segunda-feira, setembro 24, 2007

Filmes do fim de semana


Adorei gastar minha erudição, fazendo críticas rasteiras dos filmes que vi no fim de semana. Como sei que vocês são tímidos demais para pedir um repeteco, resolvi me adiantar à demanda e repetir a dose. Assim, exercito meus dois prazeres: ver aumentar as visitas ao blog e meter minha colher de pau no angu dos outros. Aqui estão.

Matrix Revolutions
O primeiro Matrix, de 1999, é perfeito e autocontido. Ao final do filme, quando o Neo alça vôo da cabine telefônica, a gente sabe que ele virou um fodão e vai derrotar as máquinas e tal. Bom, mas aí o filme foi um sucesso estrondoso, e a carne é fraca. Como podemos ordenhar essa porca até a exaustão? Simples, faremos uma trilogia confusa e desnecessária, e encheremos as burras de dinheiro. Aplausos, assovios, urras!
Imagine que a Mona Lisa tenha feito tanto sucesso que Leonardo, precisando comprar mais paetês e maquiagem, tenha aceitado fazer mais três versões do quadro. Uma das cópias retrata a bela senhora de Florença em roupagens de noite e a última e esperada versão, mostra a musa do Renascimento em trajes de praia, ou seja, basicamente vestida com uma burca. Ridículo, não? A multiplicidade de obras diluiria o impacto da pintura. No nosso caso, a incapacidade dos produtores de Hollywood em reconhecer uma obra-prima - e deixá-la em paz - é sufocante. Impressionante como ET não ganhou seqüências, não? Que tal esse argumento para um novo filme? ET vai embora, mas, arrependido, volta para morar com Elliot. Como a nave funciona com velocidades relativísticas, ao retornar, horas depois, já se passaram vinte anos na Terra. O outrora garotinho é hoje um traveco do Baixo Gávea. ET estranha mas embarca na onda do rapaz e ora vejam, os clientes gostam mais dele! Vou encomendar meu tuxedo!
Obviamente Matrix III é legalzão, mas é tudo o que posso dizer dele. Entrete, apenas.

Kill Her Ass
Produção obscura com musas questionáveis, apesar das cenas fortes. Pelo menos, o filme entrega tudo que o título promete. Que mais? Muitas cenas ATM - Ass To Mouth - e closes que ninguém deveria ver se a protagonista não está com tudo em cima. Uma bobagem, quase um trash feito em casa.

O Dia Em Que A Terra Parou
Obra-prima de ficção científica, provavelmente o melhor filme do gênero já feito. Talvez perca por pontos para 2001, já que sou fã do HAL9000. O filme é sóbrio e elegante, e os efeitos especiais são espetaculares - note que estamos falando de 1951 - e ainda hoje são honestos e bem feitos. Acabei de me tocar que tenho tanto a falar sobre esse filme que poderia encher vinte laudas. Portanto, vou me limitar a descrever algumas tomadas para que vocês tenham uma idéia da impactualidade da obra.
Bom, os controles da nave de Klaatu e seu robozão de estimação, Gort, são acionados por gestos. O painel de controle, curvo e de acrílico transparente - então um material novo e revolucionário - é perturbadoramente parecido com a mesa de edição do filme Minority Report. Tão parecido que aposto que o diretor de 1941 fez uma homenagem e uma referência ao filme de Robert Wise, o que melhorou meu conceito sobre esse filme bobão do Spielberg.
Quando as notícias sobre um OVNI são difundidas pelas rádios, as pessoas se aglomeram em frente aos receptores, concentradas e preocupadas, em poses igualmente parecidas com as usadas no blockbuster Independence Day. Outra vez, uma referência a um filme que a gente nem pode imaginar o quanto deve ter pirado as cabeças dos jovens nerds dos anos 50.
A elegância e a nobreza do alienígena pacifista Klaatu, sem dúvida, serviram de inspiração para outro ser esquisitão genial: Mr. Spock. Até o tipo físico de ambos, franzinos e esguios, corrobora minha teoria. E se a gente olhar com atenção, a nave de ODEQATP é parecidíssima com a Entreprise emborcada, vejam:


Outro bom filme de ficção, Guerra dos Mundos, apresenta alienígenas malvados. ODEQATP apresenta visitantes bondosos, mas assim como nós, sua tecnologia poderia fugir do controle a destruir a Terra, como quase fez o Gort. E outros dois clássicos, Contatos Imediatos e em ET, nós é que somos os vilões. Estamos chegando lá.

Quem Matou O Carro Elétrico?
Um documentário esclarecedor sobre como as grandes corporações, aliadas ao governo e ao público jeca, soterram uma idéia maravilhosa. Aliás, que idéia que nada! O Carro existiu, foi produzido pela gigante GM no longínquo 1996! Procurem no Google, please: EV1, e chorem de raiva. O carro era eficiente e promissor, mesmo quando seu único pequeno problema, a autonomia das baterias - limitadas a apenas 100Km por dia! - colocava em dúvidas sua performance. Mas esse problema seria resolvido com folga pelas baterias modernas de hoje. Uma pena, uma pena.
Impossível não traçar um paralelo com outro filme, no caso, Tucker: The Man and His Dream, de Francis Ford Coppola. As boas idéias introduzidas no carro pelo empresário Preston Tucker foram ignoradas e depois, sabotadas sistematicamente pelas montadoras americanas e seus sequazes no governo. Depois de falirem o cara e difamarem seu nome, oh! Surpresa! Adotaram as mesmas idéias que ele lançara. Essas idéias estão em voga até hoje, como o cinto de segurança e peças de alumínio para reduzir o peso do carro.
Pessoalmente, acho que o futuro é elétrico. Sem essa de bobagens como híbridos a hidrogênio e etanol. Mas tenho maturidade o suficiente para perceber que nenhuma revolução acontecerá enquanto ainda houver 100 trilhões de dólares em jogo com a indústria do petróleo. Essa é uma das conclusões do filme, por sinal. Ou todo mundo ganha, ou você está fora do negócio.
Esse é o problema com as novas verdades. Há um trecho sensacional dos Irmãos Karamazóvi que descreve, simplesmente, a segunda vinda de Jesus. O trecho chama-se O Grande Inquisidor. Jesus volta à Terra mas vai cair na Sevilha de 1600, no auge da Inquisição. Depois de fazer o que sempre fez, ou seja, curar as pessoas e espalhar a bondade, ele é preso por ordem do Inquisidor da cidade. Na cadeia, o sujeito passa-lhe uma senhora descompostura, dizendo, basicamente, que depois de 2000 anos abandonada à própria sorte, a religião agora pertencia à Igreja Católica, que cresceu sob sua inspiração, mas sem sua presença. Não é seu direito acrescentar nenhuma palavra ao que já havia dito antes, fala o Inquisidor.
Teço esse paralelo com o filme pois a adoção de um carro elétrico provocaria pânico nas indústrias de petróleo e nas montadoras que ficassem para trás, além de fazer ruir os governos apoiados por elas. Nem os faraós continuaram no poder depois de mexer com seus burocratas - os sacerdotes e escribas. Mundo idiota.

A Delicada Sem Controle
A Private e a Vivid são as melhores produtoras pornôs da Europa. A mulher mais feia que já apareceu num filme da Private poderia ser miss Ceará, e agora não sei se isso soou como um elogio ou não. Ok, poderia ser Rainha da Uva de Caxias do Sul , vá lá.
Apesar da estranha tradução do título, que mais parece o nome de uma pornochanchada brasileira, o filme é muito bom. Trata-se de uma coletânea de cenas da atriz Claudia Jamesson, uma beldade de apenas 24 anos que acabou de se aposentar. Ela mesma apresenta as cenas, inclusive a primeira delas, aos 18 aninhos, em que contracena com um tremendo negão - e mostra a que veio.
As performances são sensacionais, mas o clima é cortado nos intervalos, justamente quando a atriz aparece em pequenas entrevistas. Ela assume um ar blasé e indiferente, como se estivesse mais constrangida falando sobre o assunto que atuando. Como ela já estava aposentada quando gravou o caça-níqueis, parece que está a todo custo tentando esquecer o passado, como faz de vez em quando uma conhecida loura aqui do Brasil.
Recomendo o filme, apesar (ou justamente por causa) do ar de culpa que ela assume. Claudia revela que deixou a indústria porque arranjou um namorado. Mulher é mesmo um bicho complicado, que coisa, não se pode dar umazinha sem grilos?

2 Comments:

Anonymous ollie said...

"Pessoalmente, acho que o futuro é elétrico. Sem essa de bobagens como híbridos a hidrogênio e etanol. (...)"

Não, bobagem é isso aí que você disse. E essa energia elétrica vem de onde? Metade do mundo civilizado usa usinas termoelétricas que gastam combustíveis sólidos do mesmo jeito. É trocar um problema pelo outro.

Nossos carros atualmente movem-se com geração de energia dentro deles, com a queima do combustível, agora considere a nossa estrutura elétrica e veja se é possível alternar essa demanda de energia para a rede? Mesmo com um processo gradual de transição, a rede elétrica vai precisar crescer muito, mas muito mesmo, e essa energia vai ter que vir de algum lugar. Qual? Enquanto você não souber responder essa pergunta, não venha falar de carros 100% elétricos ou descartar as células de hidrogênio e o uso do etanol, do corn stalk, wheat grass, biomassa, oléo de mamona, etc etc etc.

O problema é reduzir a emissão de poluentes, mas criar uma forma sustentável de geração de energia combustível. O carro totalmente elétrico é uma boa idéia no papel, mas infelizmente ainda é inviável. Por causa da energia, não por causa do carro, como o documentário mostra. A tecnologia há, apesar dos interesses politicos e econômicos contrários.

Não podemos esquecer que estamos à mercê de uma indústria do petróleo viciada e detentora do status quo, que sentou-se confortavelmente sobre uma tecnologia centenária e obsoleta (o motor de combustão interna), e nos mantém reféns, tolhendo as alternativas concorrentes ao seu modelo de negócios. Eles são a Microsoft da produção energética. "Pra que inovar, se todos dependem de nós, mesmo?"

Para se livrar dessas garras opressoras, só alternativas inteligentes, ou gritar Klaatu barada nikto.

6:01 AM  
Anonymous Anônimo said...

Textos excelentes, prendo-me à boa e saudável putaria... Resenhas deliciosas, embora não tenha visto vc resenhar um filme do Buttman!

Falar em Buttman, por onde anda o "Bagman" e suas pérolas? Por uma estranha coincidência, sempre que ele aparece, vc não está... Inclusive, ele até se parece um pouquinho com... Não! que bobagem, lógico que não, deixa para lá!

Abração H! Continue sempre assim!
att
Clever

5:22 PM  

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