terça-feira, julho 17, 2007

Outra página da cartilha pra FUNCEME. Pouco a pouco vou desnudando meus personagens, na esperança que a mudança seja tão lenta e gradual que ninguém ligue. Na cartilha seguinte colocarei um nu frontal gratuito!

Mas vejam que o texto da cartilha não é nosso. Não gostei do teor digamos, elitista do texto, ao atribuir a favelização das cidades à imigração dos flagelados. Como se as próprias cidades, orgulhosas, não fossem capaz de gerar seus pobres! Mas seguimos ordens....


Compêndio dissertativo sobre a filosofia de banheiro

É comum vermos rabiscos espirituosos que decoram os banheiros de nossas rodoviárias, escolas e escritórios. Curiosa forma de mídia, esses ditos populares alcançam público seleto e por que não dizer cativo, já que na solidão do recinto, o usuário nada pode fazer para passar o tempo a não ser pensar bobagens ou ler o que está rabiscado nas divisórias. Ao contrário dos ditos em parachoques de caminhão, verdadeiros out-doors ambulantes, os adágios de banheiro requerem comedimento e solidão para serem apreciados.

Tempo é o que o leitor mais tem quando está na incômoda situação, daí, o sucesso imediato das frases. Ajuda o fato que as sentenças são geralmente curtas, grudando na memória como um post-it de fórmica. E mais: com tanto tempo disponível, a reflexão sobre a frase pode ser degustada em sutis mudanças tonais, permitindo novas interpretações, variantes meta-linguísticas e abordagens originais. A única outra forma literária, com a qual dedicamos tanto tempo e íntima concentração para interpretá-la são as orações.

Assim, capturei três frases em banheiros públicos, e dediquei-me a dissecá-las com uma visão desapaixonada. Analisando logicamente suas motivações, espero entender a mente do proto-literato que a criou e assim, entender a quem se destina. Aqui estão.


A julgar pela frase, os torcedores do time alvinegro cearense passam o tempo todo em joguetes pederásticos. Não é possível corroborar essa afirmação, pois em geral as práticas sexuais são executadas na privacidade das alcovas, estando assim, impossibilitadas de classificação generalistas quanto ao seu gênero. No mais, se tais práticas fossem postas a termo ao ar livre, numa arquibancada, envolvendo milhares de pessoas, poderiam causar uma trepidação indesejada que poria o estádio abaixo. Coisa que ainda não aconteceu. Além disso, a homossexualidade não é exclusiva de certas agremiações de torcedores. Em geral, ela está proporcionalmente distribuída em todas as classes e profissões, salvo cabeleireiros, carnavalescos e biólogos marinhos, cuja disparidade é flagrante.

Como cu não tem acento, a única coisa que se pode concluir corretamente sobre a assertiva é que, por contraste, os torcedores do Fortaleza - time rival -, são burros.


Primeiramente, é preciso qualificar o que seja nada. Nada no sentido de vácuo moral ou nada no sentido de não-existência? Outras religiões que não têm Jesus como mestre também exibem códigos de conduta e moral elevadíssimos, além é claro, de seus seguidores existirem fisicamente. Assim, essa primeira abordagem está refutada.

Quando à segunda parte do poema, se me permitem chamá-lo assim, também não pode ser alicerçada na verdade. Segundo a mitologia cristã, Deus criou o homem única e exclusivamente para adorá-lo. Assim, Deus só passou a ter esse título, digamos assim, depois de criar alguém que o chamasse por tal. Se o homem não existisse, Deus não seria um deus. Da mesma forma, não existe um artista, digno desse nome, sem uma obra de arte para chamar de sua. Como chamar de pintor alguém que não pinta, só diz que pinta? Uma obra de arte só existe enquanto realidade física, e não por estar esboçada na cabeça de alguém.

O autor da frase poderia dizer, se tivesse erudição para tanto, que Deus e o homem fazem um todo uno, como que um simbionte cujas duas metades fossem auto excludentes. Também não é assim. Segundo mostram as evidências, Deus não se manifesta diretamente ao homem desde a época do Velho Testamento, e sua influência atual é nula ou próxima de zero. Para efeitos práticos, o homem está abandonado à própria sorte. Nesse sentido, Deus é irrelevante, e o homem pode continuar a ser o homem, sem a vigília de Deus, mas não o contrário.

A frase encerra, suponho, uma irônica inversão de intenção.

Como a frase em questão se refere a Jesus, e segundo a mitologia cristã, Jesus está fundido numa trindade com Deus e o Espírito santo, a lógica aplicada a um serve ao outro.


As pinturas nas cavernas foram feitas, primeiramente, com impressões dos dedos e das mãos, como as crianças fazem ao brincar com tintas na pré escola.

Uma das formas de se verificar a autenticidade de quadros é procurar pelas digitais do artista, espalhadas pela pintura. Na ânsia de buscar um efeito, muitas vezes um pintor faz usos dos dedos para misturar os tons, buscando a agilidade que um pincel eventualmente não teria. Então sim, o dedo pode ser usado como pincel.

E quanto à merda? O colóide fruto da digestão humana tem as propriedades da tinta? Aparentemente, sim. Tecidos como fraldas de pano e cuecas, se postas em contato com as fezes, podem absorver seus fluidos e impregnar a superfície com sua cor e viscosidade. Isso se encaixa perfeitamente na definição de tinta. O outro pré requisito para que uma coisa seja classificada como tinta é a durabilidade da impressão. Uma tinta deve ser capaz de preservar suas características mesmo se postas a lavar com abrasivos leves. Bem, os papais e mamães sabem que se uma fralda não for posta para lavar imediatamente depois de suja, nunca mais ela terá aquela cor tão branquinha. Assim, a primeira e a segunda estrofe estão demolidas.

Só a terceira estrofe contém uma súplica verdadeira, onde o autor, claramente desesperado, procura algo com quê se limpar. Ele mesmo insinua, segundo minha interpretação, o uso das próprias mãos para a tarefa. A princípio, renega a própria sugestão, e evoca o meio civilizado e corrente de se livrar dos dejetos, ou seja, com o uso do papel.

Apesar do fervor sanitarista, o autor não especifica que tipo de papel pode ser usado. A meu ver, uma falha grave, que deixa a porta aberta para interpretações bruscas. No entanto, suponho que o leitor saiba, instintivamente, que papel de enrolar pão, papel higiênico e papel de jornal têm tessituras e densidades diferentes, sendo mais adequados ou não para a delicada tarefa.

Aqui vai um elogio sem reservas à frase. Segundo meus estudos, a razão do autor ter dedicado seu tempo à escrevê-la foi o puro altruísmo. Ele estava, na verdade, dando um alerta para que o leitor, antes de começar os procedimentos, verifique se no abastecedor de papel há quantidade suficiente para suprir a demanda.

Caso contrário, não há lógica que resista.

6 Comments:

Anonymous ollie said...

Além disso, a homossexualidade não é exclusiva de certas agremiações de torcedores.

Verdade. Mas é fato que, ainda assim, concentra-se em maior ou menor escala em certos grupos, ainda que por razões circunstanciais, culturais ou históricas. Esse é o caso dos torcedores do Ceará, o que corretamente atestou o autor da frase.

É também de conhecimento geral, por exemplo, que o estádio Olímpico Monumental, em jogos importantes do Grêmio de Futebol Porto Alegrense, recebe público de 94.000 pagantes: 47 mil sentados, e outros 47 mil no colo destes.

11:03 AM  
Blogger 優次 (Yuji) said...

Me deparo com frases desse tipo todo dia, cada vez que entro no banheiro do cursinho... Isso quando não fazem algum tipo de arte moderna pintura rupestre nas paredes da cabine :O

BTW, totalmente off-topic, mas... vc fala Tagalog? O_o

12:38 PM  
Anonymous ollie said...

Tagalog? Hindî. Marunong ka bang magsalitâ ng portuggés?

7:40 PM  
Blogger 優次 (Yuji) said...

Este comentário foi removido pelo autor.

9:32 AM  
Blogger 優次 (Yuji) said...

magselos ako..
matutong Tagalog ang nais ko rin pero mahirap na follow ang "Teach Yourself Tagalog" x_x
kaya magbili ng "Learn Filipino: Book One & Two"
may suggestion ng self-study books?
ah, chega, num dá hahah

9:36 AM  
Blogger Hemeterio said...

Yuji,

Eu não falo tagalore, sou um imprestável monoglota. Esse papo de tagalore foi uma brincadeira minha e do Ota, rerere.

Beijo, se for uma menina, e um tapão na orelha, se for macho.

1:32 PM  

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