Um dos trabalhos que mais gostei de fazer: um calendário pra SEMACE. Foram 12 fichas que compreendiam os 12 meses do ano - lógico -, e que mostravam numa face os dias do mês e na outra, um desenho sobre uma questão ambiental que nos interessava. Aos poucos vou postar tudo por aqui. Fiquem por enquanto, com o mês de agosto de 2003.

Uma vela na escuridãoCarl SaganRecebi o seguinte spam, dia desses:
-
O planeta Marte será o mais brilhante no céu noturno a partir de agosto. Ele poderá ser observado a olho nu, tão grande quanto uma lua cheia, especialmente no dia 27, quando vai estar mais próximo da Terra. Não deixe de observar o céu na noite de 27 de agosto, a meia-noite e meia, você verá duas luas!!! Não perca. A próxima vez que Marte vai aparecer assim será em 2287.NOTA: Compartilhe isso com seus amigos, pois ninguém, vivo hoje, terá oportunidade de observar o fato novamente.Um abraço astral.-
Fico impressionado com a falta de cultura científica das pessoas. Não que a gente tenha que discutir a teoria das supercordas com o zelador do prédio, mas acho que há uma óbvia deficiência na forma como a informação científica chega às pessoas. Não deveria me espantar, afinal, somos o país no qual eclodiu a Revolta da Vacina, onde ainda hoje no interior as pessoas dizem que aparecem verrugas no dedo se a gente apontar pra uma estrela e que há poucos anos, espalharam que a vacinação contra a gripe, aplicada nos velhinhos, seria um plano do governo para uma forma de extermínio seletivo.
Não sei o que é mais estranho: a redação do texto ou que alguém lhe dê crédito, ao ponto de repassá-lo indefinidamente.
Acho que é uma questão de prioridades, afinal. Eu me interesso pelo assunto. Você, talvez não. Mas acho que conhecimentos básicos de astronomia seriam tão essenciais como a já enraizada profilaxia de saúde pública, que prega coisas tão óbvias como lavar as mãos antes das refeições e antes de operar um paciente. Mas mesmo esses preceitos eram vistos como superstição há menos de 150 anos. Assustador, não?
Bom, o assunto é vasto como o Universo visível. Vou me concentar no spam que recebi, ok?
Pra começo de conversa, no dia 27 de agosto Marte nem será visto no céu noturno. Atualmente, o planeta vermelho está atrás do Sol, numa posição oposta à nossa. Assim, Marte só seria
visível de dia, mas aí o Sol ofusca tudo e não dá pra ver nada. Aliás, nem tente olhar na direção do Sol. O desenho vai ajudar a entender.

A distância da Terra ao Sol é de 150 milhões de quilômetros. A distância de Marte ao Sol é de 220 milhões de quilômetros. Logo, estamos sempre em torno de 70 milhões de quilômetros um do outro. Evidentemente que essas distâncias se referem à elipse de suas órbitas. Pelo desenho, nota-se que nessa época do ano, as distâncias verdadeiras são bem maiores.
Marte leva dois anos para dar a volta no Sol. A Terra, é claro, leva um ano. Em algum momento, a gente pode chegar nessa configuração:

Nesse ponto, nós temos a mínima distância possível, em torno de 70 milhões de quilômetros.
Agora vamos abordar outro fator, o tamanho relativo entre a Terra, Marte e a Lua. Mais uma vez um desenho vai nos ajudar:

A distância da Terra à Lua é de apenas 300.000Km, muito menos que a quilometragem de muito Corcel II que eu conheço. Por simples regra de três, para que Marte ficasse com o tamanho aparente da nossa Lua Cheia, ele teria que estar a míseros 600.000Km de distância, e não nos confortáveis 70 milhões.
As conseqüências de se ter um planeta grande como Marte a uma distância tão pequena seria catastrófica para todo o sistema solar, e creia-me, você não ficaria sabendo através de um spam, mas sim por milhares de trombetas capitaneadas pela CNN ou quem sabe, via aparições de anjos do apocalipse, pois seria o fim dos tempos pra nós.
As órbitas dos planetas obedecem a um equlíbrio dinâmico, mais ou menos como os elétrons ocupam tal e tal posição na eletrosfera. Para retirar um elétron de sua órbita é necessária uma quantidade enorme de energia - relativamente ao elétron, claro, que é minúsculo. Agora imagine a força necessária para arrancar um planeta de sua órbita. E se tal coisa fosse possível, a reação seria um rearanjo das outras órbitas, fazendo com que os planetas
caíssem um degrau em direção ao Sol. A Terra, Marte, Vênus e Mercúrio seriam assados como pipocas, empurrados pelos outros planetas como Júpiter e Saturno, em direção à nossa estrela, isso se não fôssemos engolidos por ela.
Mas antes dessa formidável queda, a aproximação de Marte geraria uma maré gravitacional tão forte que literalmente, racharia ambos os planetas. No caso da Terra, as placas tectônicas seriam rompidas, fazendo com que o magma escapasse com a força de um vulção do tamanho de um continente. A boa notícia é que já estaríamos mortos quando a Terra se fracionasse em mil pedaços, para formar um anel em espiral em torno do Sol, parecido com o atual cinturão de asteróides que orbita entre Marte e Júpiter.
Ufa, estou sendo muito chato?
Desculpem a mudança de foco do blog, mas fico tonto quando vejo uma bobagem como aquela ganhar o mundo. Coloquei o título de um livro do querido Dr. Sagan no início do papo pois foi ele um dos mais ardorosos defensores da correta divulgação da ciência. Fico realmente assustado com o nível em que a coisa anda: criacionismo ensinado nas escolas americanas, demonização das pesquisas com células tronco e intolerância religiosa e racial.
Sabem onde isso vai levar, se a gente não abrir o olho?
OBSCURANTISMO.
Pra terminar, vou citar outro livro do Carl Sagan,
Bilhões e bilhões, sobre os mais variados temas, sobretudo, para quem quiser saber mais sobre como a ciência, a razão e o bom senso vêm aos poucos, muito devagar, bem lentamente; conseguindo desbaratar o medo, a superstição e a ignorância.
E o que mais me revolta é que em pleno século XXI, eles usem a Internet para divulgar essas bobagens. Todo mundo sabe que a Internet foi criada para divulgar pornografia! Olha o respeito, pô!