quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A vida aqui só é ruim, quando não chove no chão, como dirá Fagner. Antes e depois das chuvas. A primeira tomada é de dezembro do ano passado e a seguinte, poucos dias atrás.





A Teoria da Escada


Veja a cena. O anfitrião da noite decide que está na hora de mostrar sua mais recente criação, construída especialmente para aquele momento: uma maravilhosa miniatura de um galeão espanhol, todo feito de palitinhos de picolé. O sujeito devotara noites e noites ao projeto. Cada detalhe do modelo foi pensado, todas as cores no lugar, até o timão girava de verdade. Então ele sobe as escadas e avisa que tem uma surpresa para os convidados, e pede que todos o esperem embaixo, no saguão principal, enquanto ele vai buscar uma coisinha.

Do alto da escada ele mostra o navio, sob os olhares estupefatos de seus amigos. Mas aí ele tropeça canhestramente e rola as escadas, despedaçando o galeão horrendamente. Ao chegar ao chão da sala, tudo o que ele tem a mostrar, depois de toda a preparação para aquela noite, é um amontoado de cacarecos sem sentido. Dor. Ruína. Pesar. Todos puderam ver a linda maquete por uns instantes, mas agora o que tinham em mãos para poder avaliar o quanto fora belo - ou não - o trabalho é aquele resto amorfo de palitinhos.

Chega de metáforas pretensamente espertinhas, estou falando de filmes!

Muitas vezes um filme se assemelha à tensa viagem entre o topo e o fim da escada, enquanto o diretor carrega, sei lá, a última garrafa de Chateau d'Yquem Sauternes, safra de 1787. A coisa pode até começar bem, mas nunca se sabe como vai chegar ao final.

As combinações sobre essa variação de tema são enormes. Alguns mostram uma geladeira no topo da escada, e os que estão embaixo se afastam pressurosos, pois sabem que isso não vai dar certo. Outros vêm com balões de gás, e muitos espocam, fogem do controle ou murcham antes de se chegar ao objetivo. Mais alguns vêm com engenhocas que são fáceis de carregar como ipods, que são muito bonitos, chegam inteiros e bem protegidos, mas... qual o risco? Faça sua combinação com seu filme predileto em mente, vamos lá.

Alguns conseguem miraculosamente transportar até pianos do topo da escada para baixo, sem nem um arranhão, e só depois você percebe e aplaude o engenhoso esquema de fios, polias e roldanas. Muitos outros deixam cair o embrulho no chão, mas as peças são todas de plástico e dá pra montar tudo no final - quase ninguém notou o pequeno acidente. Malucos geniais podem até fazer malabarismo com bolinhas de vidro e chegar com tudo intacto no final, sob os vivas dos convidados! Obviamente a pior situação é a de se carregar um enorme bolo em camadas. Qualquer escorregão, além de destruir o bolo, ainda vai manchar o sujeito para toda a vida.

Acabei de perceber que essa situação do bolo não é a pior possível, não. E se o ansioso anfitrião, digamos um novato, estiver carregando... uma mulher nos braços? Manja o ridículo: além de armar uma presepada perigosa, ainda há o risco da corajosa - ou tola? - parceira acabar seriamente ferida, talvez por toda a carreira. Vocês sabem, tombos espetaculares podem até ser base da comédia, mas não funcionam bem para um desfile da Miss Caldas Novas 2007. Muita gente boa já teve a carreira arruinada porque se deixou conduzir, ou dirigir, por lunáticos obviamente embriagados.

Essa Teoria da Escada também premia os cara que simplesmente, são bons carregadores de cofres. Nada que ele faça vai causar muitos danos ao cofre, não? Ou então, vá lá, há os moleques de recado. Não há muito risco em se transportar envelopes de um andar ao outro, há?

Ah, e também, podem acontecer acidentes! Digamos que um diligente cientista acabara de empalhar um dodó e vem todo contentinho mostrar sua marmota pra gente. Mas por incompetência do setor de carpintaria, que deixara um prego não nivelado no meio dos degraus, o que era para ser um aula sobre taxidermia se transforma num desfile de fantasias do Hotel Glória. Aí não dá pra culpar o sujeito.

Bom, era isso, e viva Martin Scorsese, que carregou uma maleta de metralhadoras engatilhadas, sobre uma escada cheia de granadas; e chegou vivo pra nos mostrar!

4 Comments:

Blogger Zarastruta said...

Hemé,

Não entendi bem o texto, pareceu até que você estava falando do Oscar de melhor filme para The Departed do Martin Scorsese. Mas a foto parece com um certo banco federal.

6:16 PM  
Blogger Hemeterio said...

Z; Olhaí, quem sabe não estou fazendo uma sugestão velada pra que tomem a coisa de assalto?

3:55 AM  
Anonymous Roberto said...

isso é que é terra... passa o ano na seca, ai cai dois caroçim d'água no chão e fica tud verde

5:29 PM  
Blogger Hemeterio said...

Pois não é? Cearense é assim, quando pensam que tá morto... nem adianta cutucar!

6:08 PM  

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