sexta-feira, abril 27, 2007

Trinta anos passam rápido. Recebi essas fotos que mostram minha velha Fortaleza nos anos 70 e agora, recentemente. As fotos são de cartões postais vagabundos, mas dá pra ter uma idéia da mudança.

Ainda temos problemas crônicos, como corpos espalhados pelas ruas, crianças portando peixeiras e uma epidemia de bandas de forró. Mas com os diabos, algumas coisas vão bem.




Across the Universe


Meu amigo Edge é o primeiro cidadão do mundo que eu conheci. Cearense, e por isso mesmo, destinado a ser um globetrotter, ele já trabalhou em todos os cantos da Terra, menos, que eu saiba, nos polos. Mas se precisassem de um programa para monitorar a migração das baleias azuis, não duvido que ele toparia passar o inverno no continente branco.

Atualmente, o cara está em Cingapura, moderna cidade-estado no entroncamento do mundo. De lá ele administra o sensacional www.superedge.com, onde discorre sobre a vida, o Universo e tudo mais, além do seu cotidiano e de sua famíla na Ásia. O site virou referência e embaixada informal pros brasileiros que se dirigem pra lá. Eu cobraria 10% dessa corja!

Recentemente, o Edge desabafou conosco sobre esse novo êxodo de brasileiros. Conversando com três amigos via msn, todos eles usaram a expressão: quem pode tá indo embora, praticamente ao mesmo tempo, sem saber que os outros estavam on-line conversando com ele. Detalhe: todos os quatro já estavam trabalhando no exterior.

O Edge falou: será esse o futuro do Brasil? A que ponto chegou nossa fé no futuro da nação, hein? Seu professor de OSPB deve estar triste.

Abaixo, segue a resposta que eu dei, que foi mais ou menos assim:

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Eu defendo o inalienável direito à felicidade, seja aqui, ou alhures, seja por um brasileiro ou um - coitado! - paraibano, para qualquer parte do mundo que queiram ir. É claro que eu gostaria que o Ceará e o Brasil fossem um celeiro de cérebros, pois cada bom amigo e profissional que se vai o Estado fica mais burro, e assim nós não vamos pra frente não. Sem falar que restringe ainda mais minha possibilidade de bons papos, hoje restrita ao porteiro do prédio e ao trocador do Paranjana.

Foi migrando que o diabo dessa espécie humana povoou a Terra. Buscando pastos ou pomares maiores, enfim, atrás de uma vida melhor, é que estamos por aí. E por ali também. E acolá, veja! Vários países devem sua prosperidade à vinda de imigrantes especializados. Vale lembrar que os EUA não seriam essa pujança nuclear toda sem o pega-pra-capar entre os cientistas alemães, que acabou levando centenas deles pra trabalharem em subterrâneos secretos. E o que seria da polícia de NY sem os irlandeses? Polícia essa que por muito tempo, esteve ocupada caçando os italianos, veja como o ciclo se autoalimenta.

E tem mais, acho que viajar nos torna menos preconceituosos e mais tolerantes com as diferenças. A velha Alexandria ou mesmo Bagdá deviam sua prosperidade ao seu cosmopolitanismo e ao seu anti-xenofobismo. Essencialmente centros comercias, elas dependiam do livre trânsito de pessoas, idéias e mercadorias para que a cidade se tornasse viva. Quando isso acabou, foi a decadência. Nova York é o que é por causa do seu caldo cultural vastíssimo. Se a cidade fosse forçada a fechar seus portos ao estrangeiro, ela viraria o quê? Uma Havana temperada?

Não acho que nós decepcionamos nosso professor de OSPB, pois se duvidar, ele continua no mesmo cargo e no mesmo colégio d´antanho e teria muito orgulho - pra não dizer outra coisa - ; da gente.

Mas relax, cada nação tem sua hora. O Brasil, sem dúvida, será um grande país, nem que seja só a 24h do Apocalipse.

quarta-feira, abril 25, 2007

Tirinha encomendada aqui pelo chefe, não tenho a mínima idéia para qual fim maligno ela se destina, mas certamente deve ser pra sacanear alguém. Uma piada interna corporativa...



Otimismo pujante


Praga estava infestada de insetos naquela época do ano. As ruas eram uma só poça estagnada de mijo de prostitutas e vodka barata. O lixo acumulado era tanto que a capital, normalmente plana, rivalizava com Roma no número de colinas. Era a única cidade da Europa que tinha uma rua com o nome de Varíola e um playground chamado Gólgota.

Metade dos moradores da cidade prefeririam estar mortos, e a outra metade, queria pegar lepra para amenizar as dores. Só um habitante desse miserável vale de lágrimas parecia não se importar. Era F. Kafka, dono de uma pequena firma de dedetização. Certa vez, Kafka acordou e percebeu-se transformado num imenso... burguês! Aparentemente, não faltavam baratas em Praga e seus negócios iam muito bem. Comprou uma passagem de trem para Paris e nunca mais ouviu-se falar dele.

Os pomares foram dizimados pelo gás metano oriundo da decomposição dos fazendeiros. O comércio era na base do escambo: você me dá o que está segurando e eu solto seu pescoço. As estradas eram tão precárias que os corpos das mulas serviam para tapar os buracos. Ladeando as vias, a situação deteriorava-se cada vez mais. Primeiro, as margens foram ocupadas por antigos trigais. Depois, foram substituídos por cassinos. Depois, por depósitos de minas terrestres. Mais tarde, por empórios controlados pelos turcos e finalmente, ocupadas por creches administradas pelo governo.

Não havia água potável e uma greve dos oleiros acabara com os potes também. O ar era tão poluído que os poucos ricaços iam à Cidade do México para respirar um pouco de ar puro. A única fonte de renda de Praga era vender espaços nas praças públicas para o lixo radioativo que vinha da Polônia. A marginalidade tomara o poder, e o devolvera à população, enojados.

Mas nem tudo era caos, morte, podridão e shows de mímica. Lá longe, no horizonte, emoldurado pelo nascer do sol, era possível divisar claramente a mudança da estação: vários tanques soviéticos anunciavam a primavera.

sexta-feira, abril 20, 2007

Moedas e moendas



Finalmente, vendi a moeda de 50 centavos cujas faces estavam lisas. Quem comprou foi a DPL Numismática, que deu 50 reais pela peça. Nada mal, não?

http://www.dplnumismatica.com.br

Obviamente, daqui a alguns dias, devo achar no site deles a mesma moeda oferecida por 1000 reais. Mas se tal coisa se concretizar, não aceito a pecha de otário, que como bem sabe o bom Deus, me cai tão bem na maioria das vezes. O fato é que passei uns e-mails pra pelo menos quatro sites de colecionadores e ninguém respondeu, a não ser o pessoal do Rio. Então, azar dos outros.

Quis provocar uma pequena concorrência, criando uma espécie de leilão pela minha moeda. Ninguém apareceu, aí vendi pela oferta única. Falei até com o pessoal do Banco Central, que delicadamente, disse que eu fosse pastar e que lá não era uma barraca de feira pra fazerem meus mandados não. No caso, perguntei se eles avaliariam minha moeda e se poderiam me dar alguma dica. Tá certo, tá certo, eu faria o mesmo.

Bom, agora já era.

Ah, eu tenho aqui comigo uma moeda de 1 real raríssima, toda manchada com minhas impressões digitais. Quem dá 2 reais por ela?

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E já que hoje é sexta, deixo aqui o registro da dica do amigo Michel, que descobriu num site doido aí que se eu fosse muçulmano, meu novo nome seria Hajamé. Gostei, apesar de ter que beber escondido pra não irritar o mulá.

quarta-feira, abril 18, 2007

Uma visão pragmática



Vocês sabem qual a diferença entre um artista e um artesão?

Não? Nem eu, mas tenho algumas diretrizes. O artista, teoricamente, produz artefatos inúteis, como peças de decoração ou imagens conceituais na forma de quadros e esculturas. Já o artesão, confecciona objetos que podem ser utensílios de uso cotidiano, como potes, bonecas, pratos, talheres e samburás. Na verdade, quem dá a distinção entre um e outro é o público comprador. Estranhamente, dá-se mais valor à arte pela arte ( pura baboseira! ) do que à arte como manufatura.

Esse conceito, como eloqüêntemente coloquei, é uma bobagem. Enterre um simples garfo de cozinha da Tramontina por mil anos e depois de redescoberto, ele será exibido no Museu Britânico. O Picasso criava pratos de cozinha em sua olaria particular, e depois de pintados e postos no forno, eram notáveis peças artísticas e também, curiosos utensílios de cozinha. Ele dizia assim: faço pratos para comer. Algum dia criarei uma resposta assim ambígua e definitiva.

Todo esse papo é pra falar sobre aranhas. Eu adoro aranhas. Pequenas aranhas. Não me enviem pelo correio tarântulas de 25cm, por favor.

O mesmo respeito e admiração que eu tenho pelas aranhas, devoto em ódio e desprezo pelas formigas. Por razões muito simples. As formigas são escravas, meros robôs a serviço de uma déspota opressiva. São como funcionários de uma grande e impessoal corporação, com milhões de servos dóceis e imbecilizados, ou como moradores de certas republiquetas que a gente conhece, que seguem cegamente as ordens do ditador de plantão. As formigas merecem mesmo a fome de todos os tamanduás do mundo.

Já as aranhas, trabalham isoladas e solitárias. Vivem para si e para sua eventual prole, sem ter que pagar tributos a um valentão da hora. As aranhas são como trabalhadores freelancers ou autônomos ( ao contrário da formigas que são autômatos ). Mais corretamente, as aranhas são como honrados pescadores, que lançam sua rede ao mar na esperança de fisgar o almoço. A aranha é a livre iniciativa.

Também simpatizo com as aranhas pelas extraordinárias coincidências entre nossas profissões. No caso, uma predadora furtiva e um arremedo de desenhista.

Ambos, como já disse, têm que deixar sua lojinha aberta esperando o otário, digo, o que a sorte e o acaso trouxerem. Se meu telefone não toca, eu também não tenho como pagar as contas. Além disso, literalmente, uma aranha vive do que tece, no caso, de sua arte. No fim das contas, a teia é uma bela e intrincada peça de geometria abstrata. Para olhos incautos, parece ser uma mera peça de decoração, mas na verdade, é um utensílio prático e um meio extremamente útil de se conseguir um jantar. Meus desenhos também. Ahá! Confluência!

Se uma aranha assumisse o corpo de um jovem e faminto artista, e passasse a criar obras modernistas muito loucas, no formato de teias, algum desavisado poderia passar e dizer: que bela obra de arte! E a aranha humanizada poderia dizer simplesmente: faço essas teias para comer.

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Coerentemente com minha visão do mundo, crio três aranhas no banheiro social lá de casa. E como não poderia deixar de ser, as alimento com formigas.

Dou um pisão fraco numa formiga qualquer, que não chega a matá-la, mas deixa a coitada severamente danificada. Pego com delicadeza o miserável inseto e jogo na teia da aranha de minha preferência. Vamos chamá-la de Charlotte. Atraída pelas vibrações da teia, Charlotte avança e envolve a formiga idiota num pacote de seda parecido com uma marmita. Um belo jantar está servido!

Filmei um desses repastos semana passada, que tal?

domingo, abril 15, 2007

Marx e eu

Enquanto não descarregarem o conteúdo de uma biblioteca diretamente para o cérebro, seja por via de cabos ou implantes neurais, ler ainda é o método mais simples de aprender, se informar e se diverir. Ninguém duvida que nas últimas décadas a oferta de literatura, seja na forma de jornais impressos, revistas e livros subiu geometricamente. Com a Internet, o que já era profuso se tornou caótico - que é uma outra forma de dizer que o acesso se tornou fácil e democrático.

O problema, é: o que ler? Nossa vida é atribulada e muitas vezes nos falta tempo. Mesmo se um ferrenho leitor se dedicasse a um livro por semana, ao final de uma vida longa e feliz ele teria lido talvez uns... 4.000 livros? Essa quantidade de livros não lotaria o espaço útil de uma Kombi. E sabemos que mesmo as bibliotecas mais modestas têm milhares de livros e - angústia! - as editoras lançam centenas de títulos novos a cada ano. O dilema persiste: o que fazer?

A chave é ser seletivo.

No meu caso, costumo ler sobre assuntos que me interessam, como Ficção Científica, Astronomia e Pornografia - em geral, a pornografia fecha a noite. E principalmente, costumo seguir a dica de amigos. Foi assim que descobri o Kurt Vonnegut pela dica do Olinto, e o Simon Singh pela dica do Rodney. Obrigado, caras, nunca serei capaz de recompensá-los à altura. Se eu recomendar José Sarney pra vocês estamos quites?

Portanto, tomo muito cuidado antes de investir - esse é o termo certo - algumas horas de meu preciso tempo num livro ruim.

E se tem um livro que vale cada segundo de entretenimento, e cujo único defeito é ser curto demais, é essa autobiografia do Groucho Marx.



Groucho Marx
nasceu em 1895, em Nova York, e foi um genial comediante americano, contemporâneo de Charles Chaplin, George Bernard Shaw, Bob Hope e Stan Laurel e Oliver Hardy. Bem, na verdade, nós dois também fomos contemporâneos, pois ele morreu em 1977 e eu nasci em 1971. Não nos conhecemos porque morávamos em países diferentes e decididamente, haveria um choque de gerações que tornaria impossível nossas conversas. Mas que fomos, fomos.

O livro é terrivelmente engraçado, e mantêm o fôlego página a página. Você talvez é que tenha que parar para tomar ar, pois a sucessão de cenas cômicas, nonsense e tragicamente divertidas enfileiram-se como contas de pérolas. O tom do livro é também é confessional, sincero, e em alguns momentos, francamente emotivos. Mas sem nunca baixar a guarda.

O livro foi publicado em 1951 nos Estados Unidos, e como um raio, aportou por aqui em 1991. Consegui meu exemplar num sebo, e a bela capa foi feita pelo Guto Lacaz, artista paulistano dos melhores. Enfim, mesmo que seu interesse não seja especificamente o humor, a autobiografia funciona como um apanhado de pequenas crônicas, sob o ponto de vista de um arguto observador da - desculpem o trocadilho -; comédia humana.

sexta-feira, abril 13, 2007

Desenho para uma revista de causos pitorescos. Pena que vai ser só pra publicação interna. Bom, mostro aqui procês.




Quem quer ver um gordo nu?

Ninguém, certo? Por isso esse aviso amigo. Em todo caso, para os corajosos e as curiosas, aqui vai uma foto minha ao lado da muda que eu plantei, há uns oito meses. Ao longo do blog tem outras fotos da plantinha, sob diversas fases de crescimento. Quase uma árvore, não?

terça-feira, abril 10, 2007

Vista da varandinha aqui de casa, sábado à noite.



Taqui o texto que eu mandei pro concurso da piauí de abril. Como vocês sabem, o desafio é encaixar uma frase sem pé nem cabeça num texto não tão esquartejado assim. A frase está grifada junto ao texto.

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O ventríloquo loquaz

Há muito e muito tempo, quando as centopéias eram bípedes, havia um rei bom e justo chamado Dagoberto, o fastioso. O rei só tinha um pequeno defeito. Na verdade, era só uma leve esquisitice. Talvez, no máximo, uma excentricidade doentia, vá lá. Certo, certo, o rei era um maluco de primeira, cujas alucinações e tolices causavam a ruína de seu povo! Pronto, contei!

Basicamente, o rei Dagoberto tinha pavor de bonecos. O rei também não gostava de marionetes, bonecas de porcelana, joões-bobos, Falcons, bonecas infláveis, soldadinhos de chumbo, bonecas de pano, bailarinas de caixinha, bóias de girafa, anões de jardim, imagens da Virgem, bustos de praça, máscaras do Saddam, toda a iconografia egípcia, bonecos vudu, mascotes de times, relógios do gato Félix e principalmente; o rei temia os bonecos de ventríloquo.

O rei proibira toda representação antropomórfica. Ordenava batidas de surpresa para saber se as crianças estavam desenhando bonequinhos, ou se os adultos escondiam pingüins de geladeira. Se achassem um assustador boneco de ventríloquo, a punição era a morte por enforcamento. Do boneco, é bom que se diga. Depois de enforcado, o boneco era esquartejado, e conduzido por soldados em trajes lunares para um enorme sarcófago, que o rei mandara construir por um trilhão de rupias nepalesas: quase vinte dólares.

Não vou tolerar este tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo, disse o herói local, Belfagor, o estridente. Para tanto, organizou um movimento de resistência, cuja maior dificuldade foi encontrar quem desenhasse o logotipo. O trabalho escolhido mostrava o símbolo da nação, um nematelminto, tendo ao colo um boneco de ventríloquo. Assim, invadiram o castelo do rei e descobriram seu terrível segredo: ele fora um ator frustrado de teatro infantil. Incapaz de contracenar com bonecos de papel maché, fora banido de seu grupo e desde então, jurara vingança.

Os rebeldes descobriram os porões abarrotados de títeres, mas nada havia preparado os combatentes para o que veriam a seguir. No meio daquela oficina improvisada, estava ninguém menos que Jurandir, o parlapatão, justamente o tio ventríloquo de Belfagor! Secretamente, Jurandir persuadia o rei a aumentar ainda mais sua perseguição aos bonecos, para que depois ele mesmo curasse o rei de seu trauma. A oficina fazia parte da terapia do rei, para que ele pouco a pouco ficasse íntimo daqueles nauseabundos bonecos. Quando a onda de carnificina passasse, Jurandir emergiria como o único e poderoso ventríloquo real!

Aquele que fora a inspiração para os rebeldes não passava de um ardiloso mestre do mal, que visava, apenas, eliminar a concorrência. O reinado de Dagoberto chegara ao fim, e o rei deposto foi encarcerado em seu amado bunker de concreto, na companhia dos mais horrendos bonecos que ele mandara mutilar. Jurandir foi exilado na Saxônia do Sul e passou a dedicar-se ao entalhe de consolos em pedra sabão. Quanto a Belfagor, foi coroado rei e sua época foi pródiga em tolerância e prosperidade.

Se bem que o novo rei nunca foi mesmo com a cara daqueles desprezíveis mímicos de rua. Isso me lembra que...

sexta-feira, abril 06, 2007

Feliz comilança pra todos!




As oliveiras não se importam


Acordei pouco antes do nascer do sol, pois sabia ter uma longa caminhada pela frente. Os boatos diziam que o rabi maluco, o agitador que perambulava com seu séquito de grosseirões, fora capturado há pouco, e sua execução seria essa tarde. Eu simpatizava com o homem, pois qualquer um que sacudisse o pó daqueles velhos do Templo e ao mesmo tempo, aborrecesse Roma, teria meu apoio. Tive que me apressar, pois a notícia se espalhara e já havia outros caminhantes na estrada, certamente curiosos em vê-lo também. À minha frente, a lua se punha fria, sob as muralhas ensolaradas de Jerusalém.

A cidade fervilhava de vida, mas pude sentir o clima tenso, como numa poça d´água cheia de girinos, sob o sol do meio dia. A agitação não era só pelos preparativos do sabat, mas também pela inusitada sentença da véspera. Sabia que o cortejo teria que passar perto da casa de meu primo Yield, então, depois de fazer umas compras no mercado, fui me encontrar com ele para bebermos um pouco de chá e esperarmos. Escolhi um lugar em sua varanda, no segundo piso da casa. As horas passaram lentas, como uma caravana de camelos mancos. Eu estava pensativo.

Pouco antes do pôr-do-sol, o cortejo com o condenado fez-se anunciar pelo estalar distante dos chicotes e pela algazarra do vozeirio. Levantei do meu divã e fui à beira do balcão, observar a rua abaixo. A cena era de uma cueldade impressionante: um oficial romano empunhava um chicote, enquanto outros guardas controlavam a multidão. No centro de tudo, o famoso rabi carregava uma sinistra trave de madeira sobre os ombros, suja com seu sangue e suor. O chicote o impelia à frente, mas ele mal tinha forças para manter-se de pé. Foi aí que tudo começou a dar errado. Ao me apoiar no guarda-corpo da sacada, um tijolo desprendeu-se e foi acertar justamente, a cabeça do pobre rabi, que caiu desmaiado.

O silêncio que se formou era mais ameaçador que o silvo do pior simum do deserto! Todos os olhares apontaram na minha direção, e quando dei por mim, guardas romanos já invadiam a casa de meu primo e me arrastavam para baixo. No meio da rua, os soldados discutiam nervosos, decidindo minha sorte. O povo, esse monstro sem rosto, agora urrava contra mim. Volátil como o ar, a ira da multidão transferira-se do rabi desmaiado para este pobre e assustado inocente. Os soldados, percebendo a mudança dos ventos, resolveram num átimo o que fazer. Já que o povo queria uma execução, e o rabi estava fora de combate, imediatamente amarraram-me sob a trave de madeira, aos vivas da multidão.

Crucificaram-me no topo do Gólgota, junto com outros dois infelizes que já estavam agonizando. Poucos ficaram para ver meu suplício. Já anoitecia, e aquela multidão, que até há pouco espumava de prazer quando ouvia meus gritos, agora estava em casa, cuidando de seus afazeres. Começara a chover. Uma chuva triste e morna, como lágrimas de um gigante. Até mesmo os soldados que estavam de guarda pareciam não se importar, e ao longe, jogavam dados. Foi aí que percebi um vulto que me observava, pelo meu olho que não estava fechado, coberto de hematomas. Era aquel rabi que eu acidentalmente, golpeara com um tijolo.

Ele me olhava com uma confusão de sentimentos. Ora parecia triste e furioso, depois agitava os braços, batia no peito repetidas vezes e apontava para mim. Não pude entender o que ele dizia, pois eu estava quase desfalecido devido à surra e ao suplício que sofrera. Senti tudo escurecer, e a dor não importava mais. Antes de finalmente deixar esse mundo, subitamente, meus sentidos tornaram-se argutos, e por instantes, pode entender claramente o que fazia o rabi. Ele chorava de raiva.

quarta-feira, abril 04, 2007

A poesia abunda por toda parte.



MLK

Essa letra abaixo não é minha, infelizmente.

U2 - Pride (In The Name Of Love)

One man come in the name of love
One man come and go.
One man come he to justify
One man to overthrow.

In the name of love
What more in the name of love.
In the name of love
What more in the name of love.

One man caught on a barbed wire fence
One man he resist
One man washed up on an empty beach
One man betrayed with a kiss.

In the name of love
What more in the name of love.
In the name of love
What more in the name of love.

Early morning, April four
Shot rings out in the Memphis sky.
Free at last, they took your life
They could not take your pride.

In the name of love
What more in the name of love.
In the name of love
What more in the name of love.

terça-feira, abril 03, 2007

Encomendaram esse desenho e não disseram pra quê. Pareceu aquela cena de Amadeus, quando o Salieri, disfarçado, vem encomendar um réquien pro Wolfy. Fiz o desenho e não fiz perguntas. Shhh!



Cristas e crinas

Convenhamos: nós, quindins de testosterona, só pensamos em mulher. E como não dá pra ter todas, muito menos a vizinha gostosa do andar de cima, acontecem as frustrações, os traumas, os recalques. Essa energia não utilizada no amor é canalizada para a arte, o esporte ou mais comumente, para a guerra. Curioso que as guerras são travadas, principalmente, por jovens machos solteiros. Ou você acha que o velho e barrigudo macaco alfa iria se meter num arranca-rabo desses? Ele tem um harém pra cuidar, pô!

Deveria haver uma forma mais eficiente de se aproveitar nossos hormônios, não? Gasta-se muito tempo e energia na corte. E às vezes, esse flerte acontece a cada fim de semana, gerando uma demanda sem fim de novos papos, novas abordagens e o que é pior: mais crédito no cartão. No fim das contas, sobra muito pouco tempo para atividades não-reprodutivas, como arar as terras ou arrumar o quarto. É difícil se concentrar em algo quando se caminha atrás de um jeans bem recheado.

Não sei quanto a vocês, mas eu me apaixono a cada dobrar de esquina. Várias vezes, distraído, eu começava a elaborar um pensamento original, que poderia se materializar num desenho novo ou num tema para um livro, quando tudo se esvai numa nuvem de fumaça durante a passagem de uma bela cabrocha em roupas de academia. É por isso que os trópicos nunca produziram um filósofo que preste, é muita distração.

Subitamente, percebi que os animais também lidam com os mesmos problemas. Ora, quando apaixonados, os animais agem como bobos para impressionar as fêmeas e baixam a guarda. Em vez de estarem atentos a predadores, ficam, literalmente, se pavoneando em rituais de acasalamento sem sentido, como um jovem que observa uma bela garota na calçada e buzina, esquecendo-se que está dirigindo. Resultado? Para o pavão é a morte pelas garras de um chacal, e para o garotão, R$600 de franquia do seguro por amassar o para-choque do carro da frente.

A diferença é que a natureza resolveu as coisas, instituindo o período do cio. Assim, ao invés de ficaram o dia inteiro agindo como bobos, os animais reservam umas poucas semanas na primavera para se encharcarem de hormônios e aí sim, agirem como idiotas numa boa. No resto do ano, a atenção se volta para coisas realmente importantes, como comer, dormir e se coçar. E se a humanidade também tivesse um período de cio?

Ahá! Pelo menos no Brasil isso já existe, e chama-se Carnaval. Nessa época do ano, acontecem migrações em massa de jovens em busca de cópula, luxúria e uma geladinha. Geralmente, esses locais de acasalamento se concentram perto do equador, o que sem dúvida deve ter a ver com a ação do sol sobre o corpo e os miolos. O uso de pouca roupa faz valer essa tese, e os corpos adquirem tentadores tons de bronze durante esse festival. Curioso que o uso de cocares e adereços festivos evocam um passado ancestral em que deveríamos ter adotado o uso de crinas chamativas ou cristas malucas, tudo para chamar atenção um do outro. Talvez, no futuro, readquiramos esses adereços por seleção natural e saiamos por ai ostentando longas caudas coloridas. Quem sabe?

Além disso, no Carnaval todos os instintos afloram, e botam por terra nossa moralzinha judaico-cristã ocidental. A promiscuidade, tão comnum nos mamíferos, foi suprimida em nós por séculos de "educação formal". No Carnaval, valem os impulsos primais, e a soma disso é que todo mundo fica com todo mundo e assim, aumentam as chances de se encontar um bom parceiro ou parceira, para formarem uma prole. O fato de que o pai é um digitador do Maranhão e a mãe, uma balconista de Porto Alegre é uma outra questão, e se vê depois como se rencontrarão para criarem os filhotes.

No entanto, o Carnaval por si só não sustenta minha tese, pois pelo que vejo, no resto do ano a libido não diminui. Pelo contrário, ela aflora a todo momento e em todo lugar, fazendo com que a humanidade perca a cabeça freqüentemente. A solução para isso seria aquietar-se e casar com uma fêmea escolhida, mas essa é uma solução tampão. Tão errada como resolver a questão da AIDS criando um simbionte humano com o vírus. O que seria interessante é que os sete gêneros humanos pudessem se entregar à picardia sem culpa, e se possível, com carteirinha e o aval do governo. Assim, todos teriam sua cota e acabaria o stress.

A FODEBRAS é uma idéia distante?

segunda-feira, abril 02, 2007