sexta-feira, março 16, 2007

Desenho do Barão de Studart, feito para o venerável Instituto Histórico do Ceará, uma espécie de Sociedade Geográfica Nacional, como dos velhos tempos. Fiquei muito orgulhoso com o contato. O Instituto têm, entre seus membros, gente do timbre do Rubens de Azevedo, astrônomo, seu irmão Nirez, historiador e o professor Liberal de Castro, arquiteto. É...


Barão de Studart (1856 - 1938), médico, historiador, diplomata, abolicionista. Um dos fundadores do Instituto Histórico do Ceará.


O Boimate da piauí

ou: o discurso do perdedor

Fui um dos 195 participantes do concurso literário da revista piauí, mas não levei o prêmio. O mote do concurso é muito legal. Eles te dão uma frase maluca, e você tem que encaixá-la num texto coerente. A frase do mês foi: mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!

O primeiro lugar teria seu texto publicado na revista, e nas palavras dos editores: "perdurará na língua portuguesa eternidade afora". Fiquei triste, obviamente, pois eu estava crente que estava abafando. Mas a frustração diminuiu um pouco quando li o texto do vencedor, que de fato, é uma pequena obra prima. De uma inteligência delicada e senso de humor sutil, o texto nos esbofeteia com lenços de seda. Vi que ainda tenho que comer muito angu pra poder, sequer, pensar em pisar a mesma calçada em que transita, digamos, um Kurt Vonnegut ou um Ephraim Kishon.

Mas...

Eis que um leitor percebe que o texto vencedor é na verdade, hã... excessivamente inspirado em outro texto, de um autor morto em 1991. Você podem ler toda a bagaça aqui, no endereço da revista.

http://revistapiaui.com.br/2007/mar/concurso_vencedor.htm

É claro que a revista agiu de boa fé, mas quando perceberam a incômoda semelhança, o texto já estava impresso e perdurado eternidade afora na língua portuguesa. Restou à revista "rogar" para que no futuro, os autores não se inspirem demais no texto dos outros. Senão, já sei a fórmula para ter um texto aprovado: basta que eu pegue um ensaio do Umberto Eco, troque todas as ocorrências da palavra Ecmnésia por Rapadura, assine e estamos conversados

O Boimate da piauí, a que me referi no início, têm a ver com uma reportagem clássica da revista Veja. Significa, mais ou menos, comprar gato por lebre. Há muitos anos, a Veja publicou, como sendo verdadeira, uma brincadeira de primeiro de abril que falava sobre cientistas terem fundido o DNA de um boi com o de um tomate. Estaria criado assim, um supertomate rico em proteínas e virtualmente, a solução da fome no mundo! A revista publicou o texto meses depois do dia da mentira, então, não vale dizer que eles estavam brincando também. Foi um vacilo. Um pequeno engano. Mas que na Veja, empombada como ela só, surtiu o mesmo efeito que um dândi novo-rico aparecendo com as calças rasgadas, sendo pego com a bunda de fora.

Bom, aqui vai meu humilde texto participante, que até provem o contrário, não foi inspirado por ninguém, a não ser, talvez, pelo Espírito Santo. Boa leitura.

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Quanta dor, Alice!

Goão Jilberto desceu do seu táxi e ficou parado na calçada, contemplando o chão. Maravilhado, havia descoberto uma fila de formigas carregando pedacinhos de folhas entre as pinças. Passou a estudá-las o movimento e daquele ritimado constante, elaborou uma batida mais ou menos assim: tim tim, tum tum, tim, tum tum, tim tum, tim tim, tum, tã tã...

O velho músico estava dessa forma entretido, quando o motorista do táxi estranhou a demora. Desceu do carro e cruzou os braços sobre o teto, apoiando o queixo entre as mãos. Ficou observando, curioso, aquele senhor grisalho que marcava o ritmo das formigas com um gingado de corpo, muito parecido com as contrações de parto de uma lhama. Nesse meio tempo, uma pequena multidão também se aglomerava, apreciando o estranho espetáculo. Foi aí que o porteiro do prédio, Seu Chico, interveio e pagou o táxi, dispersando a multidão ao conduzir o poeta para dentro do prédio.

Goão nem bem chegara ao seu apartamento quando o interfone tocou. Era seu amigo de décadas, Dorival Donato, que estava subindo. O passatempo preferido de ambos era jogar baralho por debaixo da porta. Assim, Dorival ficou sentado no corredor do prédio enquanto Goão ajeitava-se com uma almofada, do lado de dentro do apartamento - e ficaram nisso por horas. Houve até tempo para que juntos, compusessem uma simpática canção, que ficou assim.

Mas Alice, eu já disse, que não sou mitômano, eu sou anômalo.
Sou um poço de complexos, sem rumo sem nexo, nem Jung explica.
Olha Alice, não complica, aceita meu autismo e o que vem no pacote;
Mas Alice meu bem, todos temos fricotes, como é que vamos fazer?

Um belo dia escapei da terapia, nem olhei pra que lado fugia,
cheguei em casa e o gato me aturando, no violão, uma nota só tocando.
Eu bem que queria melhorar, mas o público ia estranhar.
Pois deixa disso, Alice e vem cá. Como é que vamos fazer?

2 Comments:

Blogger Zarastruta said...

Hemé,

O texto vencedor foi realmente baseado no outro, mas não foi plágio e a estória dela ficou muito melhor. É como o Paulo Coelho que se inspirou no livro Sirdata para o O Alquimista. E o livro do Paulo, embora menos "literário" saiu muito melhor.

6:15 PM  
Anonymous Alexandre said...

Olá!
Li sua carta na Piauí impressa, na internet e li seu comentário aqui no blog! Plágino não é brincadeira e concordo também com seu método de fazer um best-seler...o jeito é copiar e trocar alhos por bulgalhos...estou indignado com o sr. Parreira e outros que o defendem...e se isso continuar no futuro não haverá mais propriedade intelectual!
Abraços

6:00 AM  

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