sexta-feira, dezembro 01, 2006

Agora só faltam 8 páginas!



Prestes, o prestativo

Cheguei ao bar e bradei a plenos pulmões: garçom, uma estupidamente! Imediatamente ele me mandou à merda com notável estupidez. Essa era uma tradição entre mim e o Prestes, meu garçom do Cornualha. Toda vez que eu chegava ele deveria me receber com um impropério que denotasse a mais cavalar falta de tato. Mulheres coravam, coroas franziam o cenho, adolescentes riam às pregas soltas. Isso era útil para nós dois: eu me divertia a valer e ele cultivava uma fama de indecente que era o charme do lugar. As pessoas iam ao Cornualha para ver quem o garçom iria insultar.

Como vai, doutor?, disse prestimonioso o Prestes. Vou bem, e você?, respondi. Vou servindo, disse com bom humor o Prestes - o de sempre? Sim, por favor. O de sempre a que ele se referira era uma cerveja boêmia long neck acomodada num isopor para garrafas de 600ml. As pessoas olhavam e achavam estranho aquela cervejinha sumida num isopor feito para cervejas muito maiores. Mas eu tinha uma teoria, e o Prestes me apoiava integralmente: se a cerveja fosse digna do nome, ou seja, uma pescoção, a qualquer momento ela colocaria a tampinha para fora da borda do isopor. Então eu ficava alguns minutos encarando sério a cerveja até que um dos dois desistisse. Obviamente eu deixava pra lá, e bebia minha cerveja assim mesmo, mas me divertia à beça com os cochichos do povo a perguntar o que eu olhava tanto.

Eu também aprontava umas com meu amigo Chalaça. Certa vez, combinamos com o Prestes que ele pregaria uma cerveja choca e já previamente aberta, por baixo do tampo da mesa. As mesas do Cornualha eram cobertas com uma toalha, então, ninguém via a arrumação. A certa altura, eu ou o Chalaça gritávamos para que o Prestes nos trouxesse o torsal e o funil. Eis que lá vinha de dentro do bar o Prestes com os apetrechos. Pegamos o torsal, longo como uma mangueira e acoplávamos o tubo no funil. Já sacaram, não? Passamos tudo para debaixo da mesa e fazíamos sons de prazer, como se evacuássemos meia Bica do Ipu ali entre as mesas do bar. Como a toalha protegesse a encenação, ninguém via que na verdade era a cerveja choca que era canalizada, amarelo cristalina, para a coxia da rua. Gente fina, o Prestes.

O Chalaça trabalhava numa produtora do Centro, e de lá roubara uma garrafa cenográfica, daquelas que os brigões de Saloon sempre quebram um na cabeça do outro. Mais uma vez, combinamos com o Prestes que lá pelas tantas, simularíamos uma discussão e um início de quebra-pau. Para impedir a balbúrdia, ele quebraria a garrafa de mentirinha na borda da mesa e ameaçaria, todo macho: ou dávamos o fora dali ou alguém ganharia cirurgicamente um segundo cu. Os clientes adoravam essas blagues!

Mas o que era bom dura pouco. O Prestes voltou pro Interior dele, em Mundaú, e o velho Cornualha nunca mais foi o mesmo. Se é verdade que para uma boa mágica a gente precisa da cumplicidade da platéia; para uma boa presepada a gente precisa de um parceiro com timing perfeito. Soubemos dia desses que o Prestes havia morrido, enquanto trabalhava no humilde boteco que ele montara na beira da praia. Talvez para relembrar os bons tempos, ou porque a idade lhe tirara o senso crítico e a noção do perigo; mas o fato é que ele resolvera brincar com um cliente e se deu mal. Serviu ao rapaz ostras coladas com Super-Bonder. Matuto não tem senso de humor.

4 Comments:

Blogger Zarastruta said...

Hemé,

Nunca tinha autorizado você a contar as estórias que eu lhe contava. Isto é uma grande sacanagem. Ainda bem que você preservou os nomes em pseudônimos.

6:11 PM  
Blogger Zarastruta said...

Hemé,

E para continuar, sem brincadeiras, uma boa estória com certos aspectos autobiográficos (e biográficos)

6:12 PM  
Blogger Hemeterio said...

Z, se avexe não, quando eu vender os direitos pra Globo Filmes, te dou uma ponta, rerere.

6:40 PM  
Blogger Edge said...

"te dou uma ponta"
sei.

2:21 AM  

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