quarta-feira, maio 17, 2006

Outro boneco para aquele projeto. Curioso olhar o desenho assim sem contexto, não? Ele poderia servir para qualquer situação, dependendo da escolha da legenda correta: - Tem seguro que cubra sinistro por apocalipse?




As hostes

Os bárbaros estão chegando. Como estamos acossados entre a serrania e o mar, nossas alternativas são de uma simplicidade binária: ou nos deixamos massacrar ou reagimos. Esconder-se poderia ser uma opção mais em conta, mas os bárbaros têm por hábito vasculhar debaixo de cada cama. Se escolhermos a imolação, tudo bem. O além morte tem lá suas vantagens, como o fim de toda a dor e a anulação dos casamentos. E há um certo charme estético na empalação. Mas se a escolha recair sobre o contra-ataque, bem; já fomos expulsos mesmo do Paraíso, então, o que mais há para perder?

Poderíamos cercar as cidades com estacas e colocar sentinelas em volta do fosso. Esquece, os bárbaros subornariam os vigias e entrariam pela porta de frente, assobiando Ronda. Também não adiantaria explorar o lado superticioso dos bárbaros, criando leis mais tenebrosas que demonizassem o rapto, o assassínio e o achaque, pois os bárbaros já não têm medo dos demônios. Os demônios, inclusive, servem cafezinho e fazem outros servicinhos básicos, como limpar o covil e servirem de escravos sexuais para os chefões bárbaros.

Outra alternativa para barrar o avanço das hostes seria tratá-los com educação. Acostumados a só levarem patadas, talvez os bárbaros ficassem confusos se chegassem às portas da cidade e se deparassem com um cortejo de vestais e virgens portando flores e cartazes de boas-vindas. Mas duvido que isso desse certo, talvez só os atrasasse um pouco. Quanto tempo dura uma orgia com decaptações e enventramentos?

Estamos ficando sem alternativas rapidamente. Enquanto deliberamos, os bárbaros estão a poucas centenas de metros da cidade. Não sei se o barulho que estamos ouvindo são os cascos dos cavalos dos bárbaros ou nossos dentes batendo de medo, mas o fato é que eles estão perto.

No desespero, alguém sugeriu uma idéia oudada, que se assemelha morbidamente à camuflagem. Se não dá pra detê-los, que tal se nos tornássemos bárbaros também? Já que estamos com a cidade sitiada mesmo, por que não nos entregarmos antes aos estupros, mortes, espancamentos e declamações de poemas com fúria assassina? Pelo menos vai ser com gente conhecida e não com os bárbaros sujos. Quando as hostes chegassem, só encontrariam ruínas e nossos últimos estertores de gozo e prazer. E os eventuais sobreviventes ainda poderiam excursionar com os bárbaros no ataque a outras cidades, ora vejam que maravilha.

O que me assusta é que a idéia está sendo considerada seriamente, inclusive pelos velhos sábios da aldeia. Decretando o caos antes, a gente impede que o caos chegue. Não deixa de ter lógica.

Enquanto escrevo, posso ouvir os gritos dos bárbaros e o som de suas catapultas lançando pedras fumegantes. Algo me diz que as coisas jamais serão as mesmas novamente, depois disso. Olhaí, o preço do colete à prova de balas já aumentou, droga.

5 Comments:

Anonymous edge said...

"Eu sabia que tinha alguma coisa de errada com aquela promocao para férias em New Orleans" :)

8:23 PM  
Anonymous Nanael Soubaim. said...

Nada devemos temer, pois nada temos a perder. O que temos, na realidade, é o livre arbítrio, nada mais; nem roupas, nem idéias, nem nossos corpos. Nada disso é realmente nosso. Só o arbítrio é nosso. Nós somos o arbítrio. Quando percebermos isso saberemos que ninguém sobre o orbe terrestre é invencível, raramente é maior do que medíocre, então o sopro de insatisfação bastará para banir os bárbaros. Os demônios? Não brinque com eles, pois também estão de partida.

3:12 AM  
Anonymous Marco Aurelio Brasil said...

Brilhante, Hemetério!! Já leste "À espera dos bárbaros", do J.M.Coetzee?

1:56 PM  
Blogger Hemeterio said...

Marco, ainda não, mas vou anotar com interesse.

Vi teu comentário sobre os distúrbios em SP e achei duca a comparação com Lost:-)

Estranho como a gente brinca com tema sério. Eu sei que eu mesmo galhofaria no meu próprio velório!

2:46 PM  
Anonymous Nanael Soubaim. said...

Esse é o espírito da coisa.

8:59 AM  

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