quarta-feira, março 14, 2007

Adoraria conhecer esse Brasil descrito pela Anaïs (Anaís). Quem for visitar o Brasil achando que vai encarar tudo isso que tá no livro vai se decepcionar. É mais ou menos como viajar a Bagdá esperando encontrar a cidade rica, próspera e tolerante descrita pelo jovem Beremiz, o cauculista.

E tem mais: porra de chanchiquito! Aqui não é o México, caray!



Serviço: Pequenos Pássaros, Anaïs Nin, L&PM Pocket, edição original de 1959.


Pequenos prazeres

A vida não se resume a pagar contas, ou passar a tarde inteira depondo num Quartel; não senhor. Ainda é possível extrair pequenos prazeres com coisas simples do dia-a-dia, e principalmente, é possível se divertir com seu trabalho. Quanto mais humilde e mal remunerada a profissão, em geral, os prazeres inerentes ao ofício são mais sutis e por isso mesmo, preciosos. Selecionei alguns exemplos de notórias ocupações que ninguém dá a mínima, mas a coisa mudaria se todos soubessem como se divertem os...

Motoristas de ônibus - Não é só o goleiro que tem a prerrogativa de se vestir diferente do resto de seus companheiros. O motorista de ônibus também. Em quantas profissões você pode sair de casa para ir trabalhar fantasiado de Waldick Soriano? Em quantas profissões você tem a certeza de se sentir sexy por exibir tufos de pelos no peito e ao mesmo tempo, ostentar um palitinho de fósforo no canto da boca? Sem falar que a categoria, sozinha, sustenta as vendas da Ray-Ban no Brasil. É ou não é uma satisfação?

E os prazeres não param apenas no figurino do terminal não. Durante as viagens, o M.O. também retorce a face de prazer ao perceber o susto que dá nas motoristas desavisadas. A maior diversão dos M.O. é frear de uma vez a sete Planks de distância do para-choque do carro da frente. Parece que há uma competição interna entre eles, pra ver quem consegue chegar a roçar eletrosfera com eletrosfera, só pode ser. O prêmio deve ser uma camisa estampada com figuras de cajus, especulo.

O M.O. também é seu próprio DJ. Como comandante do buzão, é dele o poder de escolher a trilha sonora que os outros desafortunados 132 passageiros vão ouvir. Como não bastassem o calor e os solavancos do carro, a trilha sonora - já bem ruinzinha de se tolerar- é embalada com chiados e distorções do aparelho de som do M.O.: provavelmente um toca-fitas CCE destacável, comprado na Feira do Canelão. Ser ao mesmo tempo; senhor dos pensamentos e condutor do destino de milhões, não é um prazer destinado apenas ao imperadores? Pois agora César tem um rival à altura na figura de Deoclécio Irinildo, motorista de praça há 10 anos que não perde um programa do João Inácio Jr. Tenha santa paciência.

Coveiros - Sem dúvida, o maior prazer de um coveiro é enterrar um notório gangster. Posso até imaginar os frêmitos orgasmáticos quando o humilde profissional é escalado para o enterrão das cinco horas. Sim, ele mesmo, a inumação daquele velho, safado, ventanista e barrigudo senador. E lá vem o caixão, grande e lustroso, carregado por outros figurões que ele tem certeza, ainda há de participar dos derradeiros ritos. É só uma questão de tempo...

O coveiro também é uma espécie de mestre zen, para o qual, tudo na vida é transitório. Essa certeza absoluta confere ao profissional um ar compenetrado, digno, silencioso, eterno, como se o próprio Dalai Lama em pessoa estivesse ali, baixando seu caixão. E depois de tudo terminado, quando os últimos parentes vão embora, alguns chorosos, outros cobiçosos do ap do senador em Ondina; ainda resta ao humilde coveiro uma última homenagem, um singelo recado que ele, como representante do povo, transmite ao senador no além: uma bela mijada na sua cova! Quem não invejaria esse herói do povo?

Bodegueiros - Junto com nadadores profissionais e fisiculturistas, também ao dono de bodega é permitido trabalhar sem camisa. Como hoje em dia a diversificação da carteira é tudo, o bodegueiro se confunde também com um dono de boteco. A bodega, assim, se converte também num ponto de encontro de cavalheiros, como um clube exclusivo, no qual profissionais da construção civil e amigos do alheio se reúnem para provarem aperitivos e discorrerem sobre os assuntos da moda, como a última chacina do presídio e a escalação do time do bairro, o Venturoso da Piedade.

O bodegueiro, como único intelectual no recinto - já que concluíra o Mobral em 1977 -; vira uma espécie de banqueiro e psicólogo da turma, às vezes emprestando pequenas quantias em dinheiro e aconselhando, como pode, seus fiéis clientes. Esse poder que desfruta perante seus pares não se mede em vinténs, pois é a mercadoria mais valiosa que existe: o respeito. Como símbolo totênico desse poder, o bodegueiro adota um código, reconhecido como sinal inconteste de sua autoridade no local: uma bic atrás da orelha!

A profissão de bodegueiro também é um exercício amostral de todas as ocupações do mercado. Já falei até do caráter de psicólogo do bodegueiro, mas o aspecto do qual todo dono de boteco se ufana é o de exercer seus dotes como gourmet. É incumbência do bodegueiro elaborar e supervisonar o cardápio de seu estabelecimento, e para tanto, ele se vale de receitas de família, coisas que ouviu dizer, e uma boa dose de experimentalismo que faria a inveja de um feiticeiro. De fato, não é raro encontar, boiando no caldo de feijão, coisas que tradicionalmente fariam parte das poções de Lord Voldemort, como asas de morcego e falanges humanas. Com os diabos se com esse cara eu não trocaria de lugar!

1 Comments:

Blogger Zarastruta said...

Hemé,

Mas o foda mesmo é blogueiro. E aqui mais uma teoria da conspiração que poderia ser arquitetada pelo Bagman.

Trecho da música dos Beatles original (Eleanor Rigby):

"Father McKenzie writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near.
Look at him working. darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?"

Os Beatles já previram a vida de blogueiro e usaram outro nome porque não tinham inventado ainda nem mesmo o modem. E também porque eles gostavam de mensagem subliminar. Nostradamus também previu muita coisa e usou linguagem da época dele. Aqui vai a interpretação dos versos para os dia de hoje:

Father McKenzie = Blogueiro
hear = read
sermon = post
darning his socks = batendo uma

colocando os termos na frase (em inglês)

"Blogger writing the words of a post that no one will read
No one comes near.
Look at him working. spanking the monkey in the night when there's nobody there
What does he care?"


Se você ouvir esta música ao contrário e olhar a letra em um espelho semi-lapidado às 3 horas da tarde, horário de Fortaleza, durante o Solistício vai ver a mensagem original. E se não vir, meu nome real não é Zarastruta, primo do Zaratrusta.

10:50 PM  

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