quinta-feira, junho 28, 2007

Da série: o redator está bêbado. Isso ou o sujeito é um notório pândego, não é possível que alguém tenha escrito essa chamada, sem sacar o potencial de dubiedade inerente. Bah. Difícil é apagar a imagem mental do Charles...argh!


Ask your question
Recentemente, respondi um questionário sobre o mercado de quadrinhos, preparado por um estudante de mestrado. Ou algo assim, não entendi direito. A tese dele é mapear a quantas anda a produção de quadrinhos por aqui e se possível, elaborar estratégias para o seu crescimento e coisa e tal. Bom, omiti as perguntas, mas dá pra deduzí-las a partir das respostas que dei. Aqui estão elas. Terei sido útil?
...---...
Sou arquiteto, mas trabalho mesmo com desenhos e quadrinhos. Meu objetivo é continuar fazendo a mesma coisa, pois caso contrário vou me dar muito mal. Sou totalmente incompetente em outras áreas da atividade humana, e na temerária hipótese de ninguém mais me contratar, só vejo como saída profissional plantar chuchu na serra.
-
Tenho dois livros de desenhos publicados e um terceiro e quarto a caminho. Meus projetos, além de estreitar a parceria com a editora Conrad, é também lançar mais títulos pela minha própria editora, a Heartbooks. Todos esse projetos já estão caminhando.
-
Não tenho como qualificar a importância dos meus desenhos - se é que eles têm alguma. Minha função é continuar a criá-los e a publicá-los. O valor quem dará é o público e eventualmente, o tempo. O contexto, naturalmente, é dado pela época e pelo espaço em que vivo. Minha temática é contemporânea, assim como a técnica que utilizo, que se aproveita dos recursos que a tecnologia oferece. Detestaria ser datado por essa ou outra temática ou essa e outra técnica. Liberdade de estilo e de criação é a palavra.
-
Meu público? Difícil definir, pois dependendo da encomenda, posso fazer uma ilustração tanto para adultos como pra crianças. Digamos que o jovem/adulto urbano, com bom nível de cultura pop.
-
Os quadrinhos têm raio de alcance infinito. Tanto servem para alfabetizar como para divertir. A chance de aumentar esse raio de alcance é justamente estar sempre em evidência, ativo e trabalhando. Uma coisa gera a outra, e em geral uma idéia ou um possível cliente vêm até você a partir de uma referência anterior.
-
Onde quero chegar? Ao Museu do Prado. Adoraria ter uma ala com meu nome, nem que fosse ao lado do lavabo.
-
Não sou o melhor sujeito para responder essa pergunta, pois meu raio de interação está mais pra um eremita numa caverna que pra um publicitário hiperativo. Trabalho só, ou na maioria das vezes com meu sócio na heart ( minha empresa de desenhos). Não considero os outros desenhistas como concorrentes, pois nosso "produto" é difícil de comparar e as produções individuais são como compartimentos estanques. O que mais acontece, na verdade, é a colaboração entre todos, seja na forma de uma coletânia de trabalhos ou numa publicação em comum.
-
No mais, como não existe uma Universidade de Quadrinhos - e se vier a existir a idéia é minha e ninguém tasca! - então, o mais freqüente é que a gente aprenda na marra: trabalhando e olhando o trabalhos dos outros. Exatamente como estudantes de arte visitando um museu.
-
A resposta correta é a alternativa a e b.
-
Já existe uma gênese nesse sentido aqui no Ceará, mas nada oficial, digamos assim. O contexto todo é muito orgânico, e à exceção de alguns enclaves no Rio e em São Paulo, todo mundo trabalha em sua redoma.
-
Aqui vai um assunto delicado. Eu me considero um artista, mas também um operário padrão. Ou seja, há momentos em que tenho meus ataques de astro de rock e prefiro desenhar sem interferência, mas isso quando o contexto permite: numa exposição individual, num trabalho autoral etc. Mas sou um peão de obra carregando pedras quando o cliente assim exige, como por exemplo, ao fazer uma cartilha sobre a dengue para a prefeitura. Evidentemente as pessoas confiam em mim e sempre - sempre - tive muita liberdade, mas sei separar as coisas.
-
Puxa, quanta coisa. Respondendo rápido:
-
Forma de arte.
-
Sim.
-
Não mais.
-
Sim, os quadrinhos estão em franca expansão, alguns até expostos em galerias de arte tradicionais.
-
Não há essa crise de identidade, pois se o artista estiver insatisfeito, ele pode migrar entre as mídias, como por exemplo, passando a escrever ou a pintar.
-
Não.
-
Sim, falamos sobre isso logo acima. Quadrinhos são usados tanto para divertir como para educar. Qualquer seqüência de imagens, encadeadas de forma lógica, caem na definição de quadrinhos, mesmo que tenhamos que forçar a barra para encaixá-las. Os hieróglifos maias e egípcios são, em última análise, um arranjo de pictogramas que se lidos na seqüência correta, transmitem uma idéia ou contam uma história. A Via-Crucis cristã, dividida em Estações, servia para que a massa analfabeta da Europa pudesse entender a doutrina. As empresas aéreas usam quadrinhos para melhor transmitir instruções de segurança, e por aí vai. A lista é enorme.

quarta-feira, junho 27, 2007

Será que se fosse morar nesse bairro do Recife, eu seria aclamado como um senhor feudal que retorna ao lar? Mais fácil levar um tiro nas fuças.



Uma passadinha nos jornais...

Dois aviões se chocam enquanto taxiavam.
Mais essa agora: a aviação precisa da figura do prático de aeronave! Sei como resolver isso sem muito custo. Basta que os aeroportos mantenham motoristas de caminhão a postos numa salinha especial no aeroporto. Quando necessário, o motorista subiria à cabine do avião para providenciar a manobra.

Ao entrar na cabine, seria tratado com todo o respeito pelo comandante da aeronave, exatamente como os práticos são recebidos num navio - já que afinal, ele vai assumir o controle de tudo enquanto o cargueiro atraca. Assim, depois de verificar os retrovisores e acomodar-se em sua cadeirinha de contas de madeira, o motorista encaminharia o avião tranqüilamente à cabeceira da pista, enquanto puxava dois dedos de prosa com o piloto.

Como o motorista provavelmente estaria sem camisa, o único problema decorrente da minha sugestão seria eliminar a inhaca da cabine.

PMs matam major da aeronáutica por engano.
Que tal se a gente mudasse a redação da frase pra: PMs matam desenhista por engano, ou PMs matam físico nuclear por engano, ou quem sabe ainda: PMs matam pacato cidadão por engano, enquanto este cortava as unhas num banquinho em frente a sua casa. Minha modesta dúvida nesse caso: não daria pra perguntar antes e atirar depois?

Lula manda aeronáutica por ordem na casa.
Curioso, presidente, eu ia dizer a mesma coisa pro senhor!

Cinco pitboys espancam doméstica.
Já que são tão machões a ponto de bater numa mulher indefesa e inocente, e pior, numa abominável desproporção de forças, acho que eles vão se dar muito bem na cadeia: serão as cinco donzelas que receberão o carinho de no mínimo - para se fazer justiça -, vinte e cinco mancebos atávicos, com os mais variados calibres, com as mais letais enfermidades e com os mais altos níveis de periculosidade. Bom repasto, que se regalem à farta!

E não esquecendo de desejar boa sorte ao advogado da pobre mulher, que irá depenar a família dos cinco imbecis. É pra casos assim que a gente adestra os mastins com carne crua.

segunda-feira, junho 25, 2007

Tô na frente! Do quê mesmo? Ah, quem liga? O que importa é que eu tô ganhando!

Mais detalhes, aqui, ó:

http://carademilho.blogspot.com




F for fake

O comportamento do leiloeiro era vulgar e inconveniente, como um huno que visitasse o Vaticano. Nas festas da empresa, depois de arrematar para si algumas garrafas de vodka, costumava vangloriar-se de suas conquistas amorosas usando o velho chavão profissional: dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três! Certo dia, declarou vendido um Antônio Bandeira caríssimo para um cavalheiro da segunda fila, que levantara a mão para chamar o garçom. Só depois do desespero convulsivo do pobre homem, foi que o sádico declarou às escâncaras: brincadeirinha!

O leiloeiro desagradava muita gente, sobretudo o tabelião, seu sócio na firma. Quando jovem, o tabelião vira seu pai falsificar documentos para que não perdessem a casa, esforço este em vão. Tudo foi leiloado a preços vis para pagar as dívidas. Assim, tempos depois, é fácil deduzir: ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários. Quis o irônico destino que ele dividisse sua empresa, justamente, com o mais venal e inescrupuloso dos leiloeiros.

Decidiu que iria livrar-se do sócio usando as mesmas armas de seu pai. Falsificou um Pedro Américo e através de capangas, fez chegar ao conhecimento do leiloeiro essa verdadeira relíquia, há muito desaparecida. O plano era desacreditar o leiloeiro assim que ele vendesse o quadro, expondo a farsa e fazendo sua reputação despencar. Isso se não fosse preso antes. Daí ele venderia sua parte na firma e o tabelião livraria-se dele para sempre. O plano perfeito.

Acontece que deu tudo errado. Não só o quadro fora vendido com sucesso como ninguém acreditou que tratava-se de uma falsificação. Nem o fato de um dos personagens d´A Cacimba do Tororó ostentasse um relógio de pulso demoveu os entusiastas do pintor. Para os críticos, tratava-se de uma obra-prima visionária. Até o uso da tinta acrílica, que só seria inventada no século XX, era prova da genialidade do pintor. O leiloeiro ficou famoso e por vias tortas, deu-se o que o tabelião queria: ele deixou a firma e montou seu próprio negócio, que hoje prospera horrores.

O tabelião, por outro lado, viu seu cartório afundar e por pouco não decretara falência, já que seus clientes seguiram o antigo sócio. Remoendo seus rancores, o tabelião de repente vê um novo objetivo de vida, algo com que pode se dedicar com afinco como outrora devotara seu ódio aos leiloeiros. De agora em diante, iria trabalhar para remover da Terra e extirpar para sempre essa raça ignara dos famigerados... críticos de arte! Taí algo pelo qual se vale a pena lutar.

sexta-feira, junho 22, 2007

A piada é velha, mas a platéia pode ser nova. Então, lá vai.

Acabei de receber este sensacional flagrante. Na foto, podemos observar claramente o Incrível Hulk, completamente nu, na companhia suspeitíssima do Lanterna Verde. Ambos depenam um pobre papagaio em cima de uma mesa de sinuca. No canto superior da foto, a mulher invisível observa tudo. Como é que eu estou vendo a moça? Fácil, ela deixou cair seu green card, reparem!




Escolha sua catástrofe

A maior diversão do ser humano é resmungar. Queixar-se de problemas reais ou imaginários enche páginas de jornais, enriquece consultórios e ajuda a passar o tempo. Comparando os seus problemas com as minhas dificuldades é que a gente se reconforta mutuamente, pois não há problema ou desgraça tão escabrosa que seu vizinho não tenha uma pior. Assim, mesmo com as atuais calamidades climáticas e políticas, nunca se esqueça dessa verdade eterna: não há situação periclitante o suficiente que não possa ficar pior.

Organizei um apanhado de notas que provam que vivemos na melhor das eras. Basta que um desses problemas que criei acontecesse de verdade que nós estaríamos, no mínimo, fudagos e mal pidos! Se não acredita, tente viver num mundo em que....

... os oceanos escorreram por um ralo.
Terremoto cataclísmico abre fenda na crosta e boa parte dos oceanos some, literalmente, por debaixo da terra. Sem os oceanos, acabou-se o comércio mundial, as cidades balneário e a pesca da lagosta. Sem falar que a produção de oxigênio pelo fitoplâncton foi interrompida, o que também inviabilizaria, de qualquer forma, a pesca da lagosta, as cidades balneário e o comércio mundial.

... os vírus evoluem e ficam do tamanho de castores.
Agora dezenas de vírus da gripe saltam no seu pescoço e sugam seus fluidos, através de suas trombas de proteína. Mais ou menos como eu faço com um ovomaltine e um canudinho. Não há lugar seguro para se proteger, pois os vírus turbinados secretam substâncias que dissolvem até o aço. A humanidade só terá duas opções: ou evolui mais rápido e cria resistência ao vírus - o que é pouco provável -, ou todo mundo se joga num vulcão. Acho que vai faltar vulcão.

...radicais budistas tomam o poder.
Depois de séculos vendo as outras religiões ( eu sei, eu sei... ) ferrarem com o mundo, radicais budistas decidem deixar de conversa mole e tomam o poder na marra. Desde então, a humanidade está sob o jugo da comida macrobiótica, da música de cítara e das gangs de tai chi chuan. Mas isso ainda não é o pior. Insuportável é ver a cara do Dalai Lama o tempo todo na TV e perceber que a indústria da moda, agora, se resume a longas vestes cor de laranja. Não dá mais nem vontade de ir à praia.

...um asteróide gigante rasga a Terra em duas.
Se hoje os conflitos entre o ocidente - oriente e o hemisfério norte - hemisfério sul são delicados e praticamente insolucionáveis, tudo vai piorar com essa separação de fato. Se antes havia uma chance mínima dos pobres melhorarem de vida, atravessando a fronteira numa balsa, agora danou-se. Para ir para a banda próspera do planeta, os pobres terão que dominar a tecnologia espacial. Pensando bem, isso não seria um problema, e sim uma solução! Mas contanto que você estivesse na banda correta do planeta, é claro.

...Collor de Mello vira presidente de novo.
Terrível demais pra especular. Não deveria ter mencionado isso, agora não vou poder dormir de puro medo. Pouca coisa seria tão devastadora para o Brasil que esse repeteco. A única coisa boa nisso é que dois anos passam rápido.

quarta-feira, junho 20, 2007

Boas novas



Povo, a Conrad acabou de lançar o livro Plantados no Chão, da jornalista Natália Viana - com desenhos meus no miolo. Esse é meu primeiro trabalho pela Conrad a ser publicado, já que a HQ da Revolta da Chibata ainda está no prelo, mas vai sair em breve.

Quem quiser saber mais sobre o livro da Natália pode visitar esses links aqui, ó:

Conrad Editora, Livraria Siciliano e UOL.

Aqui mesmo no blog vocês podem achar os desenhos do livro. Os posts são de janeiro e fevereiro desse ano, ok?

terça-feira, junho 19, 2007




Poeteiros do mundo todo...



Como vocês sabem, eu detesto poesia. A poesia é tão danosa para a literatura como o abstracionismo é para a pintura. A poesia é o escape para que todo farsante que não sabe ordenar sujeito e predicado assuma ares de escritor. Basta observar a quantidade enorme de velhotes que têm seus poemas publicados, para entender como esse meio está coalhado de picaretas. E de livros encalhados.

Também odeio charadas. Pô, se quer dizer alguma coisa, use nossa larga banda do alfabeto para traduzir seu pensamento, não venha com imagens cifradas. A poesia se veste do manto do incognoscível para se fazer passar por inteligente. Olhaí, delírio e pouco argumento não são virtudes, a não ser, é claro, entre poetas de vanguarda. No caso do abstracionismo, usa-se do expediente de emporcalhar a tela como subterfúgio para o fato de não saber desenhar um o com uma quenga de coco.

E como já deu pra perceber, minha frustração é não ser reconhecido como um gênio da raça fazendo exatamente o meu pior, ou seja: poesia e arte abstrata. Por que tanta gente consegue? Assim, esqueci de dizer que só telero evidentemente, a poesia fabricada por mim mesmo.

Minha poesia não passa de uma sucessão sem sentido de aliterações pouco salutares - como essa -; além de não ter nada a dizer. Ela só serve para divertir a mim mesmo, e considero uma perda de tempo que alguém a leve a sério. Por causa dessas confissões, minha poesia é a única sincera o bastante e a que vale a pena ser considerada, mesmo que para escárnio público.

Aqui vai um poema que fiz enquanto esperava a pipoca ficar pronta. Ele não serve para nada a não ser, talvez, para uma letra do Djavan.

...---...

Erotic tale, neurotic male.

Áulico hausto, hosanas hordas,
hóstias heróicas, hirsutas armas:
aladas horas.

Oráculo nulo, melífulas nuas,
óculos mouros, hostes sãs:
pencas de rãs.

Ósculo tolo, olhos baços,
lentes ocres, odores azougues,
vasos loucos, vozes vãs:
veios de lã.

Goles gelados, gols marcados,
galhos quebrados, gruas grudadas,
grous famintos, pretos retintos:
gente doente.

Fadas ninfômanas, fodas sincrônicas,
textos anômalos, teses anônimas,
testes atômicos, teasers incômodos:
tios atônitos.

Totens iônicos, motores tontos,
motos contínuas, modus operandi,
mudos tortos, muros mortos:
mídias elegantes.

Mulheres módicas, mutretas sádicas,
muletas nórdicas, maletas médicas:
mesetas málagas.

Molhos de chave, malhos de carne,
machos de araque, moças de charque,
meias de arenque, chifres de pã:
médias de pão.


Buças escâncaras, seios tesos,
dorso empinado, aríete em riste,
alvo na mira, seguro o cabresto e...
acabou-se o texto.

segunda-feira, junho 18, 2007



Dúvidas capciosas

Um pau d´arco cresce reto?

Na capital do Pará a Fafá de Belém é conhecida por Fafá?

E se chover na Terra do Fogo?

Um orgasmo múltiplo gera sêxtuplos?

Estamos quites. E quanto à mulher desquitada?

O Rio de Janeiro seca no resto do ano?

A vitória-régia evoluiu da derrota-plebéia?

Duvido que desinfetassem os cravos. Jesus não teria morrido de tétano?

Carne assada é churrasco. E churros assados?

Você me acha bobo?

Um general de cinco estrelas ganhou cindo guerras?

Onde fica a Gaia? Não é de lá que veio esse papa gaio?

Existe camisinha para um pau d´água?

Hímem complacente às vezes se zanga?

Priapismo tem curra?

Um Transatlântico também navega no Pacífico?

Esse papo todo de AIDS não passaria de marketing viral?

A Plebe Rude precisa de algum Capital Inicial?

The Rolling Stones precisam de Cement?

Hole precisa de Pavement?

The Doors precisam de Nine Inch Nails?

The Presidents Of The United States se dão bem com The Killers?

White Zombie cria White Snakes?

Deep Purple combina com The White Stripes?

Uma onça-pintada é perigosa. E uma desenhada?

Quem terá peito pra ser o papa Pedro II?

Quem teve um voto no conclave marcou um ponto cardeal?

Na casinha de cachorro existe a placa: cuidado com o homem?

sexta-feira, junho 15, 2007

Dessa pra melhor

Eis que o fim se aproxima! O fim de semana, pelo menos. Mas nunca se sabe! Por isso, acabei de escrever meu testamento. Os nomes foram omitidos para que paire o suspense, mas não se preocupe se você acha que é um dos beneficiados. Algum advogado engravatado baterá à sua porta quando menos esperar, e ele lhe explicará tudo. Entrementes, tenho a versão oficial assinada e guardada lá em casa. Os dados do testamento não mudarão, exceto se um dos engraçadinhos me decepcionar, como por exemplo, insinuando algo contra a minha tão propalada potência, libido e ascendência materna.



A respeito do inventário. Amigos próximos, que a contragosto aceitarão meu passamento e só a muito custo se interessarão pelas minhas posses; podem objetar que não coloquei o carro no rol dos bens. O que posso dizer é que durante um bom tempo ainda ele pertencerá ao Banco Volks, então, a não ser que você queira assumir as prestações, deixe que o banco tome. Taí um bom jogo: quem durará mais, eu ou o financiamento?


quinta-feira, junho 14, 2007

Duvido que publiquem, re re re.





Carta aberta a um patriota

Senhor diretor;

Proibir, simplesmente, não resolve as coisas. Aposto que segundos depois da abolição de todos os preconceitos e tabus sexuais - como a hortifrutifilia passiva -; a humanidade passaria por uma duradoura fase de abstinência e castidade. Parece que as pessoas se contorcem de prazer simplesmente fazendo o contrário do que impõe a autoridade instituída, ou talvez, a transgressão e o medo de ser pego em flagrante é que sejam os maiores afrodisíacos e os verdadeiros princípios ativos de toda droga.

Garanto que se o chá de capim-santo fosse declarado um forte entorpecente, e sobre seu consumo recaíssem todos os rigores repressivos da lei, imediatamente seria criada uma verdadeira máfia entorno da inofensiva bebida, com direto a preços inflacionados, tráfico, disputa pelas melhores hortas e tiroteios nas bocas de fervura. Isso sem falar na falsificação grosseira, misturando-se malva às hastes do capim. Não descarto nem a hipótese de criarem uma seita que atribua poderes místicos e transcendentais ao chazinho - e de cobrarem ingressos logo em seguida.

E que tal isso como crônica policial?

Conhecida gang de motoqueiros foi apanhada em flagrante em nossa capital, durante uma patrulha de rotina. A abordagem seguia conforme os ditames, mas eis que a arguta perspicácia de nossos patrulheiros percebeu o deslize. Afobado com a aproximação dos agentes da lei, aquele que posteriormente foi identificado como o líder dos meliantes tentou, num gesto rápido, livrar o flagrante. Achando que ninguém iria perceber, o conhecido infrator virou-se para o lado... e escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley. Imediatamente, o policial deu-lhe sonora voz de prisão. Como todos sabem, o governo tem se esforçado para extirpar dos limites nacionais a "praga do oriente", como é chamada a substância. O mesmo governo esmera-se em erradicar o ilícito comércio e o uso da canela, da páprica, do estragão, do sândalo, do gengibre e do coentro, para que fiquem fora de alcance dos nossos jovens. Este periódico aplaude a iniciativa, e torce sinceramente que os detentores do poder continuem o bom trabalho em prol da sanidade de nossa nação.

Em resumo, essa foi a missiva que enviei para os doutores do Instituto Silvério dos Reis de Estudos Pátrios. Eles saberão lapidar meus argumentos com melhor viço e quem sabe, juntos, possamos construir a estrutura lógica que alicerçará o projeto-de-lei. O que aliás, já não era sem tempo. Há décadas que o Congresso discute a legalização do Jogo de Porrinha. Nada como um legítimo patriota para entender outro.

quarta-feira, junho 13, 2007

Mon Dieu, mais um processo!



Short tale

O que eu mais admiro no inglês é a grande quantidade de monosilábicos. Aliado à concisão do idioma, qualquer pensamento pode ser expresso com palavras curtas e em poucas linhas, o que faz a alegria dos publicitários. Imagino que o inglês está no extremo oposto da língua alemã, que facilmente incorpora palavras de quinze letras ao vocabulário. Talvez seja por isso que o design gráfico alemão nunca foi grande coisa, ao contrário da sua economia: é mais fácil entender o bruttonationaleinkommen que encaixar a palavra num folder.

A língua inglesa, particularmente nos Estados Unidos, é profícua em criar siglas mundialmente conhecidas, como DNA e IBM. Pelo amor de Deus, até o nome do país é abreviado para USA. Curiosamente, o Brasil adota três letras nas placas de automóveis, o que aumenta a chance de que essa combinação aleatória faça algum sentido, se lida em inglês.

Aqui no Ceará a maioria das placas começa com H. E tome uma proliferação de placas francamente amistosas, como HUG, outras enigmáticas como HAD, outras desafiadoras como HXU e algumas elucidatórias, como HIM. Eu adoraria ter um carro com a placa HAL-9000, mas alguém já deve ter sido mais rápido. A quantidade de combinações usando o alfabeto inteiro é gigantesca, acrescente a sua: ALL, BEE, CUM, DOH, ELF, FOG, GAY, HUT, ILM, JAY, LOW, MAN, NOT, OLD, PEE, RYE, SEA, THE, WAX e por aí vai. Pra não ficarmos por baixo, também existem combinações trífidas em português, que por razões óbvias, são raras ou inexistentes e podem soar mal, como é o caso de PUM, OCO, PAU, OVO, AZT e SPB.

É claro que o oposto deve acontecer no exterior. Essas palavras em português parecerão combinações ao acaso na língua tcheca, por exemplo. O que deve fazer a alegria dos brasileiros espertinhos em férias.

A especialidade do Brasil não são as palavras de três letras, entretanto. São as palavras de quatro letras, cuja variação no nosso idioma é enorme. Até nisso os americanos entram com vantagem! Estranhamente, pouca gente usa essa possibilidade nas placas de carro e em números de telefone. Veja o caso do Banco Real, cujos números em cada localidade usam o afixo 7325, que vem a ser REAL no teclado alfanumérico. Se eu usasse essa mesma lógica, gostaria que meu número de telefone contivesse uma dessas opções: 4286 (GATO), 7426 (RICO), ou 3632 (FODA), o que estiver disponível.

Nossas siglas, portanto, são desagradáveis combinações de quatro letras, como CPMF ou INPS. Ou cinco, como é o caso do BNDES. Mais uma vez, nossa vocação para encher lingüiça torna os apelidos às vezes maiores que os nomes. Como é o caso de Francisco, que todo mundo chama de Francisquim, José vira Zezão e Miguel o povo abrevia pra Miguelito. É por isso que não vamos pra frente! Nos Estados Unidos eles abreviam Abraham pra Abe, Bartolomeu pra Bart e Margareth pra Meg. Ir direto ao ponto, é o que importa!

Pensando bem, esquece. O Brasil já se chamou de Terra da Santa Cruz e Ilha de Vera Cruz, e depois de algumas firulas e muito abandono, resumiram tudo pro toponímio "aquela terra onde a quantidade de pau-brasil é bestial", ou simplesmente, Brasil. Simples, elegante, fácil de decorar. Uma forma familiar de se nomear um local de aconchego. Como se denomina um sítio.

terça-feira, junho 12, 2007

Desenhinho para o Dia dos Namorados, encomendado por um amigo daqui. Repararam na balaustrada em forma de garrafas? Não? Nem ele.






White cab

Quando pego um taxi, sempre viajo ao lado do motorista, no banco do carona. Deve ter um recalque soterrado aí, mas acho estranho chegar num local sentadão banco de trás, como se eu fosse um conde d´Orleans e Bragança descendo de sua carruagem. É claro que essa minha visão da realidade não serve para os demais. Acho que mulheres e arquicoroas têm mesmo é que ir atrás, por várias razões. Mas simplesmente não combina comigo.
Já conversei com vários taxistas sobre esse hábito, que suponho não seja exclusivo meu. Nenhum deles foi taxativo nessa ou naquela opinião, mas percebi que o fiel pendia para que o passageiro viajasse a seu lado. Mototistas de taxi, cabeleireiros e controladores de vôo são profissões que exigem concentração. Ninguém acharia bacana um ter o cabelo cortado por um sujeito que se distraísse a todo momento com papo furado, ainda mais tendo uma tesoura afiada a poucos centímetros do olho do cliente. Mas percebi que se estimulados, eles adorarm bater um papo. Quem não gosta?
Um taxi é uma espécie de divã sobre rodas, com a vantagem que o psicólogo é pago para concordar com você. Várias vezes destilei assuntos para esse blog conversando com taxistas, pois coitados, eles são obrigados a me ouvir. Comentei sobre meu projeto de instalar um anteparo em órbita para bloquear o Sol em Fortaleza, e um deles: ah, boa idéia. Ou quando falei sobre inundar o Piauí pra criar um golfo: bem pertinente, gostei. Ou ainda daquela vez que propus baixar a temperatura da cidade trocando todo o asfalto preto por pistas de concreto pintado de branco: nunca ouvi nada tão inteligente, senhor. Suponho que eles estavam sendo gentis, mas é divertido pagar pra alguém te ouvir. Não deveria ter dado essa idéia, agora vocês vão exigir uma grana pra ler meus gatafunhos. Ok, ok, quando tiver um taxi eu pagarei para tê-los como passageiros, que tal?
Acho divertidíssimo conversar com os taxistas, pois eles sabem de tudo o que se passa na cidade. São os melhores guias turísticos e conhecem todos os buracos quentes da região. Se você tiver sorte, ele vai lhe falar para evitar um deles, e não levá-lo até lá. Certa vez, estava no Rio e peguei um taxi. Depois de vinte segundos de corrida, descobri que o taxista era - santa obviedade! - um cearense de Camocim! Havia imigrado para a Penha há 40 anos e pelo que me contou, ajudou a povoar o bairro através de uma prole de sete híbridos carioca-cearense.
Ele ficou contentíssimo ao ver um conterrâneo que não estava lá para pedir dinheiro, mas disposto a gastar vinte mangos numa corrida. Aproveitou e me deu várias dicas sobre a cidade, basicamente que é mortal sair à noite e que nunca pegue um taxi com um motorista desconhecido ( ? ). Gostei demais do papo e da corrida, e percebi que ele também. Precisamos de paz e de amistosidade, isso sim. Ah, e eu estava no banco da frente, é claro.
...---...
Falando em violência urbana, esse feriado eu estava conversando com minha vó sobre como Fortaleza está violenta. Nada muito diferente do que acontece em outras capitais, cada uma delas tem problemas de acordo com sua escala. Fortaleza tem 15% da população da cidade do Rio de Janeiro, então, nossos índices de violência são 85% menores, mas mesmo assim assustadores. Bom, o que rola aqui é matar pra roubar carro.
Muitas vezes o bandido mata a pobre vítima simplesmente porque o coitado não entregou as chaves a tempo. Aí minha vó sugeriu que eu tirasse do molho de chaves a chave da porta do ap, pois numa emergência, eu entregaria só a chave do carro e ainda poderia ir pra casa. Foi o que fiz, mas com um upgrade tecnológico: amarrei a chave num cordãozinho fraco, que pode ser rompido quando eu tiver que que entregar a chave do carro pro meliante. Veja que eu disse quando, e não se. Tristes tempos!
Vou fazer o mesmo com os documentos, tipo um kit para fugas de emergência, como um assento ejetável de documentos. Saco, como explicar essas táticas de sobrevivência urbana a um suíço?

sexta-feira, junho 08, 2007

Desenho para uma cartilha daqui do trabalho, cujo tema, adivinhem: é segurança bancária.


Nota de falecimento: meu HD pifou e as postagens podem ficar um tanto irregulares. Mas não se preocupem, amigos! Não perdi nada grave, à exceção, é claro, das minhas fotos da suruba com a Ali Larter. Sei que ninguém ia acreditar, por isso tirei as fotos, mas agora que perdi tudo, é minha palavra contra a de todo mundo.
Entendo como essas coisas funcionam, tipo, passar por uma experiência mística da qual só você tem provas contundentes. Como ver o Pé Grande ou falar com Deus em pessoa. Muitas seitas malucas, hoje hegemônicas, tiveram como base fatos ainda menos verificáveis. Bah.

segunda-feira, junho 04, 2007

Dia desses eu troquei dois e-mails com o Daniel Lafayette, CEO do Dr. Zigoto, um blog de fino humor. A gente comentava sobre um sujeito chamado Gary Larson, e no quanto um livro dele em particular foi preponderante em nossas carreiras ( ha ha ha! ) como desenhistas.

O que ele disse serviu pra mim. Há uns vinte anos (!), eu passei numa banca e comprei esse livrinho, pirei e decidi fazer um também. Depois, publiquei meu primeiro livrote de desenhos e esse livro do Gary foi minha inspiração e Marco Zero profisional. Guardo ( mal ) o livro até hoje.

E taqui o responsável, a culpa também é dele!



Daniel, esse é o mesmo livro que você viu? Deveriam prender esse cara por aliciamento de jovens!



To the caractere´s foot

O Millôr tem uma série famosa chamada The Cow Went To The Swamp, em que ele traduz ao pé da letra expressões e gírias brasileiras para o inglês. Resolvi imitá-lo descaradamente, mas traduzindo expresões corriqueiras aqui do Ceará para a língua de George Bush.

Obrigado ao Olinto pela consultoria graciosa.

...---...

É muita marmota!
it's too many woodchucks!

Dormir até o cu fazer bico.
To sleep till the ass makes a beak.

Encher o rabo de cana.
To fill the tail with sugar cane.

Botar boneco na rua.
To put a doll on the street.

Dar uma com a doidinha
To give one with the little crazy girl.

A mulher deu um nó no pau dele.
The woman tied a knot in his stick.

Ele cagou o pau!
He shat the stick!

Ela não tem um pau pra dar em doido.
she doesn't have a stick to give a crazy man.

É muito cu doce!
it's too much candy ass!

Levar umas cabeçadas no céu da boca.
To get some headbutts in the sky of the mouth.

Aquilo ali é um soin?
Is that over there a little dream?

Vá encher o cu de rola!
Go fill the ass with doves!

Rebole no mato.
Shake it in the woods.

Meta-se com sua vida!
Fill yourself with your own life!

Queima, raparigal!!!
Burn it, whores!!!

É o novo!
It's the latest!

Aí dentro, negrada!!
Inside there, black fellas!

Ele é um tamborete de forró.
He's a drumette of for all.

Não tem o que um periquito roa.
It doesn't have what a parakeet gnaws.

É um liso!
He's a smooth!

Vai te lascar, abestado!
Go chip yourself, crossbowman!

Vá pegar o beco!
Go get the alley.

Capei o gato!
I castrated the cat.

Escapei fedendo!
I escaped stinking.

Tô que não passa um prego.
I'm so that it doesn't pass a nail.

Reprovado no teste da goma.

Failed the flour test.

É um corno feladaputa!
He´s a horn sonofabitch!

Ele é um bafo de gala!
He´s a cum´s breath!

Ai, da Base!!
Aw, of the Base!!

É um carga torta.
He´s a load pie.

Comi o mudinho!
I ate the little mute!

Deu até sair sangue.
Gave till the blood came out.

Pode ser ou tá difícil?
Could it be or is it difficult?

Todo castigo pra corno é pouco.
All punishment for horn is little.

Tudo é gasto!

It's all expenses!

sexta-feira, junho 01, 2007

Um casal de amigos vai casar ( não há nada que se possa fazer para dissuadí-los! ) e eles me encomendaram um desenhinho, que vai enfeitar canecas e convites. O Trenó é por causa de uma parada deles lá, não posso dizer mais detalhes, cof, cof, cof!



Turistas da Pérsia

Os três reis magos eram excelentes astrólogos mas péssimos cartógrafos, tanto que erraram o caminho e foram parar no Brasil de hoje. Não me perguntem como, só estou contanto o que ouvi dizer. Por pura coincidência, os três sábios entraram no Brasil via Ipanema, contornando a lagoa e chegando na altura do Arpoador. Era um belo dia de sol e a praia estava lotada.

Os camelos chamaram menos atenção que os trajes. Turistas japoneses correram para tirar fotos com a estranha caravana, fato que deixou os sábios extremamente confusos, principalmente pelo estourar de tochas a poucos palmos de seus rostos. Logo Baltazar, o mouro, foi saudado pelos nativos: Fala Mussum! Figuraça! Evidentemente que ele não entendia a língua do local, mas entendeu o aceno de braço e o sorriso do popular como uma saudação amistosa. E Baltazar respondeu com outro aceno, mas muito mais contido.

Por causa da buzina dos carros e do alarido da multidão, os sábios tiveram que conversar entre si num tom de voz que lembrava um bazar, digamos, persa. Fato este que os desagradou deveras, pois refinados e cultos como eram, evitavam usar as mesmas armas de persuassão dos ignaros. Enquanto discutiam onde afinal estavam, Melquior sentiu sua túnica ser puxada e quando olhou para baixo, viu um molequinho que lhe estendia a mão e pedia uns trocados.

Nisso, chega a autoridade local, facilmente identificada pelos sábios por causa do uniforme e dos modos, muito parecidos com os dos assírios. Através de gestos, o oficial sugere que os camelos não podem ficar na via pública, então, foram para a areia da praia, onde já os aguardavam comerciantes com rostos ansiosos e transeuntes excitados. É uma pegadinha? Disse uma moça vestida como odalisca, só que sem várias camadas de véu.

A visão dos habitantes locais, desnudos e queimados de sol, foi logo confundida com os líbios, tribo do Saara famosa pela devassidão. Mas na Líbia não havia assim escravas tão belas, nem tão robustas. Os sábios coravam a todo instante. Sabendo que a comunicação seria difícil e impossibilitados de se orientar pelas estrelas, apearam de seus camelos e um deles começou a rabiscar na areia. Talvez esse povo, obviamente desconhecedor da escrita, pudesse entender meus desenhos, pensou Melchior.

Rapidamente formou-se uma roda de curiosos, enquanto o mais velho dos magos desenhava na areia. Ele esboçou um leão, símbolo de Herodes, governador da Judéia, e ao lado, um palácio. Todo o mundo civilizado saberia o significado daqueles símbolos, pensou. Acho que ele quer uma jaula, disse um vendedor de paçoca. Deixa de ser burro, ele é turista, quer comprar uma lembrancinha. Ô, da Turquia, na Galeria Alaska tem esses bichinhos aí - disse um halterofilista que passava pelo local. Desapontados, os magos decidiram que o melhor a fazer seria expor os presentes que levavam, pois quem sabe, ao verem os artefatos, aqueles rudes camponeses entendessem o significado de sua visita.

Ao se voltarem para os camelos e seus alforjes, perceberam com espanto que uma turba já havia pilhado todos os seus pertences! Absolutamente consternados, os magos decidiram voltar imediatamente pelo caminho de onde vieram e juraram que nunca mais voltariam àquela terra tão hostil. Fato absolutamente sem precedentes, os magos praguejaram os piores insultos contra a situação, em pelo menos quatro línguas. Nem quando foram atacados por lobos na Eritréia, e durante um encontro com beduínos azuis na Arábia, se sentiram tão em perigo. Como haviam decidido, deram meia volta e desapareceram.

Enquanto isso, durante o pôr-do-sol daquela tarde, deu-se a partilha das trouxas dos vacilões, como foram apelidados os magos na gíria local. Esnobaram os ricos tapetes e as sedas mais caras, pois não reconheciam seu valor. Um dos garotos - pois não passavam de crianças - enrolou-se com a mais fina seda da Caxemira e imitou um cantor da moda. Abriram também as arcas com o ouro e a mirra e o fulgor dos presentes não era páreo para o brilho nos olhos do pequeno bando. Quando achavam que já haviam ganho o dia o suficiente, eis que o mais velho deles achou a caixa com o incenso.

Nunca a pedra do Arpoador teve um entardecer tão festivo. A turma confeccionou cigarrinhos artesanais e os rechearam com o raro e caríssimo incenso do oriente, presente involuntário dos magos. A palavra transcendente foi pouco para descrever o estado de alma dos jovens. De repente, tudo fez sentido. O ar era mais doce, o céu mais bonito, o vento que insuflava a orla era como o próprio hálito de Deus. O incenso, digno do rei dos reis, agora aconchegava os corações daqueles meninos tão pobres e pardos, como anjos sujos de brincar. Durante as pausas entre uma tragada e outra, um deles comentou: Tu viu? os tiozão regulando a mixaria! E um outro: passa de novo, esse é da caixa!