terça-feira, janeiro 31, 2006



Não sou agricultor, desconheço a semente

Eu estava em São Francisco, fumando a grama da Califórnia, quando pelo ouvi pelo rádio que Jesus estava vindo. Imediatamente pensei com meus botões: - ei, esse evento vai ser fuderoso. E os botões responderam: - consiga um lugar na pista. Como viria a saber mais tarde, aquela seria a segunda turnê do astro palestino aqui pela terrinha, e valia a pena ir vê-lo. Também soube que a produção do show sempre marca os eventos para topos de colinas e montanhas - a vista é excelente, mas a acústica é uma merda.

Peguei meu Pontiac imaginário e fui dirigindo a mais de cem por hora pelas ladeiras da cidade. O céu estava com agradáveis tons de violeta e as girafas azuis que controlavam o trânsito nem ligaram pra minha correria. Na verdade, não emitiram um pio. Se houvesse uma única nódoa nesse dia perfeito, eu diria que uma suave melancolia me atingiu ao ver os pobres lavadores de janelas, que trabalhavam sem descanso para enxugar um prédio de baunilha que insistia em derreter. Fora isso, o dia fora talhado em açúcar, só pra mim.

Parei o carro em frente ao Skid Row do bairro latino, pois era ali que ocorreria o espetáculo. Fiquei impressionado: já havia uma multidão de gente fazendo fila, mas que estranhamente, andava muito rápido e ordeira. Só aí percebi que caíra de boca na calçada, e aquelas eram simpáticas formiguinhas cuidando de suas vidas. Levantei-me e em seguida, comprei uma entrada pro show. Percebi que o descampado reservado estava vazio. Só havia um palco, e no meio dele, rodeado por um aro de fogo, estava o próprio Jesus! Afirmei a vista e pude notar que Jesus tocara fogo num bambolê, e até hoje não sei o que ele estava pensando quando fez essa bobagem. As celebridades são incognoscíveis e é melhor não discutir com doido.

Jesus me chamou pra perto e disse que tinha um lero muito doido pra me dizer. Ele estava radiante, e de suas vestes irradiava-se uma luz divina. Na verdade, o fogo do bambolê passara para seus trapos, e Jesus teve que correr pra uma poça d´água ali perto, enquanto fiquei sozinho no palco chupando o restinho do almoço entre os dentes. O artista pelestino voltou todo sujo de lama e tocou em meu ombro: - você está preparado pra ouvir o que eu tenho a dizer? Aí eu disse na lata: - Claro que sim, porra, paguei caro por esse ingresso justamente pra isso. Jesus respirou fundo e disse: - em verdade vos digo que o sentido da vida é...

Tive que interromper o mala pois deixara meu Pontiac imaginário com o alarme desligado, e aquela era uma região barra-pesada. Falei pro J güentar um pouquinho enquanto eu voltava. Ele ficou lá paradão e disse que tudo bem, mas que tinha pouco tempo. Aproveitei e fui dar uma mijada, depois comi um X-tudo, comprei um bilhete da loteria, folheei um zine do Guabiras, dei um chute num cachorro e na volta, esqueci o que estava fazendo e voltei pra casa.

Num sonho, Jesus voltou e me disse: - pô, quer saber ou não? Não enche, meu! Ai que dor de cabeça. Me virei e dormi como um fela da puta.

segunda-feira, janeiro 30, 2006



Pintura íntima

Mais uma vez, concedi uma entrevista ao jornal O Populacho, aqui da capital. Abaixo seguem alguns trechos da conversa. A íntegra da matéria, infelizmente, só será conhecida daqui a alguns séculos, quando abrirem a cápsula do tempo. A reportagem faz parte de uma série que visa entrevistar personalidades insignificantes do cenário artístico da cidade, para que no futuro, quem sabe, pudessem confrontar essas entrevistas com o legado deixado pelo artista.

Senti-me lisonjeado. Depois soube que o objetivo inicial era que eu próprio ficasse encerrado na cápsula, mas declinei da honra em cima da hora. Escapei dessa certamente porque meu prestígio continua em alta.

Aqui vai a entrevista.

Lois Lêndea, repórter - Saiba que perdi um jantar de gala com a assessora artística da maquiadora da pagodeira Narjara Noise. A produção do jornal designou-me para essa entrevista obviamente pra tentar queimar meu nome no mercado.

Lucian Fraud, artista - Obrigado pelas palavras gentis, também é uma honra e um prazer estar aqui.

LL - Ouvi dizer que você inventou uma nova perversão sexual. É verdade?

LF - Que é isso, o povo exagera. Apenas batizei cientificamente uma prática empírica, há muito adotada. Chamo-a de hortifrutfilia ativa. Há quem a pratique de forma passiva, vai entender.

LL - Isso é absolutamente relevante, sinto como se Moisés estivesse falando sobre as Tábuas da Lei.

LL - Desculpe, não entendo figuras de linguagem. Isso que você disse foi uma conurbação?

LL - Fale-me de seu trabalho. O que é aquilo na parede?

LF - Chamo-a de Regra de Três. Funciona assim: um homem está para um carrão esporte assim como uma mulher está para...

LL - Parece uma bolsa.

LF - Exatamente - Ai! Você me bateu!

LL - Você tem ídolos?

LF - Tenho uma estátua de Buda, de Ekeko e outra do Padre Cícero.

LL - Refiro-me a ídolos nas artes plásticas, idiota!

LF - Ah, sim, minhas influências artísticas. Admiro Cervantes, Neruda, Auster e Saramago.

LL - Todos esses citados são escritores.

LF - Ah, desculpe. Falei apenas os sobrenomes. São eles Severino Cervantes, Chico Neruda, Allan Auster e Raimundo Saramago, são todos pintores de boteco aqui da cidade. Acho fantásticas as paisagens que eles pintam. E o arremate final? A assinatura e o número do telefone! Que classe, que estilo! Sabia que o Auster...

LL - Tem um local onde eu possa me enforcar?

LF - Desculpe, não trabalho mais com instalações desde 1982.

LL - Não sei por que casei com você, imbecil.

LF - Eu falei que você não pintava como eu pinto e você adorou, Loisinha! Vem cá, larga esse microfone e pega no meu.... Ai! Isso dói, amor.

sexta-feira, janeiro 27, 2006



Atuação contida

O diretor do presídio era um sujeito razoável. Relutara por anos em aplicar os métodos brutais que eram praxe em outras detenções, pois achava sinceramente que a função da pena não era a punição nem a vingança, mas a reabilitação. Deve ser por isso mesmo que resolveu elaborar um grupo de teatro na cadeia, batizado por ele mesmo de Les Domésticables. O diretor lia Victor Hugo no original.

Espalharam cartazes pelas celas recrutando, digo; convidando a todos para participarem do grupo. Depois de duas semanas sem respostas, perceberam que os presos não sabiam ler e achou-se melhor convocar a todos no pátio para dar as boas novas. No dia marcado, foram tirados de suas jaulas e levados para um palanquinho especialmente montado no pátio da cadeia - até mesmo os canibais, os matricidas, os parricidas e os suicidas compareceram. Todos reunidos, o diretor explicou seu plano, para surpresa geral.

Esqueci de dizer que aquele era um presídio de segurança máxima. Na verdade, há muito deixara essa classificação: agora era um presídio de segurança impossível. Lá ficavam os detentos abandonados pelo Estado e por Deus - que de próprio punho, aliás, assinou uma nota dizendo que eles não eram a sua imagem e semelhança, pois temia ser arrolado nos processos. Os detentos eram tão barra-pesada que devoravam os jovens advogados que vinham rever seus processos. A estrutura toda lembrava o célebre Asilo Arkham das histórias do Batman, mas lá pelo menos eles respeitavam o Coringa. Misto de sanatório com sucursal do inferno, o presídio esteve em vias de ser implodido várias vezes - com todos dentro!

Era nesse estado de coisas que o diretor - um idealista, como já disse - ; queria implantar seu plano. Depois da falação, os detentos se entreolharam e podia-se ouvir até a baba escorrendo da boca dos presos. Em meio ao silêncio sepulcral, um dos condenados pediu a palavra. Era o pior criminoso do local, um cara que faria Átila, o huno, parecer um embaixador de Unicef.

- Diretor, começou a falar: - a gente topa, mas eu escolho a peça.

O diretor achou a proposta proativa e deu a maior corda.

Em total sigilo, os detentos começaram a elaborar os cenários e a disputar os papéis. No processo de escolha, houve sete chacinas e incontáveis punhaladas pelas costas - nada que o mundo teatral não tenha visto antes. O diretor estava cada vez mais curioso pelo progresso da peça, mas os presos ficavam a todo tempo dizendo que ele ia ver, e tal, e que iria dorar a surpresa. O diretor aquiesceu. Os presos também faziam vários pedidos de material para a peça. Vocês sabem como funciona uma repartição pública, não? Junto com o processo principal, metem-se outros que não têm nada a ver com o original, mas no meio da confusão são aprovados pela diretoria. Assim, os presos pediram: vinte tubos de cola, papel crepom, fita adesiva, latas de tinta latéx, purpurina (?), papel celofane, lançador de torpedos Sharon israelense - modelo Bem Gurion, réguas de madeira, cartolinas, oito metros de organza, pincéis, tubinhos de aquarela e toneladas de isopor, é claro.

No dia marcado, convidaram todas as autoridades do estado para acompanhar a peça. O diretor estava esfuziante com a presença do governador, do bispo, do prefeito de olhos vermelhos e do banqueiro com um milhão; além de todos os figurões da cidade. Talvez naquele dia não houvesse mais nada o que fazer na cidade, e ainda por cima chovia a cântaros.

O pano subiu, e para surpresa de todos, os presos haviam montado a peça Os últimos dias de Pompéia. O palco estava vazio, mas a representação do Vesúvio estava perfeita. Até saía uma fumacinha de cima da montanta de papel marchê. Os convidados esperaram em silêncio por longos minutos, e nada acontecia - vamos respeitar o fazer artístico, obviamente a trupe planeja algo; disse o banqueiro, que era ator amador.

Bom, aí tudo explodiu. O pavio finalmente chegara aos torpedos, e com o impacto da detonação, os muros da prisão caíram por terra. - Desce o pano! Uma comédia num ato só, um ato de terror! - gargalhava o arremedo de Brecht. Os presos estavam nas coxias e aproveitaram a confusão e deram no pé. Com a cúpula da cidade morta pelos torpedos, os presos assumiram a administração pública e conduziram a cidade com parcimônia e insenção. Mas a população nunca mais foi ao teatro.


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Olha que sacanagem legal: ao escrever o post de hoje, fiquei em dúvida sobre a grafia correta de Domésticable. Sei tanto de francês como sei de tagalog, o idioma das filipinas, e em geral não ligo muito pra isso, como puderam notar. Mas bateu o anjo do bom senso e fui dar uma verificada. Fui recompensado.

Por causa de Victor Hugo, tudo que sei em francês é a palavra Misérable. Também sei falar cul-de-sac, mas isso não vem ao caso. Bom, coloquei Miserable no Google para ver se vinha algum site em francês que eu pudesse consultar e para minha surpresa, vejam o que apareceu:-)



Nem tudo está perdido, felizmente. Bom fim-de-semana a todos.

quinta-feira, janeiro 26, 2006



Meus dois dedos de prosa

No princípio houve uma batalha, e o Incriado fora arremessado dos Céus. Durante sua queda, que durou seis vezes seis vezes seis dias, seus gritos de agonia e desespero ecoaram por toda a Terra. Finalmente, chocou-se contra o solo, gerando uma grande cratera circundada de altos picos. Tão violento fora o baque que separou continentes, evaporou rios, queimou florestas. As cinzas da explosão engolfaram o mundo, sufocando-o com enxofre e pó.

Seu corpo, porém, não maculou as entranhas da Terra, atravessando-a: o Decaído jaz insepulto na superfície, no centro da enorme cratera, e tem a forma de uma grande e vil montanha. Tudo passa. Ele permanece desde então pelos séculos e séculos sem fim, imóvel, humilhado, aguardando em eterna vergonha aquele que ousará redimí-lo. Uma vez liberto, sua vingança contra tudo e contra todos moverá Céus e Terra. Mesmo os Inomináveis têm esperança. Tudo o que ele pode fazer agora é esperar.

Evangelho apócrifo de São Rufus, o neto; século II D.C.


Adamastor Tilla planejara a viagem por semanas. Encasquetou que iria ser o primeiro a escalar o monte Cereuira-Anhangá* e não mediu esforços. Curiosamente, alpinistas experientes haviam falhado em suas tentativas de escalar o cume e só a notória teimosia de Adamastor o impelia à frente. Sem falar que ele estava um pouco fora de forma. Sua última pesagem fora feita na balança da ponte Rio-Niterói, e para proteger a ponte, a fiscalização sugeriu que ele usasse a balsa de entulho para atravessar a baía.

Adamastor chegou ao sopé da montanha e estudou os mapas. Pura cascata, ele não sabia nem sequer consultar uma placa de trânsito, quanto mais ler curvas de nível. Deve ser por isso que olhara o mapa de cabeça para baixo, e começara a subida pelo lado mais difícil da montanha. Curiosamente, a estrutura do pico central parecia-se com um homem agachado de joelhos, apoiando os ombros no solo e constrangedoramente desprevinido em sua retaguarda. E era justamente por ali, pelas ancas da montanha, digamos assim; que Adamastor iniciara sua subida.

De percalço em percalço, miraculosamente Adamastor foi conseguindo avançar montanha acima. Perto do topo, que era como que duas grandes colinas arredondadas; Adamastor encontrara de fato seu primeiro obstáculo. Era uma espécie de lorto malcheiroso, de onde se expelia grande quantidade de gases e enxofre. O buraco era circundado por pregas radiais, certamente formadas pela lava que escorrera em tempos idos. Pouca vegetação crescia ao redor do buraco, e Adamastor seria capaz de jurar que ali nunca o sol brilhara.

Mas Adamastor precisava prosseguir, e resolveu dar sua última cartada. Trazia consigo um grande, roliço e inoxidável pino de metal, que usaria para apoiar a bandeira nacional quando chegasse ao cume. Ele pensou; ora, vou enfiar o mastro da bandeira no meio do buraco e usá-lo como alavanca para subir mais um pouco. Apoiado dessa maneira, poderei ter uma bela alavanca e conseguirei subir os poucos metros que restam. E assim fez.

Adamastor enfiou o cabo no vão da pedra e foi como se a montanha despertassse com o choque. A terra tremeu, e um jato de lava jorrou pela fenda malcheirosa. Foi como se um demônio aprisionado fosse liberto de seu tampão de rocha. Podia ser a altitude, podia ser a emoção de ser o primeiro a chegar ao topo, mas antes de desaparecer numa violenta explosão vulcânica; Adamastor poderia jurar ter ouvido a montanha gargalhar. Ninguém jamais soube a verdade. Olha, não sei se é coincidência, mas depois da besteira de Adamastor, o mundo está um caos. Tá nevando no Egito!

* Bunda do Diabo, em tupi.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Uma interpretação livre de como seria a Geni,
personagem do Chico. Deveriam filmar essa música.



Simbora, o marujo
e os sete anões tarados

Milagre! Sobrara algum no caixa de Simbora e sua tripulação, e resolveram gastar com mulher. Mesmo a tripulação do Galeota dos Mares sendo composta por travestis aposentados, alguns deles resolveram dar uma força e acompanharam Simbora pelos bordéis de porto em porto. Sabe como é, disse Charles Bronson, chefe da marujada: sempre dá pra pegar umas dicas de roupas e perfumes. Visitaram alguns prostíbulos de família - toda a parentada trabalhava junto - e acharam um de nome bastante aprazível: Mina de Ouro.

O bordel era administrado por sete anões, que exploravam sexualmente uma jovem de nome Branca de Névoa. A menina tinha esse nome por causa do haxixe, mas não espalha. O fato é que os sete anões tiravam a maior grana aliciando a jovem, daí o nome carinhoso do estabelecimento. Os anões tinham nomes pitorescos: Fodão, Tripé, Penca, Lombrado, Ranho, Áscaris e Dunga. A Branca de Névoa na verdade era amante de todos os anões, que ciumentos, não deixavam que ela fosse usufruída por nenhum cliente. O esquema funcionava assim: os anões atraíam viajantes incautos para o bordel, seduzidos pela beleza lendária da moça. Ao chegarem, eram depenados pelos anões, antes que provassem da Branca - me refiro à jovem, a barraquinha de bagulho é na choupana ao lado. Humilhados, os forasteiros se mandavam cheios de hematomas e a diversão deles era saber quem seria o próximo otário, daí porque mesmo enganados, falavam bem do local.

Acontece que Simbora seria o pato da vez. Chegando à rua do bordel, não pode deixar de notar uma discreta arquibancada montada em frente à porta do estabelecimento. Os espectadores, por assim dizer, eram formados por sujeitos estropiados e cheios de ataduras mas que mesmo assim, conservavam um discreto sorriso no rosto. E acompanhavam Simbora com o olhar. O marinheiro até achou que eles estavam fazendo apostas, mas podia ser só impressão.

Simbora entrou no bordel acompanhado de seus amigos travestis. Os travestis eram um pouquinho escandalosos. Quando viram aqueles sete anõeszinhos com roupinhas de duendes, foram logo pegando cada um no colo e apertando suas bochechas. Os anões lutaram de todo jeito, e na confusão, esqueceram de Simbora, que sorrateiramente, escapuliu para o quarto da Branca.

Assim que Simbora chegou ao quarto, encontrou o aposento vazio. Olhou em volta e percebeu uma corda de lençois que descia pela janela. Simbora foi dar uma olhada e de repente, vindo por trás, recebeu uma violenta tamancada na cabeça. Era a Branca de Névoa, que preparara uma armadilha. Cansada da exploração dos anões, resolvera armar esse embuste para nocauteá-los um por um e se mandar. Mas não era um anão que estava ali sentado no chão e coçando o galo na cabeça. Era Simbora, o marujo.

- Quem é você? - A Branca estava admirada por Simbora ter conseguido furar o cerco dos anões.

- Sou Simbora, o marujo, disse o marinheiro ainda meio tonto. Aportei meu barco aqui na cidade e vim te ver. É costume dessa vila receber os visitantes assim?

- O quê?

- O quê, o quê?

- Você tem um barco?

Simbora e a Branca de Névoa desceram pela corda de lençóis e deixaram os cafetões, digo, os cafetinhos para trás. Chegaram ao navio e mandaram os travestis irem buscar os pertences da Branca, que ficaram no bordel. Ela mandara avisar que ia se mandar e que não queria mais ver aqueles anões tratantes. Os travestis voltaram com o pouco que a Branca tinha, que cabia em duas arcas, sete baús, vinte maletas, nove frasqueiras, oito bolsinhas e um estojinho de modess. para arranjar espaço na Galeota, Simbora teve que se desfazer da sua coleção de kits Revell, e logo agora que ele recém concluíra a Challenger. Barco que mulher domina...

Ah, os travestis adoraram. A Branca era muito espirituosa e divertida, e mantinha altos papos com os travecos. Só Simbora que não gostou um pouco, pois cedera sua cabine para a Branca e foi ter que dormir no porão com o Charles Bronson.

Essa história vai longe.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Desenho de 1997, acho, que mostra meu
bom e velho Niva. Que vá arranjar cossacos
pra se coçar!



O russo que vai levar o jovem
brasileiro para o mau caminho.

Desconfio que minha estada no purgatório será breve. Não que meus pecados sejam poucos, pelo contrário. Minhas faltas são tão numerosos e tão diversificadas que como lembrança, São Pedro vai me entregar cópias das provas em DVDs. Oito deles. Porém, tenho um atenuante que fará com que minha estada no limbo seja curta, talvez nem dê pra fazer uns amigos - o que não deixa de ser uma pena, pois com certeza a Madonna vai estar lá também e poderia rolar um clima pra mais tarde. O fato é que já tive um Niva, e posso dizer que o castigo não vem à cavalo: ele vem de Lada, importado dos cafundós da Rússia.

O ano de 1991 foi marcado pela liberação das importações. Esperava-se que, entre outras coisas, a enchurrada de produtos importados obrigasse as empresas nacionais a melhorar o nível de seus produtos. O alvo principal era a indústria automobilística. Desde os anos 50 que as montadoras de veículos estavam numa posição extremamente confortável, se esforçando ao mínimo para acompanhar o desenvolvimento tecnológico do setor. Basta lembrar que o grande lançamento de 1991 era a Kombi de duas cores, lembram? Grande inovação.

Curiosamente, os primeiros carros importados a pintarem por aqui foram da Lada. O que não deixa de ser sintomático da realidade brasileira: a gente importou um carro que conseguia ser pior que os nossos! Se o objetivo era fazer com que as montadoras nacionais fizessem carros tão bons quanto os importados - termo usado aqui como adjetivo -; o tiro saíra pela culatra.

Foi como se velhos cavaleiros andantes, barrigudos e pachorrentos, ouvissem falar que um novo vingador iria pintar no pedaço. Ele viria montado num cavalo branco e com certeza reclamaria todas as donzelas do reino para si - elas, que até então estavm sob custódia do cavaleiros barrigudos. Aí o pânico se espalhou entre eles, motivando-os a fazer exercícios e perder um pouco da banha, pois sabe como é: as princesas estavam enchendo o saco dos cavaleiros com esse papo de fitness, comparando-os o tempo todo com o tal cavaleiro saradão que viria. Num belo dia, o navio chega com o tal cavaleiro fodão. Todos os barrigudos - a essa altura, usando cintas elásticas- ; vão a contragosto receber o novo cavaleiro. Quando o porão do navio se abre, eis que desce de lá, montado num pangaré sarnento e um pouco senil, o... Boris Yeltsin! Obviamente fedendo a cachaça e com uma garrafa de vodca barata na mão. - Hic! Oi! Cheguei pra ficar! - diz o rechonchudo cavaleiro.

A vinda da Lada foi um arrasa-ego, foi um banho de água-fria na nossa eleitezinha. A mesma elite que comemorou a vinda dos importados sonhando com um Porsche, mas só tendo grana mesmo para um Laika, Niva ou - horror! - um Yugo. Não é a nossa cara como nação? Bom, mas eu caí nessa. Fiquei seduzido pelo jipinho da Lada, e assim que pude, em 1995, comprei um Niva 92. Gostava do carrinho, mas sabe como é quando se idealiza uma amada e ela nos decepciona com a opaca realidade: separação, gasto e uma inacreditável cara de otário.

O carro tinha um problema crônico de ferrugem. A suspensão não funcionava. Bebia como um mujique. E o indefectível atestado de parvolice: o carro foi feito pra esquentar. Pude comprovar a engenhosidade da tecnologia russa, que realmente construiu uma estufa sob rodas. Comprar um carro que retém calor num Estado do Brasil onde o calor abunda, diz mais sobre mim do que sobre a Lada. E é isso que acontece quando se tira uma espécie de seu habitat.

Resumindo: persiga seus sonhos mas fuja dos carros russos! A não ser que você queira tomar na tundra.



A prova do crime! A foto é de 1995.

segunda-feira, janeiro 23, 2006




Manual do pequeno guerrilheiro urbano

Este mundo anda louco. Isso não chega a ser uma grande novidade, pois desde que o primeiro antropóide africano teve que disputar a caverna com um semelhante, as confusões começaram. O objetivo desse pequeno ensaio não é impor uma nova geopolítica ou meios de se subjugar nações sem água potável. Não, para isso você pode consultar o manual da CIA, em outro site. O papo aqui é sobrevivência urbana, baby. As verdadeiras batalhas do nosso século serão travadas nas filas de banco, nas reuniões de condomínio ou à procura de um lugar para estacionar no centro da cidade. Para você, aspirante a guerrilheiro urbano, compilei algumas dicas que podem ser úteis num futuro não muito distante.

Basicamente, trataremos de retaliações. O confronto direto é muito desgastante e pelo amor de Deus, olha para sua barriga! Você não conseguiria derrubar um oponente nem que ele tivesse o físico do Wilsom Grey. Tal qual as técnicas de guerrilha avançada, o uso da emboscada e da surpresa têm mais resultados que um obus disparado de um tanque, e ainda é mais barato.

Digamos que você tenha sido insultado numa reunião de condomínio só porque instalou uma creche para orangotangos em seu apartamento. Ora, se seu vizinho de porta lhe dirige impropérios só por causa disso, finja que não ligue. Na calada da noite, jogue uma sardinha pela fresta do vidro do carro dele. A sardinha vai apodrecer e impregnar o estofamento, e com alguma sorte, o carpete também. Pela manhã, além do cheiro dentro do carro estar insuportável, seu vizinho vai ter acessos de raiva que soarão como música aos seus ouvidos. Garanto que essa técnica deixará o carro de seu desafeto i-m-p-r-e-s-t-á-v-e-l. Nem com um banho químico ou reza braba o cheiro vai sumir. Inclusive, nem com a retirada de todo o estofamento. Vai por mim. A única saída é a incineração de todo o carro, coisa que o seguro não cobre. Seu algoz vai ter um prejuízo tão grande que vai ter que vender o apartamento para comprar outro carro. E vai sumir da sua vista.

Armas químicas são detestáveis, condenáveis e blá, blá, blá. Bobagem. Compre uma caixa de ovos e fure todos eles com uma agulha. Deixe maturar por uns... dois meses. Agora você tem em mãos uma bomba de metano que faria o peido do próprio satã parecer seiva de alfazemas. Evidentemente, use os artefatos com parcimônia, e apenas em ocasiões especiais. Se uma passeata de aposentadas estiver importunando seu descanso às três da tarde, jogue alguns ovos no asfalto e você verá as velhinhas fugindo como gazelas assustadas e a rua ser interditada pela Saúde Pública por duas semanas. Nada como um pouco de paz, não?

Teve seu carro trancado no estacionamento da igreja? Relax. Vá à padaria da esquina e compre um potinho de margarina e uns guardanapos. Caminhe até a pajero 2006 que está trancando seu monza hatch 1984, assobiando Born to be wild. Empape os guardanapos na margarina e lambuze os vidros da pajero. Se tiver tempo e quiser fazer um serviço artístico, mele também os faróis e a pintura toda. Limpe as mãos, volte à padaria e fique observando o espetáculo. O único meio de se tirar a margarina dos vidros do carro é com bom-bril ou um jato de areia. Aí já viu, né? Delicie-se com o semblante de ódio do proprietário do carro e não esqueça de anotar os palavrões que ele disser, talvez você até aprenda um novo.

De nada, de nada. Em outra oportunidade tratarei da montagem e decoração da sua própria célula terrorista. Tons de sépia estão em moda para essa estação, e seu esconderijo subterrâneo vai ficar super fashion com um pouco de... mas estou adiantando o assunto.

sexta-feira, janeiro 20, 2006




Frases soltas e curtinhas, que sexta-feira é relax.

A primeira coisa que vi na Internet foi a Cameron Diaz. Corria o ano de 1994/95, e o filme The Mask era bem recente. Na sala da BBS onde trabalhava, um amigo me chamou: - Ei, já viu a Internet? Ele abriu a web - uma novidade, gráficos coloridos! Uau! - e lá estava ela, absurdamente gostosa e sorridente. É por isso que tenho uma simpatia absurda pela Cameron, e nada do que ela faça vai mudar isso. Nem se ela virar eleitora do Jeb Bush.

Já vi um doido - doido mesmo - completamente nu no meio da rua. Eu estava num ônibus e vi de relance a figuraça andando com as vergonhas à mostra. O motorista até deu uma paradinha, não sei se por causa do trânsito que ficou lento ou pra conferir os dotes do doido - que não contente em estar nu, ainda estava duro, e não me refiro à falta de dinheiro.

Vocês viram o decote da Scarlett Johansson no Globo de Ouro? Que saúde, que frescor!

Tal qual aquele maluco do Se7en, tenho um monte de agendas cheias de rabiscos, colagens, anotações, desenhos, fotos e bobagens. Numa delas, há um pedaço de pele descascada que colei depois de pegar o maior solzão em Porto de Galinhas, Pernambuco. Também tem um grilo que caçei - isso mesmo, caçei -; como se fosse o Locke, de Lost. Tá lá colado como um troféu. Ah! Tem o ingresso do show do U2 de 1998, que não fui porque perdi o vôo. A história dessa epopéia de celerados você vê aqui no site do Zarastruta. Bom, ao todo, tenho 16 agendas, e se a preguiça não fosse tão grande, inventava um blog só pra postar página por página. Meus biógrafos vão me matar!

Sabe o que seria um barato? ET 2, a extinção. Todos no planeta do simpático cabeçudo morreiam, fruto de violenta reação alérgica. Tudo por causa do pólem daquele girassol que o ET levara em sua nave. Bem feito, raça de bocós.

Minha geração já curtia pornografia em revistinhas suecas e no VHS. Mas a geração anterior tinha que ter muito mais imaginação. Pelo que ouvi falar, nos anos 70 rolavam revistinhas de sacanagem, mal desenhadas mesmo, em que personagens famosos de HQs transavam uns com os outros. Havia uma que nunca cheguei a ver - mas imagino que seria uma marmota - em que mostrava a Mônica pagando um boquete no Hulk. Que horror, não? Aqueles dentões devem arranhar pra burro.

Já falei da Scarlett Johansson? Impressionante! Com dois Zeppelins daqueles ela tem mais poder de destruição que um saudita no comando de um 737.

No auge da piração sobre o filme Batman de 1989, confeccionei um uniforme do morcegão e ia pro telhado de casa fazer a ronda. O uniforme era pra valer: capona preta dentada, capuz, camiseta preta e logo amarelo emborrachado. Tinha até um cinto! Numa noite tranqüila - acho que o Asilo Arkhan devia estar fechado -; percebi que uma silhueta me observava. Aí vi um sujeito num prédio, a uma boa distância, que olhava na minha direção. Deixei pra lá, e quando olhei de novo, ele havia sumido. Daí a um tempinho, quando me virei de novo na mesma direção, lá estava o vulto, com mais quatro amigos! Bons tempos aqueles. Hoje, se alguém visse um gordalhão de capa preta em cima dos telhados dava um tiro ou chamava os guardas.



Lost in Translation fiquei eu!

quinta-feira, janeiro 19, 2006



Engenharia Tectônica II
O trem que corre para leste

Todo mundo sabe que o problema de Minas Gerais é não ter uma saída pro mar. A psicosociopatia-cultural-desconfiada do mineiro não é explicada pelo confinamento entre as montanhas, nada disso. As montanhas são a materialização da transferência do ego do mineiro, que na verdade sonha em ter um marzão batendo à porta.

Minas é um Estado rico. Por que eles não compram o sul da Bahia e anexam esse belíssimo litoral? A Bahia iria ganhar uma boa graninha na jogada, e pelas minhas contas, ainda teria o maior litoral do Brasil. Minas se livraria desse complexo de insalinidade e daí pra diante, até o caráter mineiro seria mudado. Cidades seriam fundadas à beira mar! Mineiros seriam campeões de surf! A culinária inventiva de Minas criaria receitas mirabolantes com peixe de água salgada! E as mineirinhas com marquinhas de biquini? Ah... as praias do Rio de Janeiro iriam perder metade de suas musas, aposto.

Já notaram que todo navio de grande porte da nossa Marinha tem o nome de Minas Gerais? Seria uma compensação aos mineiros? Minas está espremida. Com uma saída pro mar, a indústria mineira - que já é a segunda do país -, daria um salto. Esse papo de secessão do Triângulo iria murchar como uma água-viva ao sol, pois agora haveria uma meta bem mais nobre a cumprir: a ampliação da área de Minas!

E veja que toda essa minha proposta se resolveria com uma canetada. Volto a ressaltar que a Bahia teria que ter óbvias compensações pela venda do sul do Estado, e sem dúvida os laços de amizade e fraternidade entre ambos seria fortalecido. Como autor da idéia, reivindico para o Ceará apenas isenção para toda vida de impostos que seriam cobrados, caso cearenses quisessem construir hotéis e restaurantes à beira mar de Minas. De nada, de nada, não quero o governo do Ceará, mas o Senado cairia bem.

Em menos de 40 anos, cidades iriam pipocar por todo o novo litoral, e se há uma coisa que mineiro sabe fazer é planejar cidades, veja Belo Horizonte e Brasília. Os nomes dessas cidades? Ah, não sei. O que eu queria é que nenhuma personalidade fosse homenageada, nem mesmo a minha, que bolei a idéia. O interessante seria exercitar a poética mineira na hora de batizar uma cidade, como as existentes: Brumadinho, Biquinhas - na praia, Biquinhos? - Conceição dos Ouros, Curral de Dentro, Dores do Indaiá, Marmelópolis, Pingo d´Água e Varginha, por exemplo.

O pioneirismo do Brasil poderia inspirar o Chile a vender uma parte do seu litoral - que é um deserto desolado, mesmo -; para a Bolívia, que assim como Minas, também não tem saída para o mar. A Bolívia perdera uma guerra contra o Chile e um dos butins de guerra foi a anexação da costa boliviana. Orgulhosos, mesmo assim os bolivianos ainda mantêm uma Marinha, nem que seja pra navegar no Titicaca.

Olhaí, não sabia como terminar e enquanto enrolava, um nome me veio à mente: Mares Gerais. Eu adoraria morar lá, você não?

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Idéias Mutantes

"Para cada alma há uma idéia que lhe corresponde
e que é como a sua fórmula; e andam as almas
e as idéias procurando-se umas às outras."

Unamundo ( 1864-1936 ); Ensaios: "O segredo da vida".


O site Idéias Mutantes é um espaço livre. Amigos em comum se encontram para trocar idéias, conversar e escrever.

Nos saraus do Idéias é comum alguém sair com a idéia do outro quando a noite termina. Como o clima é liberal, as pessoas até acham bom e incentivam esse troca-troca. Já vi muita gente que chegou lá com idéias arraigadas e saiu com as calças arriadas, mas essa é outra história. O fato é que fui convidado pelo Muta para levar minhas idéias minguadas e magrinhas para o banquete do site dele, fazendo uma pequena participação.

Fiquei muito contente com o convite e espero que vocês também gostem do resultado. Lá no site do Idéias também tem um desenho meu e um arremedo de biografia.

Muta, obrigadão novamente!






Empreguinho que pediu a Deus

A cidade mergulhava aos poucos na sombra do fim de tarde. De seu ponto de vista, só o topo do edifício Chrysler ainda brilhava com as últimas luzes do pôr do sol - era como um enorme transatlântico que afundasse na vertical, num profundo mar de trevas, e que nos levasse consigo. O editor Barry White pensava nisso tudo enquanto olhava pela janela de seu escritório, melancólico. O velho jornalista estava se aposentando.

Os tempos eram outros. O Planeta Diário fora comprado por uma grande corporação japonesa, que por sua vez fora vendida para um complexo de bancos, que agora pertencia a um enorme varejão do Arkansas. Devia ser por isso que o Planeta, outrora o bastião liberal da América, agora tinha editoriais sobre criacionismo e apoiava a impopular guerra ao Iranque. Ladeira abaixo, o Planeta perdera seus melhores repórteres. Um deles foi fotógrafo James Olsen, que agora é um bem sucedido e renomado artista conceitual; e a outra foi a intrépida Lois Lane - antigo cacho de Barry White - ; que agora dirigia a revista New Yorker. Que corpinho, pensou White. Mas tudo se foi.

Estranhamente, Clark Kent, veterano na redação, ainda continuava bundando por ali. Aparentemente alheio a toda a avalanche de mudanças, Kent nunca se destacara no jornalismo. Barry White estava de saco cheio daquele repórter sem ambição, quase um capacho da diretoria. Clark era um datilógrafo muito rápido, mas só. Nunca se soube de uma reportagem sua de grande monta, nem que tenha sequer viajado para fazer uma matéria. Parece que nos momentos mais importantes da nação o sujeito dava um jeito de desaparecer. Foi assim quando o ônibus espacial Enterprise salvou-se milagrosamente de um desastre. E mais recentemente, quando a bomba atômica iranquiana deu xabu e os terroristas foram encontrados presos, teatralmente amarrados a ela. Quer saber - pensou White: vou aprontar uma com o Clark.

- Kent, venha cá, por favor.

- Sim, chefe. Eu fiz algo de errado?

- Não, Kent, que diabo, você é certinho demais para fazer algo de errado! Sente-se e deixe-me falar.

- Desculpe, chefe.

- Viu? É exatamente sobre isso que quero falar. Filho, acho que você merece um desafio em sua carreira. Você precisa de mais responsabilidades, de mais garra, atitude, entende o que quero dizer?

- Eu, chefe?

- É, você! E pare de me chamar de chefe, porra, a gente se conhece há 30 anos! Olha, Clark, é o seguinte. Vou me aposentar daqui a duas semanas. E vou indicar você para me substituir. Parabéns, Clark! Você foi promovido!

O chão faltou sob seus pés. Normalmente isso não seria problema para o Superman, que era na verdade... a identidade secreta do Clark Kent! O Superman agia sempre na surdina, e ninguém sabia da sua existência. Salvava vidas, e era isso que importava. Para resguardar sua identidade secreta, Clark teve que aceitar o novo cargo, pois seria muito estranho recusar uma oportunidade como aquela. Poucas semanas depois deu-se a posse e Clark Kent assumiu o posto de editor chefe do Planeta Diário.

Nunca o jornal esteve pior. Os jovens jornalistas e funcionários do Planeta faziam o que queriam, e por pouco não transformaram o jornal num tablóide. Culpa do editor Kent, que estava sempre muito ausente e vivia irritado com tudo. Toda vez que havia uma crise ou um grande furo de reportagem, era como se o chefe desaparecesse, para voltar em seguida suado e com as roupas amarrotadas. Uma vez chegou a vestir a cueca por cima da calça, obviamente confundido-se com seu próprio uniforme secreto.

Era comum nas reuniões de pauta que o editor chefe ficasse alheio a tudo, como se estivesse ouvindo um assobio distante, que só ele sabia existir. Em outras oportunidades ele corria para a janela, como se fosse se jogar, mas subitamente parava o que estava fazendo e se voltava para encarar uma audiência em estado de choque. O chefe estava ficando estressado demais?

Pra piorar, os acidentes e catástrofes naturais, que andavam adormecidas há décadas, de repente começaram a estourar sem controle. Vulcões, asteróides, maremotos e terremotos atazanavam o planeta a todo momento, e as pessoas se perguntavam como o mundo ficara assim tão violento. Enquanto isso, o editor chefe Clark Kent passou aquela tarde assinando cheques, puto da vida.

terça-feira, janeiro 17, 2006



Poemeu de gaveta

O cadafalso da lagoa amontoa cada falso negro lume. A pluma plúmbea incólume e o roto rito engrossam o caldo num cadarço de pérolas. Ah, alvos dentes, altos crentes numa vida de favela. A lapela do fraque confunde o frade que assitia a tudo, incógnito. Francamente!

O limo que escorre lento, lima minh'alma da lama, limpa a lupa dum comedor de chocolate e o último cachalote que restou nem prestou atenção. Às vezes, a vida vaza no vazio das estepes, mas meu estepe também estava murcho, de forma que fiquei na estrada. Um mocho moço machucou a asa, e pousou no capô. Esperando o reboque, o frio dava o toque duma noite que prometia longa. A milonga que tocava na rádio russa era falsa, obviamente. Não tinha o Hey! característico. Enrolado na camurça, teço uma burca entre a reza do meu terço, torcendo para que amanheça.

O solstício é o momento propício para saltar dum precipício. Caso não se esborrache, ainda resta a possibilidade do vôo. Meu único descendente não foi condescendente com minha curva ascendente. Alçado à categoria de ser alado, celerado coloquei-me a planar por sobre as nuvens. Do alto, avistei minha visita que chegara. Interrompi o vôo e cumprimentei meu avô, há muito morrido.

Vagas veladas, veludas vozes, voraz carnificina numa latrina velha. Minha pecha de sedutor despencou como a virilidade dum velho albatroz. Atrocidades cometidas não garantem a comicidade de qualquer ator, quem quer que seja.

George Soros inventou o soro antiofídico, depois de ter cometido suicídio num cantão da Suíça. Amparando sua mulher Sílvia, os peritos disseram que tão agradável passamento forneceria um álibi para que seus apartamentos fossem destinados às crianças pobres do Sudão. Aliás, esse país não tem limites físicos nem emocionais com o Brasil. Trata-se dum lugar longe paca, onde nem mesmo as pacas se atreveriam a morar. Daí a causa de Soros ter sorvido seu último sorvete nesse santuário.

Mas nada disso interessa realmente. O que se torna claro é a sucessão das noites e dias, um depois do outro. Nem mesmo um magnata do petróleo poderia reverter o fluxo do magma, que assim, arrasou cidades. Magalhães, inclusive, era um cara estreito, donde se conclui a homenagem dos argentinos. A missa rezada na corte européia serviu para agradecer aos deuses da montanha, pois Montaigne recusara-se a comparacer. Os Andes, inclusive, nem se mexeram. Os Alpes, tribo rival, mandaram representantes que ficaram estáticos durante toda a cerimônia. Bem feito.

A Verdade por trás de tudo está oculta pelas nádegas dum jurisconsulto. Daí a inacessibilidade penal. Só por meio dum decreto dum magistrado superior poderíamos obstacular o processo. O que não foi nenhum sacrifício. Assim, as tábuas da lei puderam ser esculpidas, e levadas a um embusteiro que trocou tudo. Séculos depois, ainda se fazia sentir o fôlego duma boa idéia posta em prática por imbecis.

Já agredi muita gente por hoje. Os gradis da prisão estão repletos de gente que não soube calar quando deveria, e de outro tipo de gente que nada proferiu. Assim, Preferiria eu estar num time intermediário, ou seja, no Venturoso da Piedade. Mas basta! A cólera consome meu ser, e os juros o meu ganho. Arraganho as amídalas, mas de nada vale esse passar de horas solitárias, pois o aço que raspa o mármore é o mesmo que é esmagado quando uma pedra rola do templo e atinge as próteses dentárias. O ciclo continua...

Amanhã O sol não nascerá no mesmo local. O poente se tornará nascente e as nascentes do Nilo secarão. A famigerada fome se instalará em cada casa, bem abastecida de víveres e de miríades de flores. O escriba que ora tateia o teclado tatuará uma virgem em seu braço, recoberto de bestas e feras tesas. A virgem não durará neste estado para sempre. Será consumida pelo fogo da volúpia e se mudará com mala a cuia pros cafundós do Ceará!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Habemus alea promo grotescus!
O que em falso latim significa: já temos os
sortudos da promoção do Garatujas!

São os amigos:

Rodney, USA;
Gustavo, PR;
Chiquinha, RS;
Marcus, BA e
Klerton, CE.

Obrigado por toparem a brincadeira, viu?
Em breve o livro chegará em suas casas,
com dedicatórias absurdamente carinhosas.
Isso se os Correios não despacharem tudo
pro Afeganistão.

Obrigado também pelas palavras gentis
da Vivi, do Edge, do André, do Melon e do Michel.
Povo, adorei a visita - nada como passar pra dar
um olá e tomar um cafezinho comigo.

Até a próxima!
Trecho de cartilha da SEMACE sobre o uso racional da água,
janeiro de 2006.



Verdes mares azuis de minha terra

Transcrição da carta de Felipe Reba para sua mãe, que mora no interior. O jovem Felipe nunca havia visto o mar e na primeira viagem que fez à capital, escreveu para sua mãe contando suas impressões. A ortografia e o falar peculiar de Felipe foram mantidos, na medida do possível.

Alguns dos nomes de locais e de terceiros, citados na carta, foram omitidos ou substituídos propositadamente.

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Cudomundópolis, janeiro de 2006

Bença, mãinha!

Cheguei onti e assim que desci do pau-de-arara corremo pra ver o mar. Eita marzão sem fim, mãe! Fiquei imaginando o tamanho da barragem pra segurar aquela água toda. Eu e o Chico Frieira fomo ficando só de cueca e assim que a gente tirô a rôpa um hômi bem véi disse que num podia ir na praia nu. Aí eu disse que nóis num tava nu não, nóis tava de speedo, intendeu? Pois é, nem o hômi, que fez foi bater muito na gente.

Aí nóis fugimo e entremo no mar. A água é salgada, mãe! Só que eu não sabia e bebi um monte dágua, sorte que o Chico bateu nas minhas costa. Quem foi o abestado que derrubou um navio de sal no mar? Disperdíço! O capitão devia era tá bêbo! Se eu pego o vagabundo eu dô uma mãozada nele bem no mêi dos chifre.

Mãinha, aqui na praia tem muita mulé nua. Fiquei foi com vergonha. Elas tudo usa um cordãozinho no mêi da bunda que dá pra vê tudin. Se fosse aí em casa a gente ia chamar elas de rampeira, mas aqui na praia o povo chama é de tópi model. Deve ser purque elas topa tudo, só pode. O Chico ficava o tempo todo de barraca armada. Mas é que ele é matuto, num é involuído como nóis.

Na praia tinha uns tal de sofistas. Esses sofistas tinham o cabelão e falava esquisito. Eles só dizia é... aí... ô... só... parecia a classe do primário da tia Socorro. Num gostei deles não, mãe. E a fumaça? Eles fumava um fumo fedorento que nem o preto Bento fumava na feira. Lembra daquele véi que bateu na gente? Ele também num gostava dos sofistas não e correu pra bater neles. Aí os sofistas gritava: Sujou! Sujô o quê? Será que eles se cagaram de mêdo? Esses sofistas são muito frôxos, mãe.


Mãinha, tenho que imbora, pois o Chico tá vermêi que nem o cu dum gato. Amenhã o motorista do pau-de-arara vai levá nóis pra praia do Coliforme. Esse deve de sê um cara muito rico, o sinhô Coliforme, pois a praia toda só fala nele.

Um xêro, Filipi.

sexta-feira, janeiro 13, 2006



Quer saber mais sobre o Garatujas?
Siga o Coelho Branco e tecle aqui e depois, aqui.
Mais um desenho para a Funceme. Não fiz a surfista de biquininho
pois as crianças estariam vendo. E poderiam adorar!



Simbora, o marujo
e o cíclope de duas cabeças

Finalmente, contrataram Simbora e sua tripulação de travestis aposentados para um trabalhinho maneiro. Já não era sem tempo. Simbora sentia que os gastos e despesas com a Galeota dos Mares andavam mordendo seus calcanhares - mas Simbora reparou melhor e viu que era apenas um rato faminto que subia pela sua perna.

Enquanto tentava dar mais um calote num boteco, Simbora foi abordado por uma misteriosa figura de capa preta, usando uma máscara negra de duas faces e um chapelão escuro que tornava impossível desvendar sua identidade. A estranha aparição deveria ter uns três metros de altura e usava uma clava cravejada de pregos. Fora isso, nada chamou a atenção de Simbora, que ainda achou a silhueta do gigante parecida com a de sua tia Gertrudes.

Foi o gigante de preto que começou a falar.

- Tenho um trabalho para você, Simbora, o marujo.

- Como sabe meu nome?

- Está escrito no crachá.

Simbora esquecera de tirar seu crachá ao descer do navio. Ele estava lendo Jach Welch e resolvera implantar a qualidade total no seu navio. Para isso, adotara a identificação por crachás, instituiu ramais para todos os travestis e mandou que todo mundo usasse gravata. Os travestis reclamaram. Fico melhor de echarpe - dizia o tempo todo Charles Bronson, o chefe da marujada.

O gigante continuou.

- Preciso que você encontre o terrível cíclope de duas cabeças para mim. Sua coragem e lealdade serão recompensadas.

- Calma aí, filhote de Pé-Grande: de quanto estamos falando?

O gigante estendeu sua enorme mão peluda e entregou um saco de moedas de ouro, como adiantamento. Na mesma hora, Simbora converteu-se no maior idealista que já existiu e prometeu encontrar o cíclope e trazê-lo a ferros, se preciso fosse. Tudo na amizade.

Simbora voltou ao navio e disse trinufante:

- Macacada, hoje tem janta!

Na manhã seguinte o Galeota partiu para o Lorto de Hades, o último local onde o cíclope fora avistado. Essa região remota do globo era infestada de serpentes marinhas, tribos de canibais, monstros de toda espécie e dragões esfomeados sem alma. Parecia um pregão da Bovespa. Simbora estava lendo o Bestiário de Borges, na esperança de encontrar mais informações sobre os hábitos dos cíclopes. Eis o que ele achou:

Os cíclopes são monstros terríveis que se alimentam de carne humana. São indóceis, brutais, egocêntricos, malvados, estultos, abomináveis, exclusivistas, blasfemos, depravados, cruéis, sádicos, feiosos e tremendamente fortes, podendo vergar o aço como se fosse o pênis mole de um mastodonte. Têm por hábito serem anti-sociais e rabugentos, o que os torna particularmente chatos se forem convidados para um baile de formatura. Aconselha-se que sejam evitados, mas se isso for inevitável, a única forma de defesa é massagear-lhes os bagos.

Mas essa forma de cíclope pode ser considerada um lorde inglês se comparada com sua versão mutante, o cíclope de duas cabeças. Essa detestável categoria de cíclope consegue ser mil vezes mais desprezível que seus colegas monoculares. O problema é que os cíclopes de duas cabeças aprenderam a pensar juntos e usam a visão estereoscópíca combinada com uma eficiência mortal: é praticamente impossível escapar de um deles, pois eles agem como se tudo vissem. Para esse tipo de cíclope não há defesa, mas tenho um primo meu que vende caixões a preços módicos. Se interessar, o telefone dele está no apêndice, ao final do livro. Boa sorte.

Pensei que fosse pior, disse Simbora, enquanto fechava o livro e meditava no que estava por vir.

Depois de semanas navegando, Simbora e sua turma chegaram à ilha Polifemo, lar dos cíclopes de duas cabeças. A areia branquinha da praia era na verdade formada de pó de osso, em virtude da quantidade enorme de presas que os cíclopes abateram. Havia estacas por toda parte, com cabeças de elefantes empaladas. Cartazes escritos com sangue mandavam os forasteiros se afastarem, com um lacônico aviso final de senão...

O bafo da morte espreitava cada milímetro da terreno, mas Simbora não ligava: só conseguia pensar no ouro que receberia do seu misterioso contratante. A comitiva ignorou os avisos e seguiu em frente, caminhando por uma trilha na floresta larga como se esculpida por um... por um... bando de cíclopes enfurecidos.

Foi aí que chegaram à horrenda toca dos cíclopes! Estranhamente, o esconderijo das famigeradas criaturas era muito parecido com o Clube Méditerranée. De fato, avistaram até várias cíclopes fêmeas em biquinis minúsculos - minúsculos para uma cíclope, pois dariam para embrulhar uma jaca com um deles. Enquanto olhavam pelo portão, algo parecido com um mordomo cíclope se aproximou e dirigiu-lhes a palavra:

- Pois não, cavalheiros, a quem devo anunciar?

Mesmo confuso, Simbora perguntou quem era o manda-chuva por ali.

- Refere-se a meu amo? Sigam-me, por favor.

O mordomo era muito polido e educado, mas mesmo assim podia-se notar uma leve expressão de contragosto em seu semblante. As roupas de Simbora e sua cambada eram demodês e nenhum deles sabia combinar a camisa com a calça. Isso obviamente feria os brios do cíclope. Alguns dos travestis - horror! - usavam até pochetes, veja você.

A comitiva foi levada a um salão ricamente decorado onde uma mesa com uma lauta refeição estava montada. Era como se os cíclopes esperassem a visita. Eis que da cabeceira da mesa, ergue-se imponente... o misterioso contratante de Simbora! - Bem vindos! - Disse alegremente o cíclope de duas cabeças disfarçado, enquanto tirava suas vestes pretas e deixava entrever um robe de chambre vermelho por baixo. - Estávamos à vossa espera!

Tudo fazia parte de um plano. O líder dos cíclopes desejava desfazer a péssima imagem que os cíclopes tinham. Por meio desse estrategema, queria contratar Simbora e seus marinheiros como seus porta-vozes, pois ouvira falar que aqueles eram os mais íntegros e competentes marinheiros dos oceanos. Simbora fez força para não rir, enquanto mastigava um bolo de 1 metro de altura.

- Vejam nosso estilo de vida e divulguem ao mundo. Secularmente fomos muito mal entendidos, e esse estado de coisas gerou lendas desfavoráveis a nosso respeito. Se porventura nos cercamos de cuidados - por vezes exagerados - para resguardar nossa privacidade, tudo deveu-se a nossa extrema timidez. Perdoem-nos; disse o líder dos cíclopes.

Os cíclopes eram delicados e super-gente boa. De fato, eram vegetarianos e chegavam até a doar uma grana pro Greenpeace. As cabeças de elefante na praia e tudo o mais era falso, fruto da notável arte em maquiagem dos cíclopes. Simbora e sua turma ganharam uma bela recompensa e prometeram agir em favor da causa de seus novos amigos.

- Tchauzinho, não deixem de nos escrever, disse o líder.

Simbora partiu e já na primeira onda esqueceu-se dos cíclopes bobalhões. Pensava apenas no que fazer com todo o ouro que ganhara.

- Já sei, disse o marujo para seus comandados. - Vamos abrir uma petroquímica ao lado da ilha dos cíclopes!

- Êêêêê! - disse em coro a marujada: - o que é uma petroquímica, capitão?

A proposta foi aceita por unanimidade.

quinta-feira, janeiro 12, 2006




Quando os cearenses dominarem o mundo!
Descaradamente plagiado do Allan Sieber, que pegou
do Crumb, que tirou isso não sei de onde.

Todo mundo sabe que os cearenses estão por toda parte. Em geral, o cearense é aquele sujeito baixinho que é o guardador de carro em São Paulo, o chef de um restaurante da Madison em Nova York ou o designer que bolou o logo da Eurocopa em Portugal. O que pouca gente sabe é que na verdade isso é uma bem arquitetada jogada que visa plantar gente nossa em postos chave da administração mundial. Quando estivermos prontos, será deflagrada a grande tomada de poder e meu conselho é que você fique imediatamente amigo ou amante de um cearense, pois sabe como é: pros amigos tudo, para os inimigos, a lei!

Tomaremos o poder a partir de uma senha pré estabelecida, que só um cearense saberá o significado o culto. Ao berros de Queima Raparigal! as hostes de cabeças-chatas invadirão os parlamentos e palácios e todos os jornais e as redes de tv do mundo livre. Ninguém desconfiaria que Juvêncio Araripe, humilde faxineiro da CNN, na verdade é um professor do LIA que rapidamente conectará a rede de Atlanta para nossos propósitos.

Elegeremos um papa cearense, Raimundo I, que canonizará Padre Cícero e determinará que daí por diante em todas as igrejas católicas a óstia seja feita com macaxeira. Essa simples bula papal fará com que a economia do Ceará dê um salto. O único problema é achar uma mitra que caiba na cabeça do papa, mas nós cearenses sabemos improvisar: Raimundo I usará uma fronha de travesseiro enquanto não se encomenda outra.

A Literatura de Cordel ganhará status de arte maior, e Clodoaldo Mastrúcio ganhará o Nobel de Literatura com seu livrinho A moça que engravidou do cavalo e a besta da sua mãe. Polidamente, Clodoaldo recusará as coroas suecas, alegando que gosta mesmo é de uma bichinha mais nova. Aí explicarão o mal entendido e ele vai aceitar a grana numa boa.

Nas artes plásticas, os desenhos com areia colorida irão ocupar alas e alas do Louvre. Para arranjar espaço para as garrafinhas de areia colorida, todas aquelas velharias do Turner e do Delacroix serão levadas para decorar a salinha do faxineiro ou serão jogadas no Sena. A Monalisa fica, pois na avaliação de Serotônio Macêdo, novo curador do museu, ela é uma cabôca danada de aprumada.

O novo secretário geral da ONU será Severino Cavalcante - nenhum parentesco, mas a cara é igualzinha -, que resolverá o conflito Israel/Palestina doando vastas extensões do sertão cearense pros brigões. A ata de doação será concisa e formal. Nas suas palavras: Olha, bando de mulambeiros, a terra é seca do mesmo jeito e o mar é da mesma cor. Deixa de frescura que vocês nem vão notar a diferença e o Ceará ainda é maior que aquela tripinha de Gaza.

A famigerada música cearense tomará o mundo. Numa revanche histórica, teremos as categorias de música anglo-saxã e artista bretão no Grammy, para dar uma chance a esses aculturados já que nossa música será hegemônica. O mesmo se dará com o Oscar. Bolaremos uma categoria que premiará o melhor filme de cangaço, melhor cena de amor numa jangada e melhor mocotó, dado para as atrizes mais pernudas. Para apresentar o Oscar, nada de Jon Stewart! Tiririca será o escolhido e Didi Mocó destronará Chaplin como ícone da comédia.

O rodeio será substituído pela vaquejada, a coca-cola pela água de coco, Ipanema por Jericoacoara, chiclete por banana, Trafalgar Square pela Praça do Ferreira, Gandhi por Antônio Conselheiro, Átila por Virgulino Ferreira, Dick Cheney por Tasso; e por aí vai.

Destruiremos Brasília e em seu lugar abriremos um depósito de lixo atômico. A Nova capital do mundo ainda será Nova York, mas a gente vai rebatizá-la de Nova Quixeramobim e vamos trocar aquela estátua cafona por uma enorme gostosa de biquini. Yeah!

Não vejo como o plano possa falhar, pois cada vez mais nossos agentes se espalham pelo Brasil e o mundo todo. Só nos resta esparar, de preferência no fundo de uma rede, enquanto as engrenagens giram por si. Adeus e até a vitória! Como sou modesto, quero para mim apenas um título de nobreza e umas terras anexas: barão de Ibiza soaria bem.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Ilustração para a Funceme, de uma série de situações sobre meteorologia e meio ambiente para crianças. Os desenhos são de 2003, acho, e ao longo do tempo vou publicá-los por aqui. Reparem no bode correndo: dizem que bode odeia chuva.



A terceira margem do rio

Herdei um estaleiro de meu pai, que hoje administro com alguma dificuldade. Herdar não é bem o termo, pois meu pai continua vivo. A dificuldade a que me referi é que papai insiste em passar os dias numa canoa, bem no meio da curva do rio, atrapalhando a saída dos navios.

Essa história começou há alguns anos. Do nada, papai deixou uma reunião com armadores belgas e disse que ia ali e já voltava. Afrouxou a gravata e começou a construir uma canoa de fibra de vidro. Nós todos fomos para a janela do escritório e ficamos vendo papai trabalhar na sua peça, ainda sem entender o que se passava. Pra piorar, papai deixou de falar com todo mundo, e a única coisa que importava era sua maldita canoa. Quer dizer, começou como uma canoa. Papai acrescentou tantos detalhes e penduricalhos que hoje ela se parece com o turbante da Carmem Miranda.

Quando papai achou que havia terminado sua obra ou seja lá o que fosse aquilo, botou a canoa no rio e ficou lá sozinho, no meio da correnteza, ancorado até hoje. As tentativas de entrar em contato era rechaçadas por papai, que ao perceber uma lancha cheia de médicos e com mamãe chorando, desviava-se e voltava a ficar quieto. Essa situação durou anos. Eu disse anos, e a vida tinha que voltar ao normal. O que fiz foi assumir judicialmente a empresa e como dizemos no nosso meio, toquei o barco.

Nesse meio tempo fizemos um desvio para que os navios novos pudessem passar. Os clientes me olhavam desconfiado, quando eu dizia que aquele velho maluco, alvo de palavrões em todas as línguas, era meu pai. Os negócios quase que afundaram, se me permite o trocadilho, pois a evidente insanidade de papai deixava as pessoas apreensivas. Quem iria encomendar um navio da empresa daquele doido? Seu visual também não ajudava. Deixou a barba e o cabelo crescer, ficando levemente parecido com um cruzamento de capitão Ahab com beato Salu. Durante as reuniões com os clientes era comum ouvir, vindos do rio, os altos arrotos e peidos de papai. Depois de um tempo ninguém ligava mais e rolavam até piadinhas. Essa é a sua nova buzina de nevoeiro? Papai aos poucos foi sendo esquecido em vida. Nos acostumamos com ele assim.

Então, subitamente entendi tudo. No meio de uma reunião, assim como fizera papai anos antes, abandonei tudo e corri pra margem do rio. - Pai, gritei; o senhor não precisa mais ficar aí! Venha cá que eu tomo o seu lugar! Papai ouviu minhas palavras e pela primeira vez em anos, remou em direção à margem. Nos abraçamos e silenciosamente tomei seu lugar na canoa, me afastando em seguida. Do meu ponto de vista privilegiado, ainda pude ver pela última vez a silhueta austera de papai, que acenava para mim da beira do rio.

Pude ver ainda o exato momento em que os fiscais da receita chegaram numa blazer preta e autuaram papai por anos de fraude, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. O que ocorreu é que papai falira e empresa, fugindo para seu mundinho particular e abandonando o pepino nas minhas mãos. Na minha gestão, é claro, o rombo só fez aumentar. Trocando de lugar com o velho sacana, aleguei insanidade e agora passo meus dias coçando o saco, pescando e arrotando cerveja, enquanto papai - oficialmente ainda o dono da empresa; - cumpre pena num presídio federal.

Ê vida boa, não sabia o que estava perdendo. - Brrrrroouut!

terça-feira, janeiro 10, 2006



Sol, céu e mar

As férias estão aí, e pra quem escolheu o Ceará como destino turístico, aqui vão algumas dicas utilíssimas para você aproveitar melhor a temporada de sol e praia. Infelizmente, esse pequeno guia prático não teve a chancela da secretaria de turismo daqui, pois os funcionários todos estão de férias e só voltam em março. Também não pude contar com a ajuda da rede de hotéis, já que muitos deles fecharam ou se transformaram em crematórios depois da última epidemia de varíola. Muito menos tive o apoio da secretaria de segurança, que agora funciona numa casamata cercada por um fosso e é super difícil entrar em contato com eles. Só tive mesmo o patrocínio oficial do Sindicato dos Canibais do Ceará, que efusivamente disse ser muito bom contar com carne fresca no turismo local.

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Você amigo turista, que vem pela primeira vez ao Ceará, não deixe de visitar nossas fundições de aço e metal. Numa visita assim, é a oportunidade perfeita de se conhecer o avançado parque metalúrgico do Estado e ainda contar com a agradável brisa que vem do auto-forno. O bafo das caldeiras irá refrescar sua manhã, pois é sabido que nessa época do ano só um louco iria sair à rua com esse calor. Recomendo também uma esticadinha em nossas olarias e um tour pelos fornos de padaria da cidade.

Não deixe de saborear nossas comidas típicas, preparadas por autênticas baianas que fazem o melhor acarajé e bobó do pedaço. Nossa culinária regional ainda acompanha a deliciosa Coca-Cola gelada e o Ovomaltine do Bob´s. Pra quem quiser realmente se aventurar no que há de mais exótico em sabor local, sugiro também o salivante pastel de vento, no qual é possível ter uma idéia do sopro dos nossos verdes mares. Coco não tem mais pois a gente vendeu todo o carregamento pro Paraná.

As atrações culturais são inúmeras em nosso belo Estado. Todos podem desfrutar das apresentações da Orquestra Rústica do Ceará, composta pelo agradável som de mosquitos, sapos e pernilongos, além de um ou outro zurro de jegue em plena avenida central. Quem assiste às apresentações diz que só há um paralelo com a famosa Filarmônica Flatulenta de Viena mas isso obviamente é um elogio carinhoso. A sinfonia de buzinas no horário de rush lembra o fusion jazz de Nova York, conectando nossa capital ao que há de mais moderno em infra-estrutura viária e musical. Pitorescamente ainda há a possibilidade de contato com o nativo local, na forma de um típico surrupiar de relógios e bolsas enquanto você espera no sinal fechado. Conte para seus amigos a notável experiência de se encontar frente a frente com a famosa peixeira cearenese, usada com sucesso em tantos filmes de cangaço.

Não poderia deixar de mencionar nossas internacionalmente famosas praias, cenários de filmes, novelas e campeonatos de surf. O banho em nossas águas tépidas é revigorante, mas preste atenção aos horários de despejo do esgoto. Em geral, os caminhões vão embora logo e o cheiro passa rapidinho. Você e sua família poderão voltar a se banhar tranqüilos e ainda terão muito a contar sobre nossa pontualidade. Os despejos acontecem pela manhã cedo, à tarde e à noite, mas entre esses horários a praia fica livre e o risco de atropelamento é mínimo.

Bom, este foi um pequeno resumo do que consegui coletar. Divirta-se e conte a seus amigos! O turista satisfeito sempre volta!

segunda-feira, janeiro 09, 2006


Dancing with myself

Parsifal Bukowski era um cientista maluco. Maluco para os outros, pois ele mesmo achava super normal sua coleção de hipotenusas. Morava num farol isolado a poucas milhas da costa, e há tempos que não ia ao continente. Tudo o que precisava para viver vinha do mar, da chuva e de um cargueiro da Fedex. Numa de suas noites em claro - lógico, ele vivia num farol! - concebera a idéia para um produto revolucionário, que iria mudar a face do mundo. Não, não era um rímel gigante. Era a fabulosa, a sensacional, a estapafúrdia e iconoclástica máquina de foder!

Começou a trabalhar em sua máquina já naquela noite e rapidamente fez um esboço de como deveria ser o projeto. Para dar certo - sem trocadilhos, por favor - a máquina de foder deveria ser portátil. Nada muito grande, como uma jogadora de basquete russa, nem muito pequena como uma poodle carinhosa. A máquina deveria ter opcionais como interior aveludado, sete opções de reentrâncias e o mais importante de tudo: botões de liga e desliga, para que ela não enchesse o saco falando muito.

Tinha ainda que funcionar em módulo stealth - no caso do cliente ser casado; - e ser auto-limpante. O design da peça também era importante. O consumidor não poderia se sentir como se estivesse sodomizando uma torradeira, já que é sabido que torradeiras não têm sex appeal. Talvez uma máquina de Coca-Cola fosse mais sensual, mas Parcifal optou por algo que o público masculino achasse naturalmente atraente: escolheu algo entre as curvas de um controle remoto anatômico e o capô de um fusca. Faltava ainda o cheiro, pois a máquina teria que ser paudurecente à primeira fungada. Evidentemente que o que mais excita um homem é o cheiro de uma Playboy nova e o perfume de bancos de couro, então, o velho cientista misturou várias fórmulas e sintetizou o afrodisíaco olfativo perfeito, que ele patenteou com o nome de Parfum de Cona. Grande novidade.

Depois de pronto o protótipo, faltava a embalagem. O cientista improvisou uma solução usando meias de seda que ele achara por ali - não sei o que Parcifal fazia com meias de seda num farol, mas já vi taras piores no refeitório da cadeia. Bom, a aparência geral da máquina de foder não era de se jogar fora. Lembrava vagamente um aspirador de pó futurista e era a cara da Audrey Hepburn. Como todo bom profissional, resolveu ele mesmo fazer o primeiro test drive, pelo bem da ciência.

Acharam o corpo do cientista semanas mais tarde. Deram pela sua falta no GPGuia e o pessoal do fórum alertou a guarda costeira. Os legistas nunca tinham visto algo como aquilo, e a parte mais difícil da autópsia foi remover o sorriso de seu rosto. Na confusão, parece que um dos guardas do resgate surrupiara a máquina de foder e agora agencia a peça. Contudo, segundo minhas fontes, o Joe Pimp dos pobres não tenciona manufaturá-la em série, sabe como esses caras se apegam à mercadoria. Dizem que ele e sua adorável máquina atendem num motelzinho vagabundo, que fica num posto de gasolina fuleiro na Dutra, entrada de Piraí. Se alguém passar por lá mandem um abraço pra ele e pra todo mundo que for da sua família.

sexta-feira, janeiro 06, 2006



Bigger One
ao estilo Dan Brown

Introdução

Perla Andrauss lavava as janelas da Drunk Tower, considerado o prédio mais alto do mundo. Sua família emigrara para a América quando ela tinha apenas dois anos de idade, atravessando a fronteira de Cuernavaca para entrar no Texas. Seu destemor era louvado pelos colegas de trabalho, e muitos achavam que sua experiência traumática na fronteira moldara seu caráter. Dependurada no último andar do famoso edifcio, suas madeixas escuras eram insulfladas pelo vento, como se fosse uma sensual camisola de seda num varal. Seu jovem rosto latino lembrava atriz Selma Agüilera antes das drogas. Seu corpo era torneado como se fora feito à mão, e que inveja do artesão. Trabalhava com um balde de água e um rodo de borracha, e depois de lavar a bilhonésima janela, enxugou o suor da testa e olhou para o fundo do balde, onde o resto da água suja formava um perfeito e tranqüilo lago marrom.

- Acabei, disse Perla Andrauss. Essa é a última janela que lavo na vida. Amanhã volto para Cuernavaca e abro um bordel de putas caras.

Enquanto meditava, percebeu algo estranho. A água do balde se inclinara levemente, deixando um lado do balde mais raso que o outro. Seus tímpanos também perceberam o que estava acontecendo, mas seu cérebro se recusara a aceitar. Impossível! Sem nenhum aviso que ela pudesse perceber, todo o edifício tombou para oeste, abafando de vez os pensamentso de Perla - já consumidos pela vertigem e pelo terror. A Drunk Tower ruiu acompanhada de um gemido ensurdecedor e metálico, como um cântico tétrico executado por cordas vocais de aço. Um pequeno terremoto se fez sentir no solo abaixo, inundando a cidade com toneladas de detritos e pó, fazendo com que o pôr-do-sol daquela tarde fosse quase tão vermelho quanto o sangue que escorria pelas ruas.

Capítulo 1

O dia nascera esplendoroso para Pierce Bond, o mais famoso sismologista vulcanologista metafísico do Texas. Atlético e bonitão, suas têmporas grisalhas eram o grande chamariz para as mulheres. Isso na verdade é cinza vulcânica, baby; costumava dizer o sedutor cientista.

- É hoje que lançarei minha cartada final contra Perla Andrauss, a única que resistiu às minhas cantadas - pensou divertido enquanto dava o maior mijão na pia.

Preparava a comida de Mefistófeles, seu gato de estimação, quando o telefone toca no outro lado da sala. Pierce era avesso à tecnologia, e seu telefone era um modelo clássico de disco, preto e com bocal. Provavelmente pertencera a Graham Bell ou fora comprado numa feira de horrores, mas funciona a contento, pelo menos para Pierce. - Alô? Disse o cientista - Não tô te escutando. Pierce atendera o telefone ao contrário, pois não era acostumado com essas novidades. Desfeito o engano, pode ouvir do outro lado da linha uma voz nervosa que se apressou em dar as notícias.

- Pierce, é você?

- Não, é Franklin Roosevelt. É você, Eleanor?

- Pierce, deixe de brincadeiras, estamos precisando de você na cidade. Agora.

- Calma aí, colega. Nem minhas hemorróidas têm tanta pressa. A casa tá caindo, por acaso?

- Você nem imagina o quanto está certo.

Capítulo 2

Pierce Bond chega ao seu escritório duas horas depois, pois precisava deixar Mefistófeles no pediatra. O cientista mantinha um laboratório para análises sísmicas bem ao lado de uma academia de sumô, o que por vezes causava interferências nos sofisticados equipamentos de medição. Nada, porém, que atrapalhasse seu trabalho, e seu prestígio estava no auge. E aí, putada? Cumprimentou a todos de forma amável, como sempre fazia. Perguntou o que houve assim de tão grave para tirá-lo da cama ao meio dia.

-Recebemos análises sísmicas de reverberação alfa, doutor Pierce, disse Magna Carta, sua secretária gostosa, colocada na trama apenas para dar tensão sexual e mostrar uns decotes.

- Alfa de cu é rola! Resumiu com seu admirável poder de síntese. - O que significa isso, gatinha?

- Significa, doutor Pierce, que toda a costa voltada para o Golfo do México vai afundar no oceano daqui a seis horas.

- Meus Deus!

- Assustado, doutor Pierce?

- Não, é que na pressa de vir pra cá, esqueci de vestir a cueca.

Pierce Bond imediatamente lembrou de seu gato e de Perla Andrauss, nessa ordem. Tenho que avisá-la, pensou ele. Minha amada está agora em Austin Powers, centro do que será um devastador terremoto. Mas não posso dar na vista e fugir em pânico, tenho que manter as aparências. Muita calma agora.

- Bom trabalho, Magna. Hã... faça mil cópias do relatório, sendo quinhentas em papel azul e mais quinhentas em papel sépia, enquanto vou ver se.... se temos alguma mensagem na caixa de correio.

- Doutor Pierce, não seria melhor darmos um alerta geral em todo o país?

- Ótima idéia, mas antes me faça um cafezinho, ok?

- Tudo bem.

Pierce entrou em sua caminhonete Dakota Fanning turbo 2006 e que coincidentemente, tinha um rolo de cordas com lançador de arpão e um pára-quedas reserva na caçamba. Por que o carro vinha com esses dispositivos de fábrica? Provavelmente porque serão usados logo à frente, convenientemente necessários quando a situação estiver fugindo do controle e o herói precisará ter uma idéia desesperada mas salvadora.

Capítulo 3

A cidade de Austin Powers fica a vinte milhas do escritório de Pierce. Trafegando na contramão e infringindo várias leis de trãnsito, Pierce chega ao local de trabalho de sua amada, o imponente edifícil Drunk Tower. Àquela hora do dia o prédio estava reluzente ao sol, ainda orgulhoso de seus 1776 pés de altura. Lotado até o tampo com escritórios de várias das maiores empresas do mundo, ironicamentes seus habitantes o chamavam de Torre de Babel. Como se veria mais tarde, a ira de Deus tem um mórbido senso de humor.

Capítulo 4

Perla Andrauss chegou para o trabalho pontualmente às seis da manhã, como sempre fazia. Vestiu seu decotado e justo macacão e subiu os andaimes. Aquela dia prometia ser movimentado, pois durante a noite anterior concebera um plano audacioso para mudar de vida. A decisão estava tomada, mas não sem uma pequena ponta de remorsos: ela pensava no impetuoso doutor Pierce Bond, que vinha há meses tentando algo mais sério com ela. Apesar de ser um boa pinta, Perla achava o doutor muito imaturo, pois na única vez em que ficaram juntos ele falava o tempo todo de Arquivos-X. Talvez eu libere essa xota pra ele, pensou com carinho a mais bonita lavadoura de janelas do Texas.

Capítulo 5

Buurrrrp! Ops, desculpe, foi essa maldita Coca-Cola. Continuemos:

Capítulo 6

O doutor Pierce Bond chega ao Drunk Tower pouco antes do horário fatídico, previsto por sua equipe. Ainda tenho tempo, pensou. Mas não deveria ter parado naquela pizzaria, diabos, ainda vou morrer de tanto comer rodízio. Olhou para o alto e viu o andaime de sua amada. Sua visão deveria ser extremamente boa e aqui não nos cabe duvidar da veracidade do narrador. As pessoas à volta de Pierce nem sequer duvidavam do que estava por vir. Só os ratos e os elefantes do zoológico de Austin Powers perceberam o perigo, e fugiram todos para o interior. Ninguém desconfiou de nada, pois aquela cidade já tinha visto de tudo e não seria um elefante pilotado por um rato que iria atrapalhar a normalidade da cidade.

Foi aí que aconteceu. As primeiras ondas sísmicas foram sentidas, aproximando-se tal qual uma onda mortal. A princípio eram ritmadas e suaves, mas que não enganaram o atento cientista. O doutor sabia que isso era o espreguiçar do gigante. Depois ele despertaria com a fúria de um titã com cãimbras no saco. Pierce percebeu que não havia tempo para subir e resgatar sua amada, pois seria um suicídio inútil - o prédio e tudo o mais desabaria em questão de minutos. De repente, lembrou-se de procurar na caminhonete algo que pudesse ajudá-lo. Rapidamente passou os olhos no que levara consigo: um rolo de corda de 1776 pés de comprimento, um arpão de longo alcance e um pára-quedas ultra resistente e indestrutível, exatamente o adequado para suportar o peso de uma jovem mulher. Pierce pensou por uns segundos. - Já sei!

Capítulo 7

A base militar de Two Fags fora construída no coração das montanhas apalaches. Ultra-secreta e desconhecida do público americano, faria a área 51 parecer um camping aberto a naturistas árabes, o que quer que isso signifique. Naquele local obscuro, no entanto, eram desenvolvidas tecnologias mortais e sigilosas, como a cerveja que não dá ressaca, o aumentador de pênis que funcionava e principalmente; a Broca de Plutão. Durante os anos 70, militares e projetistas governamentais desenvolveram a arma definitiva, uma broca tão potente que poderia escavar o solo como um rato gigante preso no interior de uma imensa Terra de queijo. Se usada, a Broca poderia escavar o subsolo de cidades inteiras, fazendo tudo desmoronar como se fossem bolinhas de gude equilibradas sobre um campo de Pega-Varetas. Fora construído um protótipo, mas a arma era tão terrível que o presidente americano, na época o democrata Jimmy Olsen; proíbira seu uso.

A arma fora esquecida por três décadas, mas não totalmente. Dick Shaking, atualmente o maligno vice-presidente do país, era na época da administração Olsen o encarregado dos projetos em Two Fags. Militar ambicioso e corrupto, depois da baixa investira na carreira política com o mesmo ímpeto com que enfrentara campos de batalha de verdade. Tencionava fazer o que finalmente ninguém tivera coragem. Agora no auge da carreira, organizara um verdadeiro governo paralelo literalmente sob as saias da atual presidente, a ex-cantora folk Cindy Lauper.

A contagem regressiva começara.

- Senhores, disse Shaking durante uma transmisão secreta para seus sequazes, em Two Fags: - Está na hora.

Capítulo 8

Não havia muito tempo. Pierce pensou rápido e improvisou uma operação de salvamento usando o que havia encontrado na picape. Agindo logicamente, amarrou a corda na picape, atirou o arpão contra o próprio carro e usou o pára-quedas como uma rede, para poder pensar melhor. Mas aí, foi tarde demais. O terremoto avassalador começou a destruir os prédios, não havia nada que se pudesse fazer. Minha amada! Pierce fugiu a toda velocidade, arrastando o cordame e a rede de pára-quedas amarrada à sua picape.

Nesse mesmo instante, 1776 pés acima da rua, Perla Andrauss despencava para uma morte quase certa. Quase certa se seu pé não se enroscasse nas cordas do andaime, usando a enorme estrutura como contra-peso à queda. apesar dos detritos que voavam por todos os lados, o vôo de Perla foi preciso, e ela pousou exatamente no pára-quedas inflado que seu namorado troxera. Muita sorte. Como a caminhonete fugira às pressas e arrastasse o pára-quedas consigo, Perla foi tirada da área de impacto a tempo, indo cair atabalhoadamente na caçamba do carro de Pierce, mas viva.

A cidade toda era uma confusão de objetos em queda, pó e gritos de desespero. Miraculosamente, até para meus padrões estapafúrdios de manipulação da realidade, os dois conseguiram escapar. Estavam salvos. Se alguém creditar nisso ganho meu primeiro bilhão. Não esquecer de apagar.

Capítulo 9

O terremoto devastador no Texas foi apenas um aperitivo. Dick Shaking planejara um pequeno teste para o poder de sua arma, e ao mesmo tempo, desestabilizar o fraco governo da presidente Lauper. Desacreditada, ela seria forçada a renunciar através de um estrategema já previsto por Dick, que assumiria por conseqüência o controle do mundo livre. Todos os países ficariam à mercê de sua política golpista e de sua arma do juízo final. Não haveria defesa.

Capítulo 10

Numa sala de um consultório a milhas de distância dos acontecimentos, a figura misteriosa afiava suas garras. Tudo acontece de acordo com meus planos, disse o vilão. Aqueles tolos não sabem o que os atingirá. Terminou o que estava fazendo e ficou à espera, aguardando que a próxima peça se encaixasse. Talvez poder seja isso, pensou: saber o que ninguém sabe.

Capítulo 11

Magna Carta estivera trabalhando o dia todo. Exausta, tirou a blusa e ficou apenas com seu sutiã Donna Flor ( merchã ) à mostra, mal escondendo seios fartos e voluptuosos, certamente ergonométricos e ajustáveis à mão masculina ( erotismo barato ). Foi então que ( seqüencia de ligação tão vulgar que faria corar Sidney Sheldon ) percebeu algo inusitado: os gráficos do tremor indicavam uma confluência triangular que ( jargão técnico sem sentido, mas que se passa por autêntico ao olhos do leigo ) com alguma sorte, poderiam indicar o local do tremor e localizar a Broca ( falha lógica, pois Magna Carta sequer ouvira falar disso, mas a essa altura a claque nem percebeu ). Precisava contactar o doutor Pierce imediatamente.

Capítulo 12

Pierce estava dirigindo como um louco, pensando no que fazer. Perla está morta, pensa ele. E agora? Detesto deixar um serviço pela metade. Aquele corpinho... que desperdício. Nisso, vê pelo retrovisor do carro que o pára-quedas teima em retardar o carro. Como se achasse bastante distante do epicentro, resolver parar e descartar o velame. Surpresa! Perla estava deitada tranquilamente, apesar de estar semi-nua e um pouco coberta de pó.

- Perla! passei o dia pensando em você!

- Não brinca, sério?

- Vim aqui te salvar, menina. Tem planos pra hoje?

- Olha, Pi, sinceramente acho que esse não é o momento. Eu...

- Um momento:

O telefone celular de Pierce começa a tocar ( que telefone? O cara não era avesso à tecnologia? ). Era Magna Carta, com novidades urgentes.

- Fala, minha linda!

- Doutor Pierce, acho que sei o que está havendo.

Magna Carta expõe seu plano, e como a Broca estava mesmo ali por perto, Pierce e Perla foram investigar. Ao chegar ao ponto determinado - umas cavernas isoladas ao norte ( correria típica para entregar os originais na gráfica ), deram de cara com todo o aparato militar secreto de Dick Shaking, que estava lá justamente para resgatar sua maquininha. O casal foi facilmente dominado, pois Pierce era frouxo como um seminarista. Orgulhoso em expor seus planos, o vice-presidente Dick Shaking resolve entregar o jogo e revelar seus planos de uma vez. Ia mesmo matá-los dali a pouco tempo, o que poderia dar errado?

- Apresento-lhes a verdadeira mente criminosa por trás dessa operação. Acabei de vir buscá-lo em sua clínica. Entre, Senhor M.

- Oi para todos!

Não pode ser! Exclamou um atônito Pierce. Impossível! Perla desmaiou de susto. Senhor M saboreou cada momento, como uma caçada que chegasse ao final com o cheiro do sangue da vítima no ar.

Capítulo 13

Magna Carta pressente que algo não ia bem. Principalmente porque seu chefe deixara o celular ligado o tempo todo, e ela pode ouvir toda a conversa. Só há uma pessoa que pode nos ajudar agora, pensou. Pegou o telefone e rezou para que ela pudesse lhe atender.

Capítulo 14

Não pode ser você! A surpresa de Pierce não tinha limites. Todos pareciam se divertir muito com a situação, principalmente o Senhor M, que cofiava seus bigodes com prazer.

- Qual o problema, caro Pierce? - Disse o gênio do mal.

Nesse momento, Perla recobra a consciência e exclama entre soluços: mas... você é um gato! Disse Perla totalmente desorientada.

- Obrigado, procuro me cuidar, - disse Mefistófeles, o insuspeitado gatinho de estimação do doutor Pierce!

Mefistófeles - ou melhor, professor Frank Zappa - era o chefe da base de Two Fags na época da construção da Broca, portanto, superior hierárquico de Dick Shaking. Professor Zappa conduzia experiências de troca de consiência, e acidentalmente tivera a sua assumida por um lindo persa. Inteligente, percebera que aquele era o disfarce ideal, pois poderia continuar a fazer suas tramóias sob total sigilo. Sem falar que trepar pelos telhados era um barato.

- Bem, acho que é hora de chacinar vocês dois, se não se importam.- disse o já nem tão amável gatinho.

- Vá em frente seu pulha, - disse o desbocado doutor Pierce. E todas as sardinhas que lhe dei, ingrato?

- Ora vamos, evite citar esses assuntos caseiros na frente de estranhos, pelo menos na hora da sua morte!

Nisso, houve um tremendo estrondo e sons de tanques e aviões, o escambau. Eram os federais que davam uma batida no local, guiados pessoalmente pela presidente Cindy Lauper! Avisada a tempo por Magna Carta, a presidente movera um destacamento inteiro dos marines para a operação. Todos os bandidos foram presos ou mortos na batalha, mas na confusão, Mefistófeles fugira por uma fenda nas rochas.

Epílogo

As perdas foram enormes, mas a nação seria reconstruída. Pelo menos o vice-presidente servira para alguma coisa: deixara tudo organizado, e uma empresa chamada Hallyburntoon faria a reconstrução das cidades, a um precinho camarada. A presidente Lauper contratou Magna Carta como secretária de estado, para despachar com ela numa sala coladinha ao salão oval. Inclusive, as luzes ficavam acesas a noite toda, obviamente as duas tinham muito trabalho a fazer.

Pierce e Perla viajaram para Cuernavaca, e os dois adminsitraram o seu bordel dos sonhos - no início, como só havia dois para atender os clientes, tiveram que se revezar no atendimento aos pederastas, coprófilos, onanistas passivos, zooófilos, pigmalianistas ( esses exigiam concentação e equilíbrio ), podólatras, travecos, enrustidos, ninfômanos, sádicos, calipígios, transformistas, priápicos, sodomitas e freiras em geral.

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De vez em quando, sob a brisa dos trópicos, Pierce e Perla deitavam-se ao luar e se amavam como se o dia não tivesse sido cheio de afazeres e seus corpos não estivessem macerados pelo atrito de tantos clientes. Nessas horas, a tranquilidade só era quebrada pelo som das aves coloridas, pelas ondas quebrando na praia e por um misterioso miado insistente, que teimava em segui-los por onde quer que fossem.

quinta-feira, janeiro 05, 2006



Postinho

O que nos faz achar algo engraçado? Há muito tempo ouvi uma teoria sobre isso, durante um papo que rolava sobre as comédias pastelão, típicas da época do Gordo e o Magro. A questão particular era: por que ver alguém levar um tombo na rua é engraçado? Ora vamos, eu sei que é trágico, deve doer muito pro pobre coitado estatelado no chão mas convenhamos; algo condicionado nos nossos genes diz que aquilo provoca uma certa hã... hilariedade involuntária.
É ou não é?

É. Quando nossos ancestrais tinham que caçar para comer, a vida era dura. Capturar ou não a presa era a diferença entre dormir com fome ou não, pois naquela época não adiantava recorrer à casa da mãe pra filar um rango. Durante uma perseguição, seria uma sorte, quase um milagre se a presa em fuga - provavelmente um veadinho suculento, pra quem gosta de carne de cervo - ; tropeçasse e caísse. Imediatamente nós, os predadores, começaríamos a salivar, antevendo o banquete, conseguido daquela forma quase sem esforço. No ato de salivar, arreganharíamos os dentes, prontos pra arrancar um naco do indefeso veadinho. Sorrir imediatamente depois de ver um sujeito escorregar num quiabo cru também nos faz arreganhar os dentes, mesmo que depois o verniz da civilização aja e nos faça socorrer o coitado, com a maior seriedade e comiseração do mundo.

Isso também explicaria o terrível sentimento de humilhação que se apossa de alguém que levou um tombo, principalmente em público. Muita gente quereria sumir ou morrer, de pura vergonha. Acho que um antílope na savana africana sentiria o mesmo, se escorregasse numa poça de lama e caísse indefeso diante de sua perseguidora: uma leoa faminta. Agora me fundi, pensaria ele.

Esconder a cara com as mãos entra no mesmo rol de atitudes instintivas: se a gente esconde o rosto, é como se não nos vissem - e nós a eles. Que o digam os avestruzes.

Me ajudem: ao ficar nua em público - digamos por causa da porta do táxi que se enroscou na saia; a primeira reação da pessoa é cobrir as partes ou a cara vermelha de vergonha? Sei não, isso ainda não aconteceu comigo - deixei de usar saias há muito tempo - ; mas acho que eu encararia a situação com a nobreza e a fleuma de um lorde inglês. Caminharia impávido, com as coisas balançando ao vento, sob os aplausos ou vaias do populacho, até poder tirar a caimisa e fazer um saiote minimamente digno. Assobiaria algo como o tema da Pantera Cor-de-rosa enquanto dava um nó na camisa e iria embora pra casa ou pruma loja da C&A, espigado e altivo como numa cerimônia de posse. Como diria Didi Mocó: quem já viu não se admira, quem nunca viu não sabe o que é, então...

quarta-feira, janeiro 04, 2006



Simbora, o marujo
e o banqueiro de Dubai

Simbora, o marujo, comemorava a instalação de um sistema de GPS em sua fragata, a Galeota dos Mares. Obviamente esse sistema era muito simples e rudimentar, pois essa história se passa na época em que o Niemeyer era estagiário nas Pirâmides. Portanto, o tal sistema consistia unicamente de um cordame fixado ao navio e a outra ponta do fio amarrado no porto de partida. O sistema não tinha muito alcance - só uns 12m - , mas a precisão era admirável.

Animado com as inovações tecnológicas de sua época, Simbora resolveu modernizar de vez seu barco. Para isso ele precisava de dinheiro, e como os travestis aposentados, seus marujos, se lhe recusassem a emprestar mais; resolveu apelar para os bancos. Os bancos de praça, certamente, pois Simbora era muito ágil no velho truque de bater carteiras de dasavisados que sentavam ao seu lado. O esquema, no entanto, durou pouco. Já haviam passado a perna em vários transeuntes em todos os portos do oriente quando atracaram em Dubai, certos de poderem encher a burras no rico emirado.

Dubai naquela época não era o porto de piratas semi-nus que é hoje, não senhor. Conseguia ser muito pior: a região era dominada pelo famigerado emir e banqueiro Al Lan Greenspan, temido em todo o mundo árabe. Sádico e pervertido, a única sacanagem que ele não topava era dar desconto. Certa vez vendeu seus princípios por um bom preço, e ainda conseguiu abatimento no imposto de renda. Era tão esperto que patenteou os algarismos arábicos, e agora todo mundo tem que pagar uma grana pros descendentes dele. É por isso que só escrevo por extenso: dois; vinte; oitenta e sete; setecentos e vinte e dois bilhões, duzentos e noventa e três milhões, quatrocentos e vinte mil e oitocentos e por aí vai.

Não havia nada em seus domínios que Al Lan não soubesse. Assim que o Galeota atracou, Al Lan soube do acontecido. Talvez porque o porto ficasse ao lado do palácio real, não sei, mas o fato é que Al Lan resolveu tirar um sarro com aquela tripulação de maltrapilhos. Teve uma idéia genial: iria se fantasiar de popular comum e passear pelo porto, para fazer pouco dos estrangeiros. Aquele que o desrespeitasse seria condenado à morte, pois no instante do delito, Al Lan revelaria sua verdadeira identidade. E assim fez.

Arranjou um turbante com sedas da Caxemira, um colete de renda turca com bordados em ouro, sapatos recurvados vindos de Franca e uma adaga com o cabo coberto de pérolas negras. A aparência geral era como se o emir fosse desfilar no Hotel Glória, mas ele nem se tocou. Anos de afastamento com o povo e sua realidade o fizera perder a noção da escala das coisas. Só isso explicaria a comitiva de doze elefantes, mas enfim, o dinheiro é dele.

Sentado na praça em frente ao porto, discretamente acompanhado de seus doze elefantes, o emir esperou que um dos estrangeiros fosse puxar conversa com ele. Nem preciso dizer que os cidadãos de Dubai, sabendo das excentricidades de seu emir, manjaram a armação e se mandaram todos, deixando a praça deserta. Simbora desceu do Galeota e deu de cara com aquela cena de Fellini - que no entanto só iria nascer dali a 500 anos ( merda! vinte centavos por algarismo pra família do emir! ). Simbora se aproximou do estranho personagem e pensou contente: esse tá no papo! Nunca vi otário mais fácil de se engabelar desde que roubei a bolsa daquele lisboeta caolho com manias de poeta.

Simbora saudou com respeito o cidadão e entabulou uma conversa: - Bonito turbante. Onde você comprou tinha pra árabe? O emir, enfurecido, apontou a adaga para Simbora, revelando seu título e sentenciando-o à morte! Simbora ficou confuso, pois esssa era sua segunda condenação à morte em poucos meses. Será que uma anularia a outra? Provavelmente não. O marujo, no entanto, queria justamente que o emir se levantasse, pois habilmente passou-lhe uma rasteira e despojou-o de sua bolsa. Enquanto o emir chamava pelos guardas, Simbora só teve tempo de entrar novamente em seu navio e zarpar, sob a saraivada de lanças e o olhar complacente dos elefantes.

Como tivera sorte dessa vez, Simbora abandonou os trambiques e pôs-se a contabilizar o apurado. Somando a bolsa de Al Lan, arrecadaram mais de mil sestércios de ouro, o que daria para fazer um verdadeiro tunning na Galeota. - Acho que vou colocar um neón acompanhando as velas, disse Simbora. Que acha, meu imediato? - Acho uma excelente idéia, capitão Simbora. Posso sugerir lilás?