terça-feira, março 06, 2007

Pérola do dia do Bagman:



Via Crucis


Hoje precisei dos serviços de certos funcionários públicos. Funcionários públicos que andam armados, sacou? Bom, tive que comparecer ao setor por duas vezes, por causa de birras com o preenchimento da papelada. Sinceramente, não acho que o problema tenha sido meu, pois me considero mais esperto que a maioria dos ursos. O que eu acho que houve foi uma implicância do funcionário do dia, que resolveu descontar sua raiva no primeiro puto que aparecesse. No caso, eu. Acho até que se eu tivesse sido sorteado com outro atendente, ele colocaria defeito em outra coisa. Talvez, no meu corte de cabelo. Ou na falta de corte.

Olhando em volta, percebi detalhes sutis e outros nem tanto, sobre onde eu estava metido. Havia um cartaz, grande o bastante para ser visto pelos satélites do Google Earth; escrito assim: desacato a servidor público é crime! Desse jeito mesmo, com serifas e exclamações. Tipo, eles sabem que vão lhe fazer umas raivas, só pra se divertir. Se você fizer a besteira de ficar fulo e revidar, provavelmente vai desfrutar da hospitalidade deles por um mês. Portanto, anule-se, fique calmo, engula os insultos...

Por causa de um outro preenchimento errado, fui mandado para um porão ( não estou exagerando! ) onde eles poderiam me tirar outra via do documento em questão. Vi coisas lá que não havia visto nem numa visita à Santa Casa de Misericórdia, e nem nas piores filas do INAMPS: gente chorando, estrangeiros desorientados, cansaço, calor, e em contra-partida; funcionários papeando animadamente com conhecidos seus. E o que mais chama a atenção é a absoluta indiferença, evidenciada pela mais clara linguagem corporal: gente por trás do balcão segurando o indefectível cafezinho, mantendo a outra mão livre bem posta nos quartos. Se eu mesmo não estivesse tão irritado - mas aparentando ser um monge, é bom que se frise - ; teria me divertido um bocado com esse miserável apanhado da comédia humana.

Finalmente fui atendido e a papelada, encaminhada. Não posso deixar de pensar que um certo sadismo faz parte dos pré-requisitos para o concurso público, só pode ser. Mas pensando bem, todos somos humanos, e com os diabos, será que se eu não estivesse do outro lado, não trataria esses miseráveis contribuintes da mesma forma? Talvez sim, e o que é pior, seria mais irônico e muito menos maleável com gente avoada. Descontaria meus traumas no primeiro que me desse bom-dia, e saindo para o almoço de duas horas; faria questão de fechar o guichê na cara do próximo velhinho que aparecesse. O poder, ah o inebriante poder!