Desenho para uma cartilha sobre pesca, feita para o Banco do Nordeste. O Brasil tem 8.000Km de litoral. Realmente, é estranho que não sejamos uma nação predominantemente de pescadores, mas sim, de catadores de banana. Vai entender esse pedaço de mundo...
Céu de brigadeiroCheguei ao aeroporto uma hora antes do vôo, como aconselham as companhias aéreas. Pelo autofalante, soube que haviam começado o check in e me dirigi ao guichê onde daria início aos procedimentos. Estava de férias, e não via a hora de embarcar.
Consultei o número da reserva que fizera poucas horas antes pela Internet. A empresa era nova no mercado e por isso, o preço foi bem convidativo. Estratégia para ganhar mercado, na certa. Apoiado: o empreendedorismo é uma das marcas desse país. O guichê da companhia, achei curioso, ocupava o último lugar no balcão de
check in, ao lado da salinha do zelador. Atribuí esse certo desprestígio à extrema juventude da empresa. Com o tempo, eles hão de galgar posições de destaque na hierarquia aérea, e eu, orgulhoso, poderei dizer que participei ativamente desse processo.
A moça que me atendeu foi apenas relativamente cortês. Atribuí sua pressa ao tapa-olho que ela usava e na certa, queria parecer mais rápida aos seus superiores, apesar da deficiência. É verdade que o cigarro em uma das mãos também atrapalhava sua destreza, mas como eu disse, são coisas de jovens. A moça me fitou com o olho bom e depois conferiu o número da reserva num fichário empoeirado, que ela pesadamente colocou com violência no balcão. Achou meu nome e perfurou o cartão de embarque, com um aparelho semelhante a uma máquina de descaroçar azeitonas. Que pitoresco, achava que não existiam mais dessas mesuras antigas.
O embarque seria pelo portão 13, que coincidentemente, era a mesma salinha do zelador. Cheguei à pista e pude ver o possante bimotor da empresa, cujas hélices ainda repousavam da fadiga de viagens anteriores, supus. Gostei do contraste entre o venerável avião e os novos e sem personalidade jatos das outras companhias. Imediatamente simpatizei com o charme retrô do aperelho. De fato, parecia com o avião do filme Casablanca. Havia até mesmo umas marcas de tiros em sua fuselagem, certamente falsas, colocadas pelo inteligente departamento de marketing. Talvez a idéia fosse passar uma aura de desbravamento e pionerismo, e minha simpatia aumentava cada vez mais por eles. Até feno no assoalho do avião tinha, para terem uma idéia.
Havia poucos passageiros. Sentados, só eu e um rapaz bem pálido. Dentro de uma jaula, seis brutamontes calados e com olhares esquivos. Seria aquela a classe econômica, brinquei com meu companheiro de viagem, mas o jovem não respondeu. O comandante, certamente um ás da aviação, afastou a cortina que separava sua cabine do setor das poltronas e disse que iria começar o procedimento de decolagem. Para tanto, pediu uma colaboração para o rapaz que iria impulsionar as hélices para que dessem a partida. Vasculhei os bolsos e entreguei algumas moedas, que o comandante aceitou e em seguida atirou-as pela janela do cockpit, berrando algo semelhante a:
aqui está sua paga e não me interrompa com detalhes, filho desprovido de inteligência entre um asno e uma meretriz. Isso em linguagem culta. Acho que o comandante foi bem mais sarcástico.
O ronco dos morores se fez ouvir. Ronco não é uma palavra adequada, perdoem meu entusiasmo. Parecia mais com uma forte tosse tuberculosa, como que vinda do peito de um fumante de 90 anos de idade. Mesmo assim, os motores estavam em plena carga e corremos pela pista.
A decolagem foi tranqüila, salvo uma peça que se desprendeu do avião, que era muito parecida com o trem de pouso. Mas deve ter sido ilusão minha. Alcançamos altitude de cruzeiro, pouco acima do pico da montanhas, quando o comandante falou através do rádio.
Senhores passageiros, em breve chegaremos a paradisíaca ilha de Tanganica. Podem afrouxar seus cintos e boa viagem. Na verdade, o comandante dizia essas palavras com um cone de papel próximo à boca, simulando a estática de um rádio, e se aproximou de mim achando que eu não estava vendo. Obviamente o comandante era um brincalhão, e fiquei deveras curioso em saber como ele arranjava tempo para descontrair seus passageiros e ao mesmo tempo, pilotar o avião. Que sujeito fantástico.
Nisso, o rapaz pálido e magricela levanta-se a anuncia um seqüestro. Eu e o comandante nos entreolhamos assutados, mas o oficial rapidamente recuperou a espirituosidade e desafiou o magricela com um sorriso de canto do seu bigodinho: Ah é? E como acha que vai tomar esse avião, pivete? Com isso, disse o rapaz. De súbito, abriu seu sobretudo e fez-se a descoberto um verdadeiro arsenal de todo tipo de explosivo e armas automáticas. O comandante pulou no meu colo de puro medo e quando nos demos conta, o magricela havia se dirigido à jaula com os carrancudos caladões. Ele abriu a gaiola e libertou a todos. Depois fiquei sabendo que a empresa aérea fazia
charter entre as penitenciárias para o transporte dos piores fascínoras. Aquilo era mais barato que contratar uma escolta e quem sabe, o Estado ainda poderia se livrar de elementos periculosos sem custo adicional nenhum. Acidentes acontecem todo dia, não é?
Os bandidos e seu odioso cúmplice nos obrigaram a pilotar o avião, e fui feito de co-piloto. Foi quando percebi um ponto no céu que crescia a cada instante. Perguntei ao comandante o que poderia ser aquilo, e depois de parar de chorar, o comandante disse que deveria ser uma barata no parabrisa. Mas baratas têm asas fletidas e mísseis? Falei. Era um caça que vinha nos abater!
Nossa única chance era despistar os mísseis, mas a agilidade do avião, comparável a de um gato morto, não ajudava muito. Por puro reflexo, o comandante se agachou para vomitar e nisso, empurra o mache fazendo com que o bimotor mergulhe aceleradamente. A manobra confundiu o caça, que desperdiçou um de seus mísseis, varando o ar e não achando nada. Àquela altura estávamos sobrevoando o oceano, e a placa de água tomava todo o parabrisa como um muro de titânio. Se não fizéssemos nada, nem ia ser preciso o disparo de outro míssil.
Todos nós ajudamos o comandante a puxar novamente o manche, mas a alavanca estava escorregadia pela mistura de bílis e café-da-manhã. O máximo que conseguimos foi establizar razoavelmente o avião, que no entanto, chocou-se de barriga na água e deslizou como um pranchão de alumínio. Estávamos vivos, mas o avião afundaria dali a minutos. Pensei comigo mesmo que na próxima, se houvesse, viria por uma companhia aérea sem tantas emoções no pacote. Finalmente, a sorte pareceu nos favorecer: encalháramos num banco de areia no meio de um atol, o que nos permitiu sair do avião andando com água pela cintura. Pelo menos o avião que o governo enviara para nos abater sumira.
O nosso avião, entretando, começou a escorregar e cada vez mais afundava nas partes menos rasas do atol. Isso não seria um problema de todo, se aquele atol não estivesse cheio de tubarões famintos. Estávamos os nove com água pela cintura, em cima de um banco de areia, com tubarões em volta, e com um avião prestes a afundar de todo. Eis que lembrei de um detalhe que poderia livrar nossa cara: a jaula dos fascínoras!
Conseguimos resgatar a gaiola do avião nos metemos embaixo dela, ficando assim, livres dos tubarões. O avião afundara de vez agora.
Nossa situação era a seguinte: perdidos no meio do oceano, semi protegidos dos tubarões por uma gaiola de ferro e como se não bastasse, sob o olhar furioso e faminto de sete bandidos dispostos a tudo. Escrevo essas memórias num caderno que consegui salvar junto dos destroços, e estou prestes a celar meu depoimento e pedido de socorro numa garrafa de gin que o comandante levava consigo. Só espero que essa história sirva de lição a outros viajantes, que como eu, se sintam engabelados por promoções fáceis. Ah, procurem um bom advogado, se não estiverem presos numa ilhota cheia de malucos.
Droga, vou perder a novela.