sexta-feira, julho 20, 2007

Outra parte da cartilha que eu e o Olinto estamos fazendo pra FUNCEME. É absurdamente divertido fazer um trabalho como esse, apesar de - oh! - ser bem trabalhoso. Ao longo dos dias vou colocar mais páginas por aqui, como de praxe.


Fincados no chão

Certa vez, ao tentar passar por cima de uma corrente esticada, escorreguei e caí. Estatelado no chão, sujo e humilhado, tirei algumas conclusões sobre o fato e a vida, de um modo geral. A primeira: nunca tente fazer nada. A segunda: seria melhor se tivéssemos quatro patas.

Mas como conciliar nosso design vencedor com quatro patas? Animais quadrúpedes, em geral, não conseguiram ter o mesmo sucesso que nós, ao inventar uma civilização. Se bem que alguns deles, desconfio, encontraram na política seu habitat perfeito. Mesmo assim, a dúvida persiste. Como fazer a junção do design humano bípede com o do quadrúpede, mais estável e elegante?

Bem, centauros têm quatro patas, e um torso humano garante uma funcionalidade parecida com a nossa. Se existissem centauros, eles seriam mais equilibrados que nós, tolos bípedes implumes, além de mais sofisticados. Poderiam fazer tudo o que nós fazemos, só que melhor. Além das óbvias vantagens de se ter quatro patas, uma supera de longe qualquer outra: a abolição do uso de privadas domésticas. O mundo seria nosso banheiro, lavado pela chuva e perfumado naturalmente pelos ventos e odores do campo. Ah, a liberdade!

Não é a toa que os centauros eram os seres mais sábios que existiam, segundo a mitologia grega. No céu, são homenageados em duas constelações. Sagitário, é uma delas, que virou um dos signos do zodíaco. Aliás, zodíaco significa justamente isso: um mostruário de animais, bestas e feras, quase um zoológico sideral. A outra constelação é o enorme naco do céu conhecido apropriadamente como o Centauro, logo acima do Cruzeiro do Sul. No caso dessa última, acredita-se que seja dedicada a Quíron, célebre rei dos centauros, tutor de heróis como Aquiles e Jasão. Quem assistiu aos filmes do Ray Harryhause deve se lembrar do herói e dos argonautas, mesmo que canhestramente.

Trepar como cavalos também seria uma vantagem sensacional. As expressões potranca gostosa e ser bem dotado como um cavalo não mais seriam conotativas, mas sim, denotativas. Isso é que é um segundo grau bem feito! Sem falar na melhor expressão de todas: fulano age como um cavalo batizado. Agora essa expressão não seria mais restrita às metáforas. Reforçaríamos o piso das igrejas e colocaríamos coches nas pias batismais para que sim, os jovens potrinhos do futuro também recebessem o sacramento! O mundo seguiria em forte galope se fôssemos diferentes, mas por enquanto, tudo não passa de um sonho distante.

Estava aqui pensando (?) e notei que a antiga religião egípcia poderia voltar à tona, se virássemos híbridos com cavalos. O futuro equinus sapiens provavelmente adoraria os deuses antropomórficos , muito parecidos com ele mesmo, afinal de contas. Não sei se a religião já teve um deus com corpo humano e cabeça de cavalo, mas sem dúvida poderia ser criado um, facilmente. Seu nome? Seabisciut-Rá?

Dormir em pé seria outra vantagem. Ir com as unhas sujas àquele encontro também. Dar patadas nos torcedores rivais idem. A única desvantagem seria o espaço ocupado. Se fôssemos uma população de seis bilhões de centauros, haja pasto. Praticamente todas as florestas teriam sido derrubadas para plantar capim e aveia, sem dúvida. E os jogos olímpicos seriam muito entediantes: todas as competições teriam um quê de equitação - o esporte mais chato de todos, depois da marcha atlética.

Quer saber? Melhor que ter quatro patas seria se tivéssemos asas!

Além das óbvias vantagens de se ter asas, uma supera de longe qualquer outra: a abolição do uso de privadas domésticas. O mundo seria nosso banheiro, lavado pelas chuvas e perfumado naturalmente pelos ventos e odores dos campos. Ah, a liberdade!...