segunda-feira, outubro 09, 2006

Fatman II

Existem poucas vantagens em ser gordo. A grande vantagem, no meu caso, é que as minhas clavículas não aparecem. Vocês não se incomodam com a visão de ossos humanos embrulhados em pele? Eu sim. Outra pequena vantagem é o isolamento térmico. Mesmo aqui no Ceará, cuja calefação foi feita pelo mesmo fornecedor do Inferno; não suo em bicas como poderia parecer. E o oposto acontece: o frio também não me atinge, pelo menos do ameno inverno brasileiro.

Na iconografia medieval, os diabos eram sempre magros, e os anjos e santos, gordinhos. Por muito tempo, o visual de deusa da fertilidade, cheia de banha e celulite era o padrão estético da arte. Mesmo hoje, com esse bombardeio anoréxico pela mídia, um fat boy slim ainda é visto com simpatia. Sem falar nos musos gordos, como Jack Black, Kevin Smith e o Patrick de Bob Esponja.
O próprio Jesus Cristo, se fosse um líder gordo, talvez não teria sido crucificado, pois não ia haver cruz que agüentasse. Teriam que pregar o sujeito numa trave de futebol, o que não seria uma visão inspiradora nem pia. O fato é que se ele fosse gordo, talvez os romanos tivessem apenas metido-lhe o açoite e o soltassem em seguida. Hoje, quem sabe, ainda estaríamos adorando os divertidos deuses gregos, que ninguém nunca levou mesmo muito a sério.

Veja o caso de Hitler e Churchill, os dois grandes personagens da Segunda Guerra, antagônicos até no porte físico: um era magro e irritadiço, ao passo que o outro, gordo e bonachão, era a simpatia em pessoa. Um Hitler gordo talvez estivesse tão entupido de serotonina, que deixasse pra lá esse papo da tanta zanga. Pelo menos os discursos seriam mais amenos, pois um gordinho sempre precisa de pausas ofegantes para respirar. Ou para deglutir um doce.

Nos períodos de fome e escassez, um líder magro como a morte pode até colar sua fisionomia grave à gravidade da situação, não sei, mas gente como o Lincoln me vêm à mente. Nos períodos de fartura, não necessariamente um líder gordo entra em cena, pois na política, assim como na publicidade, é difícil vender um gordo, a não ser como cômico. Mas é indubitável que é mais fácil engolir as falcatruas de governantes gordos e simpáticos, como o Lula e o Nikita Kruschev, só pra ficar em dois exemplos.

Falei há pouco da publicidade. Quem não se lembra de um comercial antigo das motos Honda, em que um gordinho cantava: eu acordei, me levantei, e depois dormi, oh yeah? O fracasso, nesses tempos estranhos, é associado com a gordura, e a magreza, ao sucesso. E aqui, apelo de novo para a memória de vocês, para um outro comercial recente, dessa vez do Unibanco. Nele. é mostrado um jovem magro e esbelto na forma de desenho animado, onde tudo dá certo pra ele. Até sua jovem esposa é magrinha! E falando em bancos, os comerciais do Itaú, também em desenhos animados, mostram o gerente de um banco rival como um gordo de barba por fazer, suado, e que trata mal o desenho do dinheirinho, que entra caminhando na sua agência. Coincidência?

Ah, o gordo também é o contraponto cômico ao herói magro, como no caso de Sherlock Holmes e do Doutor Watson, ou em Dom Quixote e Sancho Pança. Ou então, no caso de Phileas Fogg e Passe-Pateau, Zorro e sargento Garcia e Batman e chefe O´hara. Os vilões, em compensação, são magros como o Coringa, Bin Laden, Drácula e Odete Roitman.

Resumindo, os gordos herdarão a Terra. Obviamente que o mundo vai se acabar numa grande fome mundial, e nós, os acumuladores naturais de gordura, enterrarão os fastiosos. E ainda ficaremos com um belo corpinho sarado, depois de meses sem comer direito. A todos esse magrelos zipados, minhas condolências. E torta de colesterol e a vossa mãe.

5 Comments:

Anonymous Michel said...

estamos no aguardo General :D

11:07 AM  
Blogger Zarastruta said...

Hemé,

Como gordo você é um charlatão. É uma afronta aos gordos você se entitular gordo.

Mas como escritor você é the real thing.

1:18 PM  
Blogger El hombre maíz said...

Ei, esse comercial da honda é um clássico. Meu primo dançava igualzinho o cara do anúncio e a gente enchia o saco pra ele imitar. Vou até buscar esse comercial no youtube.
Lembra de uma paródia do casseta e planeta para esse cmercial?
Saía o falecido Bussunda vestido de policila cantando "Hoje eu acordei, peguei minha arma, vesti minha farda e fui trabalhar... Depois que acordei, eu matei mais quatro, torturei um gato, chacinei umas velhas..."
E saía uma voz anunciando "Ronda policial, porque viver matando não pode ser só isso."

9:56 AM  
Anonymous Quinho said...

Não gostei.

8:15 AM  
Blogger Hemeterio said...

Quinho! Não fique triste, esqueci de dizer que os gordos e os imensamente sapientes também herdarão a terra:-)

2:27 PM  

Postar um comentário

<< Home