quinta-feira, julho 05, 2007

Não tendo nada pra fazer, resolvi ordenar meus livros pela cor da lombada. O resultado ficou mais pra ridículo que pra radical. Eu gosto muito de mexer na estante, então, em pouco tempo eles vão reassumir a posição caótica de sempre - e vou me livrar dessa horrível decoração de creche infantil. Mas na próxima limpeza geral vou colocá-los todos por ordem de tamanho ou agrupá-los segundo o ano da morte do autor, só pra variar.




Personagens que ninguém quis

Por volta do século oitavo, o escritor árabe Salman Rushlive inventou Sadim, cujo toque transformava tudo em merda. Ao desenvolver o personagem, Rushlive imaginou que Sadim seria tão incompetente e azarado que tornaria infrutífera qualquer tentativa de progresso, seja para si mesmo ou de quem ele fosse sócio. Chegou até a bolar algumas situações em que a arte de Sadim pudesse ser testada, como na vez em que o herói deixara acidentalmente os portões da cidade abertos, e tudo fora saqueado por beduínos do deserto. Ou quando ele tentara se estabelecer no mercado vendendo dragões de Komodo adultos, fato que por razões óbvias - menos para Sadim - causara um tumulto sem precedentes em toda a cidade. Depois de muito ponderar, Rushlive percebera-se retratado no próprio personagem, e o abandonou de vez. Para poder se ocupar, Rushlive passou a escrever poemas satíricos em que retratava o califa da cidade como um efrite de dois metros de altura. Curiosamente, o autor nunca mais foi visto depois da primeira leitura pública de seus escritos.

Elomar Mota não tinha talento para escrever, mas isso não seria obstáculo para alguém com sua obstinação. Pensou num personagem que fosse fácil de desenvolver, então imaginou um sujeito que nacesse sem olfato, sem visão, sem paladar, sem tato, sem locomotricidade, sem audição e sem voz, e que estivesse encerrado numa cama macia desde então. Sem contato com o mundo, as únicas sensações do personagem seriam a fome e o sono, e todo o romance deveria se desenvolver a partir dessa premissa simples. Apesar dessas óbvias privações, o herói teria o cérebro funcionando a todo vapor, mas sem nenhum estímulo externo. Como ele encararia sua condição? Com o quê ele sonharia? Como é que ele acha a fome passa? O personagem foi abandonado depois que o próprio Elomar entrou num coma profundo, depois de misteriosamente, beber querosene por engano. Sua história poderia ter sido esquecida para todo o sempre, sorte que eu estava ali bebendo com ele.

Severino de Irauçuba seria o primeiro cangaceiro gay do cinema brasileiro. Pouco antes de iniciarem as filmagens de Deus e o Diabo na terra do solstício, o diretor voltava à pé de um forró muito arretado e concebera o personagem no meio do caminho. Como de hábito, seus rompantes geniais é que eram o verdadeiro mapa por onde o filme trafegava. Ponderando sobre de onde afinal viera sua inspiração, a amnésia alcoólica foi passando, passando e ele lembrou-se que um cabra bem parecido, de pele queimada da cor de rapadura nova e de olhos verdes faiscantes como escamas de tilápia; aproxegara-se para ele no meio da tertúlia. Melhor deixar pra lá, pensou o diretor, e o abandonou o personagem. Assim, o diretor caminhou de volta para o set de filmagens, coçando a bunda sob o luar do sertão. Eita cena paidégua!

Cacildo Becker era um personagem seu autor. Ele vivia nos meios etéreos, apenas roçando a mente dos escritores mas sem nunca pousar. Quem mais perto chegou de materializá-lo foi o jovem Tolstoi, mas sua ressaca não durara tanto. Assim, Cacildo aparentemente estava condenado a não ser a opção viável de nenhum autor. Certa vez, num momento difícil para um escritor, Cacildo achou que chegara sua vez. O tão esforçado escriba precisava resolver um assassinato, e a única saída seria criar um assassino que surgisse do nada, caindo como um intruso na trama. A função desse personagem tapa-buraco seria tão somente ter apertado o gatilho no momento certo. Ele não fora mencionado antes em nenhuma parte do texto e sumiria misteriosamente instantes depois. Mas nem assim Cacildo teria sorte, pois o roteirista foi morto por um asteróide, que caíra em Hollywood no exato instante em que o escritor vislumbrava essa saída. Fica pra próxima, Cacildo.

1 Comments:

Anonymous ollie said...

Eu uso essa mesma idéia para organizar as caixinhas de chá.

Foto!

Tea-Junkie, esse é o meu sobrenome do meio.

3:31 PM  

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