segunda-feira, março 26, 2007

Arquitetura pecuniária



Como alguns de vocês sabem, sou arquiteto mas não exerço a profissão. O mais próximo que fiz de projetar foi dar pitacos na decoração da casa de amigos, basicamente reclamando da cor dos móveis ou sugerindo que pelo amor de Deus, comprassem um quadro meu. Não reclamo da minha sorte. Muito provavelmente, você, que lê esse relato, está vivo agora porque não mora num prédio que eu fiz. A natureza é sábia.

Mas isso de não ter talento não impede de sonhar. Veja o caso de tanto pagodeiro que acha que é um músico de verdade. Quando eu era um jovem estudante de arquitetura - depois virei um velho estudante de arquitetura, mas isso não vêm ao caso - tinha um monte de idéias que gostaria de, vejam só, ver implementadas num projeto meu ou de amigos. Algumas dessas idéias eram por si só, inexeqüíveis. Outras, impraticáveis, e a maioria, pura tolice. Mas com os diabos se eu não me divertia com elas.

Uma dessas idéias tinha a ver com a inflação. Sou tão velho que quando estudante, o presidente do Brasil era o Sarney. Portanto, além de bigodes e tintura pra cabelo, a moda na época era a hiperinflação. Eu sugeri que ao invés de pastilhas cerâmicas, se revestissem os prédios com moedas de cruzeiro e cruzado. Ora, a maioria dessas moedas era de aço inoxidável, portanto, virtualmente indestrutíveis. Além disso, a superfície refletora serviria para desviar o calor do sol, fazendo com que o prédio tivesse um bom conforto térmico. Também havia a questão da crítica política, pois seria mais barato revestir o prédio com dinheiro que usar esse mesmo dinheiro para comprar azulejos. Seria um prédio de atitude, é assim que os jovens falam?

Anos depois, virou moda revestir os prédios com metal, vejam o fabuloso Guggenheim de Bilbao, todo coberto com placas de titânio. Obviamente que minha idéia era mambembe e caricata, e servia apenas para isso mesmo: criar um cartum satírico em forma de edifício. Quase uma instalação gigante, vá lá. Mas seria divertido ver uma coisa dessas construída.

Será que essa idéia só funcionaria numa época de inflação alta? Sou ruim de contas, mas acompanhem minha tese. Para pintar um quarto de 3m x 4m, o custo seria de aproximadamente R$500, aí inclusa a mão de obra e o material. É claro que esse orçamento depende de vários fatores, mas vamos pensar numa tinta ou papel de perede da melhor qualidade e num sujeito que não sabe pechinchar. A área a ser pintada seria de ( 3+4+3+4 )m x 2,85m ( 2,85m é a altura do pé direito padrão no Brasil ) = 39,9m². Assim, o custo seria de R$500/39,9m², o que dá R$12,50 por metro quadrado. E se fôssemos revestir essa mesma área com notas de 1 real?

Bom, uma nota de 1 real mede 14 x 6 centímetros, o que dá um pedaço de papel com área de apenas 0,084m². Dividindo a área de pintura ( 39,9m² ) pela área de uma notinha, vemos que seriam necessários R$475 para forrar o quarto todo. Somando o preço da cola e de uma eventual mão de obra, uma coisa sairia pela outra. E aí, quem teria coragem?

Quando venderam os Girassóis do Van Gogh por um purrilhão de dólares, um crítico de arte observou uma coisa que nunca mais esqueci. Ele disse que se a mesma quantia em dinheiro fosse trocada por notas de 1 dólar, e esse dinheiro usado para revestir uma casa, a atitude geraria a mais pura repulsa em todo o mundo. Nada mais que um esnobismo tolo e arrogante, como naquelas caricaturas em que milionários acendem charutos com notas de 100 dólares. Mas pendurar uma obra de arte, ainda mais sendo pintada por quem foi, confere ao dono da casa uma aura de respeitabilidade - mesmo que ele tranque a tela num cofre pra especular no futuro, como de fato o fez. Por uns míseros trocados, o sujeito agora abriga um patrimônio da humanidade - o melhor que um ser humano conseguiu fazer, em sua área.

Van Gogh fazia proezas em tela e tinta comparadas ao que Einstein fazia com a matemática, ao que Michelângelo fazia com blocos de mármore, ao que Mozart fazia com as partituras ou ao que Jesus faria com tinta e pergaminho, se ele tivesse tido tempo pra escrever ao invés de sair por aí com sua turma. Para nós, humanos, bípedes implumes com óbvias limitações intelectuais, não é nada mal, hein?

serviço:
www.guggenheim-bilbao.es

3 Comments:

Anonymous Marcilio S. said...

Falar em arte, lembrei q tu esteve expondo na unifor, não foi? me passa teus dados pra q eu possa por no Arte Ceara.pode c? Faz uma visitinha lá:www.arteceara.com.br

7:12 PM  
Blogger Hemeterio said...

Opa, diz, Marcílio! passei no site e te deixei uma mensagem. Brigado pela visita, viu?

7:55 PM  
Blogger Michel said...

OPA! Quem disse OPA?

2:24 PM  

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