quinta-feira, fevereiro 16, 2006




A farra do boi só dá boi de piranha!

Seguindo ao norte pela N1, a única estrada do Nepal, cheguei a um vilarejo perdido entre as altíssimas montanhas. Estava numa missão de autoconhecimento e descoberta, e ouvira falar que naquele insólito platô havia alguém que poderia me ajudar: o Guru Cubaca.

Parei minha lhama (?) ao sopé de uma imensa escadaria. Subi os degraus e toquei a campainha, cujo som parecia uma buzina de nevoeiro. Ouvi passos. A porta rangeu. Uma figurinha insignificante apareceu por uma fresta da porta e quase que inaudivelmente, pronunciou as seguintes palavras: - Que é?

- Gostaria de falar com o Guru, ele está?

- Vou ver. Entre.

O interior do mosteiro era pura paz e simplicidade. Parecia um cabaré de Las Vegas, o que percebi ser uma alegoria sobre as tentações terrenas. Até a stripper que pulou no meu colo fazia parte da encenação, aposto. Segui o homenzinho por entre alcovas fechadas com cortinas de contas, palcos com dançarinas núbias, cabines privê, camas king size com surubas rolando e por fim, um escritoriozinho muito fubenca, empestado do cheiro de charutos e uísque barato. - Vai, desembucha! - disse o homenzinho, que nada mais era que o próprio Guru Cubaca!

Só aí reparei na indumentária do mestre: vestia uma camisa do Fortaleza Esporte Clube, chinelas havaianas desgastadas de um lado e um bermudão cinza da O.P. O Guru usava ainda óculos bifocais de aro vagabundo e um bigodinho fino que o deixava a cara do Irapuan Lima.

- Mestre - comecei; - vim falar com o senhor para descobrir o sentido da vida, a quintessência do Universo e afinal, quem matou Salomão Ayala.

O mestre deu uma cusparada no chão e sentenciou: - Parece coisa de viado, mas tudo bem, tenho um lugarzinho pra você - . Quando fui dar meu cartão, percebi algo errado: aquela stripper do começo da história roubara minha carteira!

Passei a trabalhar no cabar... digo, no mosteiro sagrado, onde compartilhava com os outros discípulos a sabedoria do mestre. Ele nos instruía todo dia, e dentre suas pérolas, ainda posso lembrar saudoso:

O câncer evolui. Vai evoluir tanto que no futuro, vai virar uma coisa parecida com um ser humano, mas muito mais fedorento. Ao mesmo tempo, nós, seres humanos, vamos involuir, e viraremos uma célula defeituosa que vai destroçar, justamente, o Oncoman. Doce ironia!

Ou então essa jóia de sabedoria, a respeito das sutilezas da criação:

A natureza faz tudo errado. As abelhas são atraídas pelo órgão reprodutor das plantas, cujo aroma varia do jasmim à alfazema. Já o homem é atraído pelo órgão sexual feminino, cujo perfume varia do peixe fresco ao bacalhau de dois dias. Obviamente alguém trocou os memorandos!

Depois de anos de aperfeiçoamento da aura e transmigração do ser psíquico, resolvi que era hora de sair e enfrentar o mundo, armado com minha nova couraça filosófica!

- Aonde a boneca pensa que vai? - disse amistoso o Guru Cubaca.

- Vou sair e divulgar a nova verdade, mestre!

- Sei. E quanto a isso?

O mestre me mostrara a conta do Curso Teosófico Tântrico para Desatarrachamento da Alma, e tinha mais casas decimais que as reencarnações do Buda. Aparentemente, minha estada no mosteiro e os conhecimentos que adquiri tinham um preço. Não tive outro jeito senão ficar e trabalhar para quitar a dívida.

Agora trabalho no cabar... digo, no mosteiro como crupiê. Pior sorte teve um amigo meu da Dinamarca, que trabalha no setor de charges eróticas do mosteiro. Aquilo podia parecer um cabaré, mas era um cabaré de respeito. Lá não era lugar de gozação, pô!

quarta-feira, fevereiro 15, 2006



Mórbida similaritude

Tem uma teoria aí que diz que em algum lugar do mundo há uma cópia sua, como se fosse um back up que a natureza criou para nos pregar peças. Se o Ota não for essa cópia mútua, não sei quem pode ser.

Quando vi a foto dele, pensei: ué, não lembro que ninguém tenha puxado minha orelha. Aliás, o que é que a minha foto tá fazendo no site desse desenhista? E mais: eu não tirei essa foto! Depois de um tempo pensando - calma, sou monotarefa - cheguei à conclusão que a CIA tira fotos nossas quando a gente menos espera!

A outra conclusão é que eu devo ter um irmão gêmeo. Aliás, falei isso com a mamãe e ela tossiu e olhou pro teto, foi ficando vermelha e imediatamente começou a assobiar Chiquita Bacana. Depois saiu correndo e se trancou no quarto. Será que isso quer dizer não?

Fiquei muito contente com a descoberta dessa similaridade por dois motivos: um, é que o Ota lançou um concurso de sósias dele, e provavelmente já ganhei a taça. O outro motivo é que agora tenho um potencial doador de órgãos, caso haja algum problema comigo e eu precise de transplante. Nada como rodar tranqüilo com o estepe cheio!

terça-feira, fevereiro 14, 2006



Simbora, o marujo
e Gargântua, o gárgula.

Simbora estava numa fria. Branca de Névoa, sua hóspede, ocupara seu camarote e Simbora teve que ir se acomodar no porão junto com Charles Bronson, o chefe dos marujos travestis. A presença da Branca impusera algumas mudanças drásticas na rotina do Galeota do Mares. Os divertidos torneios de cusparadas e as cantorias até altas horas foram abolidas, pois a Branca achava aquilo de péssimo gosto: - O que vão dizer nossos vizinhos? Nem o argumento que afinal, estavam na maioria do tempo em alto-mar e os potenciais vizinhos eram ou focas ou albatrozes fedidos, demoveu a Branca de sua birra. Ela fincou pé e ai de quem a contestasse. Em compensação, o Galeota estava um brinco.

A Branca convenceu Simbora a dar uma paradinha no porto de Paris. Nem o fato de que Paris não tinha porto convenceu a Branca, então Simbora e os travestis puseram umas rodinhas no navio e foram aos trancos e barrancos até a cidade. A Branca queria comprar umas cortinas pra sua cabine e insistiu que tinha que ser na Daslou. Chegando às margens do Sena, Simbora atracou a Galeota perto da Ile de France, onde fica a catedral de Notre Dame. Naquela época, a catedral ainda estava em construção e a Branca e os travestis tiveram que ouvir um monte de gracinhas dos operários: - vous elle est la belle-fille à qui ma mère a demandée le dieu. Ou então: - maison, nourriture, trois millions pour le mois sans compter que le souffle. Peão de obra é tudo igual.

Eis que do meio dos operários, Gargântua, feio e corcunda como um dromedário, se aproxima dos andaimes pra ver que algazarra era aquela. Nem preciso dizer que o gárgula humano ficou perdidamente apaixonado pela Branca, ao vê-la desembarcar da Galeota vestindo uma saia esvoaçante rendada, que exibia um decote tão escandaloso que faria a múmia de Ramsés II arrebentar o sarcófago sem usar as mãos, se é que me entendem. O pobre concurda decidiu que iria raptar a moça a qualquer preço, e preparou um estrategema para capturá-la quando ela voltasse ao navio.

Dito e feito: tarde da noite, lá vinha a Branca com suas comprinhas. O que era pra ser umas poucas cortininhas se transformaram numa echarpe de seda da Índia, meia dúzia de sapatos Luís III, um pacotinho de croissants e quatro vestidos da grife Popo Chanel. Obviamente a Branca se esquecera das cortinas. Quando ia embarcar no navio, o gárgula lançou-se sobre ela e por meio de uma engenhosa roldana com molas, arrabatara-a para as alturas imensas da catedral. O que deu uns dois andares apenas, pois como eu disse, a construção civil naquela época ia muito lenta.

Simbora fora alertado pelos travestis e resolveu agir. Afinal, a Branca lhe devia uma puta grana. Preparou archotes, pés-de-cabra, lanças, punhais e uma touquinha para o cabelo, pois Simbora fizera uma permanente e a obra era muito empoeirada. Arrebentaram as portas da cetedral e aos berros - pois os travestis tinham visto um ratão albino - ; adentraram o imenso edifício. Subiram as escada seguindo os gritos de pavor agudos que vinham do alto da torre. Dois lances de escadas depois, chegaram ao alto da catedral e foram surpreendidos pelo corcunda, que investiu violentamente contra eles!

O corcunda chorava copiosamente, e emitia gritinhos de desespero - os mesmos que a tripulação ouvira lá embaixo. O fato é que a Branca passara a noite torrando a paciência da pobre aberração, criticando a decoração da torre e os hábitos de higiene do gárgula. Este, em desespero, não sabia mais o que fazer para se livrar dela. Quando viu os marinheiros que chegavam, deu graças a Deus e pediu que a tirassem dali o mais rápido que pudessem, pois já não agüentava mais.

A Branca não se calou nem mesmo enquanto o Galeota zarpava: - Olha, não esqueça, sépia não combina com turquesa, e limpe o pó da prataria pelo menos três vezes por mês. Compre uns pacotinhos de chá de boldo que depois eu volto pra te visitar, ok? Tchauzinho!! Simbora amargou um prejuízo federal por causa das compras da Branca e ainda teve que pagar uma altíssima taxa portuária, por estacionamento indevido.

E o Gargântua, dizem, ainda hoje vive nas torres de Notre Dame. Quase moído, adotou o apelido de Quasímodo e abandonou a construção civil. Ouvi dizer que agora transa um lance de teatro. Sei...

segunda-feira, fevereiro 13, 2006



O raio que o parta!

Tenho muitos defeitos. Isso qualquer um pode ver, até mesmo o ceguinho do qual roubei uns trocados. Esses defeitos, todavia, não comprometem o desempenho do carro - são como pequenos arranhões na pintura; mas que desvalorizam o produto na hora de vender pra alguém. Dentre esses pecadilhos, apenas dois são confessáveis: não sei falar inglês nem tocar violão.

Até aí tudo bem. O problema é que na triagem celeste, também vim ao mundo com uma terrível maldição. Minha sina, porém, não se traduz numa perpétua nuvem negra, pairando sobre a cabeça com raios e trovoadas. Quem dera. O que acontece é justamente o contrário: tenho um perpétuo sol brilhando onde quer que eu esteja! Esse superpoder - vamos chamá-lo assim; seria muito bom se eu morasse em Seattle, mas sentei praça justamente no Ceará, que o que menos precisa é de um maldito coletor solar ambulante.

Vou explicar com mais detalhes. A coisa funciona assim: onde eu estou, não chove. E se está chovendo quando eu chego, a chuva para. Simples, não? Agora, por exemplo, estou planejando uma viagem pro Rio e São Paulo. Está chovendo horrores no Sudeste, e aqui no Ceará as chuvas ainda não começaram pra valer. Eu aposto 1 dinar iraquiano que assim que eu apontar na cabeceira do Galeão, a chuva vai parar por cinco dias. E aqui no Ceará, vai cair uma chuva torrencial que fará o dilúvio de Noé parecer uma garoa londrina.

Já cansei de blasfemar contra isso. A coisa simplesmente, acontece. O que eu deveria fazer é lucrar com a coisa.

Proponho um negócio procês, amigos do Brasil todo. A se confirmarem minhas previsões - pois viajo na sexta que vem - ; oferecerei meus serviços pra quem quiser, contanto que forneça hospedagem e passagens, mais uma diária simbólica, ok?

Digamos que você, leitor querido, seja um fazendeiro de Goiás que esteja a ponto de perder sua produção de soja, por causa de uma previsão de excesso de chuvas. Numa boa: mande seu jatinho e me hospede na fazenda por uns dias. Duvido que caia uma gota sequer. Tô falando sério.

Por outro lado, o Governo do Ceará deveria pagar pelo meu exílio perpétuo em Lausanne, Suíça. Quanto mais longe eu esivesse do Estado, melhor para a safra de grãos, clima, essas coisas. Olhaí, o leilão começou, ok?

Agora que tô escrevendo isso, e as coisas sabem que vou viajar; tá chovendo, mesmo timidamente. Eles não podem conter a alegria de se verem livres de mim.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006



A kartada final

Ontem fui correr de kart. O povo aqui do trabalho organizou uma espécie de campeonato, cujo prêmio era tratamento VIP na UTI: teríamos a certeza de não ter nenhum membro amputado sem esgotarem todos os recursos. Para os perdedores, bem, a infâmia eterna.

A corrida aconteceu num estacionamento abandonado, nos fundos de um supermercado. Local aprazível: ao lado havia um lixão cheio de repolho, caixas de papelão e alguns fetos. Do outro lado, uma ferrovia cujos trens pareciam ter saído dos quadrinhos do Spawn. Suponho que a empresa que implantara lá o kartódromo teve que expulsar os traficantes e as prostitutas, o que foi uma pena, pois seria legal ter uma torcida feminina composta de roadies e um fornecedor de pó pra festa da vitória. Ou então, todo o local fora construído em cima de um cemitério índio. Isso explicaria as pontas de flechas na pista e o pajé que me encarava a corrida toda.

O campeonato está muito bem organizado, e essa foi apenas a primeira corrida. Tudo foi dividido em categorias: Fórmula Penélope, para as meninas; Fórmula Indy, para os caras ágeis; F1 para os arremedos de Ayrton Senna; Fórmula Gran Turismo para os veteranos e Fórmula Truck para os caras que são verdadeiras Ferraris: de 0 a 100Kg em 30 anos. Coincidentemente, essa foi a categoria na qual competi, e são infundados os boatos que corri numa poltrona reclinável porque não cabia no assento do kart.

Na minha categoria, fizemos a tomada de tempo e larguei em terceiro, pra vocês verem o nível dos competidores. Largamos em nove e essa era minha turma: o modelo da fábrica de lonas Guerra; o único praticante de sumô do Ceará, o campeão nordestino de rodízio de pizzas, o estepe da âncora do Exxon Valdez, o rei momo de Pindoretama, o Baco do Benfica, o Casas da Banha, o boneco da Michellin e eu.

A largada foi perfeita, pois pegamos emprestada a catapulta do Nimitz. Logo na primeira curva, um acidente: Casas da Banha parou pra comprar um kibe e os que vinham atrás bateram em sua enorme traseira e tiveram que ser retirados a fórceps. Aproveitei e segui em frente, numa louca perseguição ao segundo lugar - que me roubara todos os meus tíquetes do Habib´s. Era emocionante ouvir o ronco dos motores e o barulho da torcida. Só aí percebi que estavam gritando para um caminhão de sorvete, que atiçava os competidores como se fosse o coelho mecãnico numa corrida de galgos. Mas aí derrapei miseravelmente e só pude completar a prova em sexto lugar.

A corrida foi muito boa e no fim das contas, até pontuei. Mas fiz um esforço tremendo para me manter na corrida e resolvi, sabiamente, adotar a estratégia dos campeões: encerrar minha carreira no auge.





Nelson Piquet deve estar se revirando no túmulo!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Desenho para a SEMACE, feito lá pelos idos de 2002. A bandinha é um arremedo de White Stripes, numa época em que eles ainda eram meio desconhecidos.

O trabalho foi publicado para o festival de Jazz de Guaramiranga, que acontece todos os anos no Ceará, justamente na época do carnaval. E é o maior sucesso.



A nova onda do rei

Como todos vocês sabem, nosso magnânimo rei, Inepto I, o incestuoso; decretou há pouco que todas as formas de humor estão banidas do reino. Aí inclusas as gracinhas, as pilhérias, a gozação, a ironia, o escárnio, a tripudiação e principalmente; o duplo sentido. Nosso sábio rei declarou ainda que quem descumprir seu edito será entesticulado, depois emasculado, aí em seguida castrado e o que sobrar será cortado e atirado aos chacais. Se o infrator for mulher, o castigo será ainda mais terrível: virará concubina vitalícia do príncipe Pacóvio, o teratóide.

A princípio, a população deu de ombros. E daí, e eu com isso? Mas ao poucos os efeitos funestos da nova lei se fizeram sentir. Os humoristas, agora desempregados e fora da lei, tiveram que se virar na informalidade. Como tudo que é proibido, o humor virou artigo de luxo e gerou um verdadeiro mercado negro para piadas, chistes, anedotas, facécias, pegadinhas e trotes. Pagavam-se mil sestércios por uma charge. Doze mil por um texto que comentasse sobre a flatulência do rei. Vinte mil moedas de ouro valia uma caricatura da rainha com para-quedas no lugar de sutiãs. O tráfico gerou um novo tipo de viciados: os jocopatas - os viciados em humor.

Um jocopata fazia qualquer coisa por um pouco de esculhambação. Imagine que nas festas ninguém podia fazer uma rodinha de piadas. Nem boatos jocosos eram permitidos, pois o rei impusera olheiros por toda parte. O que fazer? bom, os verdadeiros jocopatas iam ao banheiro e liam nas caixas de sabonete a expressão em espanhol jabón, que significava sabão. Ora, um banheiro certamente era o local ideal para um rabão, re re re, e riam a valer. Como se percebe, o desespero levava as pessoas a acharem graça até da correria de um pato.

Pra piorar a situação, o rei adorava discursos. Toda semana o povo tinha que aturar três horas de falatório sem sentido. A cada bobagem que o rei dizia, como por exemplo: no meu governo, todos os casos de corrupção terão investigação rigorosa e punição exemplar! levava o povo a segurar o riso, sob pena de morte. E o rei não parava: essa obra que estou inaugurando agora não tem cunho eleitoreiro, ela já estava no cronograma desde o ano passado, e o povo fazendo força pra não estourar as bochechas.

A coisa engrossava a cada dia ( aliás, essa frase seria vetada por duplo sentido ), e a situação tornou-se insustentável como um avião de chumbo ( essa também, pela ironia ). A única saída era forçar uma ruptura através de um partido político ( o rei não entenderia mesmo o trocadilho, então passa ).

Os jocopatas fundaram o PPP, Partido da Piada Pronta, e lançaram seus candidatos - todos sob pseudônimo, claro. Para deputado, Afanásio Trombadinha. Para senador, Orson Ofabitch. E para presidente, Erário Dissipado. Os insurgentes conquistaram o poder e declararam guerra ao mau-humor. Depuseram o rei e o embarcaram para a França numa canoa furada, movida apenas por boas intenções. Toda a publicação oficial agora tinha piadinhas pelo texto. No documento sobre a casa própria, os novos ministros escreveram: todo cidadão tem direito a moradia digna, e todo empreeiteiro tem direito a se indignar, ficando ambos quites e portanto, não nos pertubem mais com isso. O reich durou mil anos, findos os quais, os vermes riram por último e acabou-se a história.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Desenho feito para não sei quem, não sei quando, que custou não sei quanto. Seguramente não foi pra Volkswagen...



Miolo de pote:
um texto sem assunto nenhum.

A Internet é como o Aleph de Borges: ela parece conter todo o espaço, assim como a eternidade contém o tempo. E tal qual um imenso terreno baldio, as coisas são de quem achar primeiro. Terra de ninguém, é comum procurar uma coisa e achar outra, ou começar de um jeito e terminar de outro. É fácil achar um monte de gente, e mais fácil ainda se perder. É super simples de entrar, para depois descobrir que não se quer mais sair. A paisagem muda a cada dobrada de esquina. Parece viva. Parece a vida, só que a gente vem ao mundo sem um Google instalado.

Que apego por nós mesmos, não? Que narcisismo pela espécie. Vamos ao futebol para ver outros humanos correndo, enquanto aos pontapés, disputam uma bola. No cinema, vemos fantasmas de celulóide que nada mais são que outros de nós, brincando de ter uma vida menos chata. Só nos interessam as coisas que são feitas por semelhantes. Ninguém agüentaria assistir a um por-do-sol por três horas, mas faça um documentário sobre o Por-do-sol no Arpoador que lota. Até as maiores diversões do ser humano são feitas junto com outros seres humanos - no caso, a conversa, o sexo e a guerra. Dá pra fazer tudo isso sozinho. Eu mesmo tentei todos e acreditem, é muito chato.

Este ano faço 35 anos. Grande coisa. Muita gente diz que essa é a metade da vida útil, mas convenhamos, quem tem realmente uma vida útil? Uma vaca holandesa é útil. Uma macieira certamente é. Uma naja comedora de ratos também. Mas e nós? Sinceramente, noventa por cento da humanidade só está atrapalhando, com seus corpos imensos devoradores de cereais e produtores de dejetos químicos. O resto se divide entre aqueles que não tão nem aí, os ascetas, os loucos, os comatosos e os santos. Quem toca o mundo de verdade são uns vinte ou trinta caras que estão agora mesmo, dividindo seu tempo entre um trabalho sério e aulas num cursinho para pagar o aluguel ou não morrer de fome.

A Internet também se parece com um espelho. Na verdade, eu poderia dizer qualquer coisa: A Internet se parece com um doblô carregado de merda. Realmente, não? A humanidade evoluiu associando padrões. Daí porque vemos rostos em nuvens, manchas na parede, cascas de árvores. Daí porque ouvimos vozes onde na verdade só há o sussurro do vento. Daí porque a gente só aceita o que reconhece.

terça-feira, fevereiro 07, 2006



Um entrave de entrevista

Toda quarta-feira eu ia doar sangue para poder filar um lanche. Voltava naquele dia do hemocentro, ainda zonzo, quando vi uma enorme fila em frente a uma agência de empregos. Grogue como estava, achei que era uma fila para distribuir doces. Eu ainda tinha muita fome, como perceberam. Meu plano era voltar pro barraco e fazer uma sopa de pedras, mas ao invés disso, fui ficando por ali, distraído com meus companheiros de mazelas. Sem que eu notasse o tempo passar, chegara a minha vez. A moça falou que eu era sortudo: - tenho um emprego pra você, disse ela.

A última vez que tive um emprego de carteira assinada foi na administração Dutra, um pouco depois da construção das pirâmides. Desde então sobrevivia de bicos e pequenos serviços que ninguém queria, como ser faxineiro do labirinto, oculista do cíclope e atendente do SAC da Union Carbide. A moça da agência arranjara um emprego perfeito para mim, segundo ela, mas antes, eu só precisava responder a algumas questões do teste psicológico. Desesperado como estava, topava tudo, até a suprema humilhação: uma dinânica de grupo! Mas não chegamos a tanto, felizmente.

O teste era muito simples: sessenta questões sobre vários assuntos, que exploravam minha intimidade tão profundamente como um batiscafo mergulhando na Fossa das Marianas. Mas como eu disse, a fome é o melhor amansador de Ego que existe.

Você tem sonhos eróticos com espanadores, abridores de garrafas ou baleias cachalotes? Estranhei a pergunta, mas não havia muito o que se fazer, pois só havia vinte minutos para responder as perguntas, e eu demorara dez deles apenas para entender o que é que aquilo tinha a ver com o trabalho que eu pleiteava. Enfim; sem dúvida quem bolara aquelas perguntas deveria saber das coisas. Pelo menos ele tinha um emprego.

Você se sente como se estivesse num vazio espiritual, como se o único sentido de estar aqui fosse questionar a própria existência? Em geral não, pois meu vazio existencial é preenchido por um pastel de queijo e uma garapa de cana, quando tenho sorte de achar alguns centavos no chão.

Amarelo está para um novelo de lã assim como uma debulhadora de milho está para... Uma total perda de tempo?

Um orangotângulo é um macaco com pendores geométricos? Talvez sim, se quem bolou essa pergunta for um desocupado quadrado obtuso.

Você ouve barulhos estranhos que ninguém mais ouve? O tempo todo, agora mesmo uma voz dentro da minha cabeça diz: vá pra casa bater uma punheta.

Última pergunta: o que você espera desse emprego? Que ele seja mais produtivo que esse teste, como por exemplo trabalhar lustrando um iceberg ou elaborar a dieta de um Koala.

Deixei o teste pela metade e fui embora. Não precisava daquilo, pois bem ou mal, ainda tinha um resto de dignidade. No fim das contas, a rua me sustentara bem até aqui. Agora com licença, tenho que sair agora pois daqui a pouco vão distribuir uns colchões do leprosário e meu barraco não tem mobília nenhuma.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006



Será que ele é Maomé?

Mais uma vez a intolerância mostra suas cimitarras. O que não deixa de ser curioso, pois trata-se justamente de um embate entre a pena e a espada. E a meu ver, a pena está fazendo jus ao ditado.

Vocês tão por dentro: jornais publicaram charges do Profeta Maomé e imediatamente, atraíram o ódio de radicais muçulmanos. Até a data de hoje, embaixadas foram incendiadas, editores de jornais demitidos, embaixadores deixaram suas representações e nações inteiras ameaçam rasgar suas constituições que preveêm liberdade de imprensa para cederem a chantagens.

O site do Museu Virtual do Cartoon publicou um belíssimo e enfático manifesto sobre o assunto, do qual não tenho nada a acrescentar a não ser minha assinatura logo abaixo, se preciso fosse. Vou citar um trechinho:

O direito sagrado da liberdade de imprensa entrou em conflito com o mito sagrado de Maomé. Doze desenhos de humor publicados na Dinamarca estão a criar uma polémica ímpar no mundo. E evidenciam duas coisas: a força da linguagem universal do cartoon e o papel da imprensa como bastião da liberdade.

E também nunca é tarde para citar Voltaire, só pra que a gente lembre que nosso direito a ter uma opinião requer um palmilhar constante e ativo. Disse o Millôr Fernandes francês: Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo.

Vai daí que fiz um pequeno manifesto também na forma de nove versículos, a respeito do direito à livre manifestação da opinião, principalmente no que se refere à pintura, quadrinhos, teatro, literatura, grafites, cartazes, editoriais e discursos em praça pública. É muito tênue a linha que separa a barbárie da civilização. Mas é fácil identificar os bárbaros pois definitivamente, trogloditas não têm senso de humor.


FART! Free Art Movement:
um manifesto muito mixuruca.

I
Pelo direito de, literalmente; avacalhar com Deus e o Mundo.

II
Pelo direito de ter uma opinião contrária ao cara que porta uma escopeta.

III
Pelo direito de discutir munido de dados contra um sujeito munido de dardos envenenados.

IV
Pelo direito de não perder a piada, mesmo que custe uma amizade ou sua própria cabeça.

V
Pela coragem do artista em dar sua cara à bofete! O mártir faz o mesmo, mas o artista sobrevive para contar sua própria versão da história.

VI
Pelo respeito à memória de Jó, que ousou peitar Deus - e ganhou.

VII
Pelo direito e pelo dever de dizer que o rei está nu. Se o engraçadinho que botou a boca no trombone souber desenhar, melhor ainda: teremos uma caricatura pro jornal da tarde.

VIII
Pelo direito à crítica, ao escárnio, à pilhéria, à gozação, à ironia, ao humor, à fábula, ao sarcasmo e à caricatura como outros nomes da verdade.

IX
Pelo direito de ser do contra. Afinal, um teimoso é apenas o cara que não faz o que a gente quer.


sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Cartaz para a SEMACE. Reparem na caixinha de leite:-)



É a Idade de novo!
Parte 2 de 2

Pois é, acho que a atual nomenclatura histórica não tá com nada. Quer dizer, ela podia até ser adequada para europeus de culotes e perucas, cuja maior inovação humanitária tinha sido a eficiente e indolor guilhotina. Isso tudo foi culpa dos enciclopedistas. Eles tinham a pachorra de achar que todo o conhecimento poderia ser abarcado por volumes encadernados - eu sei de quase tudo um pouco e quase tudo mal, como diria Paula Toller. Bom, esses almofadinhas dividiram as Eras Históricas ao sabor do seu preconceito, soberba, classe e etnia. Pois farei o mesmo, já que meus equívocos têm pelo menos o atenuante de um notório debilismo. Vamos lá.

Chamaria o período que vai da domesticação do fogo até a invenção da roda como Idade Antiga pra Cacete. O nome é óbvio, pois os trogloditas da época usavam tacapes e porretes como armas diplomáticas. Veja como o mundo dá voltas! Depois que o proto-homem dominou o fogo e uma ou outra ferramenta, o planeta era seu parque de diversões. Assim armado, ele subjugou as criaturas de Deus, a terra, os rios, mares, mulheres e os haitianos. Passemos a outra fase, portanto.

Chamarei de Tempo do Bumba o período que vai da fundação das primeiras cidades até a invenção da agricultura e da escrita. Isso aí ocorreu há uns 20.000 anos. Naquela época, acabávamos de sair de uma glaciação, e enquanto esperávamos que as plantas crescessem, os humanos inventaram a escrita e imediatamente após; a pichação nas paredes. Rabiscos em cavernas dão testemunho desse fato, e os descendentes desses vândalos ainda hoje emporcalham as cidades.

Agora entramos numa época interessante, a Idade dos Saiotes. Já notaram que esses gregos, persas, romanos, moabitas e assinantes do canal For Man adoravam andar por aí de sainhas? Evidentemente essa era acabou quando da invenção da cueca, e o mundo nunca mais foi o mesmo. Durante essa fase metrossexual da humanidade, floresceram ( ui! ) o Império Romano, os banhos nas termas, os bacanais, as lutas de gladiadores ( auto-explicativo ) e a caça aos cristãos, que eram atirados à covas dos leões e devorados por eles. Menos o Daniel, que deveria ter trabalhado no Circo Garcia.

Finalmente, chegamos na Era da Catedrais. Esse período durou 1.000 anos. Foi quando os europeus cristãos, sempre eles, resolveram apurrinhar a Deus construindo estruturas para cutucá-lo nas nuvens. Foi a época dos alquimistas, bruxos, videntes, ciganos, cruzados e maometanos, que brigavam com os cruzados. Foi a época também da Pesta Negra, que matou gente como quem mata piolhos. A Europa regrediu, e voltaram a acreditar que o Sol gira em torno da Terra. Hoja sabemos a verdade: a Terra é que gira em torno do Sol, é por isso que tem tanta gente tonta no mundo.

Interompemos esse programa por falhas na transmissão.

Mas falando sério uma vez na vida: Nicolau Copérnico e sua teoria heliocêntrica foram mais devastadores para a Idade Média e para a Igreja Católica que uma bomba L. L de Lúcifer, claro. Com a venda de Indulgências pela Igreja, provou-se que Deus era injusto e ganancioso. Com Copérnico, provou-se que Deus mentia.

Voltamos à nossa programação normal.

Aí por 1500, descobriu-se a América. Junto com o ouro, o mundo também herdou do continente de Américo Vespúcio as folhas de coca - base da Cocaína e de um refrigereco conhecido -, além do milho, da pimenta, do cacau, do guaraná e do açaí. Por causa desses produtos, todo mundo pode dar uma festa e ficar doidão. Como imaginar o mundo de hoje sem os traficantes, os tiroteios, a obesidade, a pipoca e as hemorróidas provocadas pela pimenta? Seria um mundo chato - sem trocadilhos, que já se sabia que a Terra era redonda. Eu chamaria essa era de Idade do Ouro Roubado. Sem maldade.

A Idade Moderna fica como está, pois gosto dela. Vide texto de ontem.

Agora a barra pesa. A era a seguir engloba Napoleão, Hitler, Stálin, Pedro II, Nicolau II, Hiroito ( preencha o espaço com o ditador de sua preferência ). Os anos entre 1789 e 1945 deveriam ser conhecidos como Era das Tentavivas de Suicídio da Humanidade. Não inventei esse conceito. Ele aparece sob formas mais elegantes nos livros do escritor Kurt Vonnegut, mas é por aí. Entre os séculos XIX e XX, a humanidade entrou em pelo menos quatro guerras globais, sendo que a IGM e a IIGM foram tentativas de suicídio quase perfeitas. Nessa época passou-se da besta para o canhão, da metralhadora para o encouraçado, da dinamite para a bomba de hidrogênio. Se isso não for uma tentativa de suicídio, eu sou o Akira Kurosawa.

Bom, obrigado por terem chegado até aqui.

Pensem que até eu me canso de mim mesmo, mas não tenho como sair desse invólucro de pele.

Continuando, acho que o mundo de 1945 até hoje, 2006, merece uma classificação nova. Essa é uma época muito doida, pensem bem. As pessoas fazem sexo com bonecas de borracha. Comem leite podre no café da manhã e chamam isso de lactobacilos. Há uma explosão calórica como nunca vista, enquanto outras pessaos passam por uma fome senegalesca, como se estivessem no... Senegal. Sem falar na tecnologia, que nos possibilita termos quatro números de telefone, sete e-mails e nenhum amigo.

Como se não bastassem tantos problemas, ainda tem essa porra de terror. O que não deixa de ser um fato novo no mundo: não consta que cristãos enfurecidos tenham tentado derrubar o Coliseu usando como aríetes, duas bigas roubadas.

Eu chamaria esse admirável mundo novo de Era das Incertezas!

Se sobrevivermos a ela, poderemos renomeá-la como Era do Canibalismo, pois depois de uma Terceira Guerra Mundial, salve-se quem puder. Depois dessa mensagem de fé e esperança, além de confiança no futuro, desejo boa sorte a todos. E como conselho não custa nada, acostumem-se com o sabor da carne humana mordendo a própria língua. Boa noite e obrigado pela atenção.





quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Desenho para a GE Brasil. A personagem chama-se Laura Safe,
e gerou uma série de outras ilustrações. Principalmente tirinhas
sobre segurança no trabalho. Bonita ela, né? Adoro mulé oiuda!



É a Idade, não repara...
Parte 1 de 2

Os europeus, donos do mundo, dividiram a História em quatro eras bem definidas. Só pra relembrar:

Idade Antiga
Algum pastor mesopotâmico inventou uma forma nova e original de se registar o pensamento, que não dependia só da memória. Isso aconteceu lá por 4.000 antes de Cristo. Curiosamente, o primeiro alfabetizado esqueceu-se de assinar o próprio nome em sua invenção, perdendo assim a chance de viver de royalties. Se não fosse esse deslize, talvez estivéssemos escrevendo em caracteres cuneiformes e teríamos que pagar direitos autorais pra algum xeque iraquiano. Seria tanta grana acumulada pelos séculos que talvez eles, os iraquianos, nem encontrariam utilidade praquele líquido negro e fedorento que emporcalhava o subsolo do país. Agora já era. Por causa do trauma, os árabes viraram bons comerciantes e agora não dá pra arrancar nada deles.

O tempo passa e o Império Romano do Ocidente, nem bem formado, cai. Isso assinalou o fim da Idade Antiga, por volta de 476 depois de Cristo. Bem feito. Foi só aquele bando de cristãos assumir o governo que emperrou tudo. Deveríamos ter continuado a adorar Zeus, que se não era tão poderoso quanto Jeová, pelo menos se divertia mais e gostava de mulher.

Idade Média
Período de trevas, pois a lâmpada elétrica só seria inventada na Idade Contemporânea. Os toscos europeus resolviam seu problema de iluminação acendendo fogueiras enormes, cujo combustível eram mulheres indefesas chamadas de bruxas. Eles eram atrasados e ignorantes, por isso não julgemos seus atos bárbaros. Por exemplo, eles não sabiam que o ideal seria jogar crianças ao fogo, pois queimavam melhor por causa da pouca gordura. Tolos sem instrução.

Nessa época foi o auge da Igreja Cristã - sim, aqueles mesmos incompetentes que faliram o Império Romano. Porém, quase fizeram a mesma besteira novamente, inventando a Inquisição e dando um tiro no próprio pé. Finalmente, tudo acabou com a queda do Império Romano do Oriente, cuja capital, Constantinopla, fora o último bastião. Agora estamos em 1453.

Idade Moderna
Essa foi uma época chata e sem graça: descobriram a América; Leonardo Da Vinci pintou umas paradas por aí; Cervantes foi o cronista da época; Newton mostrou ao mundo como Deus movia os planetas; um bando de escravocratas fundou os Estados Unidos da América, enquanto outra turba furiosa decapitou os reis de França - e tudo terminou aí, em 1789. Que tédio. Passemos adiante.

Idade Contemporânea
Que é onde hoje firmamos os pés. Amanhã falarei por que não concordo com nada disso exposto acima, e esculhambarei as instituições e as fundações do convencionalismo histórico. Por enquanto só quero um banho e sorvete.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006






Posso não ser um compositor de primeira classe. Mas sou um compositor de segunda classe de primeira.
Richard Strauss


Taí o que poderia ser um belo epitáfio. Basta, é claro, que se coloque a frase no passado. O período também funciona como filosofia de vida, já que é uma maneira elegante e bem humorada de encarar suas próprias limitações. O que me lembra a história de Rudolph Mess.

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Rudolph Mess era um aprendiz de carrasco, mas ao contrário de seus mentores, ele não tinha uma esfera de chumbo no lugar do coração. No máximo, uma bola de alumínio. Quando era encarregado de aplicar algum suplício num inocente aldeão, tentava aliviar a dor do sujeito puxando papo. E aí, como vai a família? Ah, toda incinerada mês passado? Pois é, vida dura. Fora isso tudo bem, né?

Naqueles tempos, a máquina de guerra estava a todo vapor, e o país inteiro entrava num esforço conjunto para agradar seu Grande Líder. Por um acidente histórico e um lamentável mal entendido, o país de Rudolph declarara guerra a todo o Planeta. Tudo bem que eles tivessem fama de anti-sociais e emburrados, mas assim já era demais. O fato é que o Grande Líder fazia aniversário e todo mundo queria puxar seu sacrossanto saco. O que mais agradava ao Grande Líder - doravante conhecido por GL; - eram execuções em praça pública, queima de livros e marchinhas militares. Delações, deduragens, difamações, puxadas de tapete e facadas nas costas também o divertiam, principalmente quando os acusados eram fervidos em óleo. Mas o GL queria mais.

É aqui que a história de Rudolph Mess - daqui pra frente conhecido como RM;. - e do GL se confundem. Precisando de uma promoção, RM resolvera deixar dessa de ser bonzinho e botar pra quebrar, na intenção de chamar atenção de seus chefes. Para isso, deixou de colocar travesseiros na cama de pregos e de esterilizar a guilhotina. O mundo veria o nascer de um novo RM!

O GL resolvera instituir um concurso para escolher o mais vilânico, escroque, pusilânime, nauseabundo, sádico e matreiro torturador da república. O vencedor ganharia mil peças de ouro - feitas com as obturações de milhares de prisioneiros; - e ainda faria um estágio de aperfeiçoamento em qualquer delegacia da América do Sul, à sua escolha e com tudo pago. RM imediatamente fora indicado por seus chefes para representar o gulag onde trabalhava, e assim, na grande final, ele e mais dois profissionais mostraram suas habilidades para uma platéia ávida por diversão.

O primeiro deles mostrou sua técnica em tirar escalas de gritos de suas vítimas. Manejando com destreza um alicate em brasa, fez com que cinco prisioneiros entonassem os acordes completos de Sinfonia Inacabada de Olaf Abominaf. Pena que era inacabada, disse o primeiro; eu ensaiei um solo de matar. O segundo era conhecido por arrancar confissões, e convencera um pé de jaca a dar manga. Finalmente, chegara a vez do nosso querido RM mostrar do que era capaz. RM precisava de um trunfo para impressionar a todos, então dirigiu-se para o centro do salão e com um torniquete afiado, uma lima para titânio e um cortador de unhas... passou a torturar-se a si próprio!

Perdeu o concurso - o cara das mangas foi o vencedor - mas ganhou sua promoção: fora despachado para o distante norte do país, onde hoje tortura esquimós usando uma foca para lamber-lhes os pés. RM e seu coração mole...