sexta-feira, abril 28, 2006

Outro folheto pra AMC...



A job that slowly kills you

A empresa na qual trabalho está passando por uma daquelas famosas reengenharias. Se a empresa fosse personificada num homem, ele seria aquele gordinho meio careca e grisalho que de uma hora pra outra, chega ao trabalho usando a mesma tintura de cabelo do Sílvio Santos. Além de tentar, desajeitadamente, falar as gírias da moda para se enturmar com os novos tempos. Morou, broto? Eu estou numa nice, e você? Crises de meia idade e a busca do tempo perdido são comuns a ambos.

Bom, aí a empresa paquidérmica e pesadona resolve regular algumas mixarias. É como um gordalhão tentando emagrecer, que só bebe refri diet - entre uma mordida e outra no X-Medonho de bacon. Recebi há pouco um e-mail com as principais dirtetrizes. Ai, meus sais!

Ao Corpo Funcional;
A Diretoria.

Visando estar facilitando o ingresso de nossa Familia Empresarial nos novos tempos de economia globalizada e sobretudo; ao corte de despesas supérfulas, a Diretoria vem por meio desta esclarecer que:

O acesso à Internet pelos funcionários será limitado aos sites compreendidos entre as letras a e f. O restante do alfabeto terá o uso exclusivo da Diretoria. Se algum funcionário precisar acessar outro site, imprescindível para a realização de seus afazeres, terá que pedir permissão a algum gerente, que liberará o acesso por vinte minutos.

A recente compra de notebooks sofrerá um up grade: agora os computadores serão aparafusados às mesas, pois constatou-se que seu uso vinha sendo desvirtuado por alguns funcionários: chegavam inclusive a levá-los para casa.

Ligações e e-mails pessoais estão banidos. Nem adianta usar o celular, pois a Diretoria instalou uma torre de bloqueio nas imediações da sede da empresa. Qualquer telefonema terá que passar pelo rastreio da nossa Central de Atendimento, que identificará palavras e expressões impróprias e decidirá que encaminhamento dar à chamada. No entanto, ligações urgentes poderão ser realizadas imediatamente, mediante preenchimento de formulário em três vias.

As amplas janelas, que outrora mostravam a vista para a cidade, serão forradas com placas de concreto decoradas com frases edificantes. O uso da máquina de Xerox também será limitado aos assuntos exclusivamente corporativos, e mesmo assim, limitados a meia folha impressa por funcionário. Tal qual o rodízio de caronas, sugerimos que um funcionário imprima seu texto no verso da folha de outro colega, e assim que este terminar de ler, tome a vez e conclua a sua leitura.

Acabou-se essa de cafezinho por conta. Agora será instalada uma máquina caça-níqueis com
as opções: cafezinho, água e cafezinho sem açúcar. Os estatísticos dizem que depois de vinte jogadas, aproximadamente, o pedido é aceito e você é atendido. Se tiver sorte, claro.

O horário de almoço será reduzido para vinte minutos. Nosso restaurante, instruído pela Diretoria, agora oferece um completo cardápio de sopas e pastas nutritivas para rápida deglutição. E não sei se dissemos antes, também vamos cobrar pelo estacionamento.

quinta-feira, abril 27, 2006

Mais um desenho para uma cartilha sobre Falsificação, aqui pro BNB.

Pensei em colocar um cara com a camisa do Vasco como o malandrão que opera a máquina, mas por algum motivo, não funcionou bem :-)



Recapitulando

Recapitular é uma palavra estranha. Significa voltar a passar os olhos pelo capítulo, mas ao pé da letra, também pode ter o sentido de capitular duas vezes, ou seja: se render em duas oportunidades. Aliás, coisa que a França entende muito bem.

Falando em França, 2005 marcou o Ano do Brasil na França, evento cultural e de boa vontade entre dois países amigos, que teve como símbolo a imagem do Cristo Redentor projetada em tamanho natural na fachada principal de Notre Damme. A projeção ficou belíssima, mas ao mesmo tempo, não pude deixar de notar um pequeno efeito colateral: o Cristo parecia querer barrar a entrada das pessoas na Catedral.

Catedrais, hein? Bom, a primeira grande catedral gótica foi Chartres, cuja pedra fundamental foi colocada em 1145. Em 1260, a obra foi considerada pronta, depois de cento e quinze anos de construção. O metrô de Fortaleza vai no mesmo ritmo.

Ah, e Fortaleza completou duzentos e oitenta anos de elevação à condição de Vila, semana passada. Parabéns à minha querida cidade. Mais cem anos e vamos ser elevados à categoria de grande Favela, com certeza.

E que golpe no nosso ego nacional: Favela e Caipirinha são as palavras mais facilmente identificáveis com o Brasil, aos ouvidos estrangeiros. Por mim, não vejo nenhum problema de orgulho ferido. Afinal, temos mais é que faturar em cima da publicidade gratuita e exportar nossa cachaça com eficiência. Quando às favelas, bem, cedo ou tarde o mundo todo vai virar um grande campo de refugiados, então, que exportemos antes nosso know-how.

Anglicismos. Galicismos. Estrangeirismos diversos. Engraçado como o mundo todo fala inglês, e cada vez pior. Talvez o que todos nós façamos seja meramente macaquear a sintaxe bretã, como diria o Manuel Bandeira. Será que o Panglish dominará a conversação mundial, e chegará o tempo em que o último refúgio da lingua inglesa pura será um ensaio de economia do Roberto Campos?

Já que estamos nesse assunto, não entendo nada de economia. Mas tem gente mais maluca: há uns anos, um amigo meu veio me pedir dicas para o que fazer com uma grana que ele guardara. Incauto, ele seguiu minhas dicas e hoje toma conta de um desmanche ilegal debaixo do viaduto. Seus maiores fregueses são os traficantes que alugam seus carros para desovar presuntos. Ele parece feliz e ainda cobra por hora.

Horas? Puxa, como está tarde, nem vi o tempo passar. A gente agarra na conversa e não para mais. Você sabe, um assunto puxa o outro...

quarta-feira, abril 26, 2006

Trechinho daquele projeto secreto que eu tô desenhando. Huá rá rá rá!



Epifania II

De repente, saquei tudo.

Quando eu estiver velho e falido, escreverei um livro picareta de auto ajuda para o macharal, chamado: As mulheres são gatas, no qual pretendo detalhar essa minha nova teoria e de quebra, amealhar uns trocados dos incautos.

O cerne dessa minha teoria deriva das observações do que dizem os homens catlovers e os cathaters - se é que existe essa palavra. Observei que em ambos os casos, quando se referem ao gatinho de estimação, dele ou de alguém; eles estão na verdade falando de si próprios e das mulheres em geral. Quer ver?

Com a palavra os cathaters:

Gatos são distantes e interesseiros. Só querem saber de quanta comida podem tirar de nós e quando têm suas vísceras satisfeitas, nos deixam de lado para dormir. Não dá pra entender os gatos. Por isso que gosto do meu cachorro.

Ou seja: sou carente e preciso de cuidados. Não preciso de uma namorada, mas sim de uma mãezona que me limpe as fraldas.

E agora, os catlovers:

Gatos são independentes e têm personalidade. Precisam do seu espaço tanto quanto nós, e da mesma forma, só estão pra papo quando têm vontade. Gatos têm classe. Por isso não gosto de cachorros.

Ou seja: sou mais eu, a mulherada que corra atrás.

Percebem que as desculpas usadas pelos caras que odeiam gatos são as mesmas que um homem grosseirão dá para justificar o fora de uma mulher, obviamente superior? E vejam que as justificativas do cara que ama gatos são as mesmas qualidades, projetadas, que ele vê na sua adorável amante, e nele mesmo?

O modo como um cara lida com os gatos, na verdade, é o teste de Rorschach que permite saber o que ele pensa das mulheres.

Quando o cara se tocar disso e eventualmente, domar a situação, as noites serão menos complicadas, aposto.

Bom, era só isso. Agora só falta eu encher lingüiça para que o livro chegue a duzentas páginas. Acho que vou enchê-lo de gráficos, aumentar o tamanho da fonte e colocar uma dust cover.

Fiquem ainda com uma frase que vi no livro
Maldita Raça Humana, uma compilação
de textos do Mark Twain. A frase é dele.

É assim:

Posso até admitir que existam lares sem gatos.
Mas como provar que é um lar?



Não à toa, esse cara sabia tudo de mulher!

terça-feira, abril 25, 2006

Bom design é isso aí: já que há espaço sobrando, vamos faturar!



Seu bolso é meu guia

A arquitetura praticada aqui em Pindorama tem seu zênite e seu nadir. Pelo zênite, temos a excelência construtiva dos engenheiros, a qualidade do traço arquitetônico e uma farta tradição que se reflete em boas escolas de arquitetura pelo país todo. Além disso, temos inegavelmente um estilo brasileiro na arquitetura, e isso não é pouco. Porém, o nadir dessa empreeitada é a falta de moradia decente para a maioria da população, a guerra especulativa que não poupa espaços públicos e sobretudo; a falta de uma política de urbanismo para quase todas as cidades do Brasil: como no trânsito, faz-se o que se quer com total impunidade.

Daqui a mil anos, quando tudo isso estiver resolvido, o arquiteto brasileiro ainda enfrentará seu nêmesis eterno, que poderia-se resumir na pergunta: o que fazer para esconder as caixas de ar-condicionado, as caixas d´água e as guaritas?

Cada prédio no Brasil ostenta uma améia fortificada a que denominamos de guarita. Tal qual o isopor pra cerveja, isso só existe aqui em Pindorama e em bases militares como Guantânamo. Quando mais pseudo-sofisticado o prédio, mais espalhafatosa é a guarita. Em geral, são revestidas de granito, com grades de ferro e apliques sem sentido de tijolinhos de vidro. Tal qual um ônibus que não vai a lugar nenhum, elas ainda ostentam um espelho côncavo à guisa de retrovisor e o motorista da coisa também usa um assento de bolinhas de madeira.

Verdadeira praga urbana, ai do arquiteto que não bolar para seu cliente a guarita mais brega, cafona e chamativa do quarteirão. Como a vida é dura, o arquiteto ou se sujeita a isso ou vai fazer decoração de vitrinas pra Mesbla.

No que diz respeito às caixas d´água, o problema não é menor. Como o serviço de água é deficiente e intermitente, alguém deu a idéia de se construir um reservatório no topo da construção. A moda pegou e agora todo projeto tem que contemplar uma enorme corcunda de concreto coroando o topo do edifício. Os arquitetos que se virem pra disfarçar o calombo. E haja frontões, pináculos, cornijas e todo tipo de palhaçada para disfarçar o indisfarçável. O prédio se comporta como uma linda modelo que desfilasse com uma pedra na cabeça. O que fazer, senão acrescentar ao desfile uma coleção de chapéus?

As caixas d´água limitam a capaciadde estrutural do prédio e nos atarrancam para sempre a projetos de míseros cinqüenta andares. De novo usando a analogia das pedras na cabeça, temos que nos livar delas para curar esse atrofismo e podermos crescer sem culpa. Mas espere sentado.

E pra terminar, a praga das caixinhas de ar-condicionado. Aliás, outro sintoma da carência de infra-estrutura de Pindorama. Como é muito caro instalar ar-condicionado central em tudo, opta-se por soluções individuais, e produz-se o desastre. Imagine que o pobre arquiteto quebra a cabeça para bolar uma solução otimizada, elegante e honesta para seu projeto, quando vê chegar na obra uma scania carregada com horrendos sarcófagos de concreto. Tal como escamas ou espinhas, as caixas enfeiam a pele de cerâmica ou vidro de qualquer edifício. Puro subdesenvolvimento: casa nova e geladeira vazia, sapato velho com meia nova, carrão zero mas sem seguro, calçada de mármore e cusparada no chão. Isso é a nossa cara.

Assim não dá.

segunda-feira, abril 24, 2006

Série de folhetos para a AMC, a secretaria de trânsito daqui. O mascote, um semaforozinho, nunca ganhou um nome. Ainda bem, ele poderia ter se chamado, sei lá, Semaforozinho.



Universal sound

Sou o Dr. Hattle and Hum, ex-paleoaudiologista pela Universidade de Big Noise. Como o nome facilmente sugere, estudava e catalogava sons antigos. Nos últimos meses, vinha desenvolvendo uma tese revolucionária, que buscava não só catalogar e descobrir sons ancestrais como ligá-los indelevelmente à evolução humana. Como parte do meu projeto, requisitei o auditório principal da Universidade para expor o plano. Mas antes de contar o que aconteceu, quero detalhar um pouco da minha linha de pesquisa.

Existem sons da natureza que embalaram a mente e a imaginação do homem desde sempre. O calmo e sonolento som das ondas, o farfalhar agitado e perfumado das copas de árvores, o vento sibilante e perigoso do deserto, o crepitar da fogueira, o excitante e inebriante som da chuva. Esses sons e alguns outros seriam os poucos reconhecíveis tanto por um moderno habitante de Nova York como por um selvícola pré-histórico. Minha teoria inicial explicaria, entre outras coisas, a nostalgia pela selva, impressa ainda no inconsciente coletivo humano, pois só isso - uma loucura coletiva - ; explicaria as horas perdidas em engarrafamento só para curtir umas assaduras na praia.

No meio da minha pesquisa, no entanto, me deparei com outra linha de ação. Aqueles sons naturais poderiam, onomatopeicamente ter inspirado a criação de uma proto-linguagem. O som de vussshhh poderia ser a palavra primitiva para vento, assim como shhhh poderia ser a palavra para água corrente, e úúúú para medo - associado ao vento encanado que sibilaria entre as paredes da caverna. Chamei essa minha proposição teórica pomposamente de A Língua de Adão.

O que uniria os seres humanos, a princípio, fora justamente a identificação comum entre os sons naturais e sua interpretação comum pela tribo ou família. Daí para o desenvolvimento da linguagem foi um salto.

Eu poderia ter parado por aí e encomendado meu terno para a cerimônia do Nobel. Mas não, eu quis mais, e infelizmente, dei um passo além, e essa foi minha ruína.

Desgraçadamente, observei que havia algo mais poderoso que os sons da natureza como liga para a humanidade: os sons produzidos pelos próprios seres humanos. Assim, erucções, flatulências, gargalhadas, choro e roncos diversos seriam, na verdade, a base da linguagem humana. Fiquei tão tonto com minha descoberta que abandonei a antiga linha de pensamento para me dedicar a essa nova.

Depois de algumas semanas, eu estava agora em pleno auditório master da Universidade, completamente lotado; pronto para demonstrar ao mundo minha teoria: que os sons naturais humanos seriam a base silábica para uma linguagem ancestral comum.

Para tanto, gravei diversos sons de humanos nas mais diversas situações. Comecei com uma cacofonia de arrotos, seguida de uma ode ao ronco de barriga e o ápice foi uma verdadeira sinfonia de peidos, nas mais diversas notas e alturas. O objetivo fora simplesmente ilustrar minha teoria, mas obviamente não fui compreendido.

A platéia não parava de rir e fui completamente desacreditado no meio científico. Hoje, sou um reles sonoplasta de filme pornô, e minha vida é uma droga. No entanto, poderia ser pior: me ofereceram uma vaga de professor assistente da Universidade, mas recusei. Ainda me restava um pouco de dignidade.

sexta-feira, abril 21, 2006

Desenho para uma cartilha sobre Segurança, BNB.

Sendo feriado, não tem muito papo hoje, mas segunda volta ao normal, ok?


quinta-feira, abril 20, 2006

Catedral, lápis de cor sobre papel, aproximadamente 60 x 60cm; 1997.

Esse desenho foi exposto no MASP junto com outros participantes do Prêmio Philips de Arte, em 1999. Levei uma premiação por lá, ora vejam. Hoje o desenho pertence ao acervo da Philips do Brasil. Na época, ganhei um Som com uma bandeja para sete CDs. Era o fino!

Dizem que a estrutura abaixo da rosácea se parece com uma vulva. Será?



Top Ten II

Só pra variar, escrever um livro botando defeito na figura de Jesus Cristo. Essa foi a premissa de um escritor aí, que não lembro o nome, que resolveu vasculhar os podres do Filho do Homem. Entre outros pecados nada originais, Jesus não ligava pra arte nem literatura, posto que nunca quis escrever nada, e isso levou a séculos de má interpretação de Sua Vontade e a muita briga. Sócrates também nunca escreveu nada, mas na época a concorrência era bem mais pesada e faltou editor. Jesus também não devia ligar pra alta-costura, a julgar pelos farrapos que vestia; nem pra estética, senão usaria um rabo de cavalo naquela juba. Mas essa é uma observação minha.

Pois bem, como sou um pouco menos arrogante, resolvi foi botar defeito em Jeová em Pessoa! Sim, Ele mesmo, o Criador do Universo, o Onipotente, o chapa de Abraão e algoz de Jó, aquele que é mais conhecido nos círculos celestes e atemporais com Deus Todo-Poderoso!

Minha bronca com o T.P. na verdade é inofensiva. Acho que Ele fez um bom trabalho ao criar a Terra, caprichando soberbamente na Cachemira, por exemplo, e definitivamente a Mulher é uma bela peça de design, se feitas todas as manutenções. Mas eu acho que ele pecou (?) feio ao criar um sistema de leis muito ingênuas, mesmo para a época. Estou falando, no caso, dos Dez Mandamentos.

Deus talvez não previra que Sua criação ficasse se achando tão esperta que Lhe apontasse o dedo. Os Dez Mandamentos funcionam muito bem até hoje, reconheço, mas eles não evoluíram com seu público. Ficou faltando uma versão mais sólida e consistente das Verdades Universais, para ser apresentada justamente quando a humanidade estivesse pronta para ouvir. Mais ou menos como se a gente ganhasse um velocípede dos pais, quando crianças, e tempos depois, quando estivéssemos mais crescidinhos, ganhássemos uma moto envenenada.

Quando Moisés estivesse descendo a montanha com as Tábuas da Lei, Deus deveria chamá-lo de volta e com uma piscadinha marota, entregar um DVD pro velho Moses. As instruções deveriam ser claras: Moisés não deveria usar o DVD como enfeite do cajado. Também não deveria deixá-lo exposto aos quarenta anos de poeira do deserto. Moisés deveria guardar aquele artefato, mesmo que não soubesse pra que servisse, e delegá-lo à geração seguinte, que faria o mesmo enquanto fosse preciso. Quando chegasse a época, os homens saberiam como usá-lo. A época é hoje!

Esse sistema ainda teria a vantagem de economizar frete, fazendo com que Deus só fizesse uma viagem à Terra para entregar a encomenda a Moisés. Garanto que ambos iriam adorar o desconto e a pechincha.

E o que teria esse DVD? Simples: a versão científica dos Dez Mandamentos.

Acho sinceramente que a ciência e a religião não são conflitantes. Uma poderia complementar a outra. Jesus teria tido muito mais sucesso com uma concessão de TV, por exemplo.

E aqui estão os Novos Dez Mandamentos. Preparai-vos, pois!


I
Não passarás da velocidade da luz
A velocidade da luz é a pedra fundamental do Universo. É um negócio tão sério que o próprio espaço tem que se curvar, literalmente, pra deixar a luz passar. Um fóton não tem massa e como viaja à velocidade da luz, não existe o Tempo para ele: um fóton emitido no início do Universo é exatamente igual a outro criado pela chama de um isqueiro, hoje. Estranho Deus ter criado primeiro o Céu e a Terra, e só depois, a Luz. Obviamente, ele teve que agir com muito tato no princípio.
II
Não vilipendiarás a Teoria da Evolução
Não existe nada mais importante para o entendimento da vida na Terra que a Teoria da Evolução. Que não é, em absoluto, conflitante com a Criação. Deus insuflou as velas, e a partir de então Darwin assumiu o timão deste Beagle que são nossos genes.
III
Lavarás as mãos
A biologia e a medicina agradecem. A grande revolução da medicina em todos os tempos não foi a penicilina nem o cheque caução. Foi o médico lavar as mãos entre as cirurgias.
IV
Duvidarás até de Mim, mas mantenha o respeito
A humanidade só cresce perguntando. E perguntar não ofende.
V
Não brinqueis de Deus
Deus só fez a tabela periódica até o Urânio, que tem o peso atõmico 92. A partir daí, a humanidade foi acrescentando prótons e veja no que é que deu. Se não sabe brincar, nem tente! O mesmo vale para a engenharia genética: o rascunho dessa ciência pode ser seu próximo filho. Como amassar e jogar fora?
VI
Não queimarás bibliotecas
Auto explicativa.
VII
Respeitai-vos uns aos outros
Essa frase é do Vonnegut, mas Deus sabe tudo, e incluiu no DVD antes mesmo do escritor nascer e proferir a frase. Definitivamente, respeitar seu pior inimigo é mais fácil que amar aquele filho da puta miserável. E evita o stress por fadiga.
VIII
Não usai Meu santo nome em vão
Em nome de Deus já se matou muita criancinha e todo ditadorzinho de plantão diz que chegou lá por vontade Dele. Querem nomes? Olhem em volta. O Mandamento está assim, sem alterações desde a versão 1.o pois considero este o mais laico de todos. E ainda livra a cara do Senhor. Palavra da Salvação.
IX
Partilharás tuas descobertas
Não se preocupe com royalties: tua recompensa será o reino dos Céus.
X
Terra só tem uma!
Cuide desse planetinha que não vou te comprar outro, moleque!

quarta-feira, abril 19, 2006

Olha o que eu achei enquanto chafurdava nos meus alfarrábios.

Capa para o concurso da finada revista Home PC, de 1997. Ficou apenas com o terceiro lugar, bem feito. Curioso como naquela época ainda se jogavam games com um joystick. E vejam como era meu conceito: game é coisa de criança. Tsc, tsc, tsc.

Ainda hoje acho esse desenho bem legal.



Fim de um ciclo

Ontem recebi uma ligação da Livraria Ao Livro Técnico. Foi lá, há um ano e meio, que deixei quarenta exemplares do meu livro de desenhos Garatujas em consignação. Pois bem, eles ligaram pra dizer que estavam recolhendo o estoque e que eu fosse lá pegar o encalhe. E não era só isso, havia um cheque a receber: foram vendidos quatro livros!

Não é piada, fiquei extremamente contente com a notícia. Ok, ok, não sou assim tão Polyanna, mas vamos analisar alguns dados. Primeiro, que é muito raro um livro se pagar. Ainda mais no meu caso, uma produção independente e de pai solteiro. Mas aí me permitam uma licença poética: se eu estivesse nessa pela grana, teria deixado o dinheiro na Bolsa, que nesses dois anos - de 2004 pra cá -, rendeu mais de cinqüenta por cento. O livro teve como objetivo divulgar meus desenhos e nesse contexto, os resultados excederam as expectativas. Pisc! Ah, a maioria das vendas ocorreu no lançamento, como de praxe.

Segundo detalhe: quantas pessoas compram livros no Brasil? Muito pouca gente, se não contarmos com os Livros Didáticos, Bíblias e revistas de Caça-Palavras. E desse pequeno contingente, quantos compram Quadrinhos, ou no caso, Livros de Desenhos? A elite da elite!

Quatro sujeitos que não me conhecem - e nem eu a eles -, entraram numa livraria. Ir a livrarias por si só já é um evento raro hoje em dia, duplo mérito portanto. Com o que esses quatro caras gastaram com meu livro, daria pra comprar oito Playboys, e mesmo assim, optaram por um reles livro de desenhos! E que tem menos mulher pelada que a revista! O livro é curtinho, alguns de vocês conhecem. E é em preto e branco! Puxa, queria conhecer esses caras e pagar um jantar pra eles n´O Assis!

O livro foi vendido em livrarias, dado de presente pessoalmente ou via este site e ainda; deixado propositadamente esquecido em bancos de praça, ônibus e shoppings da cidade. Essa presepada mereceria um post exclusivo, mas eu deixava o livro em locais públicos, com uma dedicatória que ficava claro que o livro era um presente. Em alguns casos, eu observava de longe a reação da pessoa, em outros, ia embora sem olhar pra minha esquisita mensagem na garrafa. A reação das pessoas era muito engraçada. Nenhuma delas abandonou o livro novamente: todos guardaram com cuidado o exemplar e sei lá, pareciam até felizes.

Sendo assim, o ciclo do Garatujas está definitivamente encerrado.

Ficarei com os exemplares restantes, pouco mais de quarenta de uma fornada de quinhentos, como acervo pessoal. Enquanto isso, sigo no projeto do livro novo, dessa vez em parceria com o Olinto Gadelha, que está escrevendo a história e eu estou desenhando. Sim, será uma HQ fodona!

Obrigado a todos que compraram/ganharam/acharam o velho Gará. Vocês são como acionistas sentimentais da minha carreira. Chuinf!

Obrigado de novo e até o próximo!

terça-feira, abril 18, 2006

Trechinho de um desenho feito para três Garotas queridas. Pisc!



Thundercats do mal

Quer saber? Pelo menos a Receita Federal é sincera. Eles poderiam ser politicamente corretos e adotar um simpático besouro Rola-Bosta como mascote, ao invés do Leão. No fim das contas, o que o besouro faz é rolar uma bola de estrume para todo o sempre, bola esta da qual provêm seu sustento. O besouro poderia ser encarado como um símbolo meio budista de filosofia de vida, já que ele tem que viver com o que consegue carregar. Ideal, portanto, como paralelo para um órgão que está aí mesmo pra viver do que arrecada, e que gaste-o bem para o bem de todos.

Ou então, se fazerem de vítimas: é um trabalho sujo mas alguém tem que fazê-lo!

Mas eles, da Receita, optaram pela solução mais honesta. O símbolo da Receita Federal é um Leão. Não é um Leãozinho da Disney não, é um Leãozão faminto, velho e matreiro, que exige para si pelo menos um terço do que você ganha. E ai de você se não satisfizer seu apetite. Sua base de dados vai acabar no calabouço de torturas que é a Malha Fina da Receita, e sua vida não valerá o que o gato enterra, com o perdão do trocadilho.

O diabo é que a gente sabe, lá no íntimo, que o Leão só vai gastar nosso dinheiro com besteira: uma nova juba acaju, polainas de ursinhos, uma remodelada no covil e um botox na patroa. A selva, que tanto precisa de melhorias, vai ficar aos abutres e moscas. Desconfio até que o Leão na verdade é um mero joguete nas patas de bichos mais espertos, como Porcos, Ratos, Hienas, Lobos, Raposas ou Urubus e esses sim, se beneficiam do arrecadado. Nós, os Patos, damos sempre com os Burros n´água.

Ora, não é tão mal assim, pois ainda há a Restituição do Imposto de Renda, lembrarão alguns. É, mas seguindo na linha das analogias selvícolas, a Restituição nada mais é que um regurgitar de restos não digeríveis. O Leão engole uma gazela mas está tão cheio e empanzinado que vomita um pedaço de canela. E nós disputamos os ossos cuspidos a tapa.

A Parte do Leão é um adágio que significa: para os fortes tudo, para os fracos migalhas. Primeiro o Leão se farta. O que sobrar, a gente divide. Quer ver outra prova que a simbologia da Receita com o Leão é perfeita? Não sei se vocês sabem, mas raramente o Leão caça. Como é mais forte, o Leão toma a presa das Leoas e dos Chacais que estão por perto. Ninguém protesta, pois arrisca-se a virar a sobremesa do gatão. Não é isso que a Receita faz? Em vez de buscar fontes de arrecadação mais justas, ela cai em cima de quem tem salário. Eles não caçam. Vão atrás de quem já é conhecido e não tem como se defender, uma vez que o desconto é na fonte pagadora. Literalmente, por que não vão brigar com alguém do mesmo tamanho?

Meus sinceros respeitos à instituição. Vocês, pelo menos, não usam máscaras. Vamos dar nome aos Bois, digo, aos Leões de toda a Administração Federal, a propósito! Não têm mais essa de Oncinha pintada, Zebrinha listrada, Coelhinho peludo, não: os bichos todos são feios, grandes, grossos e tem nome. Um nome bem feio.

segunda-feira, abril 17, 2006

The Catcage, um protótipo:







Ronc!

Chega a noite e aquela fominha aperta, justamente naquela hora em que as últimas lembranças do almoço vão embora tendo como trilha sonora um discreto roncar de barriga. O almoço havia sido frugal e saudável, e meu prato lembrava o coche de um camelo. Mesmo assim, não fora suficiente para que horas depois, eu ainda relembrasse saudoso minha bacia cheia. E pra piorar, não havia mais provisões em casa. Qualquer boquinha noturna teria ser adiada à espera do almoço do dia seguinte.

No entando, não me rendi. Queria comer algo diferente do trivial caseiro, que naquela hora correspondia a uma banana podre e um pacote de cream craker na geladeira. Pesei os prós e contras e resolvi sair de casa e caminhar até o supermercado mais próximo, que eu sabia funcionar a noite toda. Tomei essa decisão ainda deitado na cama, quando minhas opções eram: dormir e esquecer a fome, e eventualmente sonhar devorando um Big Taste com a cara da Magda Cotrofe ou; encarar a tal caminhada pela madrugada atrás do lanche dos sonhos. Escolhi, portanto, a segunda opção.

Já eram duas da madrugada quando levantei da cama e fui me olhar no espelho. Eu precisava estar minimamente apresentável, pois outra decisão dual estava pra ser feita: me arrumo ou não pra sair? Eu tinha o cabelo mais assanhado que o Variedades, dos Globetrotters, e olheiras mais profundas que a Fossa das Marianas. Sem falar do bafo. À noite, eu poderia ser confundido sem demora com o Hagrid do Harry Potter, e não estava a fim de dar autógrafos. Olhei em volta e passei creme hidratante no cebelo, fazendo uma pasta capaz de amansar qualquer juba. Lavei o rosto e coloquei perfume por cima de tudo. Agora me considerava apto até de uma recepção com a Rainha Sílvia, da Suécia.

Saí de casa e o silêncio nas ruas era constrangedor. Eu estava consciente de cada som que eu produzia, desde o chiar dos chinelos até o estalar de dedos, que pareciam reverberar pelas fachadas dos prédios em volta. Não havia viv´alma no meu caminho, e de repente achei que não tinha sido uma boa idéia sair assim. Pra piorar, todos os cachorros da vizinhança começaram a latir como uma olla, à medida que eu caminhava na direção deles. Não sei se estavam excitados pelos meus passos ou pelo cheiro forte do hidratante que eu exalava como num vazamento de gás, mas se eu tencionava caminhar discreto pelas ruas o plano veio abaixo. Como é que funciona com o Batman?

Agora eu era um ponto verde piscante do tamanho de uma jaca, na tela de radar de todos os malandros do bairro. E acreditem, sempre há alguém nos observando. Agora eu só queria chegar logo ao supermercado e fazer minhas compras, na esperança que as luzes do local e a presença das pessoas afastassem possíveis emboscadas. Bem, foram seis quarteirões tensos.

Comprei pão, frutas, suco de laranja, queijo, chocolate, mais chocolate e uns doces. No local havia mais duas notívagas como eu, ambas com as mesmas olheiras que eu ostentava. Parecia que nós três havíamos sido convidados para aquelas festas de venham como estiverem. As preocupações mundanas tais como combinação de roupas e aparência desaparecem às duas da manhã. Taí uma boa tese de filosofia. Peguei minhas compras e fui embora, para o segundo tempo da travessia de ida e volta do campo minado.

A volta foi mais traqüila. Eu traçava como meta a luz de cada poste. Se eu conseguisse chegar no poste seguinte, é porque tudo estava bem, até aqui. Lá pelas tantas ouvi uns gritos, como que uma alcatéia de bêbados correndo em todas as direções. Fiz que nem ouvi e segui meu passo, com a dignidade possível de minhas calças molhadas. Cheguei no portão do prédio e pra coroar a aventura noturna, o porteiro dormia e não ouvira a campainha. E as vozes cada vez mais perto.

Começou a chover. O que serviu para espantar as vozes, mas fiquei encharcado em frente ao portão, com a maior cara de mané. O som da chuva acordou o porteiro, que veio me atender com uma cara mais descansada do que a que eu ostentava no momento. Cheguei em casa e perdi a fome. Além disso, não conseguia mais dormir, coisa que só foi acontecer lá pela manhãzinha. Antes disso belisquei algumas coisas e enquanto comia, pus-me a divagar: alguns pensam com o cérebro, outros com o pênis e os piores, com a barriga. Tái outra boa tese. Mas chega de filosofia, tô morrendo de sono e o dia vai ser cheio amanhã.

sexta-feira, abril 14, 2006

Ovo pra todo mundo!

Hoje não vai ter papo por causa do feriado de Páscoa. Volto na segunda. Enquanto isso, se divirtam com a foto do meu ovo direito.

quinta-feira, abril 13, 2006

Mais uma cartilha pro BNB. Essa capa é de 1999, acho. Aqui no Siri-ará estamos na época de chuvas, então, nada mais adequado.



Catecismo em doses

A Páscoa cristã é um momento para a reflexão e renovação das esperanças. É, sobretudo, uma oportunidade para renovar a fé na certeza da vitória da vida sobre a morte. Deve ser por isso, por um profundo sentimento de piedade cristã, que os donos de peixaria botam os preços do bacalhau pela hora da morte: eles querem nos lembrar que mesmo na adversidade, com um pequeno sacrifício pessoal, nossas mesas estarão cheias do mesmo jeito. Queria que esses vendedores não fossem assim tão católicos.

Outro momento especial da Páscoa cristã é a distribuição de ovos de chocolate. Essa tradição vem da época em que os judeus distribuíam ovos enfeitados entre as crianças e adoravam um coelho de ouro, chamado de Baal Bunny. O coelho era símbolo da fecundidade, e o ovo, símbolo da renovação. Os cristãos absorveram o costume mas trocaram tudo, e agora é uma dificuldade danada explicar pras crianças que coelho não bota ovos. O chocolate chegou na festa de ambos os povos com a descoberta da América. Enquanto um navio ia para a Europa lotado de cacau, outro voltava carregado de judeus para o exílio nas colônias, por causa da Inquisição. É a vida.

O costume de comer peixe, aliás, impeliu os pescadores europeus cada vez mais para o oeste, em busca de novas áreas de pesca. Isso sem dúvida favoreceu o aperfeiçoamento da tecnologia naval e propiciou a época das Grandes Navegações, como já falei aqui. O que pouca gente sabe é que no início, a Igreja obrigava os fiéis a comer leões, como uma vingança pela época das perseguições no Coliseu. Mas aí, a cada caçada, o número de fiéis diminuía tanto que o papa Néscio I editou uma bula trocando o leão pelo peixe, e está assim até hoje.

Durante as festividades, é comum exibirem em algum cinema poeira cópias d´A Paixão de Cristo ou mesmo encenações teatrais ao ar livre que assumem ares de superproduções épicas. Não há muito tempo, cinemas pornôs tiravam seus títulos da fila e como numa espécie de contrição; exibiam as tais cópias da Paixão na esperança de conseguir um desconto no céu, quem sabe. O problema era quando algum bêbado, cliente habitual do cinema, não percebia a troca dos filmes e esperava a toda hora que aquele povo todo, enrolado num monte de pano, deixasse tudo cair por terra e a ação começasse de verdade. Os protestos do bêbado, dizem, racaíam principalmente quando da cena capital da lavagem dos pés: - êpa, viadagem não!

Muito difundida no Brasil, a malhação do Judas é um dos momentos mais divertidos da Semana-Santa. Mas como a língua portuguesa é dinâmica, muitos jovens acham que malhar o Judas é interná-lo numa academia. Desfeitas as confusões, a malhação ocorre por toda a parte do país, assumindo o Judas a cara do desafeto da hora: em geral um político salafrário ou alguma personalidade execrável. Dia desses pediram um retrato meu para uma homenagem, e estou curioso para saber o que virá. Bom, aguardemos, pois.

quarta-feira, abril 12, 2006

Olha só: meus desenhos têm berço. Esse desenho quem fez foi a minha vó, a Gumgum - ou Gú, para os que têm a sorte.

Ela desenhou e eu colori. Mas não sou digno de lhe apontar os lápis de cor.



Marte ataca!

Talvez eu ainda viva pra ver uma missão tripulada a Marte. Quando acontecer a Grande Viagem, imagino que teremos um aparato semelhante a um reality show direto do espaço, com direto a chats de conversa, fotos e vídeos ao vivo da espaçonave. Ao vivo é um modo de dizer, claro. A velocidade da luz é grande mas não infinita, e o delay vai ficando cada vez maior até que o intervalo entre uma pergunta e resposta, enviada por rádio à nave; será de quase trinta e dois minutos. Tão emocionante como observar a grama crescer.

Fora o fato que a viagem pode demorar três anos para ir e três para voltar, sem contar o tempo de permanência em solo marciano. Definitivamente, vai ser duro manter essa audiência ligada. Falo assim tão futilmente pois conheço meu eleitorado. Para realizar uma missão como essa, será preciso uma enorme pressão da opinião pública mundial e de grana, muita grana. Nenhum país hoje, sozinho, pode levar à cabo uma coisa tão grande. Será preciso patrocínio, na forma de apoio governamental dos vários países e publicidade privada. E a publicidade depende que as pessoas vejam e acompanhem a missão. Como então, manter esse povo todo ligado numa enfadonha missão de sete anos?

Simples: sexo.

As pessoas sabem como os programa de tv sobre confinamento funcionam, e certamente vão querer mais do mesmo. Astronautas tomando banho, transando sob capas térmicas, bolinando as jovens cosmonautas russas e muita baixaria e pegação em gravidade zero. Como está implícito, a tripulação terá que ser mista e formada por jovens e atléticos cientistas, de várias nacionalidades. Seria divertido ver os casais se formando e literalmente, indo pro espaço a cada semana. A doutora Sharapova ficaria com o capitão Majors, que por sua vez arrastaria uma asinha para a astrofísica francesa Sophie, que estaria de olho na verdade no matemático indiano Chandra, que seria o caso secreto (?) da gostosa engenheira americana Kate. Uma loucura!

E o nome da missão? Lost in Space! Desculpem, não resisti.

Prevejo ainda o ápice da coisa, que seria uma gravidez a bordo, já pensou? É só o nível de audiência começar a cair, que do centro de controle da missão virá a ordem: engravidem a russa! O primeiro humano a ser concebido e parido no espaço seria simbolicamente o elo perdido entre o passado nas cavernas e o alvorecer nas estrelas. E entreteria o povo aqui embaixo por meses.

O enredo dessa missão daria pano pras mangas. Se numa viagem daqui pra Sobral tudo pode acontecer - desde o carro quebrar até uma chuva derrubar a ponte; o que não rolará numa viagem de, somados: oitocentos milhões de quilômetros? Quase tudo que se possa imaginar. Os astronautas teriam que realizar consertos fora da nave, abastecer em naves tanque previamente colocadas em órbita no caminho de Marte e tramar para ser o mais popular na astronave.

Quem liga pra ciência? Se sobrar tempo, talvez eles façam umas análises do solo de Marte e descubram umas bactérias, um pouco de água líquida e alguns fungos em rochas, mas nada que realmente valha a pena. O que importa é o ibope!

Se sobrar espaço ( re re re ) talvez levem um astronauta brasileiro para lavar os pratos e fazer o alívio cômico. Eu topo.

terça-feira, abril 11, 2006

Cartão de aniversário para a Cobra, lá pelos idos de 2004. A outra opção de desenho seria uma daquelas cobras de pano com molas, que saltam na cara do sujeito ao se abrir uma caixa. Esquece.



Dica de negócio

Todo mês a Exame me perturba, ofertando um espaço para que eu escreva sobre economia e política para o povão. Fico lisonjeado com o interesse, mas o que eu queria mesmo era posar nu para a Globo Rural. Aliás, falando nisso, é no mínimo estranho que um jornal do porte do Diário Oficial da União não tenha uma coluna de humor e quadrinhos. Bom, voltando à Exame, resolvi finalmente aceitar o convite, com a condição de que eventuais ganhos obtidos com minhas idéias gerem royalties para o papai aqui. No entanto, se o sujeito for tolo o suficiente para falir apesar das minhas dicas, azar o dele: vá ler o Tio Patinhas e deixe de ser um pato!

Pecunia non olet

O Brasil é uma terra cheia de oportunidades. A riqueza aflora a cada esquina, junto com a água servida e os bueiros entupidos. E justamente aí está a dica: investir em merda.

Merda, no Brasil, é o que não falta. Os teatros e cinemas estão cheios de produções nacionais onde a merda abunda. Por que não recuperar um pouco da grana pública jogada nessa fossa, reciclando as peças e filmes produzidos? Um empresário da compostagem poderia pegar o roteiro, as atuações e principalmente a direção dessas cloacas chapa-branca e transformá-las todas em esterco de ótima qualidade. E não é só: a crítica especializada também gera uma enorme quantidade de metano ao abrir suas bocarras e outros orifícios. Quanto mais rancor, inveja e unzinho por fora, mais venal se torna a crítica e mais gás produz. Esse material poderia ser usado para movimentar o Rolls Royce da presidência - que de certa forma, já funciona aos peidos mesmo.

Enumerar todas as fontes de material fecal para aproveitamento seria enfadonho, mas você, jovem empresário, já deve ter sacado que a grande Meca da merda no Brasil é Brasília. Mude-se pra lá e aproveite a brisa, como dizem. Discuros, medidas provisórias, pronunciamentos à nação, votações secretas, acordões, decretos-lei, conchavos e desmentidos oficiais geram quantidade de bosta suficiente para encher aquela cúpula do congresso até a tampa. Se além disso, você, jovem empresário, também for um arquiteto competente, sugiro ainda lacrar hermeticamente o congresso usando como tampa a cúpula do senado. Garanto que todo aquele material vai maturar e teremos gás suficiente para movimentar uma frota de vinte submarinos.

Em menor grau, mas igualmente importante, o futebol e a música popular também produzem caminhões de detritos fétidos todos os anos, que estão aí mesmo para quem quiser se dar bem.

Aproveitando a dica sobre Brasília, os grandes estádios de futebol do Brasil poderiam ser usados como gigantescos troninhos para coleta de material - oportunidades é que não iriam faltar para enchê-los -, a cada final de campeonato, virada de mesa ou marmelada pura e simples.

E pra terminar minhas valorosas dicas, resta a música popular, que também é uma fonte de combustível e abubo. Mas é de tão baixa qualidade que é necessário mil discos de forró para gerar uma bufa. Melhor usar como entulho.

segunda-feira, abril 10, 2006

Desenho no gesso da amiga Alana. Agora acrescento uma nova modalidade de ilustração às minhas ambições: tatuagens. Alguém se habilita?



The Doom Bus

Vocês sabem: às vezes me divirto comigo mesmo. Ah! Não é isso que estão pensando, podem trazer as crianças de volta. O papo é que meu pobre e dilacerado cérebro é minha companhia mais constante, apesar de eu o entorpecer cotidianamente com álcool e pornografia. Sendo assim, costumo imaginar situações inusuais a partir de premissas simples. Como por exemplo, quando eu estou andando de ônibus: o que aconteceria se só sobrassem esses passageiros para recolonizar o mundo?

Digamos que houvesse um hecatombe ou um arrebatamento de todos os humanos, menos do grupo que viaja no ônibus no qual estou. Penso seriamente nessa possibilidade, daí porque ao embarcar, dou uma olhada geral no ambiente para verificar alternativas. Como se fosse num Big Brother ambulante, antevejo alianças, disputas para saber quem seria o macho alfa e é claro, a divisão das fêmeas disponíveis.

Mesmo sabendo que a monogamia seria um privilégio sem sentido, posto que haveria escassez de fêmeas férteis; ainda há a questão da formação de um clã ou de uma superfamília de escolhidos. Tudo isso com base na presunção dos melhores genes - no caso, os meus e de minha patota!

Vamos supor que estivessem quarenta passageiros a bordo, divididos estatisticamente entre os seis sexos conhecidos e mais o Jean Paul Gaultier. Se dentre essa amostragem restarem quinze fêmeas férteis, dentro de noves meses haveria no mínimo, mais quinze bebês. Imediatamente, começaria outra fornada, e depois de mais nove meses, mais quinze bebês de novo, pelo menos. E assim por diante até a menopausa. É relativamente simples especular que depois de quinze anos, a população da Terra passaria de quarenta habitantes para aproximadamente duzentos e vinte e cinco indivíduos, já descontando os que morreriam de velhice, tédio ou de raiva por não poder procriar também. Entrementes, depois desses quinze anos, a primeira geração já estaria fértil, então, mais bebês!

Depois de mais quinze anos, ou seja, apenas trinta anos depois do suposto fim do mundo, somaríamos o inacreditável número de três mil e trezentos humanos. Que ao cabo de mais uma geração chegaria à respeitável quantidade de setecentas e quarenta e duas mil pessoas. Esse número é maior que a atual população de baleias azuis, tigres siberianos, bisões do ártico, peixes-boi, condores e yanomanis juntos.

Depois falam que a raça humana é frágil. Taqui, ó!

Bom, nunca cheguei a conclusões mais sábias que essas, pois em geral a viagem é curta. Mas dá pra ter uma idéia de como funciona o processo. Quem precisa de tv a cabo?

E é claro, a humanidade estaria extinta se você estivesse num ônibus com destino à Aparecida do Norte, Nova Jerusalém, Campinas ou ao Encontro Nacional de Estivadores. Boa sorte na próxima vez.

sexta-feira, abril 07, 2006

Amanhã, sábado, estarei no auditório da Biblioteca de Artes Visuais Leonilson, do Centro Dragão do Mar, para participar do evento Palavras Cruzadas.

A idéia é rolar um debate sobre a abrangência e o alcance da literatura e dos quadrinhos como formas de arte e expressão. Será que eles são assim tão separados? Iremos falar de pontos em comum, influências, linguagem, autores importantes, histórico e coisa e tal. Ou algo assim. Vai ser um bom bate-papo.

Para representar a literatura, o Dragão convidou o professor e escritor Carlos Emílio Corrêa Lima, e para acabar de vez com a reputação dos quadrinhos, a direção do evento convidou este aqui que vos fala.

Pois tá combinado: sábado, 8 de abril, 18:30 no Dragão. Quem puder comparecer me deixará muito contente. Até lá :-D


Fingindo que tá desenhando, que vergonha! Tão novo e já posa pras fotos como um político matreiro!


Um dos slides que vou apresentar no debate. Uma lâmina sobre a HQ que eu e o Olinto Gadelha estamos fazendo.

quinta-feira, abril 06, 2006

Povo, tô preocupado com uma coisa:

De brincadeira, fiz um desenho do Emir Saad, o monstro de Zazanov, e agora temo que a ira do bom Emir caia sobre esse tolo copista que vos fala. O cúmplice dele, o André Dahmer, inventou de publicar o desenho no Blog dos Malvados, junto com outros desenhistas que, tenho certeza, serão meus companheiros de patíbulo.

Espero que o Emir não mande o Negro Julião dar cabo de mim!

Quem quiser ver o desenho e de quebra, orar por mim, é só dar uma passadinha lá, falei?
Uma das ilustrações feitas para o escritório regional da UNICEF, agora em março de 2006.



Semana típica

Segunda-feira:
Esqueci de comprar pasta de dentes, então, tenho que escová-los com sabonete Dove ou ir pro trabalho com a sensação de estar mastigando cera. Pego o ônibus da empresa que tem uma TV a bordo, mas sintoniza mal o Bom Dia Brasil. De forma que o Renato Machado parece estar sempre gago ou com lapsos de memória. O dia transcorre normalmente, mas a intranet cai e perco tudo o que estava fazendo. Devia ter gravado minha partida de Doom, droga.

Terça-feira:
Logo de manhã, a faxineira liga avisando que não vem. Beleza, mas não tenho mais nenhuma camisa limpa pra usar, então improviso passando Bom-Ar na roupa de ontem. O porteiro faz uma careta quando me vê passar, e finjo que não é comigo. No trabalho, só pepino: o chefão precisa de um relatório pras dez horas. Vinte gráficos pra fazer. Mas tive sorte: meu primeiro ataque cardíaco me deu o dia de folga. Voltei pra casa tonto da angioplastia, e quando achava que nada mais faltava acontecer, tropecei na pilha de lixo que se acumulara no meio da sala.

Quarta-feira:
Recebi uma intimação judicial por não pagar o condomínio. Seria algo muito ruim, se meu nome fosse Artemísio da Cunha Paranhos. O nome estava errado, mas o endereço estava certo. Aí tive que perder a manhã entre ligações e idas ao cartório pra provar que eu não tinha o nome sujo. Quando cheguei ao trabalho, havia uma festa montada em minha homenagem: só não sabiam que eu sobrevivera ao enfarte de ontem.

Quinta-feira:
Saí pra visitar uns clientes, e bati o carro num poste. Na verdade, o poste é que bateu em mim, pois estavam fazendo a troca de um deles e o artefato de 600Kg caiu no meu Twingo, estacionado ao lado. Ainda bem que não havia enchido o tanque do carro, senão o prejuízo teria sido o dobro, ufa! À noite, saí com a Deoclécia, meu cacho, para ver um filme. O filme era King Kong. Na saída do cinema, vieram pedir autógrafos pra Deoclécia.

Sexta-feira:
Casual Friday. Vou pro trabalho com minha gravata do Batman, mas ela fica presa na picotadora de papel. Agora a gravata parece com aqueles bonequinhos de papel, só que são merceguinhos recortados de mãos dadas. Definitivamente isso não contribui pra o que restou da masculinidade do Morcegão. Vou almoçar com a turma do escritório e descobrem que é meu aniversário. Todos vêm me parabenizar e dão tapinhas nas minhas costas. Engasgo com a farofa e o Galvão Bueiro me faz uma respiração boca-a-boca. Da próxima vez me matem.

Sábado:
Passei a noite bebendo e acordei de ressaca, lá pelo meio-dia de sábado. Olho em volta e vejo uma calcinha na minha cama. Aí percebo uma voz que canta alegremente no banheiro. Vou até lá de mansinho e pela porta entreaberta, vejo a Dercy Gonçalves tomando banho. Volto a dormir, na esperança que tudo seja um pesadelo. Até hoje essa história está muito mal contada.

Domingo:
Como de hábito, vou passar o dia na mamãe. Ela preparara um bolo de chocolate da largura de uma calota de Fusca e nada mais faço senão comer e dormir. No fim do dia, ela me apresenta a conta. Pergunto se aceita em três vezes no Visa e ela diz que sim, mas vai cobrar dez por cento de taxa de serviço. Volto pra casa na esperança de ver o Fantástico e ter um pouco de paz. O Zeca Camargo anuncia que bombas nucleares americanas foram lançadas por engano para todas as capitais estrangeiras e a Globo vai transmitir o fim do mundo ao vivo, dali a pouco. Que semana!

quarta-feira, abril 05, 2006

Tirei essa foto e imediatamente mandei pro Sérgio, do Placas Ridículas. Agora publico aqui nesse site gauche.



Cultura pra dar e vender

Mercator foi um cara muito terra à terra, por isso passou a vida desenhando mapas. Prepúcio e Catarina são dois personagens de Shakespeare, da peça Bravura Indômita, cuja adaptação pro cinema contou com a atuação de Bruce Wayne. O Presidente Truman Capote lançou a bomba atômica nos japoneses, e por causa disso ganhou um show de TV só pra si, o Truman Show. Posso estar errado, mas tenho quase certeza que o nome do pai do Homer J. Simpson é O. J. Simpson.

Voltaire inventou a eletricidade, daí porque o Volt dá choque. Já seu compatriota, Alessandro Volta, escreveu a peça O Amargo Regresso que foi um enorme sucesso de bilheteria. Cain matou Abel, Brutus matou César e eu estou matando o tempo a punhaladas. Se uma pessoa é má como Calígula, a gente diz que ela é uma pessoa calipígia. Jay Leno disse que os Beach Boys eram mais famosos que Jesus Krishna, o que provocou protestos em todo o mundo, se me lembro bem. No entanto, sei que a Vênus de Milo foi pintada por Da Vinci, e está até hoje guardada no Museu de Lourdes, com certeza.

Moisés construiu uma enorme arca, pois o faraó disse que faria chover por quarenta dias e quarenta noites. Depois que as águas baixaram, todos os hebreus foram encher a cara no bar Mitzvah. Sansão foi condenado a realizar doze trabalhos, pois tinha que contar tempo pra aposentadoria. Sua esposa, Megera, era de personalidade indomável, dizem por aí à boca miúda. Teseu construiu o labirinto, no qual aprisionou Borges para ser devorado pelo Aleph. O Maior escultor que já existiu foi Fídias Fogg, que inventou o paspateau.

A ponte mais famosa do mundo é a Golden Shower, e fica no estado americano de São Paulo. Santo este, aliás, que não tem nenhum parentesco com São Patrício, a despeito de serem da mesma região da Itália. Das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, só a Pirâmide de Kellogg´s está de pé. A F-1 não pode ser o circo mais rápido se existe um F-16 e um F-22, então obviamente algo está errado. A Corrida da Maratona surgiu quando um soldado saiu correndo de Maratona a Atenas e chegando lá gritou: - Vim, Vi e Venci!

Steven Soderbergh filmou E.T. enquanto estava preso no Traffic. O General Lee ganhou a batalha do Peloponeso, durante a Guerra de Sucessão, mas abdicou do trono em favor de seu filho, Pedro II. San Francisco está em cima da falha de San Andrea - coisa que a Igreja já pronunciou-se contra, ostensivamente -; mas os dois insistem em continuar em pecado, que se há de fazer?

terça-feira, abril 04, 2006

Parte de um folheto sobre a Carnaúba, árvore símbolo do Ceará.
Cumpra-se a lei.



The last stand

Os epitáfios são como resumos de vida numa frase só. Não deixa de ser irônico que nossos currículos profissionais, rebuscados de início, detenham-se com o tempo apenas no essencial. Um currículo que seguisse cada vez mais enxuto, prosseguindo nessa linha, culminaria fatalmente - desculpe -, numa frase derradeira lapidada em pedra, não acham?

Se o epitáfio é o currículo que a gente leva ao Criador, o que seria a nossa, digamos; carta de intenções ao chegar à Terra? Sim, pois cada bebê é uma promessa. Impresso no bercinho, deveria haver uma frase do tipo: Farei o melhor possível com os genes que recebi, ok? Ou então, uma breve oração, como a que os jogadores de futebol e os soldados, creio; devem fazer antes de entrar em campo. Só pra dar sorte.

Fazer um epitáfio é relativamente simples. Se o interessado for seu próprio redator, é de se esperar um pouco de comiseração, humor ou até mesmo; arrependimento. Em geral ninguém se ufana nas suas últimas palavras. Nunca ouvi falar de alguém que tenha dito, como palavras finais, algo como: foi moleza, me vê mais duas dessas. Os epitáfios são humildes. Talvez sarcásticos, pios, singelos, resignados, mas nunca orgulhosos.

Mas me perdi um pouco. Criar seu próprio epitáfio, pois sim? Bom, sugiro que sua frase final passe por um editor. De preferência um amigo seu, um cara que conheça suas canalhices e que num encontro casual, num barzinho, digamos, ao ler sua frase: bom pai, marido exemplar e amigo fiel; cuspa a cerveja na sua cara e morra de rir: - Como é que é? Quem é esse cara, Mateus? Pensei que tu ia ser enterrado sozinho!

Outra dica é passar a frase por uma espécie de concurso, cujo juiz é o Tempo. Funciona assim: escreva sua frase num papel e guarde. Se depois de uns anos a frase ainda estiver valendo; indique para seu tabelião que aquela ali tá aprovada. Epitáfio não admite adendos, viu? Não vale escrever: Da vida nada levou, a não ser a saudade de quem ficou e acrescentar um P.S. num testamento: Também levei comigo a senha da conta na Suíça, parentes sanguessugas!

Um bom epitáfio tem que ter estilo. Usando uma linguagem moderna: tem que sair bem na foto. Valem as mesmas regras usadas na confecção de um outdoor. Menos de nove palavras, fonte enxuta, equilíbrio, concisão. Aqui jaz não deixa de ser uma frase definitiva, mas aí falta o estilo. Que tal: Aqui jaz, sob protestos? Ou então: Foi mas volta logo? O teor e talvez mais importante; o tom da frase vai de acordo com a cabeça de cada um. Aqui me ocorre que os epitáfios também se comparam com as frases que se veêm em adesivos nos carros. Ambos servem, de certa forma, para clarificar a personalidade do sujeito ali trancado. Com a vantagem que o epitáfio é seu e só seu, coisa que não acontece quando você, um senhor respeitável, tem que dirigir o carro da sua filha com adesivos das Meninas Superpoderosas por todo lado.

Por fim, assegure-se que seu epitáfio seja bem escrito. Seria o cúmulo se o epitáfio do professor Pasquale fosse entalhado por um escultor analfabeto:

A puresa da língua foi minha puresa d´álma.

segunda-feira, abril 03, 2006

Trechinho de uma HQ que tá rolando...

Não posso adiantar detalhes do que se trata o roteiro, mas tem a ver com cyborgs de Júpiter que vêm à Terra para um show da Marisa Monte. Vai ser um sucesso de vendas!



1/5 procês

Não sei se já falei, mas ganhei na Mega-Sena.

Silêncio estupefato, que se segue depois de revelações bombásticas.

Pois é, ganhei na Mega-Sena, mas foi só a quadra. E foi por causa de um bolão. Junto com doze pessoas. Bom, no fim, ganhei dez reais, o que deu pra abater um pouco do investido nesses anos todos, já que jogo regularmente desde 1998. Pelos meus cálculos, vou ganhar um prêmio de vinte milhões depois de ter torrado sessenta em apostas. É, mas existem vícios piores: eu poderia ser um coprófilo com tendências pigmaleônicas, já pensou?

O fato é que tenho um plano perfeito para o que fazer com a grana, quando ela aportar na minha conta do banco Real ( lembrar de cobrar o banco pelo jabá). É o seguinte: vou dividir o prêmio em cinco pacotes de valores iguais, os quais estão detalhados abaixo.

Digamos que o prêmio seja de quinze milhões, para facilitar as contas.

Projeto Oda-se

Três milhões > Hemeterio
Essa grana deve dar pra realizar o sonho de todo artista: nunca mais pegar num maldito pincel enquanto viver. Vou comprar minha Land Rover Defender 90, mudar-me para uma cobertura modesta e secreta em Fortaleza e só vou querer saber de arte quando for visitar o museu do Prado, em Madri. Essa brincadeira toda - a Land Rover e o ap cheio de bugigangas modernas - deve consumir apenas quatrocentos mil reais. O resto vou pulverizar entre fundos rentáveis, bolsa, fazendas de criação de carpas japonesas e num corte de cabelo. Talvez compre um ferrorama também, só pra acertar as contas com um trauma de infãncia.

Três milhões > Iramiltom
Meu irmão engenheiro e dono de uma criação de lhasas apsos vai receber essa bolada para que a gente recomece a vida em iguais condições. Aposto que a primeira coisa que ele vai fazer é mudar o nome para algo menos complicado, como Ariclemenildo, e a segunda vai ser comprar uma Cherokee nas cores do Fortaleza Esporte Clube, seu time de coração. Pobre criatura sem noção, tsc, tsc, tsc.

Três milhões > Júnior
Meu irmão mais novo vai receber esse troco para que também participe do grande festim da liberdade. Não sei o que ele vai fazer com essa grana, mas pelo que conheço do seu amor pelo Brasil e profundo senso patriótico, deve perpetrar um ato de nobreza e dignidade para com seus concidadãos: vai se mandar pra Barcelona. Essa grana dá mais ou menos um milhão de euros e pouquinho, então, ele vai se dar bem em qualquer lugar do mundo. Vou comprar pra ele um jogo de dardos com o Brasil como alvo, ele vai adorar.

Três milhões > VOCÊS!
Pois é cambada! Já selecionei quarenta e nove amigos que iriam receber a bagatela de sessenta mil reais cada. Sim, tô falando pra você (pisc!). Nada mal, hein? Sessentinha dá pra resolver um monte de coisas, imagino quanta marmota pode ser feita. E tem mais: vou distribuir sessenta cheques de mil reais com gente não tão chegada, mas que merece do mesmo jeito; como um garçom atencioso, um atendente da Siciliano que sabe respeitar o cliente, um lavador de carro que não enche o saco, um porteiro do prédio discreto, um motorista de táxi que sabe usar os plurais, e por aí vai.

Se eu quero comprar um lugar no céu? Sim, porque não? E de preferência perto do bairro judaico, pois eles foram escolhidos como os primeiros moradores e devem ter pego os melhores locais. Duro vai ser negociar um desconto com eles!

Três milhões > Heart Foundation
Essa vocês vão gostar. Vou administrar uma fundação que tem como único objetivo ajudar discreta e parcimoniamente a Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, o Lar Torres de Melo para idosos e a Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Ceará. Essa parceria não viria na forma de óbulos vergonhosos. Seria algo parecido na forma como os americanos ricos adotam suas universidades. Por exemplo: se a Santa Casa precisasse de um tomógrafo - quanto custa um tomógrafo? - a Heart Foundation compraria ou alugaria, sei lá, o equipamento. Nada de entregar dinheiro para ninguém.

Gostaria, sinceramente, de nem aparecer pessoalmente nessas negociações. Mesmo porque, passarei muito tempo viajando pelo Nepal, então, meus advogados resolverão essas paradinhas. Esse relato aqui meio que contradiz esse desejo, mas vamos deixar para resolver esses conflitos éticos quando eu ganhar, combinado? Olhaí: tem sorteio na quarta!

Alguma dica de números? Peraí que vou pegar uma caneta...