terça-feira, outubro 02, 2007

Desenho para uma apresentação. Todos sorridentes, corados e felizes. Sei...


Terral 2
Nêgo Sinhô era um hômi grande, cumedorzin de mulé da raça fême. Um dia eu fui com Nêgo Sinhô prum chatô, pois tinha nutíça dumas quenga nova chegada do Paraná. Nêgo Sinhô tinha umas mãozona, pegou logo foi quatro galega pelos quartos e levou elas prus tapume, adetrás do bar. A gente só ovia era os gritos das dama. Eita Nêgo Sinhô!
Ôtro dia pela noite Nêgo Sinhô tava na burracharia. Nêgo Sinhô consertava pineu, roda e aro, ele intendia dessas côsa redonda. Aí chegou uma dona num carrão desses brioso. Ela vinha querendo que Nêgo Sinhô visse a rodinha da trasêra dela. Vinha não, ela sabia era da fama de Nêgo Sinhô e queria vim dá p´rele. E pois num deu foi muito? Ela saiu de menhã, toda lambuzada de gracha e de Nêgo Sinhô. Nêgo Sinhô era tabaiadô, mas se as fême rica dava cobre p´rele ele queria. Tu num queria não?
Nêgo Sinhô também derrubava umas neguinha no areal, só por gosto. Elas tudo ficava mêi agradecida, mêi tonta, Nêgo Sinhô tinha uma ruma de namorada. Nunca vi mulé com raiva dele não. Nas noite de lua eu, Nêgo Sinhô e Professor ia tocar no quintal de Mãe Zélia, lá no Arraial Moura Brasil. Gozado era que as cabôca que baixava só vinha se esfregar era em Nêgo Sinhô. Eu ficava mêi cum raiva, mas tinha vantage de sê amigo de Nêgo Sinhô. Nem ele dava conta de tanta cunhã, intão, sobrava umas pra mim. Eu cumia bem, num vô minti. Agradeço a Nêgo Sinhô.
Nêgo Sinhô tinha um bigodão. Uma vêiz a gente tava bebendo e Nêgo Sinhô foi mijá. Ele demora e demora, quando vem, vem todo faceiro. Eu fiz troça dele. Nêgo Sinhô, esse teu bigodão tá com cheiro de buça! E num tava mesmo? Já viro um nêgo ficá vermêi? Pois Nêgo Sinhô ficô vermêi da cor da jangada de Mestre Pedin. As mulé não dava folga p´rele nem quando ele vai mijá, cês acredita?
Chibungo também dava em cima dele, mas Nêgo Sinhô não gostava de rabicho de perôbo. Os viado então ficava amigo dele, só pra tá por perto, sabe? Nêgo Sinhô deixava prá lá, o nêgo se garantia.
Uma vêiz Nêgo Sinhô apareceu todo cheiroso, de branco. A gente riu foi muito. Ele disse que tava encontrando uma dona das Aldeota, e ela ia passar pra pegar ele. Depois a dona chegou e fêiz sinal de luz, e Nêgo Sinhô foi com ela. Só voltaro trêiz dia depois, ela levou ele pra casa de praia da dona, foro trêiz dia meteno. Quando voltou, Nêgo Sinhô pagou uma roda de cana com piaba frita pra todo mundo! O nêgo tava quase se estribando, eu disse assim pra ele. Ele disse que é isso, hômi é que nem vassoura, sem o pau não presta pra nada! Pois tava certo!
Nêgo Sinhô nunca embuxou ninguém. Ele dizia que não podia ter menino, o que atiçava as dona, eu acho. Mas ele foi ficando calado, calado até que sumiu uns tempos, parece que foi pro Aracati. De lá, perdemo o rasto dele. Todos nóis fomo tocando a vida. Uns sumiu também. Uns morrero. Eu não fiz uma côsa nem ôta, casei. Tô chêi de neto mas ninguém pra cunversá, nem pra bebê. Aí eu lembro do meu amigo, onde ele tá? Será que alembra de nóis? Pois vou ficando por aqui, a vista tá embaçada e amenhã tem barai com os ôto véi na praça. Gosto de ficá lá vendo as menina. É uma boa vida.