sexta-feira, junho 01, 2007

Um casal de amigos vai casar ( não há nada que se possa fazer para dissuadí-los! ) e eles me encomendaram um desenhinho, que vai enfeitar canecas e convites. O Trenó é por causa de uma parada deles lá, não posso dizer mais detalhes, cof, cof, cof!



Turistas da Pérsia

Os três reis magos eram excelentes astrólogos mas péssimos cartógrafos, tanto que erraram o caminho e foram parar no Brasil de hoje. Não me perguntem como, só estou contanto o que ouvi dizer. Por pura coincidência, os três sábios entraram no Brasil via Ipanema, contornando a lagoa e chegando na altura do Arpoador. Era um belo dia de sol e a praia estava lotada.

Os camelos chamaram menos atenção que os trajes. Turistas japoneses correram para tirar fotos com a estranha caravana, fato que deixou os sábios extremamente confusos, principalmente pelo estourar de tochas a poucos palmos de seus rostos. Logo Baltazar, o mouro, foi saudado pelos nativos: Fala Mussum! Figuraça! Evidentemente que ele não entendia a língua do local, mas entendeu o aceno de braço e o sorriso do popular como uma saudação amistosa. E Baltazar respondeu com outro aceno, mas muito mais contido.

Por causa da buzina dos carros e do alarido da multidão, os sábios tiveram que conversar entre si num tom de voz que lembrava um bazar, digamos, persa. Fato este que os desagradou deveras, pois refinados e cultos como eram, evitavam usar as mesmas armas de persuassão dos ignaros. Enquanto discutiam onde afinal estavam, Melquior sentiu sua túnica ser puxada e quando olhou para baixo, viu um molequinho que lhe estendia a mão e pedia uns trocados.

Nisso, chega a autoridade local, facilmente identificada pelos sábios por causa do uniforme e dos modos, muito parecidos com os dos assírios. Através de gestos, o oficial sugere que os camelos não podem ficar na via pública, então, foram para a areia da praia, onde já os aguardavam comerciantes com rostos ansiosos e transeuntes excitados. É uma pegadinha? Disse uma moça vestida como odalisca, só que sem várias camadas de véu.

A visão dos habitantes locais, desnudos e queimados de sol, foi logo confundida com os líbios, tribo do Saara famosa pela devassidão. Mas na Líbia não havia assim escravas tão belas, nem tão robustas. Os sábios coravam a todo instante. Sabendo que a comunicação seria difícil e impossibilitados de se orientar pelas estrelas, apearam de seus camelos e um deles começou a rabiscar na areia. Talvez esse povo, obviamente desconhecedor da escrita, pudesse entender meus desenhos, pensou Melchior.

Rapidamente formou-se uma roda de curiosos, enquanto o mais velho dos magos desenhava na areia. Ele esboçou um leão, símbolo de Herodes, governador da Judéia, e ao lado, um palácio. Todo o mundo civilizado saberia o significado daqueles símbolos, pensou. Acho que ele quer uma jaula, disse um vendedor de paçoca. Deixa de ser burro, ele é turista, quer comprar uma lembrancinha. Ô, da Turquia, na Galeria Alaska tem esses bichinhos aí - disse um halterofilista que passava pelo local. Desapontados, os magos decidiram que o melhor a fazer seria expor os presentes que levavam, pois quem sabe, ao verem os artefatos, aqueles rudes camponeses entendessem o significado de sua visita.

Ao se voltarem para os camelos e seus alforjes, perceberam com espanto que uma turba já havia pilhado todos os seus pertences! Absolutamente consternados, os magos decidiram voltar imediatamente pelo caminho de onde vieram e juraram que nunca mais voltariam àquela terra tão hostil. Fato absolutamente sem precedentes, os magos praguejaram os piores insultos contra a situação, em pelo menos quatro línguas. Nem quando foram atacados por lobos na Eritréia, e durante um encontro com beduínos azuis na Arábia, se sentiram tão em perigo. Como haviam decidido, deram meia volta e desapareceram.

Enquanto isso, durante o pôr-do-sol daquela tarde, deu-se a partilha das trouxas dos vacilões, como foram apelidados os magos na gíria local. Esnobaram os ricos tapetes e as sedas mais caras, pois não reconheciam seu valor. Um dos garotos - pois não passavam de crianças - enrolou-se com a mais fina seda da Caxemira e imitou um cantor da moda. Abriram também as arcas com o ouro e a mirra e o fulgor dos presentes não era páreo para o brilho nos olhos do pequeno bando. Quando achavam que já haviam ganho o dia o suficiente, eis que o mais velho deles achou a caixa com o incenso.

Nunca a pedra do Arpoador teve um entardecer tão festivo. A turma confeccionou cigarrinhos artesanais e os rechearam com o raro e caríssimo incenso do oriente, presente involuntário dos magos. A palavra transcendente foi pouco para descrever o estado de alma dos jovens. De repente, tudo fez sentido. O ar era mais doce, o céu mais bonito, o vento que insuflava a orla era como o próprio hálito de Deus. O incenso, digno do rei dos reis, agora aconchegava os corações daqueles meninos tão pobres e pardos, como anjos sujos de brincar. Durante as pausas entre uma tragada e outra, um deles comentou: Tu viu? os tiozão regulando a mixaria! E um outro: passa de novo, esse é da caixa!

2 Comments:

Blogger El hombre maíz said...

to vendo que agora seu blog tem anuncio do google. Depois me diz quanto dá pra tirar num mês e penso se ponho anuncios no cara de milho, ja que nossa media e leitores é quase igual.

Abraço

2:53 PM  
Blogger Hemeterio said...

CDM, bicho, não tenho idéia. Preenchi o formulário deles mas ainda não recebi meu cheque. Coisa de bilionário, não ligar pra grana, tu sabe como é. Pisc!

3:59 PM  

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