quarta-feira, outubro 31, 2007

A lei do mais forte, A justiça de Salomão, A escolha de Sofia: chame como quiser.




2008 e suas efemérides redondas

50 anos da vitória do Brasil na copa da Suécia. Na final, o time formado por Pelé e Zagallo venceu o selecionado local vestindo camisetas azuis, compradas horas antes na feira. O emblema da CBD foi arrancado das camisas canarinho e costurado na marra nas novas, pois o time não tinha um uniforme B e a Suécia também jogava de amarelo. Obrigar os donos da casa a mudar de roupa não dava, né?

Foi nessa copa que a comissão organizadora trocou às pressas a bandeira de Portugal pela do Brasil, pois ignorava o fato do país sulamericano já ser independente do europeu há 136 anos. Nos intervalos dos jogos, Garrinhcha, aquele de Pau Grande, engravidou uma sueca que dava mole por ali. Bons tempos. E a seleção ainda foi e voltou da Europa de navio, hein?

100 anos do evento de Tunguska. Em 1908, um fragmento de cometa se desintegrou na atmosfera, gerando uma onda de choque com energia equivalente a uma dúzia de bombas H. Apesar de não ter deixado uma cratera, o impacto devastou extensas áreas da tundra siberiana, incinerando árvores e vergando os caules radialmente - como naquele jogo de pega-varetas. Se o impacto tivesse acontecido horas depois, a Terra teria oferecido a latitude de Paris para o beijo do cometa. Melhor sorte na próxima.

20 anos da Constituição de 1988, a que nasceu parlamentar e se tornou para lamentar. Desculpem, eu jurei que não usaria esse trocadilho.

80 anos do Mickey Mouse. A ratazana criada pelo Disney segue firme e forte.

120 anos da abolição da escravidão no Brasil. Ok, agora a gente recebe um salário, mas pouca coisa mudou. Antigamente, pelo menos, morava-se de graça na Senzala. Hoje, tem gente pagando aluguel ao feitor.

200 anos da fuga da família real portuguesa para o Brasil. A corte do rei de Portugal passou a perna em Napoleão ao abandonar Lisboa, indefesa, à sanha devastadora dos franceses. O evento é importante porque foi a primeira vez que uma metrópole adotou como sede, sua própria colônia. Mais ou menos, foi como se o rei George III abandonasse Londres e fosse ser vizinho de cachaçadas do general Washington, na Filadélfia.

A promiscuidade da corte com a plebe carioca esculhambou de vez o precário respeito ao que fosse governo. A proximidade e a intimidade forçadas foram boas, historicamente, porque fundiram na alma carioca - e na brasileira - um certo quê de galhofa com as autoridades que perdura até hoje. Foi ruim, no entanto, porque todo mundo se achava amigo de algum poderoso, portanto, acima da lei e inatingível. Estava fundada uma nação.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Desenho para a revista do Banco do Nordeste. Todo mês eu faço a ilustração da crônica que abre a revista.


sexta-feira, outubro 26, 2007

Desenho do químico alemão Friedrich August Kekulé von Stradonitz, intuidor do Anel de Benzeno e patrono do logo da Petrobrás. Quem me pediu a arte foi o Gustavo, para sua turma do terceiro ano. Cobrei um preço caríssimo: agora, todas as gatinhas da sala têm um santinho meu na carteira, e conseqüentemente, a vida sexual arrasada.


O artigo que ele escreveu tá aqui, ó: (link).



Eu insulto o burguês

Eu leio de tudo. Romances russos, noveletas espanholas, contos irlandeses, panfletos do Hercólubus, manifestos do Damião Experiença, recados em notas de um real, mensagens de porta de banheiro e o Despertai. Só existe um gênero literário que eu não suporto, o qual devoto minha ira e preconceito: a poesia.

Eu detesto poesia. A poesia está para a literatura como a arte abstrata - essa emporcalhadora de telas -, está para a pintura. Quem não sabe pintar, faz arte abstrata. Quem não sabe escrever, faz poesia. Tal qual o Coringa, que numa sanha destruidora poupou uma tela do Francis Bacon, eu só tolero um tipo de poesia, a criada por um tal de Anacoreta. Achei esses panfletinhos colados na minha porta. Alguém pode me dizer o que diabo é isso?







quarta-feira, outubro 24, 2007

Tropel de Elite
não resisto a um pitaco também
Alguém lembra da música Você Não Soube Me Amar, da Blitz? Cada linha de cada estrofe do mega sucesso de 1982 virou gíria na boca do povo. Garçom, uma cerveja, só tem chopp, desce dois, desce mais, amor pede uma porção de batata-frita? Ok, você venceu, batata-frita. Da mesma forma, nenhuma frase do Tropa é desperdiçada. As falas memoráveis dos personagens correm Brasil afora. São tantas e tão grudentas que mereceriam um site próprio, mas eu gostei particularmente da: missão dada é missão cumprida, pois tenho que engolir sapo de vez em quando e essa fala me ajuda a ir em frente, como um Salmo.
Pô, é isso aí. Cada frase doTropa, recitada e encaixada pelo povo nas mais diversas situações, remete à função dos Salmos. Precisa de uma resposta à altura para seu chefe chato? Tente: tá querendo me fudê, cumpádi? Ou pra quando sua filharada ensaia uma rebelião: quem manda nessa porra sou eu! Ou quem sabe, a frase: pede pra sair, seu meeeerda! dita por todo o estádio de futebol, ajude a ilustrar a situação do técnico burro. E por aí vai.
Fora que o filme é tecnicamente muito bem feito. Tem uma piadinha visual que com certeza, pagará seu ingresso. Ou pelo menos, abaterá os seus quatro paus investidos no DVD.
Na sala da faculdade de direito, o soldado Matias está sentado na frente da classe, apresentando um trabalho. Sua cadeira está voltada para os outros alunos. Nisso, surge uma discussão sobre o papel da polícia num Estado democrático, e detalhe: ninguém na sala sabe que o cara é meganha. Evidentemente os alunos descem o cacete na polícia e o Matias ali, calado. Então o professor aproveita o gancho e escreve no quadro-negro a palavra polícia, e faz uma setinha para explicar uma tese. No ângulo em que a câmera está posicionada - que no fim das contas é o nosso ponto de vista -, a tal setinha aponta exatamente para o soldado.
A piada só faz sentido pra quem vê o filme, ou seja, ninguém na sala poderia desfrutar dessa perspectiva onde o professor entrega, sem querer, a identidade do aluno. Eu achei sensacional. Foi uma sacada típica do cinema, que por ser projetado numa tela, "esmaga" a profundidade de campo. Essa piada não poderia ser feita num teatro, por exemplo, pois as múltiplas visadas de cada espectador na platéia, gerariam pontos de fuga diferentes. Mal comparando, foi como aquela cena do Austin Powers, em que ele circula nu pelo apartamento mas os objetos do cenário, estrategicamente colocados, escondem suas vergonhas.
E como todo fenômeno cultural ( obrigado, Gaudí! ) que se preze, Tropa de Elite também gera uma infinidade de paródias. Desde refilmagens caseiras postas no YouTube, piadas requentadas e até o poster da candidatura do capitão Nascimento ao Senado. São dezenas de sites de humor que de uma forma ou outra, pegam carona no Bonde do Caveirão, inclusive aqui. Qua tal essa minha incursão pela charge?

terça-feira, outubro 23, 2007

161


Arrolado (epa!) pelo Maurição (http://blogdomauricao.zip.net/), jornalista e estudioso das presepadas cearenses, entro na brincadeira da corrente:

Os passos:

1. Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2. Abrir na página 161;
3. Procurar a 5ª frase completa;
4. Postar essa frase em seu blog;
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6. Repassar para outros 5 blogs

Estou agora no trabalho, uma repartição semi-pública deveras curiosa. A única coisa que se parece com um livro, que consegui achar esticando o braço, foi esse manual técnico de sei lá o quê. Pelo menos havia mais de 161 páginas e pude completar o desafio.
A frase é essa aqui, ó:
Para alterar a aplicação ou imprimi-la, a opção Visualizar Documento deve estar selecionada.
E convoco o Zarastruta - mestre da prestidigitação binária, o Thiago - lorde das ilhas mediterrâneas, o Edge - regente do sol oriental, o Benett - aquele que apavora, e o Marco Aurélio Brasil - um cavalheiro num mundo cheio de cavalgaduras; para continuarem a brincadeira.

segunda-feira, outubro 22, 2007

sexta-feira, outubro 19, 2007

Desenho prum conto da revista do BNB, sobre um garoto que perde seu primeiro amor. No caso, um peixinho vermelho chamado Betinho. Chuinf!


Corolário da semana
Eu compro na baixa e vendo na alta - já diria o soteropolitano, que adquire seus peixes na Ribeira e vende na Paralela.
É claro que o Brasil tem conserto. A licitação das obras é que é demorada.
Ao me vir chegando, resista à primeira impressão: não estou contente em lhe ver, é que sofro de priapismo matinal.
Não existe são sem mácula, pão sem fécula, mel sem páprica, fala sem réplica, gel sem Drácula e xana sem minhápica.
Penso, logo existo. Pois é, mas se seus pais pensassem, você não existiria.
Frase? nessa tempão um demorou se você que notou Já
O mal do século XIX era a melancolia. O século XX botou a culpa na melanina.
Você não é o que come, nem o que veste, nem o que fala, nem o que pensa, nem o que ouve, nem o que sabe, nem o que escreve. Você também não pode ser definido pelas suas amizades, pela sua conta bancária, pelo seu berço, pelo seu cheiro, pelo seu cabelo, pela sua nacionalidade, pela sua cor. Muito menos, sua fé não o define, nem tampouco sua generosiadde, seu altruísmo, sua vilania, seu fetiche, sua tara, seu semblante, seu casamento, seu pecado, seu vício, seu partido, sua facção terrorista. Então sobrou o quê? Com toda certeza, sem medo se errar, posso afirmar categoricamente que você é o que seus átomos são.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Caricatura de um casal de primos. A menina é danada e mandona, e tem um coelhinho de pelúcia. O menino, segundo me disseram, é um doce de pessoa e que sonha em ser piloto. Daí minha sugestão óbvia de colocá-los com roupas que lembrassem a Mônica e o Cebolinha. A menina ficou parecida, mas o menino não. E daí? As pessoas só vão olhar pro Mig no braço dele mesmo.


Cocaconha
Como estivesse muito tenso, Zacarias Sexto resolveu fumar unzinho. O motivo de tanta tensão era uma palestra que nosso protagonista faria dali a alguns dias. O tema? O que mais? Técnicas motivacionais. A platéia, formada por jovens terceiroanistas, vinha freqüentando aulas-espetáculo e palestras extra-classe o ano todo, para desopilar do temido vestibular. Zacarias - um bem sucedido produtor - seria o palestrante da semana. E fumou e ralaxou.
Mas a palestra, na verdade, era hoje. Ligaram do Cursinho dizendo que todo mundo estava esperando por ele, e nada do pelestrante aparecer. Diabos! Na confusão da semana, Sexto confundira as datas e agora tinha menos de uma hora para aprontar o powerpoint e se recompor. O problema era que Sexto nunca pautou pelo comedimento. Quando dava um tapa, a atmosfera da casa ficava tão espessa quanto um nevoeiro em São Francisco. A cabeça estava tão feita, que nem uns óculos-escuros feito de blackout de cortina evitaria a dor de cabeça. Fora o bafo, que parecia uma queimada em Goiás. O que fazer?
Teve uma idéia genial, pelo menos do ponto de vista de alguém que há poucos instantes, jogava jó-ken-pô com seu gato. E o gato estava ganhando. Resolvera apelar pra uma modesta carreirinha de pó que sobrara da última reunião do condomínio. Modesta pelos padrões de Zacarias, é claro, pois a carreirinha parecia um sulco de arado na neve. A idéia era que o efeito de um anulasse o do outro. Assim, meio chapado pela maconha, ele poderia ficar mais ativo devido à cocaína. E mandou ver.
Chegou ao auditório do Cursinho e estranhou as cortinas derretidas, que pendiam do teto como chocolate em calda. Uma coisa levou à outra, e uma larica comparável à fome de milhares de faquires se apossou da sua barriga. Pensou ouvir um ronco alto como as turbinas do A380, e rapidamente, cobriu a barriga com uma mão, enquanto a outra tapava a orelha esquerda. Foi assim que entrou no palco, sob os olhares atentos de cem estudantes.
Subitamente, achou que aqueles quatrocentos olhos estavam lá para persegui-lo. Passou a estapear o ar, como se os olhos fossem uma multidão de insetos que o atacassem. Tão rápido como veio, a nuvem de insetos dissipou-se e tudo o que sentiu foi uma sensação de paz, fazendo com que pairasse no ar. Na verdade, ele passara dos limites do palco e caíra aos pés dos estudantes da primeira fila. Rapidamente, ergueu-se de novo e começou a rir desbragadamente da camiseta de uma garota, já que por algum motivo, achara terrivelmente engraçada a palavra bay emoldurada pelos seios da adolescente.
Como as aulas eram mesmo divertidinhas, todo mundo achou que aquilo fazia parte do show. Assim, Sexto foi reconduzido ao palco e entabulou algumas palavras, que saíram mais ou menos legíveis quanto mais próximo ou distante ele chegava do microfone. Fazendo um movimento pendular, Sexto se divertia ao brincar com a própria voz que ouvia pelo retorno. O que ele queria dizer era que se sentia grato pelo convite, e podia cheirar no ar o enorme entusiamo dos jovens pelas suas futuras carreiras. Fico orgulhoso de estar aqui com vocês, diria ele. Mas o que saiu pelos auto-falantes, enquanto ia e voltava de encontro do microfone foi: - Eu... podia... cheirar....uma enorme...carreira... com vocês!
O precário respeito da platéia com o palestrante ruiu imediatamente, como os sonhos dos clientes da Encol. As vaias e apulpos atingiram nível 7, na escala Galvão Bueno de gritaria. Achando que tudo aquilo eram melodias em seus ouvidos, Sexto foi retirado do palco enquanto executava um air violin imaginário, sob aplausos e urros dos estudantes. Evidentemente que nunca mais foi convidado para coisa alguma, mas sua performance doidão foi comentada por semanas.
Zacarias Sexto batizou ( no bom sentido, é claro ) sua descoberta de Cocaconha. Achou as dosagens ideais e agora, é um próspero empresário do ramo de diversões psicotrópicas. Inúmeros cientistas tentaram sem sucesso misturar maracujá com guaraná e Zach Six - seu novo nome código -, conseguira o equivalente com e erva. Cada geração tem o Fleming que merece. Vai uma Conha aí?

terça-feira, outubro 16, 2007

Fatos e Fotos
Alguns flagrantes do fim de semana. Abaixo, uma prova pra quem acha que brinco quando chamo minha toca de Batcave. O simpático morcego estava pendurado no hall do elevador, junto com outros dois amigos. Ao perceberem minha presença, eles se mandaram. Mas este, corajoso - ou petrificado de medo -, posou pras fotos. Grande bicho! Prefiro a casa coalhada de morcegos a criar uma jibóia.


Durante uma das minhas projeções astrais, captei este instantâneo. Ao fundo, lá longe, a gente divisa a catedral, com suas torres agulha de 72m. À esquerda da foto, na linha do horizonte, os contrafortes da serra da Taquara. Os portugueses achavam que essa serra, início da grande serrania de Maranguape, estava recheada de minas de prata. Ledo engano. A única coisa que brilha no Ceará é o quengo do povo ao sol.


Um pequeno close da foto anterior. Reparei numa coisa curiosa: o estilo gótico não combina com esse solzão. A catedral de Fortaleza fica bem menos assustadora debaixo de tanta luz. Mas à noite, quando ainda não havia a iluminação festiva da prefeitura, a catedral metia medo. Reparem também na enorme duna de areia ao fundo, quase apagadinha por causa da maresia. Lá fica a favela do Pirambu, que ocupa inacreditáveis cinqüenta por cento da cidade. Vejam também as ondas revoltas, pois nesse ponto o mar bate direto, sem a proteção da enseada do porto do Mucuripe.


A já citada serra de Maranguape. À esquerda da foto, outra massa respeitável, a serra de Pacatuba. No meio das duas, não sei se vêem, fica a distante serra de Baturité, que acolhe no topo minha cidade serrana do coração, Guaramiranga. A altitude delas? Maranguape e Pacatuba têm mais de 850m e Baturité culmina aos 1.115m.


Meu prédio! Eu moro nesse prédio no centro da foto, que ostenta um ridículo arco no telhado. Ao nível da rua, temos praticamente um pequeno bosque particular. A copa das árvores chega até o sexto andar, em alguns casos.


Um gordão ao vento. Entre meu sovaco e o guarda-corpo, dá pra ver de relance, lá embaixo, meu próprio prédio.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Capa da Agenda do Portador de Eficiência, em sua sexta edição. Quando os desenhos estiverem prontos, vou colocar alguns por aqui, ok?


Poliana velha
Quando me olho no espelho, o que enxergo é um pacote de banha cabeludo, cuja expectativa de vida já chegou à metade. Quase o mesmo acontece quando acesso minha conta bancária: vejo passar aqueles capins rolantes, típicos de filmes de faroeste. Desolação.
Mas o que é isso, alegria! Sou um otimista nato, apesar da raça humana sempre insistir em baixar minha bola. Mesmo que o planeta acabe calcinado e radioativo, ainda arranjarei ânimo para dizer: - Bem, pelo menos acabamos com as baratas. Meditando sobre os fatos da vida, relacionei alguns motivos pelos quais eu tenho um absurdo orgulho de mim mesmo - habilidades essas ou características quase na orla dos superpoderes.
Primeiro, eu tenho uma facilidade enorme para engordar. Considero esse um dom e tanto, já que estamos cercados de anoxéricos e magricelas que - horror! - fazem dieta para engordar. Nunca entendi isso, alguém vai ao médico para saber como ganhar uns quilos? Esse consultório fica onde? Na Pizza Hut? Coma, meu filho, coma muito, depois fique no sofá vendo desenhos que você engorda. Eu sempre digo que numa eventual fome mundial, eu e uns poucos milhares de gordalhões repovoarão a Terra. Os esquálidos vão minguar, minguar até que não sobre nada. Mas eu e meus companheiros de KFC nunca chegaremos a zero. A crise vai passar, e com o tempo, recuperaremos nosso corpinho saudável e as rédeas da evolução.
Também não gosto de água. A água é a fonte condutora de boa parte das doenças do planeta. Historicamente, a água de Londres vinha do Tâmisa, uma espécie de Tietê com anabolizantes. Quem bebia dessa água infecta tinha mais chances de se desmilingüir em merda, já que a desinteria e a cólera imperavam. No entanto, quem só bebia cerveja e uísque não tinha esse problema, viviam mais e conseqüentemente, geravam uma prole adaptada a altos níveis de álcool no sangue. A repulsa à água gerou uma população tolerante à bebida. Os irmãos G allagher estão aí mesmo e não me deixam mentir. Eu nunca bebo água, só sucos, café, cerveja e vinho. Até refri tô abandonando. E estou saudável como um potro. Outro ponto a favor da minha dieta anahídrica é que os peixes e sapos fodem dentro d´água. Eu hein?
E pra terminar, sou estranhamente resistente ao frio - pelo menos para um cearense. Tal qual as orcas e elefantes marinhos, uma capa de gordura de um metro de espessura me torna termicamente isolado, tanto para altas como baixas temperaturas. Uma vez, eu estava em Porto Alegre num encontro de arquitetura. Era julho, e fazia uns cinco graus na cidade. Fui tomar banho no alojamento da Universidade e saí dos tapumes enrolado com uma toalha em torno da cintura, para espanto da gauchada que estava por ali. Todos eles pareciam que tinham acabado de chegar de uma expedição polar, com gorros, luvas e casacos. E ainda me perguntavam se eu era dali de Poa. Que bobagem. Tal qual o analista de Bagé, considero que boa parte dos grilos da humanidade é devido à frescura.

terça-feira, outubro 09, 2007

O venerável tricolor carioca Thiago, mais conhecido por seu site Cara de Milho, propôs um desafio para este que vos fala: um reles tricolor fortalezense. Eu teria que encaixar três palavras sugeridas por ele num conto ou crônica, e desafiá-lo também com outras três, à minha escolha. Pois está aceito o desafio! Abajo segue meu contilho e em seguida, as três palavras pro Thiago fazer o texto dele. Que Deus proteja o mais ocioso de nós e o juízo dos nossos leitores!
Bueno, as palavras dele foram: carta suicida, mortadela e submarino.
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A vida como ela é, em Cuernavaca


Esta era pra ser uma longa carta suicida, mas como o trem sob o qual planejo me atirar chega em breve, terá que ser mesmo uma notinha suicida. Sabia que não deveria ter perdido tempo, colocando o cachecol e as luvas antes de sair de casa. Que diferença iria fazer, eu temia ficar doente? Mas como ia dizendo, quero esclarecer em detalhes os fatos que levaram a esse meu ato extremo, para que a mesma desgraça não aconteça com vocês. E se vier a acontecer, que pelo menos vocês guardem o telefone de um bom tintureiro.
Tudo aconteceu no verão passado. Eu acabara de concluir meu curso de taxidermia, mas só ao receber o diploma percebi que não iria dirigir um táxi. Bem que achei estranho todos aqueles cadáveres, mas podia ser um lembrete a favor da direção defensiva, não? Como não queria desperdiçar o dinheiro e o tempo empregados, coloquei um anúncio no jornal oferecendo meus serviços. No dia seguinte alguém ligou, e o pedido que ele fez não podia ser mais estranho.
Combinamos um encontro e foi assim que conheci Carlo Rota, dono de um famoso empório de secos e molhados. Ele vendia queijo, mortadela defumada, carne seca, vinho barato e órgãos humanos, e queria que eu embalsamasse uma vaca para que ele a usasse como logotipo do seu negócio. O pobre muar seria então colocado no topo de seu estabelecimento, como uma placa de taverna que indicasse a especialidade do local. Daí fomos a uma fazenda escolher a vítima, pois Carlo queria tudo pronto para a festa de São Sansão, padroeiro dos brutamontes.
As coisas começaram a dar errado quando Carlo comprou um engradado da cachaça Nocu, a caninha inócua. Nada mais falso! Como a viagem até a fazenda fosse longa, entornamos todo o engradado e chegamos completamente bêbados ao local. Na confusão que se seguiu, o que eu lembro é de termos pego o maior e mais malhado animal que víramos, amarramos o bicho e colocamos na caçamba da picape de Carlo. No meio da viagem de volta, resolvemos retalhar o ruminante e fazer um tira-gosto com suas partes, já que a pobre vaquinha malhada ia ser mesmo morta. Um dia a mais ou a menos não importava.
Pela manhã acordamos sóbrios, apesar da cabeça latejar de tanta pressão - como num batiscafo de submarino. Olhamos em volta e vimos a merda que fizéramos. Nós confundimos uma vaca malhada de 300Kg com a dona da fazenda, que pra seu azar, vestia um modelito xadrez que a fazia parecer deveras com uma simpática vaca holandesa. Eu bem que achei estranho uma vaca chamar por seu advogado. Bom, a questão é que esquartejamos a pobre senhora e não satisfeitos, ainda traçamos seu suculento lombo. E agora, o que fazer?
Fizemos um pacto de silêncio e abafamos tudo. Eu embalsamei a velha, disfarçando-a como uma vaca gorda, e a colocamos no topo da espelunca de Carlo. Ela já está lá há meses e ninguém notou. Mas a culpa corrói minha alma, e é por isso que aqui estou, nessa estação de trem. Planejo dar cabo de mim mesmo, como expiação pelo meu comportamento torpe. Vou ficando por aqui, pois já posso ouvir o trem apitando. Adeus, mundo cruel! Mas me precipitei, não é o trem que chega, é a carrocinha de churros. Hum... que fome. Vou comer alguma coisa enquanto espero o trem das onze.
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E aqui, as palavras pro Thiago fazer o texto dele! Las escolhidas são: carta-bomba, toucinho e Concorde.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Os encaixes da piauí




Ora vejam!
Pois não é que deu certo o concurso da piauí?
Todo mês a revista alvinegra promove um concurselho literário, chamado encaixe. Eles dão uma frase maluca e os leitores da revista têm que encaixá-la um texto que faça o mínimo de sentido. O vencedor é publicado no final da revista, com honra e glória. Procurem aí na sua cidade ou vejam meu texto aqui pelo site da piauí.
Hoje enviei uma cartinha - carta mesmo, de papel e correio lesma - agradecendo por terem escolhido meu texto. Aproveitei e mandei também dois Garatujas, meu livro de desenhos, um dedicado ao pessoal da redação e outro ao João Moreira Salles, o piauiense mor. Olhaí o teor da missiva:

Muito obrigado por terem escolhido meu continho para o encaixe de outubro. Como se não estivesse feliz o bastante participando da edição de aniversário, ora vejam, fiquei ainda mais contente pela coincidência de compartilhar a revista com um artigo do Millôr e uma capa do Angeli - o que me garante um lugar rodapédico-histórico na imprensa do Brasil. É a glória!

Assim, gostaria de retribuir a gentileza, da melhor forma que posso. Por favor, aceitem de presente esse meu livro de desenhos, editado em 2004. Um exemplar é dedicado a todos da redação e o outro, vai autografado para o João Moreira Salles, ok?
Pois é isso, povo! Agora é esperar os convites para resenhar filmes das Brasileirinhas, escrever prefácios para poetas da seca e elaborar testemunhos no Orkut. Eu sabia que esse dia iria chegar!

sexta-feira, outubro 05, 2007

Diseño para uma cartilha sobre desertificação. Eu quis fazer a carcaça de um boi, mas ficou parecendo um cavalo morto com chifres. Acontece.


Maldita Internet!
Acabei de receber um texto meu, que foi escrito em 2006. Nesse meio tempo, ele foi sendo reescrito, vilipendiado, deturpado e reencaminhado de todo jeito, por escribas que suponho, sejam muito mais capazes do que eu. Parece com aquela brincadeira do telefone sem fio, em que cada um aumenta ou distorce a história um pouquinho, e no final, o que temos é um unicórnio transformado num troll das montanhas. Bah. É inevitável. Pelo menos não constava minha assinatura e nem a do Luís Fernando Veríssimo, coitado, o escritor a quem mais se atribuem textos apócrifos.
Minha prosa genial, filtrada pela mente de loucos, insanos, desviados e degenerados em geral. Pode ser que fique até melhor.
Geoffrey Rush como o marquês de Sade, em Quills.


Ah, e qual foi o texto? Bom, foi esse daqui, ó:

quinta-feira, outubro 04, 2007

A bagagem do viajante 2

Agora sou um excluído digital. O computer de casa pifou de vez e até que eu arranje 1.000 euros livres de impostos, vou ficar como nossos ancestrais do período colonial: catando piolho dos macacos, derrubando araucárias e traçando umas tupinambás de vergonhas lisas.

Mas o que fazer com a carcaça do bicho? Só o gabinete foi pulverizado, o resto ainda funcionava bem, apesar do monitor ser do tempo do Bumba. Pensei em fazer como o David Letterman, e jogar o monitor do telhado do prédio. Ou então, dar uma de Mythbuster e descobrir o que acontece com o poliuretano quando jogamos gasolina e tacamos fogo.

Buenas, o Espírito Santo baixou e resolvi doar o bicho para quem quiser levar. Fiz uma cartinha e tudo. Como acontece em todas as capitais do Brasil, aqui também há um exército de catadores de papel, plásticos e o escambau a quatro. Eles vagam pelas ruas, fazendo um trabalho de formiguinha digno, importante e lucrativo.

Deixei a tralha à vista de todos. Quando um deles achar as peças, vai ser como tirar a sorte grande. O material todo pode ser reaproveitado, é só ligar na tomada. Ou vendido pra quem quiser. Acho que o lucro pode chegar a uns 80 reais, talvez. Nada mal para uma noite de labuta na rua, hein?

Pois foi só eu subir pro meu ap que passou um dessas carrocinhas, mas não vi as peças sendo levadas. Depois desci novamente e confirmei que tudo se fora. Eles são muito rápidos! São os vigilantes recicladores da cidade! Pena que não vi a cena, queria tirar uma foto sem flash. Fica pra próxima, ainda tenho uma Epson caidaça pra me livrar.






quarta-feira, outubro 03, 2007


Meu amigo Bagman anda meio sumido. Curiosamente, ele não aparece desde que fora visto num forró, dando em cima da namorada do vizinho dum vigia do BOPE. Preocupado com seu súbito sumiço, resolvi invadir seu apartamento e revirar o lixo, na esperança de descobrir o paradeiro do meu amigo. Foi aí que encontrei estas mais recentes pérolas, escritas caprichosamente num papel de embrulhar prego.
Não sei por quanto tempo Bagman ficará em off. Presumindo que esteja vivo, em breve teremos mais de sua sabedoria reconfortante. Caso ele esteja num microondas no morro, ou apodrecendo numa cela infecta de algum quartel, só nos restará psicografar suas suras, pois bem mais importante que o homem é sua mensagem - já diria Duda Mendonça.
Aqui está um apanhado da produção recente do Bagman. Onde quer que esteja, espero que ele continue a nos iluminar com o holofote de sua sapiência. Mas que não cometa a indelicadeza de nos mandar a conta de luz.
Bagman's pearls of wisdom
  • Se estou ao lado de um fumante, sou um fumante passivo. E ao lado de um gay?

  • Tecnicamente, Eva tinha o mesmo DNA de Adão. Isso nos torna a todos, a humanidade, filhos de um incesto entre clones. Depois reclamam se eu traço uma jumentinha.

  • Mulher e estrada ruim: muitos se perderam por causa de três buracos.

  • Deus foi oleiro, mas seu filho Jesus optou pela carpintaria - talvez para evitar comparações com o pai. É por isso que Edinho foi jogar no gol.

  • Se um copo vazio está cheio de ar, a fome não existe, pois meu estômago também está cheio de ar. Então a voz da verdade é um peido?

  • Tudo passa. Menos minha barriga pela catraca.

  • A virgindade é mais cara à mulher porque na bodega da vida, ninguém compra algo com o lacre rompido.

terça-feira, outubro 02, 2007

Desenho para uma apresentação. Todos sorridentes, corados e felizes. Sei...


Terral 2
Nêgo Sinhô era um hômi grande, cumedorzin de mulé da raça fême. Um dia eu fui com Nêgo Sinhô prum chatô, pois tinha nutíça dumas quenga nova chegada do Paraná. Nêgo Sinhô tinha umas mãozona, pegou logo foi quatro galega pelos quartos e levou elas prus tapume, adetrás do bar. A gente só ovia era os gritos das dama. Eita Nêgo Sinhô!
Ôtro dia pela noite Nêgo Sinhô tava na burracharia. Nêgo Sinhô consertava pineu, roda e aro, ele intendia dessas côsa redonda. Aí chegou uma dona num carrão desses brioso. Ela vinha querendo que Nêgo Sinhô visse a rodinha da trasêra dela. Vinha não, ela sabia era da fama de Nêgo Sinhô e queria vim dá p´rele. E pois num deu foi muito? Ela saiu de menhã, toda lambuzada de gracha e de Nêgo Sinhô. Nêgo Sinhô era tabaiadô, mas se as fême rica dava cobre p´rele ele queria. Tu num queria não?
Nêgo Sinhô também derrubava umas neguinha no areal, só por gosto. Elas tudo ficava mêi agradecida, mêi tonta, Nêgo Sinhô tinha uma ruma de namorada. Nunca vi mulé com raiva dele não. Nas noite de lua eu, Nêgo Sinhô e Professor ia tocar no quintal de Mãe Zélia, lá no Arraial Moura Brasil. Gozado era que as cabôca que baixava só vinha se esfregar era em Nêgo Sinhô. Eu ficava mêi cum raiva, mas tinha vantage de sê amigo de Nêgo Sinhô. Nem ele dava conta de tanta cunhã, intão, sobrava umas pra mim. Eu cumia bem, num vô minti. Agradeço a Nêgo Sinhô.
Nêgo Sinhô tinha um bigodão. Uma vêiz a gente tava bebendo e Nêgo Sinhô foi mijá. Ele demora e demora, quando vem, vem todo faceiro. Eu fiz troça dele. Nêgo Sinhô, esse teu bigodão tá com cheiro de buça! E num tava mesmo? Já viro um nêgo ficá vermêi? Pois Nêgo Sinhô ficô vermêi da cor da jangada de Mestre Pedin. As mulé não dava folga p´rele nem quando ele vai mijá, cês acredita?
Chibungo também dava em cima dele, mas Nêgo Sinhô não gostava de rabicho de perôbo. Os viado então ficava amigo dele, só pra tá por perto, sabe? Nêgo Sinhô deixava prá lá, o nêgo se garantia.
Uma vêiz Nêgo Sinhô apareceu todo cheiroso, de branco. A gente riu foi muito. Ele disse que tava encontrando uma dona das Aldeota, e ela ia passar pra pegar ele. Depois a dona chegou e fêiz sinal de luz, e Nêgo Sinhô foi com ela. Só voltaro trêiz dia depois, ela levou ele pra casa de praia da dona, foro trêiz dia meteno. Quando voltou, Nêgo Sinhô pagou uma roda de cana com piaba frita pra todo mundo! O nêgo tava quase se estribando, eu disse assim pra ele. Ele disse que é isso, hômi é que nem vassoura, sem o pau não presta pra nada! Pois tava certo!
Nêgo Sinhô nunca embuxou ninguém. Ele dizia que não podia ter menino, o que atiçava as dona, eu acho. Mas ele foi ficando calado, calado até que sumiu uns tempos, parece que foi pro Aracati. De lá, perdemo o rasto dele. Todos nóis fomo tocando a vida. Uns sumiu também. Uns morrero. Eu não fiz uma côsa nem ôta, casei. Tô chêi de neto mas ninguém pra cunversá, nem pra bebê. Aí eu lembro do meu amigo, onde ele tá? Será que alembra de nóis? Pois vou ficando por aqui, a vista tá embaçada e amenhã tem barai com os ôto véi na praça. Gosto de ficá lá vendo as menina. É uma boa vida.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Nunca estive tão gato.

Deus existe
uma prova defabulosa
Conversava com minha vó quando ela me contou uma história saborosa, do tempo que eu era menino. Essa época foi mais ou menos depois do fim dos Beatles e certamente antes do estouro do ABBA, pra vocês verem a que fui exposto. Esse causo mostra como o deus sisudo do Antigo Testamento ainda paira sobre o imaginário das pessoas, apesar do upgrade dado pelo Novo Testamento - que trata de um deus mais descolado e voltado pra galera jovem da Palestina.
Bom, morávamos numa rua de subúrbio e nosso vizinho também era nosso parente. Ele começara a enriquecer pois tinha uma padaria, o que lhe conferia o status de Abílio Diniz do bairro. Certa vez, tomado de furor otimista com relação ao futuro de seu negócio, sentenciara, jocoso: quando eu estiver comprando dezoito sacas de farinha, vou passar a limpar a bunda com dinheiro! Depois disso, Deus o castigara e ele perdeu tudo, segundo minha vó.
Deus passa a existir se alguma pessoa crê nele. É simples assim, suponho. Minha vó pode testemunhar o poder terrível e vingativo do seu deus, ao arruinar um modesto padeiro da periferia de Fortaleza por causa de uma piada. Nessa mesma época, o mundo ainda penava com a Guerra do Vietnam e com a crise do petróleo, que deveriam sugar muito da atenção de Deus. Curiosas são as prioridades do Senhor. Mesmo com tantos problemas, Ele arranjara um tempinho para se meter no ramo de panificação. Mas para um deus que curte pão e vinho, nada mais sensato que cuidar para que suas franquias estejam em boas mãos. Tá certo.
Como eu disse, cada revelação é individual. Com a manifestação patente de seu poder, Deus mostrara a minha vó que Ele estava de olho. E que não tinha muito senso de humor. Assim, vejam que curioso: eu não tenho nenhuma prova da não existência de Deus - as galáxias insistem em me desmintir! - mas minha vó tem uma prova latente de Sua presença, tão clara e cristalina como se Ele mesmo lhe enviasse um fax. Sendo assim, ela tem razão e Deus existe. Vou passar a orar em frente a padarias. Amém.