terça-feira, outubro 09, 2007

O venerável tricolor carioca Thiago, mais conhecido por seu site Cara de Milho, propôs um desafio para este que vos fala: um reles tricolor fortalezense. Eu teria que encaixar três palavras sugeridas por ele num conto ou crônica, e desafiá-lo também com outras três, à minha escolha. Pois está aceito o desafio! Abajo segue meu contilho e em seguida, as três palavras pro Thiago fazer o texto dele. Que Deus proteja o mais ocioso de nós e o juízo dos nossos leitores!
Bueno, as palavras dele foram: carta suicida, mortadela e submarino.
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A vida como ela é, em Cuernavaca


Esta era pra ser uma longa carta suicida, mas como o trem sob o qual planejo me atirar chega em breve, terá que ser mesmo uma notinha suicida. Sabia que não deveria ter perdido tempo, colocando o cachecol e as luvas antes de sair de casa. Que diferença iria fazer, eu temia ficar doente? Mas como ia dizendo, quero esclarecer em detalhes os fatos que levaram a esse meu ato extremo, para que a mesma desgraça não aconteça com vocês. E se vier a acontecer, que pelo menos vocês guardem o telefone de um bom tintureiro.
Tudo aconteceu no verão passado. Eu acabara de concluir meu curso de taxidermia, mas só ao receber o diploma percebi que não iria dirigir um táxi. Bem que achei estranho todos aqueles cadáveres, mas podia ser um lembrete a favor da direção defensiva, não? Como não queria desperdiçar o dinheiro e o tempo empregados, coloquei um anúncio no jornal oferecendo meus serviços. No dia seguinte alguém ligou, e o pedido que ele fez não podia ser mais estranho.
Combinamos um encontro e foi assim que conheci Carlo Rota, dono de um famoso empório de secos e molhados. Ele vendia queijo, mortadela defumada, carne seca, vinho barato e órgãos humanos, e queria que eu embalsamasse uma vaca para que ele a usasse como logotipo do seu negócio. O pobre muar seria então colocado no topo de seu estabelecimento, como uma placa de taverna que indicasse a especialidade do local. Daí fomos a uma fazenda escolher a vítima, pois Carlo queria tudo pronto para a festa de São Sansão, padroeiro dos brutamontes.
As coisas começaram a dar errado quando Carlo comprou um engradado da cachaça Nocu, a caninha inócua. Nada mais falso! Como a viagem até a fazenda fosse longa, entornamos todo o engradado e chegamos completamente bêbados ao local. Na confusão que se seguiu, o que eu lembro é de termos pego o maior e mais malhado animal que víramos, amarramos o bicho e colocamos na caçamba da picape de Carlo. No meio da viagem de volta, resolvemos retalhar o ruminante e fazer um tira-gosto com suas partes, já que a pobre vaquinha malhada ia ser mesmo morta. Um dia a mais ou a menos não importava.
Pela manhã acordamos sóbrios, apesar da cabeça latejar de tanta pressão - como num batiscafo de submarino. Olhamos em volta e vimos a merda que fizéramos. Nós confundimos uma vaca malhada de 300Kg com a dona da fazenda, que pra seu azar, vestia um modelito xadrez que a fazia parecer deveras com uma simpática vaca holandesa. Eu bem que achei estranho uma vaca chamar por seu advogado. Bom, a questão é que esquartejamos a pobre senhora e não satisfeitos, ainda traçamos seu suculento lombo. E agora, o que fazer?
Fizemos um pacto de silêncio e abafamos tudo. Eu embalsamei a velha, disfarçando-a como uma vaca gorda, e a colocamos no topo da espelunca de Carlo. Ela já está lá há meses e ninguém notou. Mas a culpa corrói minha alma, e é por isso que aqui estou, nessa estação de trem. Planejo dar cabo de mim mesmo, como expiação pelo meu comportamento torpe. Vou ficando por aqui, pois já posso ouvir o trem apitando. Adeus, mundo cruel! Mas me precipitei, não é o trem que chega, é a carrocinha de churros. Hum... que fome. Vou comer alguma coisa enquanto espero o trem das onze.
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E aqui, as palavras pro Thiago fazer o texto dele! Las escolhidas são: carta-bomba, toucinho e Concorde.