sexta-feira, março 31, 2006



A bomba

Previsão óbvia: o século 21 assistirá entediado à terceira detonação nuclear sobre uma população inocente, desde os infames ataques a Hiroshima e Nagazaki em 1945. Não sei se o maluco que apertar o botão será um governo insano ou um terrorista mais doido ainda, mas tenho 94 anos pra provar que estou certo e que nós, humanos, somos mesmo uma raça inviável.

E mais: o ataque virá de onde menos se espera...



Brasil, 2032. Estamos no sétimo mandato da presidente Heloísa Helena, que vem sendo reeleita desde que substituíram a Constituição do Brasil por uma bula de remédios tarja preta. Nessa época, todos os problemas do Brasil já foram solucionados. O crime organizado organizou-se tanto que fundou suas próprias cidades, muito mais prósperas e seguras que as antigas capitais, agora abandonadas e entregues às gangues de forrozeiros. O analfabetismo não é mais problema, pois a língua oficial do mundo é o mandarim e todo mundo, segundo o Governo de Pequim, é um analfabeto funcional mesmo. A seca no sertão do Nordeste foi resolvida submergindo todas as capitais no oceano atlântico, mas agora os sertanejos reclamam que não têm protetor solar pra ir à praia. Nunca estão contentes!

Nesse cenário, o Governo Federal, agora restrito a uma zona desmilitarizada entre o Acre e Rondônia, tenta alguma grande jogada para salvar o pouco prestígio que lhe resta. A presidente Heloísa, seguindo a máxima de Roma, determina que sua assessoria de imprensa crie algo para entreter o povo, já que as estações de TV saíram do ar definitivamente depois da Grande Inadimplência de 2015. Algum gênio de plantão sugere que o Governo se envolva num projeto interminável, alcunhado justamente de Projeto Mil e Uma Noites. O projeto contemplaria algo tão inexequível, mas de tal forma interessante; que manteria o povo interessado, como uma novela cujo desfecho fosse postergado até o fim dos tempos.

O mesmo gênio deu a idéia de construírem uma bomba H. Todos concordaram, pois anteriormente o Brasil tentara fazer uma Bomba A, depois B, C, D, E F e G, mas todas falharam. A bomba G - que tranformava todos expostos à sua radiação em vedetes de cassino; fora detonada com certo sucesso durante o carnaval de 2024 mas foi só. A aposta lógica, portanto, seria uma bomba H em seguida.

Fizeram uma licitação para escolher quem tocaria a obra, e ganhou a empresa do cunhado do vizinho do tal gênio que dera a idéia. Algumas coisas não mudam por aqui. A presidente então fez um pronunciamento à nação via sinais de fumaça, e todos entenderam que estava rolando um enorme churrasco boca-livre. Desfeito o mal entendido, só se falava nisso: o Brasil teria finalmente sua bomba H!

A notícia chegou aos ouvidos de Washington, que não gostou nada disso. Cumpádi Washington ficou muito triste, pois tinha uma grana investida na licitação e perdera tudo, coitado. A obra foi caminhando e toda semana o Governo emitia boletins para a população: - Projeto da bomba H é um sucesso! - Só falta mais um pouco! - Tá quase terminando... - Vocês nem imaginam o que tem aqui embaixo... - Adivinha do que eu vou falar... - E assim por diante. Evidentemente o projeto era um sumidouro de dinheiro e outros projetos do Governo minguavam devido à seca de recursos. Era justamente o caso do Fome Zero, agora em sua milésima edição, mas cujo logotipo evoluíra de um prato vazio com talheres para uma mão estendida cheia de calos.

Mas aí aconteceu o impossível, em se tratando de Brasil, pelo menos: a presidente Heloísa perdeu as eleições de 2032 por uma diferença de 1 voto, justamente o do cientista que virara as noites trabalhando no projeto da bomba e perdera o dia das eleições. O projeto foi esquecido pelo governo seguinte, e a bomba, perdida. Alguns duvidam até que tenha sido feito um protótipo da bomba, e que tudo afinal, não passara de conversa pra boi dormir. Mas enganam-se: eu vi a coisa sendo construída e sei que ela existe.

Dizem que o cientista ainda trabalha febrilmente no projeto, mas agora usa materiais de segunda mão comprados no Raimundo Faz Tudo. Dizem alguns, que ele pirou de vez. Então a situação é essa: há uma bomba H sendo cozinhada em algum canto desse país, que cedo ou tarde vai explodir e levar o que sobrou dessa josta com ela. É só uma questão de tempo pra coisa feder, e não duvide que o tic-tac da contagem regressiva pode vir do ap ao lado do seu.

Eu sei que não é mais problema meu, se querem saber. Escrevo essas linhas do meu ap situando na cidade de Nova Fernandinho Beira Mar, e estou me lixando pro que acontecer no vasto lado de fora que é o Brasil de vocês. Enquanto espero a coisa acontecer, continuarei escrevendo e mandando notícias, ao mesmo tempo em que termino de montar um brinquedinho meu, cujas peças estão quase prontas. Até pintei um grande H na parte de fora dele para que todos saibam que fui Eu que fiz, quando a coisa estiver bombando por aí.

quinta-feira, março 30, 2006

Esses desenhos foram terminados ontem, feitos para uma cartilha sobre aproveitamento e conservação da água. Eu fiz os desenhos e o Olinto botou as cores. Depois editoramos tudo e voila! Uma nova cartilha emerge para deleite e gáudio dos povos.

Estou com uma preguiça tão grande que deixaria Dorival com vergonha, portanto, não tem muito papo hoje.

Bom, talvez eu comente os desenhos.

É, vou fazer isso.

Depois volto a dormir.


Água é vida!


Desperdício

Tenho um abuso danado de gente que anda de boca aberta. Pra mim, isso denota estultice, desleixo, indolência e embotamento. Qualidades perfeitas de quem desperdiça água.

Gosto de desenhar fuscas pois eles têm personalidade. Nunca haverá um filme da Disney baseado num uno mille, por exemplo.

Cacimbões

Aqui no Ceará é só o que rola. Capta-se a água da chuva via açudes, potes e cisternas, e quando não dá, vamos buscá-la no subsolo.

Vejam o detalhe do jacaré na lata. Quando eu morava num sítio, tirávamos água do cacimbão usando uma lata de querosene jacaré, de 5l.

Tenho uma relação arquétipa com cacimbões - ou poços, para os mais chiques: lembram um filmete da Disney ( de novo eles? ) que era sobre um garotinho que conversava com fantasmas? O fantasma, no caso, era de uma garotinha que morrera na época da guerra de secessão. Fugindo de bandidos, a menininha se refugia num poço abandonado mas acaba caindo e morrendo, na mesma propriedade que agora pertence aos pais do garoto. Triste, triste.

Ela, a fantasminha, vivia ( opa! ) andando pra todo lado com uma bonequinha de porcelana. Depois a gente fica sabendo que os pais da garotinha tinham escondido as jóias da família na bonequinha, com medo de saqueadores que a guerra traria. Era por causa dessas jóias que os ladrões a acossaram no poço. A menina nunca soube disso, eu acho. Bom, para que ela descanse em paz, o garotinho desce ao poço e recupera a boneca real, que estava escondida num dos vãos entre os tijolos do poço, e ela fica sabendo a verdade. Triste, triste. Chuinf. Claro que no fim das contas, é uma história de amor impossível. O filme termina com ela indo embora, em paz...

Não sei porque gosto tanto dessa história, mas ligo tudo com cacimbas e acho os poços muito tristes. Ou isso ou eu gosto de bonecas!

Pesca

A cartilha também alerta para o manejo resposável dos recursos. A pesca, desde que controlada, pode ser praticada nos açudes e riachos da região, sem prejuízo para o ambiente.

depois eu notei que a rampa dos peixes não tem o menor sentido, mas e daí?

Planeta água

Preservar, cuidar, não agredir, o mundo somos nós que fazemos, se usar com responsabilidade não vai faltar, a água é nossa amiga, blá, blá, blá...

Senta que lá vem história

Tem uma pirâmide no meio da cidade. Representa o olho que tudo vê, conectado que está ao poder da grana, pois na nota de dólar também há uma pirâmide que perscruta a tudo e a todos.

Pura cascata: inventei isso agora. Desenhei uma pirâmide porque gosto delas.

A terceira margem do rio

Tenho uma absurda afeição a essa raça nobre e valente dos cães labradores. O cachorro do desenho não é um labrador, é uma raça hemetérica qualquer, mas é por aí.

Filtro solar

A legenda do desenho fala sobre possíveis doenças causadas pela água não tratada.

A pivetinha de rosa infelizmente vai passar por poucas e boas, mas é isso que dá poder aos diretores de cinema, escritores e desenhistas em geral: dispor dos rebotalhos de sua criação como um deus sem moral nem remorsos. Depois eu desenho um peniquinho pra ela.

quarta-feira, março 29, 2006

Trechinho da apresentação feita para o escritório regional da Unicef. Essa acabou de sair do fornão.



Qualq air companhia aérea tem altos e baixos.

A nova onda são as empresas aéreas que oferecem passagens a preços ridículos. Daqui a pouco essas empresas estarão competindo com os correios, e você poderá optar entre ir sentado numa poltrona ou embrulhado num pacote. Mas o que não falta no Brasil são espertalhões e saúvas, então, pensando no bem estar público, resolvi formular um pequeno teste para ajudá-lo a escolher entre as várias opções de vôo. Deixo para seu próprio critério a escolha das saúvas, é claro.

Se a maioria das respostas marcadas for da letra a, há a chance que seu vôo seja fictício, e ao chegar ao aeroporto tudo o que encontre seja um avião desenhado num papelão. Se a maioria for da letra b, é possível que você seja convidado a empurrar o avião para a decolagem, isso se os elásticos na pista não ajudarem. Se for c, bem, temos um problema: ou você viaja de ônibus mesmo ou prepare-se para conhecer o fantástico e colorido reino do Beleléu.

Ao comprar seu bilhete no site da empresa você:
a. Percebe que destino vem acompanhado da carinha >:-)
b. Nota que fará uma conexão num avião da Pan-Am.
c. Vê que depois da classe econômica, existem as classes:
ônibus boliviano, trem indiano e pau de arara cearense.

Comprado o bilhete, aparece a seguinte mensagem na tela:
a. Agora é tarde.
b. Obrigado por voar conosco, otário.
c. A propósito: gostaria de ser piloto por um dia?

Surge uma dúvida e você liga pro Call Center:
a. Ouve barulho de grilos do outro lado da linha.
b. Atende na padaria do portuga.
c. Descobre que o atendente também é o piloto.

Desconfie se:
a. A Osama Air oferecer passagens de graça para Washington e Nova York.
b. Os números dos assentos estiverem escritos com Bic.
c. Houver um balcão da empresa no Pinel.

Durante o check in:
a. A atendente pede licença, se esconde por trás do balcão e gargalha adoidado.
b. Você tem a sensação de já ter visto o tapete vermelho no brechó da esquina.
c. Você é o único que não chega com algemas.

Você está na fila de embarque:
a. É a mesma fila do banheiro.
b. Arame farpado o separa da fila da American.
c. A recepcionista é a sua avó.

A aeronave parece:
a. Ter sido abatida na Segunda Guerra Mundial.
b. Um cruzamento de uma locomotiva com o 14 -Bis.
c. Ter sido projetada pelo Tim Burton.

Taxiando na pista...
a. ... o avião pára pra uma boiada passar.
b. ... o piloto é ejetado.
c. ... seu cinto de segurança é uma jibóia.

Pestes a decolar:
a. O piloto pergunta pra onde querem ir.
b. Uma das turbinas está presa com fita crepe.
c. O display de proibido fumar tem a cara do Bob Marley.

Só aí você repara:
a. Me fudi!
b. Minha cidade não tem aeroporto!
c. Comprei uma passagem no 815 da Oceanic!

terça-feira, março 28, 2006

Outra cartilha para o BNB. Hum... camarão.... ahhhhhh!



Esboço para uma autobiografia
a ser escrita postumamente*

O Hemeterio acha que é um sujeito único, mas engana-se. Existem mais dois deles exatamente iguais, que ficam dando vexames por aí. Essa desculpa é conveniente na hora de ludibriar a namorada, mas os caras da Polícia Federal não têm tanto senso de humor.

O Hemeterio ainda se considera um self made man, mas construiu tudo com tecnologia barata e agora está obsoleto. Nasceu no Ceará porque é um sentimental: queria estar ao lado da mãe no parto. Tempos depois, tornou-se arquiteto só pra poder botar a casa abaixo. Sonha em ser o mais velho desenhista em Marte, mas como já tem 35 anos, sabe que no máximo chegará a zelador na Lua.

Nasceu sem pai e de mãe virgem, o que é um evento relativamente raro no planeta. Parece que só houve outra ocorrência igual na Palestina, mas os registros são imprecisos e existem quatro versões sobre a história. Vão por mim que é melhor. Autodidata, aprendeu a não acreditar em tudo que lê.

Trabalha com desenhos e ilustrações desde que se lembra, mas ultimamente a memória tem falhado. Publicou algumas coisas e expôs alguns desenhos em vários salões por aí, e sempre teve uma boa resposta: não. Possui um grave defeito físico: um dedo sem osso. Mas não façam a besteira de perguntar onde fica. Sexualmente é um verdadeiro fauno, a começar pelos chifres e cascos. Nunca levou desaforo pra casa: prefere que o desaforo fique na sarjeta e que um cachorro lamba a boca dele.

Otimista, considera este o melhor dos mundos; mas realista, admite que a gente só conhece esse, então tá bom. Filantropo, seu sonho é doar em vida o próprio corpo para experimentos em ninfologia. Deus disse sobre ele: - Esse cara não existe! E O Hemeterio acha o mesmo Dele.


* Publicado originalmente, em partes, no www.ideiasmutantes.com.br




Outra foto do Moisés dos pobres. Aparentemente virei um bom alvo para a câmera dos outros. Milão não sabe o modelo que está perdendo.

segunda-feira, março 27, 2006

Ilustração para cartilha sobre o bom uso das fragmentadoras de papel.

Já fiz de tudo, menos desenho para selo e rótulo de cachaça. Mas minha bodega está aberta, quem quiser é só pedir.



Versailles tropical

Existem os que têm e os que não têm. Os que têm querem manter os que não têm afastados, então, para ficar o mais longe possível dos pobres; contratam arquitetos para construir muralhas, fossos, guaritas e cidades isoladas no Planalto Central. Curiosa essa associação do poder com a arquitetura: não basta que a separação seja física, ela precisa ser intimidadora e monumental.

O marco zero dessa prática de nós aqui eles lá talvez seja a Cidade Proibida de Pequim. Mas modernamente, a pedra fundamental desse distanciamento entre o Poder e o Povão foi dado pela cidadela de Versailles, construída pelo rei-sol Luís XIV. O princípío é genial: façamos uma cidade tão longe e de tal forma luxuosa, que intimide qualquer pé-rapado que pense em vir aqui sem estar vestido de acordo. Os revoltosos franceses do 14 de julho não derrubaram Versailles: botaram abaixo a Bastilha que era mais perto e dava pra ir à pé.

O Palácio de Inverno quase foi demolido pelos bolcheviques, a propósito. O Czar fez sua Versailles perto das paradas de bonde.

Brasília é o nosso grande paradigma nesse sentido. Sob o pretexto de desenvolver na marra o Sertão, Brasília ficou a salvo da proximidade constrangedora com o Brasil de verdade. Vou falar da minha aldeia que aí eu falo do mundo, como diria Tolstói - outro russo safado, aliás.

O Palácio do Governo do Ceará ficava na rua São Paulo, no centrão da cidade de Fortaleza. Ocupava as dependências de um belíssimo edifício neoclássico, construído em meados do século XIX. Lá foi assinada a Lei da Abolição, que libertou os escravos cearenses em 1884. Quatro anos antes, portanto, de Isabel de Bragança fazer o mesmo. O prédio já passou por poucas e boas: foi sitiado por sertanejos famintos, alvejado por revoltosos aliados de outro oligarca local e abandonado pela peste de varíola que assolou a cidade. Hoje é um museu muito bom, por sinal.

Mas o que ficou de característico, pensou eu, foi a intimidade do Poder com a Escumalha. Era comum que os deputados, vestidos de fraque e cartola - pois no prédio também funcionava a Assembléia Legislativa- ; fossem à praça do Ferreira merendar no Pedão da Bananada. Imagino o quanto de bêbados e mendigos abordaram os nobres deputados pedindo favores ou simplesmente, tendo dois dedinhos de prosa com a otoridade. Imagino que até mesmo os deputados eram familiares e conhecidos dos comerciantes locais, que poderiam tê-los visto nos cueiros e sabido-lhes os apelidos e manias. Que belo arrasa-ego para o Poder ser apontado na rua como: - Vixe, ispia, lá vai o filho de Dona Raimunda Parteira!

Mas aí a cidade ficou menos bucólica e mais besta, e hoje o centro do poder administrativo fica no distante bairro do Cambeba, duas vezes mais longe da cidade que o próprio aeroporto. O Cambeba, como é conhecido, parece um campus universitário, mas com guaritas, portões, segurança armada, barreiras de cravos para pneus e prédios que parecem túmulos de concreto. Se é cansativo lembrar disso, quiçá ir até lá.

Qual a conclusão disso? Esquece, bicho, e lê outro. Por mim, nem governo havia.

sexta-feira, março 24, 2006




Simbora, o marujo
e o poderoso armador grego

Simbora e sua cambada deixaram a navegação de cabotagem. A coisa não estava dando lucro mesmo, e o negócio era muito arriscado. Melhor dedicarem-se às pilhagens, saques, extorsões, vandalizações, sabotagens, invasões, rapinagens e à feitura de ikebanas, que tanto distraía como melhorava a coordenação motora e o senso estético da marujada. É nisso que dá ter uma tripulação de travestis aposentados, liderados pelo imediato Charles Bronson.

Simbora ainda nutria um caso estéril com a Branca de Névoa, que se recusava a fornicar com o marujo. Branca dizia que quem gosta de pobre é a Caixa Econômica, e ela é que não ia perder seu tempo com um marinheiro sem patente. Apesar de anteriormente a Branca até ter simpatizado com o marujo, hoje ela não queria pisar o mesmo chão que ele. Como estavam num navio, isso obrigava Simbora a passar a maior parte do tempo amarrado ao mastro principal. E foi daí que Simbora avistou o Papapapoulas.

O Papapapoulas era o maior iate dos mares, de propriedade do poderoso armador grego e rufião Aristóteles Onanista. Simbora sacou de imediato que estava na presença de um pretenso rival, pois a fama de Aristóteles como sedutor de donzelas chegara aos confins dos mares. Se o ricaço da ilha de Mikoma soubesse que a bordo do Galeota dos Mares, navio de Simbora; estava a deslumbrante Branca de Névoa, o caldo iria entornar. Mas o encontro tornar-se-ia inevitável, pois o iate vinha em sua direção.

O dilema de Simbora era: não posso deixar que a Branca saiba desse armador, pois ela me deixaria; nem posso deixar que Aristóteles a veja, pois ela a tomaria de mim. Simbora resolveu o problema como todos os governantes sábios resolvem suas pendengas: mandou aprontar os canhões.

Arisitóteles Onanista estava em seu ofurô com seis dançarinas de Bali quando foi interrompido pela comandante do iate, que alertou sobre a presença de um navio nas imediações.

Aqui cabe um pequeno interlúdio: Aristóteles não suportava homens. Todos seus empregados e servos eram mulheres de absurda beleza, inclusive suas guarda-costas, todas elas germânicas de um metro e oitenta. A tripulação do iate vestia sarongues amarrados à cintura e tal qual amazonas, tinham sempre à tiracolo uma Kalashnikov branca - isso se as amazonas conhecessem a metalurgia, claro.

Pois bem, voltando à história, Aristóteles chegou à ponte com uma toalha amarrada em torno do imenso barrigão. Usava uns óculos escuros espalhafatosos e tinha em uma das mãos um daiquiri. A outra mão foi tratando de procurar o seio esquerdo da comandante.

- Fala, gostosa. O que perturba seu coraçãozinho?

- Navio suspeito logo à frente, senhor. Pelas condições da embarcação, ou está abandonado ou à deriva. Curioso que não tenha afundado ainda.

- Seu desejo é uma ordem, princesa, vai ser divertido ver essa banheira velha afundar como um caralhão gasto penetrando o oceano frio. Prepare os canhões, as meninas vão gostar.

Então estamos nesse pé: Simbora e Aristóteles, sem saber, estão prestes a afundar o navio um do outro. Aristóteles leva sua tripulação para a amurada do iate, de onde poderão apreciar o espetáculo, e Simbora se mantém na surdina, pois não quer chamar a atenção da Branca para o que se passa. Eis que algo inesperado acontece: a Branca, com seu olfato apuradíssimo, percebe o odor do sucesso: - Gucci?

A Branca percebe que o cheiro dos sarongues das marujas é o da famosa marca italiana, e imediatamente sobe ao convés do Galeota para investigar. Quando Aristóteles vê aquela deusa de mármore emergir do navio, suspende o ataque e murmura com delicadeza:

- Opa, opa! Pára tudo! Quem é a potranca?

O armador grego aborda o navio de Simbora, colocando-se ao lado do Galeota. Não é preciso muito papo para que a Branca seja convidada - e aceite, de imediato; subir à bordo do iate. Aristóteles estende sua ponte para que a Branca possa atravessar, e ela o faz equilibrando-se com cuidado. Já chega reclamando:

- Um iate desse tamanho com uma passarela tão estreitinha? Não percebe como fiquei assustada?

- Você não viu nada - disse o armador. - Saiba que meu iate não tem passarela.

Depois dessa a Branca debandou de vez com malas e cuia para o Papapapoulas, sem nem sequer olhar pra trás. A beleza estonteante da Branca fizera o notório garanhão grego levantar seu calado pela náufraga, tomando-a como sua favorita. E se mandaram oceano afora.

E Simbora? Bem, a coisa se passou tão rápido que Simbora e sua tripulação ainda estavam no porão do navio, prontos para disparar. Mas um dos marujos, Crèpe Suzette, o grumete; apóia-se na beira do canhão para ver melhor o Papapapoulas. Nisso, aponta acidentalmente o canhão para o fundo do Galeota, que dispara ruidosamente, abrindo um rombo no casco.

Simbora e sua tripulação estão agora amontoados no único barco salva-vidas do navio, perdidos no meio do oceano. Simbora está no topo da pilha humana, olhando melancólico para o horizonte, onde ainda se pode avistar a silhueta branca do Papapapoulas, cada vez menor. Um dos marujos puxou conversa, para quebrar o gelo:

- Capitão Simbora, não fique triste, podia ser pior.

- O que pode ser pior que isso, marujo?

- Bem... o senhor ainda tem a nós!

Agora o bote tinha um a menos, e ficou deveras mais fácil remar até o porto mais próximo.

quinta-feira, março 23, 2006



Crestomatia Erotica

Conversava com meu editor sobre um novo projeto: um livro de contos eróticos. Achei estranho o convite, posto que a editora para qual eu trabalhava era especializada em livros de bolso sobre jardinagem. - Diversificar, meu caro, diversificar. Além do mais, o público adora uma sujeira. Disse meu editor, enquanto dava baforadas em seu charuto. - O livro será um sucesso, confio em você! Arrematou, não deixando possibilidade de recusa de minha parte. Não tive outro caminho senão aceitar o desafio.

O problema é que além de botânico, eu era um asceta cuja primeira experiência sexual tinha sido com o urso de pelúcia gigante da minha irmã. E isso tinha sido semana passada. O que eu teria a dizer que pudesse interessar aos leitores?

Recorri então à minha vasta biblioteca de solteirão, composta basicamente por toda a coleção do Fórum da revista Ele Ela e também aos meus baús cheios da Internacional. Reli os depoimentos que os supostos leitores mandavam para a revista, digitalizei tudo e mandei um programa embaralhar os nomes e lugares. Salvei tudo com outro nome e assinei.

Ficou mais ou menos assim:

Morena curiosa

Durante o feriado de empurrão, convidei minha prima Ubatuba para viajarmos ao litoral. Confesso que esperava essa chance há muito tempo, pois sentia que ela se insinuava toda pra mim e só precisávamos de um Tiradentes. Compramos as passagens e rumamos na direção de Patrícia.

A sacanagem já começou no mastro da Viação pau, pois à noite ela agarrou meu Cometa por debaixo das cobertas e caiu de boca no meu ônibus duro.

Arreganhei as latas de leite condensado dela e chupei sua festinha molhada como se fossem pernas, sorvendo até a última gota. Ao mesmo tempo, enfiava meu dedo no seu assento sem me importar que os vizinhos de buraquinho pudessem acordar com nossa vulva escandalosa.

Não agüentei mais e enfiei minha terra em riste na onda dela, arrancando de sua linda boquinha um campo minado de prazer. Cavalgamos como loucos e não sei se o ônibus passava sobre um gemido ou se era nossa grutinha de tesão; mas senti toda a tora tremer.

Gozamos aos feriados, como se fôssemos beijos sedentos, e ao chegar à loucura, continuamos nossa hora por dias a fio. Finalmente, nos despedimos aos urros e prometemos voltar nos próximos animais. Não vejo a cidade.

quarta-feira, março 22, 2006

Desenho para a tela dos caixas eletrônicos do BN.



Depoimentos no Orkut
para amigos imaginários


Depoimento para Oscar Caça:


O Q.I. dele tem três dígitos, e tal como os preços do Habib´s; começa com zero. Sua sabedoria é espantosa: já espantou todo o bom senso que restava por lá. Poeta amador, também recebeu os títulos de pintor incipiente, músico medíocre e amante sofrível. Durante uma cirurgia para extirpar um tumor benigno, foi processado pelo tumor por despejo inqualificado. E perdeu.

Oscar não tem um trabalho fixo, pois é faxineiro de elevador. Escritor frustrado, seu único texto publicado era um manuscrito que sempre levava consigo, e que não era de todo mau, pois continha apenas dois erros de português: trabaio por cumida.

Cabeça cheia de idéias, resolveu sequestrar o galo da vizinha pois observara que logo que o galo cantava, o sol nascia. Decidido a cobrar um resgate pela volta do sol, escondeu e amordaçou o galo em sua casa, na esperança que a manhã nunca chegasse e que todos aceitassem suas exigências. Mas a polícia o descobriu e foi em cana. Agora vê o sol nascer quadrado enquanto toma no redondo.


Depoimento para Analice Bosa:


A Analice é a pessoa mais linda sobre a face da Terra - depois que todos foram morar nos subterrâneos, é claro. Tem um hálito puro e perfumado, que atrai constantemente enormes borboletas pretas com bicos recurvos e pescoços depenados: pra você ver que importância tem um nome.

Conformada, sabe que nunca terá seu príncipe encantado - no máximo, um pajem em coma - mas não desiste de perseguir o amor. O amor é que não suporta ver aquele canhão correndo atrás dele. Talentosa, a Analice é formada em prendas domésticas e em física de partículas, o que talvez explique seu tom de verde fosforescente. Vaidosa, todo dia faz sua toilette antes de sair à rua e antes da saúde pública interditar seu banheiro.

Analice também é muito gentil com as crianças, tendo uma ala no necrotério infantil exatamente com seu nome. Possuidora de belos olhos azuis, prometeu devolvê-los ao dono assim que se cansar de brincar com as córneas. Amante dos animais, foi condenada por zoofilia em sete estados, mas deu um jeito de safar-se picando a mula.

terça-feira, março 21, 2006

Uma salinha de aula do interior. Pra um negócio aí que tá rolando...



O Gato e o Floco

O cachorro chama-se Floco e o gato, Gato. O gato não tem nome pois é inútil chamá-lo, ele só vem se quiser. Os dois moram juntos desde novinhos, na casa da mamãe, e o convívio entre eles é uma aula de tolerância e amizade entre tipos que segundo o esteriótipo, seriam inimigos fidagais. Muçulmanos e judeus, colorados e tricolores, escoceses e ingleses, escoceses e irlandeses, escoceses e galeses, escoceses e escoceses; iriam aprender com os dois a deixar suas arengas históricas de lado em nome da paz e da harmonia entre todos.

Certa vez a mamãe fez um balde de balas de café. A mamãe é exímia doceira - meu corpinho em forma de torrão gigante de açúcar é prova evidente da qualidade dos confeitos. Bom, aí ela deu um pouquinho do doce pro Floco provar. Não sei se vocês conhecem o modus operandi de uma bala de café, mas ela gruda nos dentes, se a gente não tomar cuidado. O Floco não tomou. Eis que o bichinho fica desesperado com aquela coisa preta colando sua boca. O que fazer?

O Gato, vendo aquela marmota, fez a única coisa que lhe cabia fazer para salvar o amigo: passa a lamber a boca do Floco.

A bala de café é dissolvida pela língua áspera do Gato e tudo fica bem.

Outra presepada dos dois. O Floco está andando por aí, cuidando da vida e pensando nas suas ações da fábrica Purina enquanto o gato o observa de cima da mesa. O Gato então pula nas costas do Floco e o monta como um cavalo, e lá vão os dois brincar por aí. Às vezes, eles trocam de papéis, e assim levam a vida.

O gato é muito arredio, nem precisaria falar. Então a gente precisa colocá-lo num saco para levá-lo ao veterinário. O Floco vê essa cena e fica inquieto e triste: pronto, tão levando meu amigo pro abate. O próximo serei eu, aposto que é isso que ele sente. Curioso: os dois realmente se importam um com o outro. Como irmãos.

Outra coisa que os une é que eles são companheiros de infortúnio. Ambos foram emasculados e hoje são mais inofensivos para os respectivos sexos opostos que um navio carregado de estilistas. O Floco, pelo menos, já foi deixado para cruzar com uma linda poodlezinha, mas assustado, só conseguiu ficar acuado num canto de parede. O gato nem isso: passaram-lhe a faca em tenra idade.

Depois parei pra pensar na aventura traumática do Floco. Escutem: você é um cara de 10 anos - mentalmente, era a idade equivalente à que o Floco tinha quando foi posto pra transar - e de repente, é jogado numa jaula com a Edileuza Furacão, a prostituta mais maquiada e sem noção do pedaço. O que você faria?

Sei... pelo menos o Floco é honesto: chorou por sua mãe.

Mas agora já era. Os dois só querem saber de engordar e brincar, tipo dois hobbits no Condado. No entando, o instinto fala mais alto e de vez em quando a gente presencia cenas como essas aí embaixo. E uma boa terça-feira pra todos.



Seguuuura peão!

segunda-feira, março 20, 2006

Mais fotos do passeio pela Serra de Guaramiranga, tiradas pela amiga Tariana Mara. Chato que a câmera dela deve estar com defeito: em todas as fotos eu pereço estar gordo :-)


A Serra tem uma altitude máxima de 1.115m, e é tecnicamente uma ilha de mata atlântica em pleno sertão do Ceará. E fica a apenas 120Km de Fortaleza. Que bonito, não?


Ali do lado tem um Bob´s.


O velho Moisés e seu cajado, na certa pensando em bater numa pedra pra jorrar cerveja. Cada povo tem o profeta que merece.


Gandalf perde é feio!
Trecho de uma cartilha para a SEMACE, 2003.



Lost in the Green Island

Aqui no Ceará temos uma tradição. Mulher é como caranguejo: dá um trabalhão danado mas a gente come do mesmo jeito. Opa, essa é uma frase prum livro que eu tô bolando, esquece. O que eu queria dizer mesmo é que no Ceará temos algumas tradições, mas uma se sobrepõe a todas as outras. É o seguinte: se chover no dia 19 de março, dia de São José, é sinal que vamos ter um ano de boas chuvas.

E ora vejam, choveu a cântaros no meu querido Ceará! A sabedoria sertaneja raramente se engana, isso é certo. Mas cientificamente falando, é quase impossível que não chova por aqui nessa data. Daqui a aproximadamente dois dias, será o início do outono no hemisfério sul e o Sol, vindo do trópico de capricórnio, passa pela latitude do Ceará antes de chegar à linha do equador. Nessa data, ao meio dia, o Sol está exatamente sobre a latitude de Fortaleza. Legal, não?

A chuva é o efeito mais visível dessa súbita alteração da temperatura. Veja que a partir do outono, dia 21 de março, também começa a primavera no hemisfério norte. Agora lá começa a esquentar, e aqui no sul começa a esfriar. Quem já sentiu vontade de dar uma mijadinha depois de sair de uma sala de cinema refrigerada e dá de cara com o bafo quente da rua sabe do que eu estou falando.

Pois é, e dia 19 de março, ontem mesmo, fomos eu e minha turma do CCC - Clube dos Cardiopatas do Ceará - para uma marcha forçada de 12Km em plena Serra de Guaramiranga. O bom desse sistema é que sempre há uma renovação dos sócios, pois muitos vão ficando pelo caminho e sempre tem gente chegando pra ocupar as vagas. Pura Seleção Natural: os mais fracos ficam pela trilha para adubar a Serra com seus despojos enquanto o grupo permanece forte e saudável. Quem precisa da Unimed?

O passeio começou pontualmente depois de um atraso de duas horas, pois o motorista do ônibus esquecera seu olho de vidro em casa. A subida da Serra transcorreu tranqüila e sem sobressaltos, mas inxeplicavelmente desenvolvi um medo de curvas em aclive. A caminhada teve início debaixo de chuva forte e fria, o que só aumentou o peso dos colchões de espuma que a gente levava. Eu sugeri que nós levássemos apenas 2Kg de alimentos cada um para ajudarmos os sitiantes do local, mas ninguém me ouve, então deu nisso.

Chegamos à cachoeira, ponto médio da nossa jornada, e foi revigorante o banho frio que tomamos. Alguns tomaram banho no raso, alguns tomaram no fundo, e ninguém tem nada a ver com isso. Depois da cachoeira, fomos a uma churrascaria perdida no meio da mata e que nos serviu algo que tinha a textura de uma sola de tênis. Desconfio que não éramos os primeiros a palmilhar o local. Sacaram? Palmilhar! Ok, ok, deixa pra lá.

Voltamos à Fortaleza cheios de hamatomas, com os pés inchados, carrapatos por todo o corpo, mordidas de mosquitos, cãimbras, arranhões nos braços, um fedor por todo o corpo e dores diversas. Parecia que tínhamos ido a um jogo no Castelão. Infelizmente, também voltamos sem sete de nossos companheiros, que pereceram na mata. É a vida.



Ê vidão! Repare como a água é bem rasinha...

sexta-feira, março 17, 2006

Duas páginas de uma cartilha sobre exportação, feita novamente para o BNB.

Essa semana toda só houve postagens sobre trabalhos feitos pro banco, né? Segunda-feira vou cobrar deles meus altos honorários pela propaganda, como diria a Chiquinha.





O Laboratório de Fleming

E Deus finalmente acordou.

O tempo passa de forma distinta para homens e deidades, então, um simples dia para o Onipotente equivale a um bilhão de anos dos nossos. Mais ou menos como as mulheres mentem a idade. Então Deus trabalhara seis dias e lá pela tardinha do último dia largou o serviço e foi tomar umas e outras. Passou o sétimo dia descansando, só tendo acordado uma única vez, no meio da tarde, para tomar água. Justamente aí um asteróide caiu e extinguiu os dinossauros, mas o Todo-Poderoso achou ter sido um mero pesadelo e voltou a dormir. Bom, mas eu havia dito que ele acordara.

Pois acordou e foi ver o Mundo, que na sua ótica tinha sido concluído apenas um dia antes. Qual não foi sua decepção ao perceber que além de deteriorado e sujo, o Mundo estava infestado de humanos. Bem que me disseram na lojinha que esse fungo crescia rápido, pensou o Altíssimo. Procurou pela oficina algum removedor de manchas e tudo que achou foi o seu spray Sopro de Vida, da marca Bom-Ar, com o que costumava borrifar a maquete. Como qualquer solteirão sabe - mas insiste no erro mesmo assim; - o desodorante aplicado sobre uma camisa suja não aplaca o mau cheiro, pelo contrário: só aumenta a inhaca. Mas Deus era um velho teimoso. Teimoso e muquirana, pois poderia ter comprado uma atmosfera melhor para recobrir seu projeto e optara por aquela venenosa combinação de nitrogênio e oxigênio em promoção.

O resultado é que a Terra estava tão deteriorada ao final que Deus lastimou e suspirou sobre ela, de puro desânimo e cansaço.

Mas agora esse hálito que inundava a Terra não fora benfazejo como o de outrora, que insulflara a vida. Este era o derradeiro bafo da morte, fruto da decepção de Deus, que aspergiu por toda a Terra podridão e ruínas. E tudo pereceu. O último humano vivo ainda pode sentir a vertigem causada pela Terra inteira escoando pela lata de lixo do Criador, enquanto as trevas da tampa que se fechava engolfavam aquele monte de lixo que uma vez já fora a jóia da Criação.

Acordei sobressaltado e pingando suor. O susto foi tão grande que decidi corrigir algumas coisas em minhas atitudes - coisas que eu nunca deveria ter deixado pra lá. Enquanto ainda recobrava o ar, sentado na beira da cama e com a cabeça entre as mãos trêmulas, levantei-me decidido e finalmente, fiz uma coisa que deveria ter feito há meses: troquei a água do aquário.

quinta-feira, março 16, 2006

Capa de uma cartilha da Rádio Nordeste, do BNB. Detalhe para o sapo embaixo do pote. Sapos adoram ficar ao lado de potes. Eu do mesmo jeito.

Observe também que coloquei as cabritas com múltiplas tetas, e levei um carão por causa disso. Eu não sabia, e aprendi na marra, que a cabra só tem duas tetinhas. Como uma boa fêmea que se preze.



Depus as armas e depois fui depor

Mais dois depoimentos que escrevi pra amigas minhas no Orkut. Uma delas, a Sofia, vem a ser uma gatinha branca absurdamente fofa. A Outra, a Vivi, é a dona dela, mas eu desconfio que constantemente troquem de papéis.

Aqui vão, à revelia das duas, claro.


O depoimento pra Sofia...


Conheci a Sofia quando eu estava dormitando na sarjeta, bêbado e solitário. Ousada, ela se aproximou de mim e lambeu minha boca. Fiquei deslumbrado com esse gesto solidário e humano, e desde então, somos amigos fiéis.

A Sofia é tão linda que descofio que ela tem escondidas, debaixo de seu pelo branco, um belo par de asas de anjo; só pode ser. Isso explicaria as circunstâncias miraculosas e cabalísticas na qual ela achou a Vivi, sua melhor amiga e confidente. Eu acredito nisso.

A Sofia tem os olhos bicolores por um motivo muito simples. Deus queria uma forma discreta de observar e proteger quem Ele ama, mas não podia dar muita bandeira. Aí ele bolou uma coisa genial: uma gata com periscópio! Um olho é da Sofia e o outro, acolhe o bondoso olhar da divindade, que abençoa e acalanta a quem a Sofia fita. Pois um chêro, Sofia, e olhai por nós.


...e o depoimento que escrevi pra Vivi:


A Vivi tem quatro vidas de reserva, pois é praticamente uma simbionte com sua adorável gatinha, a Sofia. Assim somadas, as duas têm oito vidas e decidiram que cada uma vai usufruir de quatro delas. Acho muito justo.

Mas ela é hiperativa, e decidiu gastar essas quatro vidas intensamente. Daí porque já realizou tanta coisa, e pelas minhas contas, ainda faltam uns 200 anos pra gastar. Esperem mil novidades, portanto.

Ela já foi até o canto mais longe da Terra em que é possível ir à pé. Sua próxima aventura é dar a volta ao mundo em 24h. Esperta, vai conseguir isso simplesmente ficando sentada na sua poltrona, acariciando a Sofia, enquanto o mundo gira.

A Vivi hoje mora num belo sobradinho cor de rosa. Mal sabe ela que na verdade a casinha é feita de bolo e glacê. Eu sei porque um dia fui visitá-la e tropecei, caindo de boca no chão, que aliás, tem gosto de chocolate. Costuma nevar MMs sobre sua casa, mas os vizinhos, caretas, não entendem. Eu sei é que a Sofia adora.

quarta-feira, março 15, 2006

Outra capa pro BNB. O ano? Acho que sob a égide do Lula.



O Lago Gô

As águas tépidas do meu açude recebiam as hordas de bárbaros pontualmente ao meio dia. Vinham dos mais distantes subúrbios, lambuzados de bronzeadores de saquinho e farofa. Até parece que tinham um convênio ou um subsídio da Volks, pois era um entra e sai de kombis e fuscas que parecia o pátio da montadora, depois da peste.

Sou morador da orla do Lago desde minha meninice, e pude perceber a deterioração gradual e constante do que outrora fora uma bela paisagem. Os hunos chegam com o som dos carros nas alturas, distorcido e irritante como o paladar musical desses parvos. Por que essa gente ignara gosta de música ruin? São como condenados apaixonados por suas penas. Reconheço que soaria estranho imaginar Mozart de touca às margens do Danúbio comendo uma perdiz com farofa, mas seria pedir demais que esses insanos tivessem o bom senso de respeitaram meus aurículos?

No início, vinham timidamente. Eram um ou dois caminhões que chegavam da periferia e descarregavam esses verdadeiros contêiners de banha. Famílias inteiras pulavam barulhentas e corriam para as águas da represa, aos gritos de suas gordas genitoras. As matronas desfilavam com seus maiôs tão em moda como a varíola. Estendiam suas toalhas na areia suja e que invariavelmente contêm ou um desenho de uma onça ou de um pôr-do-sol estampado. Como eles combinam? Será algum tipo de complô para que a mediocridade - coisa de classe média, como o nome diz - ; venha, avance e vença, tal qual um Júlio César dos bregas? E ainda mais, vestido com sua toga pintada de cajus e óculos Ray-Ban?

Agora eles chegam às torrentes, inundando tudo como de viessem da descarga da privada do próprio Plutão. Fornicam, suam, babam, choram, ficam vermelhos como pimentões. E que Olimpo dos infernos têm musas como aquelas? Varizes, estrias, celulites e pelancas por toda parte. Até as mais bonitinhas têm um defeito, nem que seja o umbigo estufado. Ficam o dia inteiro e se vão com o sol. Deixam rastros que os arqueólogos do futuro talvez identificassem como sendo de uma raça de seres formados de lixo e detritos: camisinhas, modess, sacos de din-dins, espetinhos de carne, papel higiênico, chinelas esquecidas, pontas de cigarro abandonadas e crianças perdidas. Até onde isso vai?

Eu sei pra onde eu vou. Vendi a mansão da família e me mandei pra Berna, antes de ter o desgosto de ver meu lago transformado num poço de piche. As hordas sempre vencem, a história ensina. Mas a alternativa que os romanos não tiveram eu pude por em prática: o aeroporto mais próximo. Que Átila e seus elefantes façam bom proveito do que restou. Não é o que eles mesmos gostam, se verem cercados de seu lixo cultural? Pois que sejam sufocados pelo próprio estrume.

terça-feira, março 14, 2006

Capa de cartilha para o BNB. Se eu morasse em Nova York estaria fazendo desenhos pro Chase Manhattan Bank? Espero que sim!



Simbora, o marujo
e o Cara Estranho

Simbora, o marujo, precisava de grana. Sua recente hóspede e pseudo amante, a Branca de Névoa, além de não lhe dar a menor bola ainda elevava as despesas do Galeota dos Mares às alturas. Pra piorar, os negócios estavam em baixa: restavam poucas cidades para saquear que já não tivessem passado pela espada de Simbora. O que fazer, portanto?

Algum marinheiro sugeriu que o Galeota dos Mares fosse usado como navio de passageiros, pelo menos por enquanto. Assim, poderiam arrecadar uma grana nesses tempos de calmaria. Mil milhas mais tarde, depois de ter lançado o marujo ao mar, Simbora ponderou e de fato, viu que seria uma boa idéia dedicarem-se ao ramo dos cruzeiros marítimos. - Charles Bronson, disse Simbora; faça os preparativos para que a gente possa acomodar passageiros. Começaremos amanhã, no porto de Cádiz.

O Galeota foi reformado ligeiramente: transformaram os calabouços em camarotes e amarraram os prisioneiros em pedaços de corda que eram arrastados pelo navio. No porto de Cádiz Simbora colocou uma tabuleta e ficou à espera de clientes.

O mercado era competitivo. Muitos fregueses em potencial faziam troça do estado periclitante do Galeota: - E dai que flutua? Merda também bóia!, diziam. Eis que já noite alta um sujeito estranho calmamente se aproxima do barco e estende um bilhete a Simbora. Nele, só uma palavra: Boston. Simbora ainda tenta argumentar com o desconhecido, mas tudo que ele faz é depositar um saco de sestércios de ouro nas mãos do marinheiro. Em vista desses argumentos, Simbora ordena que se içe a âncora e zarpam na primeira maré.

Era um sujeito tão estranho que trabalhava nos feriados e folgava nos dias úteis. Trocava o dia pela noite e ainda recebia seis tardes de troco. Era o único cara que num jogo de Marrocos X Pindoretama ainda chamava o X de versus. Passou a viagem toda calado, trancado em seu camarote junto com uns caixotes de areia. O desconhecido era pálido e macilento, mas parecia forte e vigoroso - ele mesmo trouxera os caixotes na cabeça.

Chegaram ao porto de Boston sem maiores percalços. O cara estranho entregou mais um saco de moedas a Simbora e partiu, tão misteriosamente como chegara.

Depois de um silêncio, Simbora confidenciou a Branca de Névoa:- Sujeito estranho. Não falou nenhuma palavra. Branca retrucou: - Ele devorou quatro marinheiros. Não acha isso esquisito? - Na verdade não, disse Simbora. Eu avisei que o serviço de bordo não era lá essas coisas.

segunda-feira, março 13, 2006



Cinco mungangos

A Leila Couceiro tem um blog que eu gosto muito, o Stuck in Sac. Recentemente ela relançou uma brincadeira muito popular na época de colégio e no início da onda dos blogs, que se chama Corrente das Cinco Manias. Cada pessoa conta cinco dos seus mais absurdos cacoetes, e passa a bola adiante.

Achei a idéia legal e vou relatar minhas manias também. O bom dessa catarse é que se eu não achar cura para a maioria dessas manias, posso pelo menos dividí-las com vocês e aumentar o rol de malucos no mundo. O que importa é que todo o planeta vai perecer pela fome mesmo, então, pra que esquentar?

Mania número cinco.
Torneiras abertas - não suporto ver a água se esvaindo rumo ao nada que fico doido. O mesmo acontece com portas que ficam abertas quando o ar-condicionado está ligado: vou lá e fecho rapidinho. No fundo, é um complexo contra o desperdício, ou uma fixação em reter as coisas para si. Infelizmente, não sei os termos corretos, pois matei meu analista que me chamara de violento.

Mania número quatro.
Unhas roídas - normalmente, isso não me causa muitos problemas, a não ser quando tenho que apanhar uma moeda na calçada. Já tentei colocar pimenta na ponta dos dedos para inibir o tique nervoso, mas o gosto ficou tão bom que comi o dedo. Ainda bem que os répteis regeneram os membros.

Mania número três.
Beiços mordidos - consigo morder a mucosa da boca. Não sei se isso é um cacoete ou um superpoder, ainda estou decidindo pra que serve. Obviamente não funciona muito bem na hora de uma entrevista de enprego: parece que estou tentando lamber o entrevistador.

Mania número dois.
O uso da Força - aposto que muitos da minha geração já tentaram mover uma coisa ou outra usando a telecinese, ou como diria Obi-Wan Kenobi; The Force. Até aí tudo bem, o problema é que eu tento isso a toda hora, desde tentar alcançar o controle remoto ( que sempre está distante, ora, o bicho é remoto! ) até mover portas e canetas. Nunca consegui mover nada, mas quando eu conseguir, vocês vão ouvir falar de mim. O Magneto tá recrutando gente?

Mania número um.
Coca sem gás - pois é, posso até ouvir os arpejos de nojo vindos aí do outro lado, mas é isso mesmo: adoro beber uma coca gelada sem gás. O chato dessa mania é que noventa por cento do prazer da bebida não é aproveitado, que vem justamente na forma de um sonoro e tonitroante arroto. Mas estou aprendendo a fazer barulho com as pálpebras, depois eu conto isso.

sexta-feira, março 10, 2006

Desenho feito não me lembro mais pra quem, mas pelo tema, deve ter sido para um açougue.



As aventuras de Marco Pulha

Recentemente, voltei de uma expedição ao extremo leste da Terra. Ouvira falar da lendária hospitalidade dos povos da região, mas confesso que fiquei constrangido com o tratamento que recebi. Chegavam a se ajoelhar perante minha presença, só pra vocês terem uma idéia. Depois foi que disseram que minha forma rotunda lembrava-lhes o Buda. Imagine esses orientais ao lado da fábrica da Michelin: iriam acender incenso e erguer templos para o Bibendum?

Perambulando pelas ruas de Xangai, pude ver com meus próprios olhos as famosas plantações de macarrão e o curioso método de se colher a iguaria. Um chinês aproxima-se da árvore com um enorme ancinho e finca-lhe os dentes numa corda de macarrão. Com movimentos circulares, molda um novelo com a fruta que em seguida é depositada numa caixa de papelão vermelha. Despeja-se molho por cima de tudo e a resultante é o puro sabor da China acondicionado em caixas.

Também pude desvendar de uma vez por todas a infame lenda de que as orientais têm a fenda da vulva na horizontal. Fui a um conhecido bordel da cidade e paguei para que Ang Lee, a prostituta mais bonita da região, escorregasse nua em cima de um corrimão de madeira. Obediente como todas as orientais, ela foi ao topo da escada e tal como se monta num cavalo, desceu de costas até o andar de baixo. O experimento foi um sucesso. Se ela tivesse a vulva na horizontal, ouviríamos um barulhinho de bilu bilu bilu à medida que ela escorregasse escada abaixo.

Movido pela curiosodade, percorri os mercados onde se fabricava o nanquim. Litros e litros da tinta eram produzidos e posteriormente injetados em polvos do pacífico. Depois que aperfeiçoaram a navegação, abandonaram essa forma de transporte da mercadoria e passaram a usar os polvos unicamente para joguetes sexuais. Esses orientais são tão férteis e pensam em tanta sacanagem que temo que a população da China chegue logo logo a 1 milhão de habitantes, que o bom Deus nos livre.

Para fechar o relato do dia, fui assistir os pitorescos e aprazíveis fuzilamentos em praça pública. Segundo o folheto da peça, o próximo a ser executado era um camponês que fizera troça com um dos enormes cartazes do Grande Líder, onipresentes em toda a capital. Aparentemente, o jovem Mi Fu Dee achara engraçado o corte de cabelo do Grande Líder, que na sua vila no campo só era usado por pederastas passivos. Depois da execução, todos saem para tomar chá e esfolar algum tigre siberiano.

Impressionante a sabedoria oriental!

quinta-feira, março 09, 2006



A Guerrra do Brasil

O Brasil mandou bem na última guerra. Obviamente me refiro à Guerra do Paraguai. Conseguimos dizimar uma nação inteira com uma pequena ajuda de nossos amigos argentinos e uruguaios, todos os três a mando da Inglaterra. Afinal, o país do Tâmisa precisava desovar sua produção bélica e fazer negócios ao redor do mundo. Nada como vender armamento para nações irresponsáveis que justamente, vão usá-los bem longe da matriz. Finda a guerra, havia a reconstrução, novamente a cabo de empresas inglesas. Ainda bem que a História não se repete!

A Guerra do Paraguai, infame como todas as guerras, mas particularmente odiosa, é sintomática para entender nosso caráter nacional. Praticamente todos os nossos heróis da Marinha e do Exército serviram nessa guerra. De Caxias a Tamandaré, de Barroso a Tibúrcio. Jovem nação independente, o Brasil precisava urgentemente de vultos patrióticos, pois devido à farsa da independência - proclamada pelo filho do dono da fazenda - ; tínhamos que ter heróis, a qualquer custo. A Guerra do Paraguai, sob esse ponto de vista, veio bem a calhar. Mas não deixa de ser engraçado que nossa maior batalha naval, retratada em telas e hinos, tenha sido travada num pântano.

Sob as entrelinhas dos historiadores oficiais, havia um verdadeiro exército de humoristas que retratavam as crônicas da guerra como o povo a via. Ou como o povo a pressentia. Já se disse que para conhecer a verdadeira História de um país - ou de um fato - ; consulte o que diziam dele os tablóides, as piadas, as anedotas e as caricaturas. Sobretudo as caricaturas. Havia um desenho da época da Guerra do Paraguai que retratava nosso querido D. Pedro II sentado sobre um trono de ossos e caveiras. Precisa dizer mais?

Satirizava-se o recrutamento forçado de jovens para servir nos chacos do atual Mato-Grosso. Brincava-se com o notório alheiamento do imperador para questões práticas da vida, mostrando-o distraído com um telescópio enquanto a guerra estourava às suas costas. Percebia-se a cruel faxina étnica que se praticava veladamente, mandando negros e índios morrer na distante fronteira. A malária e a água contaminada devem ter feito mais vítimas para o Exército do Brasil que os mosquetes paraguaios. Tudo isso os humoristas viam. E contavam para todo mundo.

A verdade nua poderia chocar. Para ser aceita, ela às vezes vem vestida com as sedas da fábula. O humor trata de questões espinhosas de uma maneira leve, mas contundente. Ria de mim antes que eu ria de você.

Mas ainda sobre a Guerra do Paraguai, o genocídio americano. A dívida de guerra do Paraguai foi perdoada pelo Getúlio, quase 100 anos depois da escaramuça. Como é que é? Nós devastamos as terras deles, estupramos todo mundo, saqueamos o que foi possível e eles é que foram perdoados por isso?

Temos uma dívida cármica com o Paraguai. Nem a doação de Itaipu apaziguará a nossa culpa. Proponho então a velha lógica do interior; quando em casos de estupro e defloramento: casa com a mulher e assume a criança. Vamos anexá-los!

quarta-feira, março 08, 2006



SPAM do MASP?

Outro dia fui visitar o MASP. Sabe o que me deu calafrios? Não, não foi o ingresso a dez reais nem aquele imenso vão livre parecendo a barriga dum concretossauro gigante, pronto pra descer sobre nós como se fôssemos os ovos de seu ninho. O que me deu vertigem foi ver a quantidade absurda de tesouros ali exposta sem proteção, acessíveis ao toque de um maluco qualquer. É como distribuir alfinetes numa creche: cedo ou tarde vai acontecer uma catástrofe.

Veja bem: não estou torcendo para que haja uma depredação. Defenderia aquele Rembrandt exposto com meu corpicho, contra vândalos armados com serras elétricas. Aliás, meu sangue espirrado na tela talvez até valorizasse o quadro, ou não. Mas falando francamente: você não suaria gelado se tivesse que entregar seu precioso bebê para um assecla do Charles Manson segurar? Pois foi como me senti ao estar a 30 cm de um Renoir.

Acho louvável e importante que as obras ali expostas tenham como única proteção a camada de ar entre o expectador e a obra, além da ética cidadã e a presunção da boa educação de seu público. O museu confia na gente, e eu admiro o museu por me tratar como um igual.

Porém, apesar do museu ser elitista - até os ônibus a dois reais são elitistas, pensando bem - ; ter grana não torna a pessoa melhor ou mais responsável. Os tesouros correm o mesmo risco, creio eu, se fossem expostos itinerantemente pelas favelas paulistanas ou na FIESP. Sei que o Museu promove excursões com crianças, e as crianças são amorais. A tentação de desenhar um bigodinho na tela do Bosch pode ser forte demais. Livrai-nos, Senhor!

Bom, toda essa enrolação é pra dizer que eu mesmo, ora vejam, fui vítima do único roubo de obras de arte no Ceará! Quando estudante de arquitetura, doei uns quadros pro Centro Acadêmico do Curso de Arquitetura e Urbanismo; o CACAU. Pois bem, um amigo me liga dizendo que invadiram o CA e levaram o 3 em 1, a tv, o vídeo e... meus dois quadros!

Achei um barato! Pô, os quadros eram pesados e desconfortáveis de se carregar. Sei disso pois levei-os para o CA de ônibus, vindo de casa. Para que um meliante fizesse o mesmo, ele teria que ser um cara de grande envergadura no braço ou contar com a ajuda de outro. Em qualquer hipótese, eles perderam um tempo precioso observando o desenho, decidindo como levá-lo e transportando a tela na calada da noite. Como não se sentir lisonjeado com tal esforço?

Hoje meus dois quadros devem ornar a parede de um barraco qualquer, enfeitando e quem sabe inspirando os filhos, amigos e vizinhos do larápio. E macacos me mordam se eles não estão em melhores mãos do que num cofre escuro em Osaka, onde está sepultado Os Girassóis; de Van Gogh.

Pelo menos meu querido ventanista é de fato um apreciador da arte. Esse cara eu deixaria solto no MASP, sem vigias, para que pudesse se deleitar com seus tesouros. Já o banqueiro de Osaka; nem morto que o deixaria a sós com um Monet. Lugar de trombadinha é na cadeia.

terça-feira, março 07, 2006



Não sei, não quero saber e...

Uma coisa curiosa acontece com o Brasil: nossa indolência tropical, ao mesmo tempo em que é uma maldição, também é uma bênção no quesito não tô nem aí. Essa indolência atrapalha na hora de se fazer cumprir as leis, construir automóveis que não se desmanchem na chuva ou na hora de escolher um presidente. Mas ajuda muito quando o objetivo é não se meter em encrencas.

Veja o caso dos nossos queridos vizinhos, os argentinos. Eles fazem uma questão danada de denunciar sua presença dando gritos ao mundo, sem perceber, coitados, que estamos todos numa selva cheia de predadores. Seria mais sábio e prudente não chamar atenção das feras, mas não. Na sua ânsia por atenção, os argentinos declaram guerra à Inglaterra e mandam tropas ao Iraque. Shhhh!

Um Ego do tamanho dos Andes e um juízo do tamanho das Malvinas.

A Venezuela segue no mesmo caminho. E Caracas está ao alcance das ogivas, viu?

O Brasil, deitado eternamente em berço esplêndido, só quer saber de brisa e de água de coco. Ah, a ignorância...

Certos modismos não pegam no Brasil. Quando a moda era libertar os escravos, mantivemos os nossos - os meus? Os seus? - no tronco por anos a fio. Só muito tempo depois, e isso com uma má vontade danada; consentimos que os pobres coitados tivessem a liberdade de voltar a trabalhar pra nós, mas a uma diária muito mais baixa. O mesmo se deu com a democracia. O ideal democrático, idéia relativamente nova, custou a vingar por essas praias. E mesmo hoje, ainda tenho minhas dúvidas se os tanques estão mesmo confinados pra sempre aos quartéis. Toc toc toc.

O Brasil tem essa mania de protelar, enrolar e cozinhar o galo por séculos. Alguns chamam essa lentidão de sabedoria. Abertura lenta e gradual, lembram disso? O Brasil nunca vai às vias de fato. Vence - acaba sempre vencendo - seus problemas por cansaço ou morte do paciente. Pronto, problema resolvido.

Essa nossa alienação tem um lado bom e um lado ruim - coisa que não se pode dizer de um LP do Wando, re re re. Desculpem, a piada nunca é velha se a platéia é nova. O Brasil aparentemente é imune a tsunamis, terremotos, furacões e vulcões. E mesmo nossos ditadores foram menos, digamos assim, cruéis, que os ditadores dos países vizinhos. Até o caráter geográfico do Brasil é impregnado desse espírito de chora que a fome passa.

Fechando os olhos com muita força, será que o monstro some?

E nada se resolve.

O que quero dizer é que por estarmos tão longe, por nos sentirmos tão fora do contexto, por sermos tão neutros e indiferentes; a impressão que dá é que escapamos - até agora - da gripe das aves e do terror porque eles nem sabem que a gente existe. Não tomamos nenhum partido para não melindrar ninguém. Daí essa fama de boa praça do Brasil. Pudera: só não tem inimigos quem não têm opinião. Essa é a parte boa da alienação. Como é aquele ditado? O pior cego é aquele que não quer ver.

Tenho certeza que se o mundo acabar amanhã, o Brasil só vai notar dois dias depois. Acredito que se um manto de poeira radioativa pairar sobre o mundo, Touros, no Rio Grande do Norte, vai continuar com sua vidinha. Poeira o quê, seu moço? Aqui só tem duna de areia.

segunda-feira, março 06, 2006



É tempo de sonhar!
Acorda Brasil que roubaram suas calças!

Acordei decidido a dar um rumo na minha vida. Mas o que um sujeito preguiçoso, retardado, odiantrópico, cleptomaníaco ( fã do Eric Clapton? ) e com total desprezo pela raça humana como eu poderia fazer? Dedicar-se à política, claro!

Há tempos participava de pequenos golpes, como bater carteiras de aposentados, surrar aleijados para roubar suas muletas e fraudar o bingo da igreja; mas nada muito profissional. Via meus colegas de tráfico prosperarem e um ou outro amigo se dar bem com um assalto a um carro-forte. Mas aquilo, percebi, era trabalhoso demais. Sem falar no risco real de se levar um tiro nas fuças. Malandro passa muito tempo matutando, daí percebi que todos nós, na verdade, éramos café pequeno perante o verdadeiro crime que acontecia nos gabinetes acarpetados: o saque de todo um país.

A política, portanto, era a chave. A chave do cofre. Mas existiam cargos com filosofias distintas. Um reles vereador só poderia almejar o desvio da verba de pavimentação da rua, ou então, se mais sofisticado fosse, embolsar a grana da construção do posto de saúde. Ou seja, nada muito diferente do que meus amigos de Bangu I já não tentaram. Cargos executivos, como governadores e prefeitos também não seriam ideais, pois no fim das contas, é a sua assinatura que encabeça as falcatruas. O melhor, concluí; é agir nas sombras, mas com o devido manto da invisibilidade legal. Decidi que seria então, um senador da república.

O cargo de senador é estável, influente e discreto. São como os cardeais, que de fato detêm o poder na igreja, mas fazem menos barulho que o padreco que badala os sinos todas as manhãs. Um senador tem tempo, portanto, para fazer sua rede de contatos e amealhar uma fortuna considerável. E ainda conta com o inevitável esquecimento do eleitor. Convenhamos, com oito anos de mandato, ele poderia esquartejar a própria mãe em praça pública que ninguém iria se lembrar de nada. E tome reeleição.

Mas engana-se quem ache que meu interesse são as mordomias, as estagiárias gostosas de direito ou aquele financiamentozinho camarada do Bancão, não, nada disso. O interessante são as minúncias do cargo, a liturgia do poder e os detalhes nos meandros da corte. Por exemplo, sempre achei um barato como os senadores se abraçam de ladinho, já notaram? Um fica segurando o braço do outro enquanto tecem juras de amor e fidelidade partidárias. Por dentro, é claro, cada um deles sonha em estuprar as reses do outro, mas em público a fachada é outra.

Os insultos elegantíssimos são uma bela peça de humor e um atrativo poderoso para inciar a carreira na política, até mesmo para mim, acostumado a chacinas sem nenhum senso estético. É comum um senador referir-se a outro como: nobre colega afeito a desmandos e escamoteador da verdade. Fantástico, não? Ou então essa: vossa excelência não passa de um muar sem batismo com óbvias tendências elafianas. Parem, parem, assim me matam de rir.

Vou me candidatar nas próximas eleições, e conto com seu voto. Se você não estiver a fim de fazer esse verdadeiro voto de confiança, compreenderei, pois eu mesmo não emprestaria um lápis 2B para um sujeito como eu. Então façamos assim: pago 1 real por voto, mais dois vales-transporte até a urna. Preciso de apenas 100 mil votos para ser eleito, então, uma vez na capital e assentado firmemente em meu gabinete, quitarei minha dívida para com o eleitor mediante apresentação de recibo. E viva a democracia!