quarta-feira, setembro 05, 2007

Pedacinho da cartilha sobre poluição hídrica: quando a doença não vem à galope, ela vem de barco.


Família
Tudo o que sou e tudo o que tenho devo à minha famíla. Evidentemente que esse convívio harmonioso tem seu preço. Um dos segredos do nosso pequeno núcleo familiar é a quantidade limitada de indivíduos. Estipulamos há muito que o número ideal de pessoas tem que ser constante, para que não haja muitos conflitos. Somos dez ao todo, mas com a chegada do meu sobrinho, o número passou a ser de onze almas. Isso poderia por em risco nossa estabilidade. Em comum acordo, resolvemos dar fim no gato.
Outro forte de minha família é o silêncio. Todos falam muito baixo. Desconfio que isso seja uma notável forma de cortesia para com minha irmã, que vive acorrentada no porão. Assim, à mesa do jantar, a gente pode ouvir seus gritos ao longe e fingir, mesmo que por instantes, que ela participa das conversas. Falando na minha irmã, ela acabou de completar 30 anos! Tirando os vinte que passou entrando e saindo de manicômios, sua existência tem sido para nós um suave fardo de chumbo. Mas amor é amor.
E o que dizer de meu pai? Admirável trabalhador, honesto e probo, alcançou certa notoriedade no ramo imobiliário, ao tentar se apossar dos quartos da empregada. Nunca bebeu demais, e seus inocentes pilequinhos eram a alegria dos soldados da Defesa Civil. Durante a fase mais complicada pela qual passamos, sua figura totêmica era o pilar onde amarrávamos nosso burro - que aliás, morreu de fome, com a corda no pescoço.
Duvido que outras famílias tenham os irmãos que eu tenho. Um deles trabalha com construção civil. Seu maior feito foi quase ter escapado do presídio, no túnel que ele mesmo construíra. O outro é economista, e é refrência nacional em malversação de verbas públicas. Ambos tentaram a política, mas foram considerados over-qualificados pelo Comando Vermelho, e não foram aceitos. Hoje dedicam-se a pequeno golpes contra a Santa Casa.
Minha mãe e minha tia sempre foram trabalhadoras autônomas, e de um pequeno empreendimento familiar, sustentaram toda a casa. Se não me engano, o negócio tinha a ver com fruticultura. Eu era muito pequeno, mas lembro papai falando que mamãe estava pondo as manguinhas de fora, referindo-se obviamente ao cultivo de um pomar, ou algo assim. O fato é que dinheiro nunca faltou. Pelo contrário: Mamãe e titia sempre traziam pra casa rublos, dólares, pesos, rupias, marcos e até mesmo ienes. Parecia até que elas viviam metidas com uma pequena ONU, não é gozado?
E quanto a mim? Bem, a modéstia me impede de falar, mas sou respeitado no meio musical da cidade. Trabalho com produção de som e vídeo, geralmente ao ar livre, fazendo pequenas intervenções em praças e logradouros. Recentemente, fiz uma exibição na praça da Lagoinha, à qual tive a honra da receber a excelsa vista da Polícia Federal - que aproveitando a viagem, levou todos os meus DVDs. Pelo menos assinaram o livro de presença com seus cassetetes: agora minhas costas valem uma fortuna! Alguém conhece um bom advogado?