sexta-feira, abril 11, 2008

Capa do livro que estou ilustrando. Além da capa, foram mais doze desenhos. Ouso dizer que ficou bem legal. Ao longo dos dias vou colocando alguns por aqui.




A troca da guarda

Caio Bêbadvs estava puto. Por causa dos incidentes da semana, fora destacado para trabalhar no sábado. Algum arruaceiro andara aprontando e agora ele tinha que bancar a babá do condenado. Por sorte, seria um trabalho relativamente simples, pois o sujeito não iria para lugar nenhum: estava preso numa cruz no topo do Gólgota.

Chegando lá, ouviu as instruções do chefe da guarda. Que ficasse de olho no miserável, pois ele era o líder de uma horda de malucos que provavelmente, viriam à noite para roubar o corpo do chefe. Assinou os papéis, pegou suas armas e sua armadura de couro e subiu o monte. Durante o curto trajeto, cruzou com Marcelvs Troso, que ficara de guarda a noite toda, e cumprimentou o colega com um aceno de cabeça.

Porém, ao divisar o cume, qual não foi sua surpresa ao perceber que no local não havia uma, mas três cruzes. Rapidamente, olhou para trás para tentar falar com Marcelvs e saber quem era o condenado importante, mas ele já havia desparecido numa curva da encosta. Outra vez, a batata quente viera parar nas minhas mãos, pensou Caio. O que parecia ser um fim de semana relativamente simples e com soldo extra, complicara-se, pois estava sozinho para cuidar de três arquivos mortos.

O dia passou sem problemas, mas o problema seria a noite. Seu turno só terminaria na manhã de domingo, quando poderia passar o problema para outro infeliz. Daí, Caio teve uma idéia. Resolveu trocar os títvlvs das cruzes. Pegou as três plaquinhas e misturou tudo, colocando em seguida uma no local da outra. A lógica era a seguinte: se um bando viesse à noite para furtar o corpo, eles teriam uma certa dificuldade para identificar o condenado correto. Eles não teriam como usar tochas e o rosto do condenado estaria envolto pela escuridão, pelos cabelos e pela crosta de sangue. Como nenhum deles compareceu à crucificação – evento restrito às autoridades e à família -, não teriam como saber qual era o corpo correto a não ser pelos títvlvs. Orgulho com sua própria engenhosidade, aproveitou e tirou um cochilo.

Acordou com o que parecia ser um terremoto. Assustado, quase não podia acreditar em seus olhos. Um facho de luz, brilhante como o dia, iluminava o topo do monte. A luz parecia vir direto das nuvens, como se uma gigantesca lua cheia abrisse um rombo no céu e despejasse sua luz num único ponto no chão. Como se não fosse estranho o suficiente, essa coluna de luz ora focava na cruz do meio, ora nas outras duas, como se parecesse indecisa entre as três. Atônito, Caio Bêbavs viu então a luz se decidir pela cruz da extrema esquerda. Algo aterrador aconteceu: o corpo do condenado pareceu flutuar no ar, e foi lentamente erguido na direção da luz. Tão rápido como começou, tudo terminou. Exausto e apavorado, Caio desmaiou pesadamente e adormeceu.

Acordou novamente com o dia já claro, sendo chutado pelo centurião chefe. Durante a madrugada, o corpo de um ladrão havia desaparecido, e agora Caio teria que prestar contas. Achou melhor não comentar os incidentes da véspera, pois ele sabia, ninguém iria acreditar mesmo. Antes de deixar o Gólgota, deu uma última olhada nos dois condenados restantes. Aquele que ocupava a cruz do meio já estava inchado e começava a cheirar mal. Desviou o olhar e pensou na sua vida. Provavelmente pegaria alguns dias de cadeia por ter cochilado no serviço, mas em breve voltaria à sua rotina. O mesmo não aconteceria com aqueles três, sobretudo o que desaparecera nas nuvens. Vocês sabem, ninguém volta dos mortos.

5 Comments:

Blogger Luana Camará said...

A vida sempre foi boa comigo.
Quando soube que o meu coração
estava carregado de sombras
e que ele só se alimentava de luz,
abriu uma janela em meu peito
para que por ela possam entrar
a negritude da noite,
o resplendor do orvalho,
o fulgor ds estrelas,
e o invisivel arco-iris do amor.

11:16 AM  
Blogger Hemeterio said...

wtf??

4:08 PM  
Blogger Edge said...

as orelhas do homer nao estao no formato MG. é alguma coisa de direito autoral? ou aquele nao é o homer e sim uma metafora dele?

9:24 AM  
Blogger Hemeterio said...

Ahá! Booth! O autor não conseguiu liberar o uso dos personagens, então, tive que inventar um pouco. O livro é muito legal, meio técnico demais, mas afinal, é uma monografia impressa. Acho que pode vir a ser um sucesso.

2:19 PM  
Blogger Kijar said...

See Please Here

10:19 PM  

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