Melhor se conformar. Se posso pagar uma passagem tão cara, não deveria reclamar tanto. E ainda conheceria a Björk!

Outra coisa que odeio: gente que fala cutucando (não sei se isso é nordestinês demais, mas cutucar é o mesmo que usar os cotos dos dedos para comprimir a própria pele ou a dos outros. Pode ou não ter conotações eróticas, vai saber). Compreendo que numa conversação, um leve toque serve para chamar atenção para algo importante, e tal. Beleza. Mas tem gente que só se comunica assim, como se fôssemos uma grande tábua de código Morse. Ah, vão cutucar as vossas genitoras!

E finalmente, uma coisa que adoro: pisar em folhas secas. Adoro o barulhinho de croc que elas fazem.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Minha inominável carranca. Um auto-retrato sem piedade. Acrílica sobre tela, 2005. Aproximadamente 90 x 60 cm. Paul Klee deve estar se revirando na urna de porcelana.



Simbora, o marujo
e o feitor de escravas brancas


Faz tempo que não tínhamos notícias de Simbora, o marujo, e de sua tripulação de travestis aposentados. Segundo relatos anteriores, eles estavam circunavegando a Suíça quando uma grande calmaria tomou conta do navio. Imediatamente, organizaram uma rave em pleno convés para afastar a modorra e foi justamente nesse instante que o navio de Simbora, batizado às pressas como Galeota dos Mares; abalroou alguma coisa.

Navegando a esmo - pois a bússola fora usada como balde de gelo - a Galeota de Simbora atingiu o Pequod, barco de contrabando de escravas brancas, liderado pelo famigerado capitão Mustafá Fádebelém. Devido ao choque, ambos os barcos precisavam de reparos, e decidiram aportar discretamente no porto de Zurique, para os devidos consertos. Convém lembrar que Simbora fora escorraçado de seu país, jurado de morte. E o capitão Mustafá tinha a cabeça a prêmio, por vender para o sultão de Brunet uma piauiense platinada dizendo-se dinamarquesa.

Enquanto os navios eram cuidados, o capitão e o jovem marujo foram inspecionar a carga que o Pequod levava. Era um carregamento de austríacas encomendado por um ricaço de Barretos. O capitão Fádebelém falava o tempo todo, agora que encontrara um ouvinte atento: o ingênuo Simbora. Dizia o capitão Mustafá que a vida estava difícil, as loiras estavam em falta no mercado, os consumidores estavam exigentes e nem mesmo as ruivas, outrora bem aceitas nos trópicos, conseguiam saída por esses dias. Reclamava ainda dos pequenos navios populares, que só faziam 1.0 nó. Como as holandesas e norueguesas ocupavam muito espaço nesses navios, quase não tinham compradores. E ele só se lamentava o tempo todo.

E a alimentação das semoventes? - continuou o capitão. Essas austríacas só querem caviar e torradinhas, e rejeitam tudo o mais que ofereço, dizendo que estão de dieta. Para conservar a mercadoria, tenho que fornecer cremes hidratantes, escovas e depilação dos cílios, senão elas são rejeitadas pelos clientes. Tive uma carga inteira de suecas recusada por causa de tártaro. Assim, não dá pra viver! E choramingava.

Simbora estava de saco cheio do capitão Mustafá, e para abreviar o papo, fez a besteira de perguntar se podia ajudar em algo. De fato, sim, você pode - disse o capitão, com um sorriso malicioso -. Venha comigo. Foram ao porão e num fundo falso do navio, o capitão mostrou sua carga secreta: um carregamento de ucranianas de 12 anos! A proposta do capitão era que Simbora levasse as meninas consigo para despistar os fiscais alfandegários, e em troca, elas - as meninas - poderiam brincar com os travestis, fazendo trancinhas no cabelo, trocando bottons das Meninas Superpoderosas e tudo mais. E ainda, quebraria um galho para esse seu velho amigo, que tal?

Simbora concordou, e nem bem a carga fora levada para o Galeota, baixou a fiscalização. Os federais autuaram Simbora por caça predatória e ameaça à espécie, pois a idade mínima para o comércio de escravas brancas era de 16 anos. Nem preciso dizer que o capitão Mustafá se mandou ao menor sinal de perigo, deixando Simbora na mão.

Resultado: além da multa exorbitante, Simbora tem que pagar a engorda e a educação das meninas, caríssima, por sinal. E a situação vai piorar daqui a três anos. Todas elas fazem 15 e com certeza vão querer ir pra Disney.

sexta-feira, dezembro 09, 2005



Cale-se, você está de fogo

O Saramago levanta uma questão delicada, no seu Evangelho Segundo Jesus Cristo. Trata-se da culpa de José, pai de Jesus. Ao ser avisado pelo anjo que os romanos estavam chegando com gládios afiados para matar as criancinhas, José simplesmente botou a famíla num jumentinho e picou a mula, com o perdão da expressão. Ele não disse nada a ninguém, nem sequer avisou seus vizinhos. Dezenas de crianças morreram. No livro, José passa boa parte da história remoendo essa culpa, e o remorso age como um câncer até que finalmente... bom, acontece uma coisa lá.

Aí eu pensei: a morte daqueles inocentes em nada acrescenta ao mistério de Jesus. O objetivo do redator da Bíblia era realçar a crueldade dos romanos, por meio de um clímax teatral - e muito sangue no palco? Que texto ruim, hein? Por que diabos ele, José, não avisou a pelo menos uma pessoa, e essa avisaria outra, e assim por diante? Se todos fugissem a tempo, seria uma afronta ao Império Romano. Os centuriões ficariam com a cara no chão, ao chegarem nos vilarejos e não encontrando ninguém.

Por causa de seu presságio, José ficaria com fama de sábio e profeta. Até facilitaria a missão de seu filho, anos mais tarde. - Ah, Jesus? O filho do profeta José? O cara é gente boa! Vamos ouví-lo. No final, talvez Jesus nem fosse morto numa cruz. Apenas tivesse que pagar uma multa por vadiagem e tudo bem.

Poxa, se eu sei de uma dica de trabalho, aviso meus amigos. Se eu fico sabendo que já liberaram as vendas dos ingressos pro U2, passo um e-mail avisando pra correrem, senão esgota. Qualquer cara decente faria o mesmo, né não?

Finalmente chego ao cerne do texto de hoje: e o Harry Potter e sua turma? Não é estranho que aqueles bruxos vivam num mundo onde fraturas possam ser consertadas, o vôo humano é trivial, existem poções que curam quase tudo, e eles nem dividem com a gente? Até nos chamam de trouxas! Depois reclamam que nossa espécie é miserável, mesquinha e preconceituosa para com eles, ora vejam só.

Deveria haver uma integração. Deveríamois derrubar esse muro dimensional que nos separa, e dividirmos as coisas. Eles nos ensinariam seus truques e segredos, e nós, em contrapartida, não os queimariam mais em fogueiras, que tal?

quinta-feira, dezembro 08, 2005




The monster is here.

Hoje não tô a fim de fazer muitas gracinhas. Afinal, o 8 de dezembro é lamentado no mundo todo como o dia em que perdemos um grande artista. Sem dúvida, esse cara faz falta hoje. Pelo que dizem, além de músico fora de série, ele também era um pai carinhoso, um amigo fiel e um esposo no mínimo meio surdo, mas tudo bem. Os eventuais podres que são desenterrados a cada ano parecem não abalar o carinho que o mundo todo tem por ele. E cada geração o redescobre por sua vez, fortalecendo mais ainda seu legado.

Soube da morte do John quando morava em Quixadá, interior do Ceará. Quixadá na época era um lugar tão remoto que os mapas não tinham seu nome impresso: era escrito depois à mão, com um toco de lápis, sob a luz de lamparinas. Eu tinha 9 anos em 1980, e pouco ligava para o badaladinho meio cultural de Nova York. Hoje, eles que me ignoram, bem feito. Assim, não sabia ao certo quem era aquele cara cabeludo de óculos redondos que estampava a capa da revista Veja. Lennon e o nosso tempo, era a manchete, me lembro demais. Depois, fui ligando as coisas. - Ei, esse doido lançou um disco há pouco, que teve um clip mostrado no Fantástico - . Acho que o nome da música era Woman. Aí as rádios tocavam suas músicas o tempo todo, e fui imergindo aos poucos.

E até hoje não emergi por completo, desse estado de... qual a palavra? Indignação? Não, muito gasta. Perplexidade? Não, muito Shire. Consternação? Talvez. Revolta? Quase.

A combinação de um desequilibrado mental mais fácil acesso a armas não poderia dar em nada bom mesmo.

Agora o assassino do John está preso. Prisão perpétua. Seus pedidos de condicional são negados, apesar do seu bom comportamento nesses 25 anos. O motivo é óbvio. Dizem que ele recebe cartas e cartas de fãs indignados, de todas as idades, dizendo que vão dar cabo de sua pele assim que ele botar os pés fora da prisão. Quem conhece a história americana deve levar muito a sério essas ameaças: doido lá é o que não falta.

Quer saber? Dou a maior força. Eu não seria capaz de matar ninguém, nem mesmo esse cara - que merece cada suplício do inferno - , mas no meio da turba, darei minha pedrada sim.

Não iria suportar ver aquele gordalhão vivo, solto e feliz, dando entrevistas, vendendo livros, recebendo royalties, indo a shows do Paul. Nem eu nem ninguém.

A sensação da perda do John é parecida, com as devidas proporções, à perda de Arquimedes.

Durante um cerco à Siracusa, repelido pelo exército e pelas engenhocas de Arquimedes, um soldado persa consegue furar o bloqueio e invade a casa do mestre. Ele o encontra sereno, em seu quintal, desenhando figuras geométricas no chão de terra. Ao perceber que o soldado se aproxima, Arquimedes revolta-se: - não pise em meus desenhos, disse ele. O soldado irrita-se e o traspassa com a espada. O rei persa, ao saber do ocorrido - pois havia dado ordens expresas para que Arquimedes, se achado vivo, fosse poupado -; lamentou profundamente. E executou o soldado burro, pra não perder a viagem.

Arquimedes não ficaria sozinho. Infelizmente, não foi a última vez que um idiota matou um gênio.

quarta-feira, dezembro 07, 2005




Prossigo com meus depoimentos publicados no Orkut, dessa vez constrangendo a Clarinha e a Alessandra.

Falando em Orkut, vocês viram? o UOL lançou o UOL-kut! Patético. Então, pra concorrer com a Livraria Saraiva, vão lançar o UOL-raiva. No lugar do Banco Safra vão criar o UOL-fra. A Cutrale vai ser substituída pela UOL- trale. A Mesbla vai ser soterrada pela UOL-bla. O Estúdio Warner pela UOL-ner. E se o UOL for investir no ramo automobilístico, vão desbancar a Ford criando a UOL-ord? Façam-me o favor.

E aqui vão os depoimentos! Primeiro a Clarinha:

A gente se conhece desde 2060, e de lá pra cá, temos ficado mais jovens e ela mais bonita ainda. Provavelmente ainda vamos nos encontrar no jardim da infância, lá por 1978. O sorriso da Clarinha abre muitas portas, mas por via das dúvidas, ela sempre anda com seu passaporte azul.

Sua viagem mais louca foi à Transilvânia, mas como estava ficando tarde, só pode ir até a Cissilvânia, que fica um pouquinho antes da selva. Toca piano de mão cheia e é uma ótima cozinheira de ouvido, o que costuma confundir seus convidados.

Teve um carro chamado Deep Purple e agora dirige um Beetle Amarelo - o que não deixa de ser uma evolução. O que mais gosta de fazer é absolutamente nada, de preferência bem acompanhada, pra poder comparar. Se fosse morar em outro país, escolheria Tuvalu, por causa do sol e do domínio .tv, é claro.

Tem um lindo sítio na internet, junto com duas amigas. Chega-se a ele através de uma estradinha de terra cercada de flores, e ao tocar a campainha do portão ela faz NIII!

E agora, a Alessandra:

A Alessandra tem a idade de 1,98 m, pesa mais de 26 anos e tem a altura uns 50kg, tudo isso distribuído harmonicamente pelos quatro cantos do planeta - para onde ela viaja sempre que pode, fugindo de seu adorável mundo da Lua.

É formada em computação, e totalmente desinformada quando se trata de cultivar bonsais. Tem uma sobrinha e um carro, mas gosta mais da sobrinha, pois o carro não vem quando ela chama. Apesar de gostar muito de massas, mas não suporta multidões.

Costuma ter sonhos premonitórios, e certa vez adivinhou os números da Mega Sena. Pena que os números só vão sair em 2055, mas ela anotou tudo num caderninho e vai dar pra Sarah jogar. Tem queda para as artes, desde o tombo que levou no Louvre. Já mandou tanta gente chata pentear macaco que eles abriram um salão de beleza.

Vive intensamente seu dia, mas as noites são melhores pra balada. Tem um sonho secreto, que descobri enquanto revirava seu lixo: ela quer ser a primeira papisa da Igreja Católica, só pra poder fazer uma rave no Vaticano.

terça-feira, dezembro 06, 2005



Caça ao corrupião do cerrado

Então o nobre deputado foi cassado. A causa do processo foi a quebra do decoro parlamentar. Realmente: o deputado costumava ir às sessões do Congresso trajando nada mais que bermudas e camisas com estampas florais. Nos pés, apenas umas havainas tão puídas que estavam desgastadas num dos lados das solas. O comportamento descontraído e folgazão do deputado pelo Estado da Pindaíba do Norte não condizia com os ditames de tão prestidigitosa casa.

Raimundo Macaxeira era seu nome. Desde criança destacara-se como líder. Na seca braba de 1966, seus pais o encerregaram de ir ao mercado vender o único bem que possuíam, uma vaca de uma teta só. Chegando ao mercado, descobriu que na verdade tentavam há anos ordenhar um touro velho. Mesmo assism, conseguiu trocar a Mimosa - agora Valadão - por sementes mágicas de melancia. Chegando em casa, fora aclamado como herói. Plantaram as sementes e delas brotaram uns pés de alface muito bonitos.

Na última eleição fora feito deputado federal com a quase totalidade dos votos válidos. 20 eleitores, dos 21 aptos a votar, depositaram nele suas esperanças. O que se especulava na época é que o próprio Macaxeira errara ao tentar votar em si mesmo. Naquele rincão do país, o voto ainda não era eletrônico. Os eleitores que não fossem analfabetos patológicos deveriam escrever um x na cédula eleitoral, confeccionada em papel de embrulho fornecido pelo bodegueiro local. Macaxeira, entretanto, deve ter usado para votar sua própria lista de compras. Era a única explicação possível para uma rapadura de coco ter conseguido 1 voto.

Já na capital, Macaxeira destacou-se por seu projeto de lei sobre a reforma da língua. Pretendia abolir do vernáculo culto termos xulos e imorais, como: despregado, acuado, parapeito, pica-pau, depauperado, paulatino e apracur. Também conseguiu certa notoriedade por instituir um estacionamento para jegues na entrada da Câmara e por ser o único deputado a cortar as unhas dos pés em plena sessão solene.

Agora que Macaxeira foi cassado, seu suplente assumirá o cargo. Trata-se de seu pai, Severino Carga-Torta (apelidado assim por não ter o testículo esquerdo). Seu trabalho na câmara seguirá os passos do filho, que inclusive, já foi contratado como assistente administrativo. Espera-se que até o fim do mandato Carga-Torta resolva o seu terrível problema de flatulência, que faz com que os alarmes de incêndio da câmara disparem durante as sessões. E que seu filho, finalmente, troque seu jegue por uma bicicleta - já que bicicletas não sujam o estacionamento de esterco.

segunda-feira, dezembro 05, 2005



Saudosa maloca

O segredo de um projeto em arquitetura é saber o que o cliente quer. Muitos arquitetos pop stars não ligam pra isso. Na verdade, estão projetanto para si próprios, essas divas melindrosas. O cliente e as pessoas que insistem em sujar sua escultura, caminhando por dentro dela são apenas um detalhe indesejado no contexto. A insistência na forma, essa teimosia escultórica é a razão do fracasso de muito projeto bom. Sabendo qual a necessidade do cliente, é possível depois viajar à vontade.

Veja meu caso, por exemplo. Recebi a tarefa de projetar e construir uma casa para o gato da minha vó. Vou chamar o cliente simplesmente de Gato, pois mesmo ele tendo um nome, não vem quando a gente chama, então, é inútil desperdiçar saliva com ele. Pois bem, o Gato precisava de uma casinha para poder curtir sua fossa e de um lugar para tirar uma pestana. Além disso, também há um cachorro que mora com ele. Mesmo ambos se dando muito bem, o Gato, menorzinho, gosta de se resguardar das brincadeiras mais pesadas do cachorro. Não, não é isso que estão pensando. Ambos são mais emasculados que os eunucos da ilha de Lesbos.

Então os hábitos do Gato são bem simples de entender: dorme direto 20 horas e nas 4 horas do dia que lhe restam, ele come, evacua e passa longos minutos prazeirosamente lambendo a própria bunda.

Aceitada a encomenda, projetei uma estrutura de dois andares com portas móveis, acarpetada e com sujestivos desenhos de gatinhas na parede - como se isso fosse adiantar alguma coisa, mas não costumo questionar a sexualidade dos meus clientes. O gato ficou muito contente com o resultado final, e usou a casa por uns 5 meses. Mas aí, percebi que cometera um erro, ao não levar em conta um detalhe: gatos gostam de subir no telhado das casas. De tanto o Gato dormir em cima da casinha, o teto cedeu e a casa perdeu um cômodo. Se eu fosse um arquiteto famoso, poderia dizer, arrogante: - Que tal fazer um regime, garoto? Mas sou um arquiteto das antigas, e me preocupo com os clientes. Garantia lifetime!

Assim, reprojetei a casa e construí a versão 2.0 da Casa do Gato, entregue ontem, domingo, com plena satisfação do Gato e de seus familiares. Fiz o devido reforço no terraço, claro.



A casa tem partes móveis e um intrincado sistema de pisos e elevados, para que o Gato possa subir, descer, explorar e arranhar as paredes à vontade. Só não mostro a estrutura interna para resguardar a privacidade de meu cliente, e porque estamos em processo de patente.



Obviamente é um gato curioso.



- A casa é boa, mas a vista é uma merda!



A antiga Casa do Gato, destruída para dar lugar à casa nova. É a força inexorável do progresso, baby.

sexta-feira, dezembro 02, 2005




Simbora, o marujo

Simbora não sabia nada de navios, mas isso não o impediu de ser o pior navegante da antigüidade. Encasquetou na sua cachola miúda que iria conhecer novas terras e gentes, e para isso, matriculou-se na renomada Escola de Bagres, fundada pelo Infame D. Henriquieto. A escola era famosa em toda a Europa por ter inventado a bússola, a caravela e a quebra de patentes. Mas o astrolábio - chamado por lá de astrobeiço -, fora importado dos botocudos, nação mais ao sul.

O primeiro instrutor de Simbora foi o velho navegante chamado Bardo dos Mares. De tanto os marinheiros ouvirem a pergunta: - Quem é o capitão? E responderem: - É este bardo! - a coisa derivou para estibordo, que se fala até hoje. É por isso que todo navio, assim que sai do estaleiro, já vem com um.

Na sua primeira aula, Simbora disse a que veio. Os alunos tinham que construir um bote com uma tina de rum. Simbora protestou. Queria receber sua tina cheia, para poder entender todo o processo. Assim, bebeu um tonel inteiro de rum e ao fim da aula, nem precisou construir um bote: foi boiando até a foz do rio e por pouco não foi comido pelos peixes.

Cartografia não era seu forte. Certa vez, vendo ilhas desenhadas num mapa, perguntou para o professor se a Micronésia era daquele tamanho mesmo. Imaginem a Macronésia, deve ocupar um mapa enorme. Nem quero pensar na Meganésia e na Giganésia! - foi sua participação na aula, para desgosto do professor.

Durante o fim de semana, os estudantes iam descarragar suas tensões na Taverna de Mané Chica. Foi lá que Simbora conheceu o que seria sua futura tripulação, composta principalmente de travestis em fim de carreira. Numa de suas bebedeiras, soube que um velho pirata estava vendendo seu navio por uma pechincha: - "vinte escudos de prata, mais uns impostos atrasados". Simbora achou a oferta tentadora, e com o dinheiro economizado em trambiques aplicados na taverna, comprou o barco. O que Simbora não sabia era que a pena para impostos atrasados era a morte. Nem bem comprara o barco, Simbora viu o pirata escafeder-se, coxeando em sua perna de pau. A milícia do rei chegara num rompante, com lanças, arcabuzes e um monte de advogados ferozes.

Não havia alternativa a não ser zarpar. Fanfarrão, Simbora fora comprar o navio junto com seus camaradas travestis. - Quero ver quem tem um navio maior que o meu, disse o mandrião. Foram todos forçados a se refugiar no navio, enquanto o casco era golpeado com lanças, balas de chumbo e estagiários de direito. Saíram do porto e ganharam mar aberto. Um horizonte de aventuras os esperava! - Porra, esqueci de trancar a matrícula! - Disse Simbora, preocupado com seu currículo.

quinta-feira, dezembro 01, 2005



Grandes atratores, vórtices temporais e superaglomerados de estrelas

A decisão de escolher a direita ou a esquerda entre dois caminhos pode mudar sua vida. Sabe aquela informação que você queria, crucial para todo o projeto? Pode estar na oitava página do Google, mas você, cansado, só olhou até as sete primeiras. E Aquela exposição que você não quis ir? Vacilou, baby. O Daniel Azulay esteve lá e você perdeu a chance de apertar a mão dele!

Há entroncamentos temporais na vida da gente, como nas estradas existem freeways, retornos e atalhos. Continuando com as metáforas, esses entroncamentos são como novos brotos num galho: se eventualmente tornam-se ramos fortes, mudam até mesmo o rumo de crescimento da árvore.

Mas chega desse papo paulocoelhístico. O fato é que uma faculdade, um casamento, o nascimento de um filho, uma decisão entre dois empregos são coisas que têm o poder de definir nossa vida daí por diante. Em geral, quanto mais distante o evento no espaço-tempo, mais importância ele assume.

Dos meus grandes atratores ou entroncamentos temporais, sem dúvida um dos maiores foi ter entrado para a Sigma informática, em 1991. Com todo o respeito aos meus atuais colegas do MIT, nunca mais fiz parte de um time com tanta gente inteligente e divertida. A influência dessa turma foi enorme. Com as devidas proporções, era como se cada um de nós tivesse um superpoder, e juntos, fôssemos a super liga dos fodões. Não era brincadeira. Fico muito orgulhoso e honrado em ter conhecido esse povo. Hoje, cada um deles estão espalhados pelo mundo, em postos chave. Reunir uma equipe como essa hoje, seria impossível. Foi aquele momento raro de confluência, onde tudo deu certo e se formou um dream team quase sem esforço, como planetas orbitando o Sol.

Na Sigma pude ainda ter meu primeiro contato com computadores e a Internet. Os amigos e contatos profissionais que fiz lá ainda hoje estão à minha volta. A Sigma foi o prolongamento das arestas de um triângulo, que ao se encontrarem no ápice, expandiram-se mais ainda, infinitamente, formando um X de crescimento exponencial! Tive muita sorte!

Meu grande apreço, amizade e carinho pelo Olinto, Rodney, Barreto, Nilton, Patrick, Walmir, Honório e pelo capitão dessa nau de insanos, o Professor Adolpho. Evoé!



Lembram disso, caras???