quinta-feira, setembro 30, 2010

Aleatocracia

Aproveitando o clima de eleições, requentei um texto de 2006, que trata da aleatocracia. Aditei algumas coisinhas e acho que tudo ainda se mantêm atual. Cá está.

...---...

Como diria Kent Brockman: obviamente, a democracia não funciona.

Sendo assim, qual a alternativa?

Pra começo de conversa, a democracia parte de uma premissa falsa, embora o conceito esteja correto: vence o candidato com o maior número de votos, escolhido livremente pelo povo. A premissa é falsa pois mesmo nas mais evoluídas democracias, os candidatos são escolhidos previamente por suas agremiações, e o sujeito precisa querer ser candidato. A parte que nos cabe, enquanto povo, é validar ou não uma escolha que já foi feita, entre três ou quatro opções de cardápio.

Tal qual um self-service macabro, nossas opções são chuchu insosso, fruto do mar tentacular ao molho de corrupião e pimenta alagoana braba. Eles não podem perder, percebem? O próprio meio político seleciona seus representantes, misturando num mesmo caldeirão gente de índole muito parecida. Parecida demais para que mesmo o degustador mais experiente perceba diferenças de sabor. Como não incorrer na comparação? Todos se assemelham a bolos diferentes assados com a farinha que veio de um mesmo saco!

Convenhamos, tem que ser meio tergiversador da realidade para ser meter na política. Não entraria num clube que me aceitasse como sócio? Não nesse clube.

Outro fator negativo é que pelo menos no Brasil, a política é um meio de ascenção social. O cara se elege e entra no maravilhoso mundo do Brasil Oficial, que não tem nada a ver com o Brasil Real. Assim, a política vira uma espécie de degrau para a minha tão sonhada casa com piscina e um Audi na garagem.

Entrar para o meio político, via voto, se assemelha a ter seu currículo endossado pelo eleitor. Ser eleito vira um mérito. Ser eleito dá prazer. O poder é o maior afrodisíaco.

Minha proposta ( não, outra não! ) é que o sistema democrático seja abolido, e em seu lugar, implantemos a ALEATOCRACIA, em que todos os governantes seriam escolhidos por sorteio.

Vejamos o caso da eleição para presidente. O cargo tinha que ser uma maldição, e não, como parece ser, um portal dourado para o jardim dos prazeres. A política existe para servir. O cara se elege para ser um servo, quem sabe até mesmo, um escravo do povo. O cargo deveria ser tão odioso, e as responsabilidades tão insanas, que só um louco desejaria de livre e espontânea vontade arranjar um abacaxi desses. Mais ou menos como topar ser síndico de prédio.

Se a administração for honesta, não há vantagem alguma em ser síndico, e a eventual isenção da cota do condomínio não paga a dor de cabeça. Quando ninguém topa ser síndico, faz-se um sorteio maligno e quem ficar com a bola preta tá fudido: 1 ano de aporrinhações!

Usando a base de dados do eleitorado brasileiro, faríamos um sorteio entre aqueles com idade constitucional para ser presidente. Simples assim. Um sorteio entre pelo menos 50 milhões de eleitores, sem distinção de cor, estado, gênero, renda e capacidade.

Digamos que Ariovaldo Silva, pacato cidadão da cidade de Palmas, receba a bela notícia que vai ser presidente do Brasil. Se ele for honesto, a primeira coisa que vai fazer será fugir pro mato, mas as tropas federais no Tocantins irão à caça de nosso querido presidente e o empossarão na marra, em Brasília, sob vivas e o alívio dos demais, preteridos no sorteio. O cargo seria irrenunciável. Se o sujeito não quiser ser presidente, cana, cadeia, xilindró sem apelação no pior presídio que existir no Brasil, onde mofará pelos quatro anos em que duraria seu mandato. Obviamente que ser presidente não trará vantagem nenhuma: nada de carros oficiais, nada de mordomias, nada de indicar parentes para os ministérios. O salário será baixo, o suficiente apenas para o presidente alugar uma casaca por mês. Só pepino, trabalho e desolação.

Tal qual um sujeito acorrentado ao barco que rema, ou rema direito ou afunda junto com o barco.

E por que isso deveria funcionar, quer dizer: por que um energúmeno se daria melhor no comando que um sociopata, digo, um sociólogo de Sorbone? Simples também. A resposta é a assessoria. Ele se veria obrigado a se cercar de técnicos e sumidades para ajudá-lo a governar. Na prática, seria a mesma função do presidente no Parlamentarismo, mas com outras amarras. Acho que daria certo.

Pra terminar, me permitam contar uma história curta, que li num livro do Malba Tahan.

Chegando em tal país, Beremiz viu a incrível quantidade de estátuas, praças, escolas e tudo o mais com o nome de um antigo governante. Obviamente, o povo ainda guardava com extremo carinho a memória do monarca. Curioso, o calculista perguntara o que fizera, afinal, o rei para ser assim tão querido. Por acaso selara a paz com os hunos? Ou quem sabe, descobrira um oásis inesgotável? Teria ele introduzido o islã no país?

Indagando um idoso na feira, recebeu negativas a todas essas conjecturas. Aliás, soube Beremiz, o tal rei jamais fizera uma única obra no pais. Então, qual o segredo? Pacientemente o ancião contou a história.

O jovem príncipe herdara o trono com a morte do rei. Aliás, um rei que tornara próspero todo o país. Seduções e dúvidas assolaram a cabeça do novo rei. Ele mesmo se considerava incapaz de bem governar, e como primeiro ato de sua gestão, anunciou simplesmente que não se considerava preparado para assumir o trono e renunciou, não sem antes indicar o vizir como seu sucessor. Esse tal vizir era inteligentíssimo e bem quisto pelo povo. O rei autodeposto se recolheu para as propriedades da família e viveu em reclusão muitos anos.

O vizir, no entanto, governara sabiamente e tornara o reino dez vezes mais rico! O ato de desprendimento, humildade e modéstia do rei conquistara para sempre a simpatia do povo, que o reverenciou como protetor da pátria por décadas, e muito além de sua morte. E aqui acaba a história.

Então será que o congresso e os políticos aprovariam sua própria eutanásia? Duvido muito. Esquece.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Timewaves

Um amigo meu sonhara com as Torres Gêmeas, e algo como dois dias depois, elas foram demolidas pelos malucos sauditas. Premonição? Percepção Extra-Sensorial? Coincidência? Nada disso. Subitamente, percebi como o Universo funciona e desvendei boa parte de seu mecanismo, simplesmente pensando no porquê dele ter essa antevisão de um acontecimento. Nada mal para uma única tarde, não?

A coisa funciona assim, vamos devagar.

Imagine que o Tempo não corra como num rio, mas que ele seja o próprio tecido do Espaço. Como a superfície plana de um lago.

Tudo o que acontece ocupa uma coordenada nessa superfície. Essa coordenada é que dá a ilusão do Agora, do Presente.
Nossa incapacidade de apreender esse Todo é que dá a ilusão que o Tempo passa.
Princípios físicos como a Causualidade e a Entropia reforçam a sensação de que o tempo flui numa direção, como uma "correnteza" que leva do Passado para o Futuro.
Assim, nosso cérebro "compartimenta" esses momentos em pacotes, a que damos o nome de Eventos. Acho até que nossa própria tridimensionalidade é o maior fator limitante para essa compreensão de como o Universo funciona em baixa escala. Mas continuemos.
Então, digamos que numa segunda-feira, esse meu amigo tenha um sonho onde ele vê, difusamente, as Duas Torres. Até aí tudo bem.
Eis que na quarta-feira seguinte, de fato, as Torres sejam atingidas!
Agora vem a parte boa, segurem-se na cadeira.

Todo e qualquer Evento gera ondas no tecido do Espaço, como as ondas formadas num lago depois de se lançar uma pedra. Chamei essas ondas temporais, obviamente, de Timewaves.


E quanto ao sonho do meu amigo? Nada mais simples. O que seu cérebro percebeu, mesmo que de forma tênue, foi o "eco" dessas ondas de tempo, que ficam claramente mais fracas à medida que elas se distanciam da fonte.
Uma vez que os Eventos de fato se consolidem, eles entram para o "fluxo" normal das coisas,  passando a existir nos registros físicos como memórias e acontecimentos.


A graça é que tudo, absolutamente tudo gera essas ondas. O cair de uma folha, um piscar de olhos, um elétron pulando de uma valência para outra. O Somatório infinitesimal de tudo o que ocorre é o Presente - mesmo que em contínuo movimento e submetido aos nossos sentidos imperfeitos.

Como na exaustivamente citada superfície do lago, os Eventos se sobrepõem, se anulam, se transformam de prováveis a reais, passam a existir. Isso a todo tempo, a todo instante. Surfistas? Sim, de certa forma somos meros surfistas nessas ondas de tempo.

Esse é meu argumento. Para se tornar uma Teoria, ele precisa de uma carga tumular de matemática, coisa que nem sequer suponho ser possível entender. E quando essas ondas de tempo forem detectadas empiricamente, proponho dividir o Nobel de Física com quem puder me ajudar. É isso, mãos à obra que - ora vejam - o tempo urge.