sexta-feira, julho 27, 2007

Que tal o fusquete da pulíça? Incrível como a barriga dos policiais cabia entre o volante grandão e o banco. E ainda tinha espaço pra escopeta. Proezas.


Paraíso Perdido

Com exclusividade, trechos do diário do professor David Longfart, escritos quando de sua expedição aos confins do Continente Perdido. Infelizmente, o professor está desaparecido e tudo que foi possível recuperar de seus pertences foi esse diário e um sarongue de praia. A Universidade de Woolwich pretende publicar o trabalho na íntegra, e entregar as partes picantes pro Robert Crumb ilustrar. Vai vender como ecstasy, na minha opinião. Aos enxertos:

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Primeiro contato com os nativos. Ergui a mão em sinal de saudação. Um pequeno grupo apareceu por entre as folhagens e aproximou-se devagar. O mais corajoso chegou bem perto e estendeu-me a mão. Infelizmente, o nativo aproveitou e roubou meu relógio. Era uma relíquia que papai me dera, fiquei possesso de raiva, mas há de se respeitar as diferenças culturais. Pelo menos escapei com vida.

Os guias me abandonaram, logo que cruzamos os limites da selva. Supersticiosos, diziam que os selvagens arrancariam nosso couro para ornar o templo seu deus. Bobagens. A única tosquia que sofri veio da parte dos guias, que me cobraram as diárias adiantadas e me largaram na floresta. Ao pegar minhas tralhas para seguir viagem, percebi que os carregadores se dirigiram, cantarolantes, a um boteco próximo. Bem que me disseram pra não pagar esses tratantes numa sexta feira. Resultado: embriaguez mórbida e falta no sábado.

Sozinho, consegui chegar à grande taba perdida, encravada entre o mar e a montanha. Grandes picadas na mata indicavam o caminho. No que pareciam ser os subúrbios da grande cidade, avistei feiras que vendiam de tudo, desde frutas exóticas até simpáticas peças de artesanato em palha. Noutra barraca, não pude deixar de notar um nativo sorridente que vendia bugigangas. Com surpresa, achei meu relógio, que recomprei por vinte libras.

Os nativos não tinham um alfabeto padronizado, pelo que pude perceber. Todos eles omitiam o plural das palavras e a maioria inventava outras que não existiam, de acordo com o rudimentar dicionário que pude compilar. Na língua deles, a palavra, Gûambo - uma desinência quantitativa -, era constantemente falada como sendo Gûamba, o que equivaleria, em nossa língua, a dizer menas o tempo todo. Enquanto lidava com essas questões, pivetes roubaram meu dicionário.

Desisti de tentar entender os nativos. Resolvi me passar por um deles para assimilar sua cultura, e dessa forma, minimizar os efeitos que minha própria interferência poderia causar em seu meio de vida - e por conseqüência afetar meu julgamento. Informado por populares, descobri que a melhor maneira de me fazer passar por um deles seria através de um casamento ritual.

Fui apresentada à minha noiva, chamada de Tuaranga-ibê, nome que em sua cultura significa mais ou menos pernas esculpidas num torno, ou algo assim. Não entendi muito bem.

Aluguei uma cabana à beira-mar e vivo com minha esposa e um pequeno séquito de ajudantes submissas, chamadas de Konku-binas, mas não achei uma tradução eficiente para o significado da palavra. Pouco a pouco, porém, fui deixando a antropologia de lado. Para passar o tempo, montei uma palhoça onde instalei um alambique para fabricar rum. Na língua local eles chamaram a construção de pub. Gostei.

Estou bronzeado como um mouro. Meus dois filhos, David Junior e Peter Longdick são os dois jovens mais formosos da aldeia, e prevejo netos para breve. Acho que vou mandar os dois pra Londres, não sei. Será que ainda tenho aquela cátedra na universidade? Se eu não estivesse tão gordo quanto Marlon Brando talvez me levantasse dessa rede e fosse falar com eles, mas cadê a coragem?