sexta-feira, abril 06, 2007

Feliz comilança pra todos!




As oliveiras não se importam


Acordei pouco antes do nascer do sol, pois sabia ter uma longa caminhada pela frente. Os boatos diziam que o rabi maluco, o agitador que perambulava com seu séquito de grosseirões, fora capturado há pouco, e sua execução seria essa tarde. Eu simpatizava com o homem, pois qualquer um que sacudisse o pó daqueles velhos do Templo e ao mesmo tempo, aborrecesse Roma, teria meu apoio. Tive que me apressar, pois a notícia se espalhara e já havia outros caminhantes na estrada, certamente curiosos em vê-lo também. À minha frente, a lua se punha fria, sob as muralhas ensolaradas de Jerusalém.

A cidade fervilhava de vida, mas pude sentir o clima tenso, como numa poça d´água cheia de girinos, sob o sol do meio dia. A agitação não era só pelos preparativos do sabat, mas também pela inusitada sentença da véspera. Sabia que o cortejo teria que passar perto da casa de meu primo Yield, então, depois de fazer umas compras no mercado, fui me encontrar com ele para bebermos um pouco de chá e esperarmos. Escolhi um lugar em sua varanda, no segundo piso da casa. As horas passaram lentas, como uma caravana de camelos mancos. Eu estava pensativo.

Pouco antes do pôr-do-sol, o cortejo com o condenado fez-se anunciar pelo estalar distante dos chicotes e pela algazarra do vozeirio. Levantei do meu divã e fui à beira do balcão, observar a rua abaixo. A cena era de uma cueldade impressionante: um oficial romano empunhava um chicote, enquanto outros guardas controlavam a multidão. No centro de tudo, o famoso rabi carregava uma sinistra trave de madeira sobre os ombros, suja com seu sangue e suor. O chicote o impelia à frente, mas ele mal tinha forças para manter-se de pé. Foi aí que tudo começou a dar errado. Ao me apoiar no guarda-corpo da sacada, um tijolo desprendeu-se e foi acertar justamente, a cabeça do pobre rabi, que caiu desmaiado.

O silêncio que se formou era mais ameaçador que o silvo do pior simum do deserto! Todos os olhares apontaram na minha direção, e quando dei por mim, guardas romanos já invadiam a casa de meu primo e me arrastavam para baixo. No meio da rua, os soldados discutiam nervosos, decidindo minha sorte. O povo, esse monstro sem rosto, agora urrava contra mim. Volátil como o ar, a ira da multidão transferira-se do rabi desmaiado para este pobre e assustado inocente. Os soldados, percebendo a mudança dos ventos, resolveram num átimo o que fazer. Já que o povo queria uma execução, e o rabi estava fora de combate, imediatamente amarraram-me sob a trave de madeira, aos vivas da multidão.

Crucificaram-me no topo do Gólgota, junto com outros dois infelizes que já estavam agonizando. Poucos ficaram para ver meu suplício. Já anoitecia, e aquela multidão, que até há pouco espumava de prazer quando ouvia meus gritos, agora estava em casa, cuidando de seus afazeres. Começara a chover. Uma chuva triste e morna, como lágrimas de um gigante. Até mesmo os soldados que estavam de guarda pareciam não se importar, e ao longe, jogavam dados. Foi aí que percebi um vulto que me observava, pelo meu olho que não estava fechado, coberto de hematomas. Era aquel rabi que eu acidentalmente, golpeara com um tijolo.

Ele me olhava com uma confusão de sentimentos. Ora parecia triste e furioso, depois agitava os braços, batia no peito repetidas vezes e apontava para mim. Não pude entender o que ele dizia, pois eu estava quase desfalecido devido à surra e ao suplício que sofrera. Senti tudo escurecer, e a dor não importava mais. Antes de finalmente deixar esse mundo, subitamente, meus sentidos tornaram-se argutos, e por instantes, pode entender claramente o que fazia o rabi. Ele chorava de raiva.