quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Cartunzinho básico...





Spots do dia-a-dia


Meu ap está interditado devido a uma pendenga diplomática: as baratas se recusam a sair e ainda não estou autorizado a usar a força. Enquanto isso, estou passando uma temporada na casa da mamãe. Minha irmã sai para trabalhar cedo e tive que tirar meu carro da frente do dela. Assim, do jeito que acordei peguei o elevador.

Cabelo desgrenhado, barrigão de fora, calção puído e ramelas nos olhos. E sono, muito sono. Diga-se de passagem que eu estava pouco me lixando para minha aparência, àquela altura um misto de morsa adormecida com o penteado do Krusty. Cidade pequena é uma merda. Eis que no estacionamento do subsolo topo com uma antiga amiga de colégio. Temos até uma certa intimidade, pois nos vemos mais ou menos uma vez por ano desde 1985. Ela me cumprimenta amistosamente, mas sem dúvida, em suas preces matinais, deve ter pedido proteção para o dia que se iniciava justamente contra aparições daquele tipo.

Retribuo o cumprimento, tendo o cuidado de não encarar o marido dela. Só depois, possuído pelo espírito da escada, é que me toquei que a cena se parecia muito com aqueles pesadelos infantis, onde a gente se descobre nu dentro da sala de aula. Todo mundo já passou por isso, não?

O engraçado do sonho é que a gente começa a se perguntar como diabos pode ter atravessado toda a cidade com a bunda de fora, e só perceber o fato na hora da chamada. Do jeito que eu estava, com o traje mais apropriado para o Piscinão de Ramos do que para o saguão de um prédio pela manhã, sem dúvida deve ter havido um conflito de universos estanques. Bah, mas quem liga?

E que ela se considere sortuda, pois deixou de me ver de toalha. Se eu estivesse no meu ap, sem dúvida teria descido até o estacionamento com minha toalha do Batman (sério, eu tenho uma toalha do Batman). Andar seminu em seus próprios domínios não é afinal, censurável demais, não? No entanto, em respeito às criancinhas e cardíacos, passarei a me comportar pudicamente nas áreas públicas da cidade. Nada de ir de sunga ao banco, nem de ajeitar a cueca no casamento, nem de ir descalço ao shopping, nem de afrouxar o cinto no bandejão da prefeitura. Pudicícia, senhores!



sexta-feira, fevereiro 22, 2008

O que será que ela - ou eu - está aprontando?




O caderninho preto


Há poucos meses recebi a conta de meus pais. Meticulosamente, eles vinham anotando num caderninho preto tudo o que eu gastara ao longo de dezoito anos de vida. Estava tudo lá, desde os primeiros exames de ultra-som até o canhoto do Motel, onde supostamente, eu fora concebido numa semana de carnaval. Além das anotações, havia as provas. Num baú no quarto deles estavam todos os recibos de colégio, contas da farmácia, comprovantes de cartão de crédito e o escambau. Atônito, ainda conservei o sangue frio para dizer que naturalmente, precisava periciar todo o material. Me botaram para fora de casa junto com o baú, não sem antes me fazerem assinar uma espécie de recibo de intimação, com o gasto total detalhado. Com o caderninho preto nas mãos meu pai ainda brilhou os olhos: - Quer que chame um táxi?

Fui passar a morar no ap do Xereta, meu amigo das antigas que é um aspirante a advogado. Na verdade, ele trabalha como boy na firma de advocacia do pai, mas quer prestar vestibular para oceanografia. Enfim, coisa muito complicada, depois eu conto. O fato é que o Xereta me ajudou a destrinchar a conta, apontando eventuais erros, incongruências e exageros. Porra – disse o Xereta -, tem uma compra de duas cuecas feita semana passada. Admiti que eram justamente as cuecas que eu levara. Uma estava na mochila e a outra… bem, estava em uso. A conta era precisa o suficiente para não incluir dezoito presentes de aniversário, dias da criança e natais. Mas o resto estava tudo ok.

O Xereta notou meu desespero enquanto coçava a barba rala. Onde diabos eu arranjaria esse dinheiro todo? Para meu horror e espanto, a grana acumulada compraria, por exemplo, um bom apartamento. Meus pais também incluíram pequenas correções e juros sobre o montante, durante esses anos todos. Mas pelo menos não cobraram o que o mercado pratica. As taxas foram, como direi, camaradas - de pai para filho.

Eis que o Xereta teve uma idéia. Tecnicamente, eu não assumira de forma consciente a dívida, já que não pedira para nascer. Esse argumento caiu por terra, pois uma vez nascido, meus pais assumiram de qualquer forma todo o ônus da minha criação, e não posso me queixar que não tenha aproveitado bem. Também não poderia botar a culpa no governo, pois não houve pressão procriatória, nem abortiva – aliás, se o governo insistisse no meu aborto eu teria, afinal, um problema a menos.

Mas o Xereta não desistia: - E se a gente pedisse uma indenização a teus pais? Daí ele elaborou a teoria de que meu nascimento só me trouxe transtornos. Foram várias quedas, arranhões, traumas, exposição a perigos e tormentos variados. Para começar, nasci brasileiro, o que me limou várias oportunidades. Se meus pais achavam que tinham o direito de me cobrar por serviços não requisitados, então eles poderiam, pelo menos, ter escolhido um país melhor para mim. Ponto pro Xereta, e fomos fazendo as contas. Incluímos algoritmos que especulavam desde o quão perigoso é viver neste planeta cheio de terroristas até recentes pesquisas que mostravam que minha alimentação fora administrada incorretamente – sem beta- carotenos, vitaminas alfa, ácidos fólicos e o diabo a quatro, que qualquer criança de hoje usufrui numa boa.

Fizemos um cartapácio cheio de carimbos e assinaturas e mandamos para meus pais. E ora vejam, ganhei em primeira instância! Nossa conclusão é que viver é tão estupidamente perigoso que só um louco ou um criminoso colocaria bebês no mundo. Ainda cabem recursos, mas o Dr. Pereira – pai do Xereta – disse que minhas chances são boas. Tivemos o cuidado de incluir uma cláusula indenizatória que prevê uma modesta mesada para mim mesmo, enquanto durar o processo, com a qual estou me mantendo.

Aliás, assim que recebi a primeira mensalidade, fui correndo fazer uma vasectomia. Eu hein?

terça-feira, fevereiro 19, 2008

O Tutu Han Solo e seu co-piloto, Bolinha Chewbacca. Uma dupla de responsa!



A bolha estourada

O grande problema das metrópoles é a solidão. Bobagem. O problema de verdade com a cidade-grande é o número enorme de pessoas querendo se enturmar. É quase impossível curtir momentos de paz e introspecção sem que um desconhecido venha puxar assunto. E a coisa não fica só no pseudo bate-papo inocente: ainda somos importunados por pedintes e vendedores. Estes últimos, verdadeira praga urbana, também atacam por telefone, nos horários mais inconvenientes. Chorei de emoção ao assistir aquele filme do Will Smith em que ele está sozinho em Nova York, finalmente, livre da raça humana. Tola ilusão, só mesmo no cinema.

Enumerei algumas situações em que estamos vulneráveis ao ataque dos chatos. Por chato entenda uma pessoa entediante, e não os ácaros escrotais, por favor. A lista tem o duplo objetivo de reconhecer o campo de batalha e se possível, sugerir técnicas que nos permitam ignorar ou anular o ser perturbante. Aquí estão, que a sorte nunca o abandone.

Fila de banco – Local por excelência de proliferação dos chatos. Em geral, temos que conviver com estranhos por pelo menos duas horas, em pé, sem nada para fazer. Indefesos perante tão covarde ataque, os chatos aproveitam a deixa que só há um caixa para atender oitocentas pessoas e começa a conversa mole: - Que absurdo, só tem um caixa para atender a gente! Como se pode notar, o chato sabe contar e fazer relações entre volumes. Não teria dificuldades, portanto, para passar no vestibular da Creche da Tia Léia.

O objetivo do chato é liderar uma pequena revolução. Ele tentará recrutar simpatizantes – você! – para a sua causa. Se você responder, ele se sentirá encorajado e vai aumentar ainda mais o volume da voz. Talvez até inicie um bate-palmas. Você, como seu lugar-tenente, receberá todos os olhares. Terá muita sorte se a velhinha da frente também não adotá-lo como seu netinho. Mas não se preocupe que a coisa ainda vai piorar. O chato agora o considera seu melhor amigo e vai lhe dar dicas para gastar menos dinheiro com as contas. Pagando em dia e pela Internet, ele dirá. Pois é, pelo menos você não estaria ali ouvindo isso.

O que fazer? Suicídio não é opção, nem assassinato. Você tem compromissos para dali a poucas horas e prestar depoimentos na delegacia do bairro tomaria muito tempo. Minha sugestão: ignore. Ignore até mesmo se o chato lhe cutucar com os dedos – TODO chato fala cutucando. Se você não responder, o chato desiste e vai perturbar outro. Ou então, ande por aí com um fake I-pod. Basta colocar os fones brancos pendurados na orelha e ficar na sua. Outra dica possível é ler e desenhar na fila. E a melhor dica, é claro, é pagar suas contas em dia e pela Internet – já mencionei isso? Ir a um banco só mesmo para receber a Mega-Sena.

Andando na rua – Continue em movimento. Parado, você se torna alvo de chatos e encrenqueiros. Se possível, evite contato visual. Caso contrário, os chatos vão fisgá-lo com o olhar e caminhar reto em sua direção. Logo, irão entabular uma conversa-fiada sobre sua família faminta e congêneres. Antes de lhe pedir dinheiro, ele encherá seu saco com uma longa história, pedindo mil desculpas por estar lhe chateando. A melhor saída é tirar uma moeda do bolso, e entregá-la sem dizer nada. Poupará seu tempo e o do chato. Ou então, diga: -Que coincidência! Eu ia lhe pedir a mesma coisa! E invente uma história triste sobre toda sua família estar em coma, e lhe peça dinheiro antes! Resultado garantido. No entanto, a melhor dica ao sair na rua é usar óculos escuros tão opacos quanto os do Ray Charles.

Aquí também cabe a triste situação em que você se torna o chato. Acontece quando é absolutamente necessário que você peça uma informação a alguém. No Brasil a coisa funciona assim: você pede uma informação a um pacato transeunte, mas quem vai lhe responder é o cara do outro lado da rua, que estava ouvindo a conversa. Logo, estará estabelecido um diálogo nutrido a altos berros, tendo a clínica de aborto que você procurava como tema. Rapidamente, mais e mais pessoas estarão envolvidas, fazendo sua cara ficar vermelha como a bunda de um babuíno. Fuja discretamente, ninguém vai notar sua debandada. Não há dica para essa situação constrangedora. Apenas cuide para que a humilhação seja breve.

Estádio de futebol – Tal qual um bloco de carnaval, onde acontece de tudo, a melhor dica se você não quer ser perturbado é: o que diabos você foi fazer num estádio de futebol? Ou como vi escrito num estandarte de bloco em Olinda: Se Não Agüenta, Por Que Veio?

Eu costumo encarar o estádio como uma oportunidade antropológica de conviver com neanderthais. Pense nisso: que outra forma de interação permite estudar a raça humana em seu estado mais basal? Obviamente, descarto estar no meio das situações de pânico, onde cada um quer é salvar a própria pele – nada mais básico! Mas num estádio, em relativa segurança, as pessoas peidam e arrotam sem cerimônia, soltar urros e gritos ao verem uma fêmea passar, comem como diabos da Tasmânia e parecem não se incomodar com o cheiro de suor e testosterona vindo do vizinho. A única coisa que eu ainda não vi foi um cheirando a bunda do outro, mas não duvido que ocorra.

E mais: desconhecidos se abraçam como amigos de infância, soltam palavrões ao lado de criancinhas – SNAPQV? – mijam em qualquer lugar, vociferam a morte dos outros e por aí vai. Ou você embarca na onda ou fica na sua, sorrindo entre divertido e pasmo que por um puro capricho da natureza, compartilhe o genoma com aqueles macacos. Mas creia, é bem divertido. Impossível, portanto, passa por um estádio sem contatos de terceiro grau com humanos. Se você se sente solitário e quer algo mais, vá ao estádio e demore-se um pouco mais na revista: pode ser que pinte um clima entre você e o policial bonitão.

Sinal de trânsito – Nos países pobres, um sinal de trânsito é a oportunidade ideal para se armar um mercado instantâneo. Durante os poucos minutos de sinal fechado, dúzias de ambulantes oferecem seus produtos e ladainhas. Rio até romper as pregas do olho quando vejo os comerciais de carros na tv. O carro e o motorista são retratados como se um estivesse fundido com o outro, feito um centauro automotivo feito de aço, vidro, borracha e carne humana. A interação é mágica, a estrada é tranqüila e o som ambiente soa como o clarinete dos anjos. Mas na prática, não há um momento de paz. Quem acha que ao volante é o momento perfeito para se pensar na vida e relaxar, deixando a mente vagar, não pode deixar de ficar possesso com a interferência de pedintes, vendedores de morango, mocinhas com panfletos e é claro, simpáticos assaltantes numa moto.

Porém, se o seu caso for puxar assunto e se enturmar amistosamente no trânsito, experimente um teste: ande com a porta do carro ligeiramente aberta, sem estar totalmente travada. Não vai passar sete segundos sem que alguém em outro carro buzine para dizer que sua porta está aberta. E viva! Você fez mais um amiguinho.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Experiência com desenho tosco, feito em menos de 1 minuto. Gostei! E eu que perdia tempo com esboços a lapis...

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Bob Esponja recrutado

O filhinho de um colega nosso aqui do sanatór... digo, do trabalho está doentinho. Alguém teve a idéia de fazer um cartãozão com vários recados e desejos de boa sorte e saúde colhidos entre todos seus amigos laboriais. Outro alguém sugeriu que eu desenhasse a capa do cartão. Adoro fazer esse tipo de brincadeira, pois desde a alfabetização que me pedem a mesma coisa. Sério, eu acho divertidíssimo, além de ser uma forma de matar aula/trabalho na cara dos professores/chefes. Nada de novo sobre a Terra.

Bom, então pensei, que personagem poderia ilustrar a capa? Partindo do presuposto que o garotinho, de apenas 3 anos, não deve se lembrar do Spectreman, optei pelo personagem mais boa praça da atualidade: Bob Esponja. O simpático amigo do Patrick deve ser mais conhecido que Jesus Cristo, portanto, é o boneco perfeito para despertar simpatias tanto nele como em nós, velhos marmanjos. Só espero que aqueles celenterados da Nick não venham me processar.



O desenho foi feito com material de escritório disponível: marcadores de texto, lápis de maquiagem, recortes de revistas e adesivos. Espero que essa demonstração de carinho de todos nós agrade o garotão e a família dele. É isso aí, fuerza!

Ah!! Onde estará pousada a mão direita do Bob Esponja?? Tchanã!!! Quer adivinhar ganha uma fantasia de Plâncton para ser usada como tapa-sexo na próxima Parada do Orgulho Gay.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Quem conseguirá achar as 5 diferenças entre os dois desenhos? Vou logo dizendo uma: um dos desenhos foi feito em janeiro e o outro em fevereiro.

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Mais uma página da cartilha da FUNCEME sobre mudanças climáticas. Vão acostumando, tô meio sem novidades e vou encher o saco de vocês com esses desenhos. São 20 páginas ao todo.




Fernandinho... what??


O Brasil sempre foi notícia. Não há nem nunca houve escassez de manchetes para falar do nosso belo país tropical. A exuberância das matas e rios, praias e fiordes sempre tiveram lugar cativo no noticiário mundial, ao lado, infelizmente, das mazelas da política e do crime.

Uma bela imagem de uma praia fala por si, mas como apresentar nossa fauna política, artística e criminal aos gringos? Sim, pois nossa toponímia é exótica até para nós mesmos! Visando esclarecer certos pontos e ajudar o amigo jornalista/turista internacional, traduzi alguns nomes de nossas personalidades para o idioma saxão. Agora só não entende quem não quer!

Fernandinho Beira-Mar
Seaside Freddy

Joãosinho Trinta
Johnny Thirty

Zeca Pagodinho
Buddhist Little Temple Joe

Escadinha
Little Stairs

Zé Pequeno
Small Joe

Neguinho da Beija Flor
Hummingbird´s Nigger


Leão Lobo
Lion Wolf

Gaúcho da Fronteira
Border´s South Brazillian Cowboy

Cãozinho dos Teclados
Synthesizer´s Little Devil

Senador Mão-Santa
Senator Saint-Hand

Seu Jorge
Your George

Lacraia
Poison Centipede

Elias Maluco
Crazy Elijah

Alcione
Moose-One

Edson Lobão
Ed Big-Wolf

Frank Aguiar
Frank To Driving

Tiririca
Piss-Off Guy

Lenine
Communist Folk Singer

Marjorie Estiano
Marge This-Year

Edson Celulari
Ed Mobile

Tati Quebra-Barraco
Broke-Hut Taty

Paulinho da Viola
Redneck Guitar´s Paulie

Dudu Nóbrega
Eddie Node-Kitsch

José Alencar
Joe Beyond-Car

Carlinhos de Jesus
Charlie of Jesus

Bahiano
Bay-Year

Zé Galinha
Chicken Joe

Capitão Nascimento
Capitain Birth

Zé Ruela
Short-Street Joe

Sapo Barbudo
Beardder Frog

Dilma Russef
Kate Mahoney

Kid Vinil
Old CD Kid

E la nave va...

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Apresentação da cartilha sobre mudanças climáticas, para a FUNCEME. Que talho?



LP-RW

Ninguém duvida que uma das maravilhas tecnológicas de nossa época é a máquina de regravar LPs. Pensem nisso: um processo simples e eficiente para acondicionar num prático disco de vinil suas canções favoritas, vídeos, fotos e texto. Em suma, o melhor que a tecnologia analógica de ponta pode fornecer.

Acoplado à TV, a gravadora converte as imagens que vemos no tubo em delicados sulcos no disco. O processo inverso permite que se vejam as imagens novamente, ou seja, ao passar uma agulha especial nas ranhuras, o vídeo reaparece como que por mágica no tubo catódico. Seu programa de auditório favorito pode ser armazenado em apenas sessenta discos de face dupla, para ser assistido confortavelmente quantas vezes se quiser, não é o máximo?

E tem mais. Os inventores pensaram em tudo. Não necessariamente você tem que comprar contâiners e contâiners de LPs para gravar tudo o que lhe der na telha. Os vinis agora são regraváveis - o tema desse artigo, por sinal. Veja: a nova máquina raspa os sulcos originalmente impressos e acrescenta uma outra camada virgem por cima. Aqueles motoristas que sentem como perfume o cheiro do asfalto novinho sabem do que estou falando.

Depois da raspagem, a simpática bolacha pode ser reimpressa com o que lhe aprouver. Por causa das maravilhas da tecnologia sem fio, praticamente todo o tipo de dado pode ser codificado e decodificado. Suas fotos, por exemplo, podem ser transformadas em sulcos que são lidos como ondas eletromagnéticas. Essas ondas carregam as informações para uma tela que permite rever os desenhos com grande resolução de imagem. Evidentemente o contrário também é possível, fazendo com que uma imagem projetada na TV possa ser impressa no vinil.

O mesmo se dá com o rádio, nosso conhecido há décadas. Agora é possível "capturar" as ondas que viajam pelo éter e eternizá-las a partir de um prático dispositivo portátil. Sim, isso mesmo, portátil! O volume da máquina de gravar LPs não ocupa espaço maior que um carrinho de supermercado. Ele pode ser conduzido facilmente para todos os lugares, fazendo a alegria dos jovens em sintonia com seu tempo.

Nossos cientistas, repito, pensaram e tudo. Uma exclusiva versão da máquina pode ser acondicionada no carro. Isso mesmo, no carro! Ja pensou, ouvir sua coleção favorita de discos em seu próprio automóvel? Livre para ouvir o que quiser, sem estar atrelado ao gosto por vezes obscuro e antiquado das estações de rádio? pois agora é super simples fazer sua playlist e sair por aí com sua turma. O novíssimo modelo para automóveis vêm com molas autoajustáveis que permite uma altíssima fidelidade de reprodução e gravação sem solavancos. A agulha desliza sobre a superfiície do disco, suave como um transatlântico singrando um oceano sem ondas. Nem a menor trepidação, nem o maior dos buracos - e como os há em nossas estradas!- vai atrapalhar seu deleite, seu audiófilo corado!

Lembrando sempre que a máquina permite algo até então impensável: fazer cópias dos seus LPs! Digamos que um seu amigo tenha um raro disco de rock, impossível de ser encontrado novamente e inestimável, pois fora presente de seu tio Hank. Pois bem, agora tudo está mais fácil. É possível comprar uma bolacha virgem nas lojas especializadas, que pode ser usada para regravar o que se queira. Basta colocar o disco original num prato e o regravável num outro, que um dispositivo pantográfico exclusivo copiará trecho por trecho do material, com absoluta integridade lógica. Você não se sente como se o futuro tivesse acabado de aterrissar?

A máquina também vem em incríveis três cores: branco, preto e grafite, em absoluta sintonia com o design da época. Nem nossos carros têm tanta variedade de cores! Por causa de suas linhas atraentes, a máquina pode ocupar um lugar de destaque em sua sala de estar, disputando um local de honra que antes pertencera à TV, pode apostar. Imagine as possibilidades: armazenar as fotos de famlia em simpáticos vinis coloridos, ou reproduzir em qualidade polifônica o discurso de aposentadoria do papai! Não é um privilégio?

Como todo artefato que imprime sua marca numa época, se me perdoam o trocadilho infame, esse também virou um meme cultural. O verbo sulcar, por exemplo, é falado pelos mais jovens como sinônimo de "estar em sintonia". É comum que os jovens, desafiadores como soi, atrevam-se ao repreender seus pais dizendo que eles não estão sulcando nada, ou que aquela nova onda é puro sulco. Até onde vai a imaginação dos nossos jovens, não é mesmo?

Não fique por fora e adquira hoje mesmo um exemplar. Se esse artigo não foi suficiente para atiçar sua curiosidade, que tal se eu lhe dissesse que a empresa está à cata de um nome para o aparelho? As melhores sugestões vão ganhar um suprimento lifetime de bolachas virgens, para gravar até os sons do juízo final! Fica minha sugestão e como se não bastassem as dicas, ainda cometo a ousadia de manifestar o nome pelo qual eu batizaria o aparelho. Como já enviei minha carta, não há mal nenhum em divulgar aqui minha sugestão. Nomeei a geringonça de iPad, que tal? Esse i é de incrível! Acho que vou ter que abrir espaço em minha sala para os milhares de LPs!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Desenho para a cartilha da FUNCEME sobre mudanças climáticas. Desenho bobo mas eficiente.




CONCURSO 2008

A Revista piauí está promovendo uma nova versão do concurso Encaixe, sucesso do primeiro ano da revistona alvinegra. Dessa vez, os 10 ganhadores do ano passado têm que compor uma obra a 20 mãos, começando por uma frase fornecida pela revista. O melhor conto de cada mês servirá de alicerce para o segundo conto publicado, e assim por diante. A idéia é que ao final da promoção, a gente possa ter produzido uma noveleta mais ou menos coerente em 10 partes.

Não necessariamente, cada um de nós tem uma chance de publicar. Assim seria moleza, é só esperar que o rodízio caia em um de nós e mandar qualquer textabundo pra publicação. A regra determina que o ganhador de um mês não poderá participar da segunda rodada, mas pode concorrer novamente no terceiro mês. Teoricamente, a obra de 10 partes pode ter cinco delas feitas por um mesmo autor. Ou então, alguns de nós sequer terão o conto publicado. Vai ser uma boa partida. E tem grana na jogada, viu?

Bom, já saiu o primeiro conto, na revista desse mês. Trata-se do capítulo do cearense Ciço Léo, que puxou do fundo do baú um conto divertidíssimo. Agora teremos que continuar a trilha na mata no mesmo ponto em que ele parou. A trilha que levar ao melhor destino terá seu mapa publicado em março. As outras picadas que levarem a becos sem saída, cataratas e desfiladeiros serão abandonadas e a selva as engolirá.

Mandei minha historinha mas não foi dessa vez, veremos no mês que vem. Enquanto isso, taqui a minha versão para o que seria o primeiro capítulo. A frase fornecida pela revista aparece em negrito. Que tal?


Alamedas


Antônio levantou-se, abriu a janela, e viu Maria lá embaixo, à espera. Sorriu, pois achara que ela não vinha mais. Desceu as escadas animado, ainda a tempo de vê-la brincando com a segunda pedrinha, que não precisou ser atirada. Abraços, beijos e um afetuoso: Como vai? Maria estava encantadora. Dessa vez, vestia uma folgada jardineira azul, sobre uma camiseta branca com um sol desenhado. Um contraste absoluto com Antônio, a barba por fazer e roupas de casa, amarrotadas pela noite em claro. Ela passou a mão em seu rosto e disse que tinha uma surpresa. Ela sempre tinha uma surpresa.

Andaram pela cidade. As calçadas de cada residência tinham um desenho diferente, como um longo mar de tapetes feitos de ladrilhos. Naquela placa escrita à mão, o s ao contrário dava charmosos ares de russo ao que era, simplesmente, mau português. Um gradil, de tão antigo, foi engolido pelo broto - agora uma árvore - que ele devia proteger. Tampinhas e velhas moedas coladas no asfalto, como castanhas fincadas num bolo. Pardais descansando nos fios telefônicos, que naquele instante, pareciam com notas numa partitura em 3D. Tudo isso Maria reparava, enquanto saltitava à sua frente. Impressionado, ele se virava e sorria com o canto da boca. De vez em quando, ela pegava o braço dele e apontava: Veja, não é lindo? O mundo a surpreendia.

Antônio comprou pão e leite no caminho de volta para casa. O sol ainda não estava tão alto. As árvores lançavam sombras pela rua quieta, projetando discos de luz que dançavam sincronizados com o vento. Ele comentou o que observara com Maria e ela sorriu, orgulhosa com seu esforço. Chegaram ao sobradinho de Antônio e como sempre, se despediram no portão do muro baixo. Mais uma vez, ele perguntara: Não quer subir? Você sabe que não posso, mas eu volto - disse Maria, inclinando leve a cabeça. Enquanto Antônio deixou as compras no chão e virou-se para abrir a porta, Maria desaparecera. Ele olhou em volta, satisfeito, e respirou o ar da manhã. Num suspiro, disse baixinho: Você é a minha musa inspiradora, menina. Deu uma última olhada na grande cidade que amanhecia e entrou em casa.

Antônio tomou um banho e fez seu café. Revigorado, retorna à bancada cheia de papéis amassados e rascunhos. Limpa a bagunça da noite anterior e aponta o lápis, arriscando de vez em quando um olhar pela janela. Senta-se novamente na cadeira confortável, estrala os dedos e recomeça a escrever. Agora sim, ele sabia que rumo dar a seu conto.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Outro desenho pra FUNCEME, sobre o aquecimento global.